segunda-feira, 10 de abril de 2017

Comentando o primeiro volume de Nigeru wa Haji da ga Yaku ni Tatsu


Sexta-feira li o primeiro volume de Nigeru wa Haji da ga Yaku ni Tatsu  (逃げるは恥だが役に立つ), premiado mangá de Umino Tsunami.  Como tomei conhecimento da série meio que por causa do anúncio do dorama no ano passado, aproveitei para assistir os dois primeiros episódios da série de TV que tem como subtítulo “We married as a job”.  No final, depois de falar do mangá, comento algo do dorama, porque há várias diferenças.  Em inglês, a edição norte americana, a que li, tem como título The Full-Time Wife Escapist.  Mas do que se trata o mangá?

Mikuri Moriyama tem 25 anos e é uma jovem com um currículo acadêmico invejável.  Com graduação em psicologia e uma pós-graduação, ela tinha esperanças de conseguir trabalhar em sua área, no entanto, só consegue empregos temporários e que exigem baixa qualificação.  No início do volume #1, ela está desempregada e sem perspectivas de se colocar no mercado de trabalho.  Seu pai, no entanto, lhe arranja uma ocupação, ser diarista na casa de um antigo funcionário, um engenheiro solteiro de 36 anos.  Mikuri aceita o emprego, que até lhe pagará bem, e conhece seu chefe, um sujeito frio e exigente.  Ela, no entanto, se empenha ao máximo, afinal, é preciso fazer um bom trabalho sempre.  Ela também imagina que é interessante fazer o que uma dona de casa faz e  ainda receber por isso.  


O chefe.
O chefe, Hiramasa Tsuzaki, acaba gostando do trabalho de Mikuri e desenvolvendo certa estima por ela, especialmente, quando a moça cuida dele quando ele está doente.  A protagonista nem iria se oferecer, afinal, ele disse não precisar dela, mas a mãe meio que a pressiona a entrar em contato, perguntar como ele está. No fim das contas, Mikuri se entrega de coração aos cuidados do moço que, como resultado, fica muitíssimo grato.  Não sei se a mãe de Mikuri pretendia atirá-la para o rapaz, mas o pai muito provavelmente arranjou-lhe o emprego com segundas intenções em mente. É a minha teoria.

Tempos depois, Mikuri fica sabendo que seu pai decidiu se mudar para o interior após a aposentadoria.  Ela tem um mês para tentar resolver sua vida ou seguir com o pai e a mãe para uma vila na qual, definitivamente, não terá um emprego decente.  Com o que ganha, ela não conseguirá se sustentar em Tokyo e não gostaria de ir morar com sua tia querida, a solteirona Yuri-chan.  Quando esta comunicando sua situação ao chefe e ele lamenta sua situação, ela propõe que Tsuzaki a contrate como empregada doméstica residente.  O rapaz diz que esse tipo de coisa não seria bem vista socialmente, afinal, ambos são solteiros, e que os pais dela jamais aceitariam.  Mikuri, então, faz uma proposta louca: por que ele não se casa com ela, como se fosse um contrato de trabalho? E, bem, o rapaz termina aceitando.


Relacionamento distante e respeitoso.
Nigeru wa Haji da ga Yaku ni Tatsu é um mangá divertido que trata de questões de gênero o tempo inteiro, além de abordar aspectos do Japão atual.  Mikuri é competente, trabalhadora, sonha com uma carreira, mas não conseguiu se adaptar à disputa por um emprego que marca a transição da vida acadêmica para o mercado de trabalho.  Ela se sente culpada, incapaz, como se cada novo curso tenha sido uma forma de adiar a competição atroz.  Ela não é preguiçosa, ou incompetente, longe disso, mas ela sofre com as regras opressivas do mercado de trabalho japonês.  

Isso dilui um pouco o absurdo que é uma moça altamente capacitada aceitar um trabalho como faxineira com o coração tão aberto.  Ela quer trabalhar, ela não quer ser um peso para os pais e há um detalhe, ela gosta das prendas domésticas, mas como trabalho remunerado, não na função de esposa.  Sem que a autora do mangá provavelmente conheça as discussões feministas sobre isso, que são antigas, vem pelo menos dos anos 1970, ela consegue ilustrar direitinho a idéia de que o trabalho das mulheres é apropriado pela família como dom e isso é uma forma intensa de exploração.  Mikuri chega a colocar na ponta do lápis qual deveria ser o salário de uma esposa em tempo integral e fica surpresa, só que, bem, esposas não recebem pagamento nenhum, às vezes, nem um simples obrigado.
Yuri-chan é uma das melhores personagens do mangá.
E, como contraponto, temos a tia de Mikuri, a mulher que para ela é um exemplo de sucesso.  52 anos, solteira, executiva de uma companhia de cosméticos, viajada e, bem, infeliz.  Yuri tem conversas bem interessantes com a sobrinha.  Ela queria ter casado, badalou muito, era popular, mas, provavelmente na esperança de encontrar um noivo conservador, manteve-se virgem. Uma das grandes tragédias de sua vida é ter entrado assim na menopausa.  Ela reclama que seria mais fácil ser divorciada, afinal, não a veriam como uma fracassada no campo amoroso, nem social.  “Mas você tem seu trabalho!”, a sobrinha argumenta.  “Sim, é a única coisa que eu tenho.”.  Yuri deposita mais valor naquilo que não teve, um casamento tradicional, do que no que alcançou, uma carreira invejável para uma mulher japonesa.  Ela aconselha a sobrinha a se casar o mais rápido possível, Mikuri desconversa, afinal, nem noivo ela tem...

Falando do chefe, Tsuzaki, ele é extremamente correto como patrão, mas fechado, quase inexpressivo.  Quando Mikuri se casa com ele, ela nunca o viu sem os óculos e imagina como será o seu rosto.  Ele desenvolve confiança em Mikuri e se preocupa com ela, verdade, mas não há pistas ainda de qualquer sentimento que não seja respeito e admiração pelas suas competências, tanto como diarista, quanto psicóloga.  Ao receber a proposta de casamento, ele pondera, analisa e apresenta uma contraproposta.  Não sabia, mas no Japão há algo como uma união estável.  Duas pessoas coabitam, dão entrada em uma papelada relacionada a um único domicílio, tem direito á seguro saúde, alguns benefícios e ao desconto em certas taxas.


A arte é somente "OK".
Tsuzaki não aceita que Mikuri se case com ele de uma forma total e argumenta que ela ficaria marcada como divorciada, algo que a desqualificaria, quando ela se interessasse por alguém.  Uma união estável não teria o mesmo impacto, ela não mudaria seu nome, por exemplo.  Ele também coloca na ponta do lápis e descobre que é mais econômico ter uma empregada residente, com descontos de aluguel e outras coisinhas, afinal, Mikuri é cuidadosa e confiável, do que comer fora todo dia e contratar uma série de serviços. Um casamento sem sexo, mas todo o resto incluído.  No primeiro volume, não se percebe sentimento algum de Tsuzaki em relação à moça, mas o plot da história é óbvio, eles vão se apaixonar.

Mikuri não se sente nem um pouco insegura morando com um homem 11 anos mais velho que ela.  A versão em inglês diz que ele não tem o mínimo sexy appeal, me pergunto se ela não usou o termo herbívoro em japonês, algo que se aplica aos homens que não têm interesse por mulheres.  Tsuzaki, obviamente, não é um herbívoro, mas um sujeito muito tímido, travado, como muitos homens japoneses de sua geração.  Há pesquisas sobre isso.  De qualquer forma, um certo nervosismo e curiosidade brotam na moça – algo leve, que fique claro – quando ela descobre pelos pais do moço que ele nunca teve uma namorada e, bem, ela conclui que ele é virgem.

A entrevista imaginária do início do mangá.
O volume é todo pontuado com situações cômicas bem razoáveis.  O almoço com as famílias para comunicar o casamento é bem interessante.  O irmão mais velho de Mikuri é um intrometido e muito agressivo com a querida tia Yuri.  Tsuzaki é firme ao explicar o porquê de não terem festa de casamento, essas coisas são para os outros, parentes que muitas vezes nem conhecemos, eles preferem economizar.  Bem sei eu que é desse jeito mesmo.  Mais tarde, eles se veem obrigados a ficar no mesmo quarto, quando em visita aos pais do moço.  O rapaz não consegue dormir com outra pessoa em seu quarto, ele fica acordado, feito um zumbi.  Aliás, Tsuzaki remunera a moça por todas essas horas extras, mesmo quando ela diz que não é necessário.

Falando nesse episódio, eles se casam perto do Natal e há toda aquela explicação de que esta festa, no Japão, é uma espécie de Dia dos Namorados.  Daí, Yuri, a tia, decide fazer uma viagem para um país que não tenha Natal.  Escolhe o Marrocos para descobrir que mesmo alguns países islâmicos já foram contaminados. No dorama, essa história de viagem para o Marrocos foi transferida para o começo, antes de Tsuzaki e Mikuri se conhecerem.  No mangá, eles passam o Natal juntos e é visível o prazer do moço em ter uma companhia e apoiar as experiências culinárias de sua empregada.


Família.
Os colegas de trabalho de Tsuzaki são personagens secundárias importantes da história.  Há o homossexual, um homem mais velho, muito fofoqueiro, chamado Yoritsuna Numata, que em determinado momento passou uma cantada em Tsuzaki.  Um dos motivos para aceitar o acordo com Mikuri foi esse.  Numata praticamente se convida para ir à casa de Tsuzaki e desconfia, na verdade, tem certeza, de que ele e Mikuri não são um casal de verdade. Ele até pontua para Kazami, o outro colega que o acompanhou, que nem na cozinha há a marca de Mikuri e que mesmo na mais patriarcal das casas, ali é o espaço da mulher.  Ele também arranja um jeitinho e espia o quarto do "casal". Há somente uma cama de solteiro.

O outro colega é Ryota Kazami, que parece bater idade com Mikuri.  Ele é bonitão, independente e sua primeira cena é despachando a namorada de longa data.  Ela quer casar, ele, não.  O moço fala, para o horror de Yuri-chan, que está em uma mesa próxima, que não quer comprar, aquilo que pode ter de graça.  Kazami vai até a casa de Mikuri e Tsuzaki junto com Numato e fica fascinado pela moça que praticamente faz um atendimento psicológico gratuito, pois há uma forte chuva, os trens param e todos tem que dormir por lá.  Com as dúvidas plantadas por Mikuri, é possível que Kazami decida disputá-la com Tsuzaki, afinal, ela parece ser especial.


A primeira aparição de Kazami é muito antipática.
De resto, os colegas estranham a maneira formal como os recém-casados se tratam... Muita coisa ainda vai acontecer nessa série.  Basicamente, é isso.  O volume termina com Tsuzaki sentindo o cheiro de Mikuri em seus lençóis e incapaz de conciliar o sono.  A moça, tão cuidadosa, esqueceu de trocá-los na noite em que dormiu no quarto enquanto Tsuzaki fazia companhia aos colegas na sala.  A desculpa?  Queria proteger Kazami do assédio de Numata.  

Falando da arte de Nigeru wa Haji da ga Yaku ni Tatsu, ela é bem fraquinha, simples mesmo.  Com o tempo, a gente se acostuma, afinal, a história se impõe, mas você não vai ser fisgada port ela.  engraçado é que há um longo free talk da autora no final do volume.  São agradecimentos e explicações.  E ela diz que seu último mangá foi cancelado e que espera que o mesmo não aconteça com o novo.  Nigeru wa Haji da ga Yaku ni Tatsu  estreou em novembro de  2012 na revista Kiss e conta com 9 volumes até o momento.  A série foi vencedora na categoria shoujo do 39º Kodansha Manga Awards.
Um casal de verdade?
Em 11 de outubro de 2016, estreou na TBS, o dorama baseado na série.  Com 11 episódios, ele foi protagonizado por Yui Aragaki e Gen Hoshino.  Olha, vi dois episódios e se tivesse como continuaria assistindo.  A série mudou muita coisa, tornou, por exemplo, Tsuzaki é muito mais expressivo e simpático do que no mangá.  Mikuri vê que ele tem bons sentimentos pela forma como se como alimenta um passarinho que sempre vem na sua varanda.  O pássaro não existe no mangá.

São inseridas, também, várias cenas engraçadas com a família de Mikuri.  Os pais dela parecem ser muito mais expressivos, ainda que mais conservadores.  E não são lá muito preocupados com o que vai ser da vida dela.  Já Yuri-chan, a tia, vira irmã mais nova da mãe de Mikuri e lhe colocam com 49 anos.  Ela aparece menos e suas cenas são mais cômicas e exageradas.  Ela, por exemplo, quase enforca Tsuzaki quando ele vem pedir a mão de Mikuri.  Há toda uma confusão sobre casar tão rápido... Estaria ela grávida?  A cena não existe no mangá.


E veio o dorama.
No dorama, as humilhações de Mikuri no mercado de trabalho são muitas.  Ao invés das entrevistas imaginárias do mangá, temos o dia-a-dia do escritório, a exploração sofrida pela moça.  o chefe a coloca para lavar copos, por exemplo.  E, apesar de toda a sua dedicação, ela ensina o serviço às novatas, ela cumpre horas extras, refaz trabalhos por ordem do chefe mesmo avisando que está correto.  No entanto, quando vem a ordem de cortar temporários, ela é mandada embora, a novata que não sabe o serviço fica.  Mikuri não entende, fica deprimida, e sua tia ainda a culpa por ser acomodada.

Se Yuri-chan até agora me pareceu muito mais um alívio cômico do que a mulher realmente interessante e atormentada do mangá, outras personagens foram criadas para abrir espaço para discussões sobre a desigualdade de gênero na sociedade japonesa.  Uma amiga de Mikuri, que eu não sei se vai voltar, fala do fracasso de seu casamento e lamenta as decisões tomadas.  Agora, tem uma filha, que ela ama, sabe que um divórcio significará ter que voltar para casa humilhada, que o pai da criança iria fugir de pagar qualquer pensão, e que, bem, ela perdeu três anos de sua carreira, exatamente em um momento fundamental para seu progresso.  Ser mãe solteira no Japão é para as fortes, ambas concluem.


o elenco.
É por causa dessa conversa, que Mikuri coloca na ponta do lápis qual deveria ser o salário de uma dona de casa japonesa e se espanta.  Se o trabalho fosse remunerado, valeria a pena, do jeito que está, não é.  E o que Mikuri deseja, e eu espero que pelo menos no mangá ela consiga, mesmo encontrando o amor, é uma carreira.  Ou será que ela vai criar uma empresa de prestação de serviços na área?  O que fica evidente, já que é reforçado no mangá e no anime, é a aparente incompatibilidade entre carreira e casamento no caso das mulheres e a frustração advinda de qualquer uma das escolhas.

Indo para os homens, Tsuzaki se afirma como um solteiro assumido.  Tudo bobagem, claro, é simplesmente um homem muito tímido, focado no trabalho, e que nunca teve (*ao que parece*) oportunidade para estabelecer um relacionamento sério.  Já Kazami tem a sua cena pavorosamente machista com a namorada no dorama, mas é envelhecido.  O ator é mais velho que aquele que interpreta Tsuzaki e parece mais velho.  Kazami parece o solteirão bon vivant que leva a vida e o trabalho sem se estressar.  Também, no dorama, ele se sente fascinado por Mikuri, mas falta-lhe a juventude do mangá, um contraponto muito mais interessante com Tsuzaki do que aquele desenhado no dorama.


O pedido de casamento, invenção do dorama.
Agora, a mudança em Numata é incômoda.  Ele parece mais velho no dorama do que no mangá, quer dizer, no quadrinho ele é mais velho que os companheiros, mas não tanto, foi a minha impressão.  Não há a cena de assédio dele em relação à Tsuzaki, ele não é abertamente gay, só há a desconfiança dos companheiros.  Ele é muito mais fofoqueiro, intrometido e detalhista, o que é associado ao seu "lado feminino", enfim, piadinhas muito machistas.  Tsuzaki entra em desespero com a presença dele em sua casa, coisa que no mangá não é tão forte, afinal, o rapaz é muito contido.  Numata é muito solitário, também, deseja um relacionamento afetivo, há uma cena que se repete, ele sozinho no bar, agora, não se sabe se ele é hetero, ou gay, ou sei lá.  Será que ele irá se interessar por Yuri-chan, já que batem em idade?  Não, acho que não vai.

De resto, há uma série de cenas sobre a loucura do mundo do trabalho envolvendo os homens.  Lembrando que há toda uma discussão atual sobre o excesso de horas de trabalho e o dano causado às pessoas depois de um ruidoso caso de suicídio, mas o dorama foi lançado um pouco antes.  Essa discussão não está no mangá e a doença de Tsuzaki vem por causa da estafa causada pelo excesso de trabalho para cumprir um prazo absurdo.  A doença, no dorama, é anterior ao comunicado de Mikuri sobre a mudança dos pais, no mangá, ela é bem mais no início da relação dos dois.


Cada episódio, uma dancinha.
E, por último, a dancinha no final muda a cada episódio e é uma graça.  A série de TV é gostável, tem discussões interessantes, mas faz mudanças sensíveis.  Claro, há 11 episódios para que se conte uma história.  Resta saber, e eu vou continuar assistindo e lendo, se elas foram para melhor, para pior, razoáveis, enfim.

P.S.: Kazami é um ikemen do mal.  Detesto ele. :P

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