sábado, 1 de abril de 2017

Comentando O Poderoso Chefinho (The Boss Baby, 2016)


Quinta-feira fiz algo que não costumo fazer e fui à noite assistir O Poderoso Chefinho (The Boss Baby) com a Júlia.  Queria levar a bichinha para passear, já que ela estava meio que reclusa por causa da minha pneumonia.  Enfim, não esperava grande coisa do filme e, exatamente por isso, terminei me divertindo com uma história sem pé nem cabeça utilizada como pano de fundo para discutir algo que é muito importante, as mudanças na vida de um filho único quando chega um irmãozinho.  É disso que trata o filme, o resto é mero detalhe.

Tim Templeton é um menino de sete anos, cheio de imaginação e o centro da vida de seus pais.  Feliz com sua vida, o garoto é surpreendido pela notícia de que teria um irmão.  Ansioso, o menino, no entanto, não reage negativamente à notícia.  O problema é que o bebê chega de táxi, vestindo um terno e com uma maleta preta sem que seus pais vejam nada de estranho nisso.  Com o passar do tempo, toda a casa gira em torno do novo habitante e Tim se sente alienado.  Para piorar, ele descobre que o “irmãozinho” sabe falar, tem voz de adulto e é o agente de uma grande corporação chamada Baby Corp.  Se Tim ajudar o bebê em sua missão, se ele for bem-sucedido, o garoto terá de volta seu status de filho único.  É uma chance única, não é mesmo?

Agente secreto.
Desde o início do filme, senti algo de Megamente em O Poderoso Chefinho, não foi surpresa descobrir que o diretor é o mesmo, Tom McGrath.  Já o argumento original veio do livro The Boss Baby de Marla Frazee.  O Poderoso Chefinho consegue ser divertido.  Deveria ser mais com as vozes originais, mas fazer o quê?  Nos cinemas, só dublado e eu não tinha mesmo intenção de assistir.  Não há muito, aliás, a escrever sobre o filme, salvo que é divertido e consegue apresentar para as crianças uma questão que é um divisor de águas na vida de qualquer pessoa, a chegada de um/a irmão/ã.

No início do filme, depois de apresentados à imaginação fértil de Tim, não dá para saber mesmo se o garoto está imaginando, ou não.  O ciúme é grande.  O filme é bem realista, para esse tipo de material, ao representar a exaustão dos pais com um bebê em casa.  Ainda que a histeria me parecesse mais coisa de primeiro filho, sabe?  Só que com sete anos de diferença, enfim...

Aliados, mas não amigos.
Os embates entre Tim e o bebê são bem executados, assim como as cenas de ternura que começam a aparecer conforme eles se tornam mais próximos.  As cenas de imaginação do garoto muito bem boladas.  Os coadjuvantes, um grupo de bebês que está à serviço do chefinho, também são divertidos.  Agora, para efeito de Bechdel Rule, a coisa é complicada.  Há a mãe de Tim, Janice, que surpreendentemente tem uma profissão, a chefe imediata do chefinho na Baby Corp, que não aprece ter nome, e uma das bebês, Staci.  Todas são pouco mais que as figurantes.  O filme é protagonizado por homens e discute os sentimentos de um garoto em relação à chegada de um bebê.

O bebê do título é um adulto em corpo de criança, tanto que no original é dublado por Alec Baldwin.  A Baby Corp, que administra o “negócio” dos bebês no mundo inteiro, separa os que irão nascer dos que serão executivos e funcionários da companhia.  O sonho do chefinho é se tornar o maior de todos os chefes da companhia e ter seu retrato no hall de honra.  Ele se mira especialmente em Francis E. Francis, que, mais tarde, descobrimos ser o vilão da história.  

O inimigo!
Qual seria a maior ameaça para om negócio dos bebês?  Bem, um outro negócio muito importante, o dos bichinhos de estimação.  Não vou dizer qual a arma secreta de Francis E. Francis, ou como ele se tornou CEO da Puppy Corp, empresa onde os pais de Tim trabalham, vocês precisarão ver o filme.  Agora, a idéia de que animais de estimação estão ocupando o lugar das crianças na família procede.  Eles são cada vez mais presentes e há quem opte por bichinhos ao invés de crianças.

O Chefinho, a personagem, é um capitalista sem muito coração no início da história.  Um burocrata que acredita resolver tudo com dinheiro.  Trata-se de uma crítica ao mundo empresarial, sem dúvida.  Ao longo do filme e da convivência com Tim, uma criança, ele aprende a se divertir e começa  questionar seus valores.  É um processo de interação interessante, no qual o adulto está em um corpo de bebê.

Dinheiro resolve tudo?
Ao longo da película, são muitas as referências à filmes clássicos.  O Poderoso Chefão é a mais óbvia, já Superman está no filme, porque o chefinho é inspirado em Marlon Brando que fez o pai do Homem de Aço na versão com Christopher Reeve e Dom Corleone, mas há Mary Poppins, também.  As cenas com a babá do mal são hilárias.  E acredito que Uma Babá Quase Perfeita seja outra referência nessas cenas.  E é muito boa a parte em que a babá está assistindo o programa de culinária da Júlia Child na TV.  Meryl Streep representou a personagem no cinema.  Há uma cena ótima, já no final, com os agentes da Baby Corp apagando as memórias dos pais de Tim.  Ah, sim!  O telefone de Toy Story 3 está no filme, mas creio que é menos uma homenagem e mais a inclusão de um brinquedo popular mesmo.

No final das contas, o filme é uma metáfora para a chegada do irmãozinho.  Tim vai aceitar o novo bebê?  Se ele for embora, não ficará um vazio?  E o Chefinho, nunca sentiu falta de uma família, de amor de pai, mãe e irmão?  O que muda na nossa vida quando nasce um irmão?  Ganhamos mais, ou perdemos mais?  Minha experiência diz que é um ganho, mas eu tinha míseros dois anos e sete meses quando meu irmão chegou.  Ainda assim, lembro da minha mãe chegando em casa com ele enrolado na manta amarela de patinho.  Minha Júlia não deve passar pela experiência, infelizmente.
A gangue.
De resto, o filme não está nem um pouco comprometido com as discussões mais contemporâneas sobre o que é saudável para um bebê.  Não esperava ninguém mamando no peito, isso poderia melar o futuro do filme nos EUA, mas chupetas, mamadeiras e papinha industrializada são a regra no filme.  Além disso, bebês de meses recebem cookies e outras guloseimas.  Nesse aspecto, o filme é bem questionável, só que ninguém assiste o Poderoso Chefinho para refletir sobre bicos artificiais ou comida excessivamente processada sendo oferecida para crianças.

É isso.  Trata-se de um filme simples, sem pé nem cabeça em muitos momentos, mas honesto.  Não quer se vender como um grande exercício intelectual, mas como diversão familiar rasteira.  A meu ver, melhor que Cegonhas e, sim, mas eficaz do que Zootopia, que eu nunca resenhei para o Shoujo Café, mas vi no cinema.

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1 pessoas comentaram:

Uma colega do trabalho qr ver. Topei pq o namorado babaca so a leva pra ver coisas q elE curte. Dava nada presse filme. To bem mais animado (e aliviado e seguro) depois da esnobada em cima do ladrão de oscar :)

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