sábado, 6 de maio de 2017

Comentando Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016)


Não é muito elegante, mas começarei este texto dizendo que acredito que A Quiet Passion foi um dos filme mais chatos, pretensiosos e artificiais que já assisti no cinema.  No intuito de expor a poderosa e bela poesia de Emily Dickinson (1830-1886), o diretor e roteirista Terence Davies criou quase que no vazio, sob o argumento de que pouco sabemos de fato sobre ela, resignificando seus poemas e omitindo questões que poderiam ser importantes para repensar a vida da autora.  E sei que minha crítica irá nadar contra a corrente, tropecei em várias resenhas internacionais chamando o filme de obra prima.  OK, talvez seja e eu não seja digna de perceber o refinamento da obra.  Se quiser continuar a ler minha resenha, é por sua conta e risco.

O filme abre com a jovem Emily Dickinson (Emma Bell) marcando sua posição em relação ao evangelicalismo radical em voga na época e afirmando seu ceticismo diante da diretora do seminário para moças que frequenta, Mary Lyon (Sara Vertongen), que praticamente a condena a queimar no fogo do inferno.  Logo em seguida, a jovem é levada de volta para casa pelo pai, irmã e irmão.  O lar revigora Emily que passa a se dedicar, com a permissão do pai, a escrever poemas na madrugada.  Suas opiniões muitas vezes parecem escandalosas, mas ela não tem medo de expressá-las, o que provoca algum constrangimento no seio familiar.

Não conformista - Parte 1.
O tempo passa, Emily amadurece (Cynthia Nixon) e vemos sua relação com a irmã, Lavinia (Jeniffer Ehle), com o pai (Keith Carradine), o irmão (Duncan Duff), e a amiga Vryling Wilder (Catherine Bailey), assim como seu amor não concretizado pelo reverendo Charles Wadsworth (Eric Loren).  Há um crescente isolamento de Dickinson, as limitações impostas às mulheres, o descrédito de sua obra, as perdas de pessoas amadas e, por fim, ela adota o uso permanente do branco e se isola em casa, recusando-se a ver qualquer pessoa e, mais para o fim da vida, a sair de seu próprio quarto.

A Quiet Passion é um drama de época, com figurino e cabelos corretos, uma bela fotografia, uma elegância e refinamento que são raros de ver.  A atuação do elenco, especialmente, Nixon, Ehle e a jovem Emma Bell são a força do filme que nos oferece ao longo de seus 125 minutos uma seleção de versos belíssimos, angustiados e poderosos da poeta norte-americana Emily Dickson.  Além disso, discussões sobre a existência de Deus, a fé, a prática religiosa, escravidão, patriarcado, condição de inferioridade feminina, desqualificação da literatura escrita por mulheres etc.  Ufa!  Um monte de temas importantes, não é?  Sim, sem dúvida, o problema é que é muita coisa e o tratamento de vários temas é muito superficial, ou confuso.  

Não conformista - Parte 2.
Eu, por exemplo, não consegui saber se Dickinson era profundamente religiosa, mas com uma prática pouco convencional para a época, ou se era atéia.  Também não consegui entender como a personagem de Keith Carradine, o patriarca dos Dickinson, poderia ser tão contraditório, preocupando-se em dar uma educação tão pouco convencional e progressista para as filhas, apoiando Emily para que ela escrevesse e mexendo os pauzinhos para que conseguisse publicar, permitindo que os filhos adolescentes afrontassem abertamente a visão religiosa convencional e, ao mesmo tempo, sendo apresentado como conservador dentro do próprio filme, que é cheio de cenas fragmentadas.  

O pai, por exemplo, parece ser insensível à escravidão, ou mesmo favorável a ela, só que, detalhe, a família era de Massachusetts, no Norte, onde a escravidão praticamente tinha morrido no século XVIII, apesar de não haver legislação de abolição.  Cena plantada para Emily adolescente protestar publicamente e fazer um discurso provocativo.  Objetivo?  Mostrar que a personagem era progressista, adepta da justiça social e, claro, fazia a ponte entre a condição feminina e a escravidão.  Ai... Ai... Daí, lá pelas tantas do filme, Emily, passando mal (*seria o primeiro sintoma da doença de Bright, que a matou*), é ríspida com os empregados da casa e o pai, o mesmo que é insensível à escravidão e que proíbe o filho único de lutar na Guerra de Secessão (*será que isso se baseia em fontes de época?*), passa um sermão em Emily dizendo que eles não são criados, mas empregados e devem ser tratados com respeito.  Ela, em seguida, se desculpa de forma muito humilde com as duas moças e o rapaz que destratara.

Pedindo permissão ao pai para escrever.
O mesmo pai, que apoia que Emily publique e não fala em momento nenhum que ela deve fazê-lo anonimamente, diz que é contra mulheres se apresentarem em público, que seu lugar é em casa.  Mais um discurso de Emily e isso no teatro, na frente de todos os que podiam ouvir.  Falei em ateísmo? Pois bem, o pai parece tão refratário em questões de religião quanto os filhos, especialmente Emily e o irmão, só que, em certo momento, ele decide se conformar e exige que a protagonista faça o mesmo e vá aos cultos.  Pergunte-me quantas vezes Emily é mostrada na igreja?  Só no casamento da melhor amiga.  E isso, porque era o pai que mandava na casa.

Vejam, eu achei a intenção do filme excelente, falar de uma das maiores poetas em língua inglesa, só que ele o faz de forma muito capenga.  A resenha do portal Metrópoles é que me disse que o diretor/roteirista adotou uma narrativa ficcional fragmentada, porque, bem, se sabe muito pouco de Emily Dickinson.  Bem, com o muito pouco que eu achei só na Wikipedia, já tenho muita coisa que o filme poderia oferecer e não diz palavra.  Querem ver?

Escritora das madrugadas.
Emily Dickinson passou boa parte da vida reclusa, sofria, muito provavelmente, de uma fobia social.   Sua mãe, no filme, é apresentada como alguém que sofre de depressão, algo que se intensificou depois do nascimento da irmã caçula, Lavinia. Parece uma forma de ligar as coisas.  Era um problema de família ou um desdobramento das limitações impostas às mulheres?  Certo.  Só que Dickinson era ávida escritora de cartas, muitas delas destruídas, e manteve intensas amizades durante toda a vida.  Ou seja, ela não precisava ver pessoas, ou sair de casa, para estar conectada com o mundo.  O filme não a coloca escrevendo uma carta sequer.  Umazinha, mas há trocentos diálogos supostamente profundos inventados.  Destaque para a amizade com a ousada e iconoclasta Vryling Wilder, ela é uma espécie de alívio cômico e as conversas entre Vryling, Emily e Lavinia me pareceram artificiais e mesmo pedantes.

Um dos amigos por carta de Emily Dickinson é o reverendo Charles Wadsworth, só que ele aparece em carne e osso, um homem casado por quem Dickinson se apaixonara por passe de mágica.  Um dia, Lavinia, sua irmã, volta do culto e fala do maravilhoso sermão que o pastor fizera.  Emily, que não colocava os pés na igreja fazia tempo, fala para convidar o homem para o chá.  Lavinia diz que ele é muito bem casado.  No chá, a esposa do reverendo é apresentada como a criatura mais obtusa e caricaturalmente fanática religiosa possível.  Pobre do homem casado com uma mulherzinha dessas, não é mesmo?  Emily arruma um jeitinho de ir passear com o reverendo no jardim e lhe dá, do nada, um livreto manuscrito com seus poemas.  O homem fica encantado.

Tomando chá com o pastor.
Passa o tempo, o reverendo não dá mais as caras no filme, não se mostra Emily escrevendo para ele, e vem a notícia de que ele foi transferido... Emily se sente traída.  Lavinia a acusa de se apaixonar por um homem casado e que dele ela só conhece os sermões.  Quais sermões, eu pergunto?  Não se mostrou Emily sequer uma vez ouvindo os sermões do reverendo na Igreja, nem trocando cartas com ele.  E mais, imputaram no filme a fama de mulher que se apaixonava por homens casados à poeta, como se isso fosse, talvez, mais uma forma de atestar o quanto ela era moderna, o quanto aquela sociedade era repressora com as mulheres e blá-blá-blá.  E era, mas havia outras formas de mostrar isso.

Nessa de discutir adultério, já da metade para lá do filme, é mostrado o confronto entre o irmão e Emily.  Ambos era muito ligados, mas ele, Austin Dickinson (Duncan Duff), arrumara uma amante.  Emily toma as dores da cunhada, sua amiga.  Só que houve uma cena anterior na qual a cunhada diz que só fazia sexo por dever, que era algo nojento e sujo.  Sim, mais uma forma do filme tentar apresentar o quanto a sociedade vitoriana era repressora... Em nenhum momento, porém, é dito que a cunhada, Susan Gilbert Dickinson (Jodhi May), e a amante de Austin, Mabel Loomis Todd, eram mulheres com formação acadêmica e com atividade intelectual intensa.  Nenhuma discussão nesse sentido e tome acusação de Austin de que Emily tinha telhado de vidro, porque se apaixonara pelo menos duas vezes por homens casados.  Achei uma forçação de barra terrível, fora que fica parecendo que homens traem, porque, bem, suas mulheres, ou são frigidas, ou chatas. 

Emily e a cunhada.
Nessa história de compor no vazio, a maior omissão: sabem como a obra de Emily Dickinson se salvou?  Seus mais e 1800 poemas não publicados?  A poeta tinha uma criada irlandesa, Margaret Maher (1841–1924), com quem conviveu por vários anos, e pediu que a empregada guardasse seus poemas e os destruísse depois de sua morte. A única foto que temos de Emily Dickinson estava na caixa dos poemas, só para que vocês tenham uma idéia. Maher não tem coragem de cumprir a promessa.  Entregou os poemas para Lavinia e salvou-se a obra de Dickinson.   Olha, se eu fosse fazer um filme sobre Emily Dickinson, eu nunca esqueceria de Margaret Maher, eu lhe daria um lugar especial, inventaria até uma relação de amizade profunda, ou mesmo de lesbiana entre ambas, mas não tiraria essa mulher da história.  Ela não existe no filme.  Vergonha.

Que mais tenho a dizer?  Há um pequeno espaço para discutir o quanto a sintaxe dos poemas de Dickinson era diferente do que se fazia à época e ela reclama que o pouco que publicou era “corrigido” pelo editor.  Emily diz ao irmão que queria vê-lo passar uma semana como mulher para ver o que era bom para tosse, é uma boa cena.  Tia Elizabeth (Annette Badland) é ótima como a fanática religiosa bitolada, mas que ama os sobrinhos apesar deles serem uns hereges.  Houve um momento em que deveriam ter posto a vassoura atrás da porta para que ela fosse embora. ^_^

Elas têm vinte e poucos anos aqui.
Uma das melhores cenas do filme, que, como já coloquei, é muito elegante e tem um visual muito atraente, é a da passagem do tempo.  Os jovens Dickinson e seu pai tem suas feições envelhecidas quando estavam tirando uma fotografia.  Só que, ao mesmo tempo, essa mudança de elenco foi cedo demais.  É muito estranho ver atrizes como Cynthia Nixon e Jeniffer Ehle fazendo Emily e Lavinia com seus vinte e poucos anos, todas coquetes, falando em casamento e tudo mais, quando, efetivamente, elas têm cara de cinquenta.  Deveriam ter deixado a excelente Emma Bell e o elenco jovem um pouco mais de tempo em cena, afinal, o filme tem mais de duas horas.  

E, sim, cumpre-se a Bechdel Rule com tranquilidade e o filme tenta ser feminista, mas só me pareceu forçado e superficial mesmo.  Salva-se a bela poesia que pontua a trama, mas, só para comparar com outro material que resenhei recentemente, a coisa não funciona com a mesma naturalidade e força que em To Walk Invisible.  Quiet Passion tem um visual muito mais bonito, é uma produção aparentemente mais cara, mas como história consegue ficar muito a dever.  E, bem, o filme gira em torno das elites mesmo, não sai do seu mundinho restrito, e isso não é metáfora do isolamento de Emily Dickinson, em nenhum momento.

O cartaz do filme é muito bonito.
Enfim, não recomendo o filme.  Não consigo.  Se você quiser ir pela poesia, pelo figurino elegante, pelo elenco, que é muito bom, OK, agora, Emily Dickinson merecia muito mais.  E não basta juntar todas as bandeiras progressistas possíveis para fazer um bom filme.  Não estou pedindo definições sobre se Dickinson era atéia ou religiosa, se era uma proto-feminista, ou não, mas uma história bem contada e que não omitisse a mulher que salvou a poesia da protagonista do esquecimento absoluto, garantindo o que, no filme, parece ser preocupação permanente de Emily, a posteridade, o reconhecimento post mortem de sua obra, a verdadeira imortalidade.  

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