segunda-feira, 17 de abril de 2017

O "pornô" de Xuxa: Recomendação de texto


Li esse texto de autoria de Max Milliano Neto, ontem, e acredito que seja importante  repassá-lo.  Ele é de 2014, mas sua leitura ainda é pertinente.   Muita gente já  deve ter ouvido falar que Xuxa, chamada de "a rainha dos baixinhos", teria feito um filme pornográfico, Amor, Estranho Amor, que mostrava a iniciação sexual de um menino, no qual tinha seduzido um garoto de 11 anos em uma cena. Ninguém que a acusa, ou repassa a história,  se preocupa em explicar que a própria atriz e modelo à época era uma moça  de 16 anos. Os adultos envolvidos também são  poupados, desde o diretor e roteirista Walter Hugo Khouri, até  astros como Tarcísio Meireles e Vera Fischer,  as estrelas do filme. Fica parecendo que a responsável pela produção  era a adolescente Xuxa, uma mera coadjuvante.

Concordo com o autor do texto quando ele diz que o erro de Xuxa foi tentar tirar o filme do mercado, impedir sua divulgação  e exibição.  Xuxa tentou cercear a circulação e dificultar a busca também de suas fotos na Playboy no Google associando seu nome à pornografia e pedofilia, da mesma época do filme, mas a liminar foi derrubada. Todas essas medidas só ajudaram a aumentar a mística  em torno da obra, que nem pornochanchada era, muito menos um filme assumidamente pornográfico. Fora isso, as ações de censura em tempos de internet são missão impossível.  Agora, o fato é  que gente inescrupulosa, hipócrita  e machista, sim, este é  um dos pontos, iria usar o filme contra ela de qualquer jeito, afinal, ela trabalhou com crianças durante muito tempo e, até  hoje, milita em causas humanitárias  ligadas à  infância. 


Xuxa e o menino no filme que trata de iniciação  sexual.
Não  preciso ser fã  de Xuxa (*e não sou mesmo*) para perceber a perversidade por trás  dos ataques, a dupla moral e o discurso machista utilizado na desqualificação das mulheres.  Ela, aos 16 anos, já  sabia de tudo, era escolada na arte da sedução,  promíscua, prostituta e, agora,  quer posar de santinha e pautar a forma como educamos nossos filhos e filhas, é  preciso proteger as famílias blá-blá-blá. O resto, vocês  já  sabem. No entanto, o autor cai na armadilha de afirmar que "eram outros tempos", então valia tudo, hoje, não.

Ora, o que não  havia em 1982 era uma legislação  abrangente de proteção  à  infância e adolescência, o ECA, que muitos (*supostos*) defensores da família querem ver desaparecer.  Leis que possibilitassem a punição  e ajudassem a inibir a exploração de menores. De resto, continuamos com recordes de casamentos infantis (*para a ONU qualquer que envolva menores de 18 anos*) e nossas crianças correm sérios  riscos, tanto nas cidades, quanto nos interiores, mas não mais seriam expostas de forma erotizada em um filme oficialmente lançado nos cinemas e destinado a competir em grandes festivais. Também não  vemos mais apresentadoras seminuas em programas infantis, verdade, mas não faz sentido demonizar Xuxa e outras dessas moças, como se elas, também, não tivessem sido produtos de uma mídia que tentava estimular o consumo infantil de todas as formas.  De lá para cá, muito aconteceu, certos limites foram estabelecidos.  Ter leis é  muito importante, fazê-las cumprir, é  fundamental.


A Menina do Lado, "romance" entre um quarentão  e
 uma menina de 14 anos, que tinha está idade.
O que queria dizer com esse texto é que é  importante refletir sobre como é  fácil  continuar disseminando mentiras contra uma mulher, mesmo quando essa mulher é  rica e poderosa, baseando-se em ideias machistas. De como é  fácil  culpabilizar meninas menores de idade e escutar os maiores envolvidos, os supostos responsáveis,  porque, bem, a culpa sempre é  das mulheres. Mas, voltando ao filme, primeiro, não  houve culpa de ninguém, segundo, que bom que, hoje, filmes como A Menina do Lado, ou ainda o norte americano Menina Bonita, fora as fantasias machistas, como a do filme Amor, Estranho Amor,  não sejam mais possíveis,  ainda que alguns continuem acreditando que não  há  nenhum problema em erotizar crianças  e adolescentes. Nesse sentido, os tempos mudaram e para melhor.

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