domingo, 12 de fevereiro de 2017

Comentando Jackie (2016)


Sexta-feira assisti Jackie, filme estrelado por Natalie Portman e focado na primeira-dama Jacqueline Kennedy e seu esforço para garantir que seu marido ficasse marcado na memória dos norte-americanos e do mundo.  Sim, Jackie é um filme sobre História e Memória, um filme que trata da construção de mitos.  E confesso para vocês que ele ganhou minha atenção ao colocar no seu primeiro trailer a música principal de Camelot, meu musical favorito.  Aquilo já me obrigaria a ver o filme e, sim, trata-se de um bom filme, não de um filme impactante, arrebatador, mas de um filme interessante que demanda atenção aos detalhes e concentração para que nenhum detalhe se perca.

Jackie tem como ponto de partida a entrevista que a ex-primeira dama Jacqueline Kennedy deu para o premiado jornalista Theodore H. White (Billy Crudup).   A partir das reminiscências da primeira dama, que foram publicadas na revista Time em 6 de dezembro de 1963, construímos uma imagem dos últimos momentos de JFK  (Caspar Phillipson) e de como seus funerais foram planejados para reforçar, projetar e criar um mito que a entrevista transforma em uma analogia com a Camelot do Rei Arthur.  

A representação da dor de Jackie é um dos pontos altos do filme.
Jackie é um filme cuidadoso, que tenta enfatizar que uma pessoa pública, no caso a ex-primeira dama, nunca é o que aparenta ser, ou melhor, é o que aparenta e é um monte de outras coisas, também.  A Jackie que conversa com o jornalista, que no filme não é nomeado, é altiva, autoritária (*“Você não vai publicar isso.”*), cheia de autocensuras (*“Eu não disse isso.  Eu nunca diria isso.”*).  Uma ex-jornalista  que lembra como as entrevistas são construídas, que conhece as armadilhas da profissão.  É a mulher que deseja deixar fixada uma versão dos acontecimentos, a sua versão, é a mulher que deseja que se crie um mito em torno de seu marido, um homem cheio de bons sentimentos e amor pela pátria, um homem que sonhou e viveu sua própria Camelot.  O resultado, o artigo “For President Kennedy: An Epilogue”, vocês podem ler aqui.

Ao conversar com o repórter, Jackie coloca que o que é lembrado, o que é História, é o que é escrito.  Que é preciso escrever – mesmo que ela seja consciente do poder das imagens – para que algo seja lembrado.  Jackie no filme diz que homens velhos escrevem a História e deseja ela mesma assumir o papel de protagonista da sua narrativa e, ao mesmo tempo, tutelar a memória coletiva sobre seu marido.  Evocando então o verso da última música de Camelot, “Don’t let it be forgot that for one brief shining moment there was Camelot.”  (*"Não deixe que isso seja esquecido que por um breve e brilhante momento houve Camelot.”*), ela marca o tom daquilo que deve ser lembrado da breve presidência de seu marido (1961-63).

Viúva modelo, órfãos perfeitos e funerais espetáculo.
Não se trata de verdade, ou mentira, mas de discurso e do poder que as narrativas assumem em forjar a forma como as pessoas percebem o mundo e os agentes históricos.  “Não somos somente rostos bonitos”.  JFK, seu irmão Bobby, ela mesma.  Jackie então era somente um adereço, um bem de prestígio, a bela, fértil e jovem mulher a ser exibida.  É um pouco assim que ela aparece falando principalmente às donas de casa no documentário dentro do filme, A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy.  Para usar o vocabulário político de nossos tempos, a Jackie do documentário é “bela, recatada e do lar”.  A viúva, que tentou manter o cérebro do marido dentro do crânio estraçalhado, continua bela, mas tornou-se uma leoa ferida.

As cenas de flashback mostram o desespero de Jackie, o trauma, a tomada de consciência de que, subitamente, não era mais nada em termos políticos (*o vice toma posse no dia do assassinato dentro do avião presidencial e com Jackie ainda ensanguentada*), e, ao mesmo tempo, passava a ser guardiã da memória do marido.  “Don’t let it be forgot”, Jackie, então, toma nas mãos as rédeas da situação.  Quer que seu marido seja lembrado, busca reforçar as analogias entre Lincoln, igualmente assassinado, e Kennedy.  Quer um funeral semelhante, quer criar um mito.

Sarsgaard se saiu muito bem como Bobby.
Se foi Jackie sozinha, ou não quem fez tudo isso, a associação com Camelot, os funerais espetaculares, pouco importa.  O central é que o filme mostra como funcionam os mecanismos de construção dos heróis, dos mitos, a importância da História, de quem a escreve, de como a escreve.  Este, aos meus olhos, é o grande mérito de um filme que, no geral, é lento e parece mais longo do que é.   Agora, é interessante ver em tela uma mulher frágil que se faz forte, que enfrenta os homens poderosos ao seu redor, como Bobby ou Robert F. Kennedy (Peter Sarsgaard), irmão do presidente, fazendo valer os seus desejos à ferro e fogo.  Enfrenta, também, a terrível matriarca dos Kennedy, Rose (Georgie Glen), que deseja, a seu modo, definir o que será feito dos restos mortais do filho e tutelar a nora, silenciá-la.  Jackie não se submete.  Isso não a torna uma feminista, longe disso, mas mostra as quão fortes podem ser as mulheres, e que atitudes feministas estão além do abraçar dos rótulos.

Houve quem criticasse o filme dizendo que ele mostrava uma Jackie idealizada, que venerava o marido.  Ora, quem escreve isso não deve ter prestado atenção ao outro eixo do filme, a conversa de Jackie com o padre (John Hurt).  Com o padre, Jackie se desfaz dos gestos afetados e altivos, ela não está no comando do que é narrado, ela se expõe.  Toda a mágoa em relação ao marido adúltero, que já mal dormia com ela, vem à tona.  Ao mesmo tempo, ela é a esposa, seu lugar sempre esteve garantido.  Trata-se da forma tradicional de ver uma união.  Ele me trai, mas nunca me abandonará.  
Com o padre, uma outra Jackie.
Na verdade, todos os Kennedy eram adúlteros, JFK, o pai, Bobby, e uma das funções de Rose, a sogra, era fazer com que as noras se conformassem à situação.  Não está no filme, mas está em qualquer artigo sobre as infidelidades de Kennedy.  Jacqueline era a primeira dama perfeita e seu casamento tinha que ser perfeito, pois isso era fundamental para assegurar o futuro político do marido e sua própria condição social.  Fora isso, os Kennedy eram fervorosamente católicos, em um país que via católicos com desconfiança, e um divórcio seria inaceitável, um escândalo seria fatal.  Até hoje, Kennedy é o único presidente católico eleito nos EUA.  Pensem nisso.

A Jackie que conversa com o padre é frágil, amarga, quer morrer, quer desaparecer, mas, ao mesmo tempo, precisa ficar, tem uma função pública a cumprir.  É muito mais tentador assumir as rédeas da História, marcar o tom da narrativa, do que se acovardar.  O padre simplesmente a recorda de como é privilegiada, de como ela deve dar valor às pequenas coisas.  O marido se foi, mas ela tem a vida, tem os dois filhos pequenos.  Ela também tem que manter a lembrança de Camelot.

Será que a voz de Jacqueline Kennedy era chata daquele jeito?
Há algo de engraçado no filme que é o lamento da protagonista.  Ela se vê como uma mulher “sem nada”, mesmo morando e recebendo o repórter em uma bela mansão.  Jackie nasceu rica, ficou mais rica com casamento e não perdeu muito com a viuvez, quer dizer, mas a vida é mais que dinheiro.  Realmente, é um choque para a Jackie do filme ter que abandonar rapidamente a Casa Branca, “o lar” que ele tinha criado com o marido.  Há uma ceninha em que Jackie, a secretária, Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), e os filhos descem as escadas e ela vê a esposa de Lyndon Johnson, o novo presidente, já escolhendo a nova decoração.  Nada é permanente, por isso, é preciso que não esqueçam Camelot.

O que mais tenho a dizer?  Natalie Portman é a dona do filme.  Seu rosto abre a película, as nuances de sua interpretação marcam o ritmo do filme.  A Jackie do documentário é uma, a da entrevista é outra, a do dia do assassinato mais uma, a da conversa com o padre outra diferente.  Portman está ótima, só que já tem um Oscar e não deve receber outro por Jackie.  Algo de marcante em sua interpretação é o sotaque.  Se a verdadeira Jackie falava desse jeito, deveria ser terrível ouvi-la por horas e horas.   Peter Sarsgaard está muito bem como Bobby.  Em anos mais fracos, talvez fosse indicado como coadjuvante.  Ele tem boas cenas em um filme monopolizado pela protagonista.  Uma das suas melhores é quando lamenta que Lyndon Johnson vá ficar com os louros do Vietnã, afinal, era uma guerra ganha.

Essa foi uma das cenas mais cruéis do filme.
A direção de arte do filme é muito bonita.  A reconstituição de época é primorosa, mas houve indicação somente do figurino.  Justa, sem dúvida.  Será que que o filme leva?  Trilha sonora também foi indicada, mas acredito que, neste caso, La La Land seja imbatível.  Pablo Larraín, o diretor, não foi indicado, assim como o filme não foi.  O ano foi muito disputado, mas talvez a temática e o fato de Jackie ter sido pensado, segundo a Wikipedia, como um produto para a TV tenham pesado.  Enfim, não sei se no confronto com os outros indicados, a exclusão seja justa.  É um filme mais difícil de digerir, mais denso, mas não necessariamente um ótimo filme.

Terminando, o filme cumpre a Bechdel Rule e tem, além da protagonista, pelo menos uma personagem feminina proeminente, Nancy Tuckerman.  Fora isso, há outras personagens femininas com nomes e falas.  Encontrei sites dizendo que o filme era uma releitura feminista de Jacqueline Kennedy.  Bem, eu não diria isso.  Trata-se de uma mulher forte, e há mulheres fortes que não são feministas, tentando assegurar o lugar de seu marido, e consequentemente o seu próprio, na história.  Simples assim.  Se trata do reforço dos papéis mais tradicionais de gênero, ainda que seja Jackie, uma mulher, a lutar contra vários obstáculos para que possa fazê-lo.

Um ícone fashion da nova Camelot.
Jackie é um filme sobre isso, história, mitos políticos e como são construídos.  Não é um filme sobre uma mulher, mas como uma mulher ajudou a forjar a forma como um homem, o mais jovem presidente dos EUA, o único católico e de origem irlandesa, seria lembrado.  O filme é sobre a Camelot americana.  E é uma corrida contra o tempo.  O repórter pergunta se os Kennedy eram a realeza norte americana.  Jackie rebate que realeza precisa de tradição e esta se firma com o tempo.  JFK teve pouco tempo, ainda assim, pelo esforço dos guardiões de sua imagem, tornou-se um ícone, um modelo de presidente moderno, humanista e o resto, sua parte “condenável” raramente é retomada e se tal acontece, não arranha em nada o mito, a aura de herói em torno dele.

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