segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Me perguntaram no Ask: O erotismo pode ser empoderador para mulheres?



Na época em que o Formspring era uma febre, eu tinha uma seção "Me Perguntaram no Formspring".  Acho que foram dez posts ou mais (*12, na verdade*), postando respostas e comentando algumas coisas.  Agora, uso o Ask, e como me deixaram uma pergunta interessante anteontem, ontem não postei nada por causa das minhas provas para corrigir e computador sendo formatado, e tenho que sair meio que correndo, decidi trazer a pergunta e a resposta para cá, tem a ver com o blog e pode ser interessante.  Editei um tanto, a original está aqui.

P.: O erotismo pode ser empoderador para mulheres? Uma narrativa erótica (ou com conteúdo/teor erótico) pode passar ideias e mensagens de empoderamento ou mesmo feministas? Sei que é uma pergunta estranha, mas noto como obras com essa temática, que eu adoro, tendem a ser misóginas, na maioria das vezes.

Velhos padrões, heteronormatividade... 
R.: Vamos lá. Eu acredito que, sim. Sem entrar direto no aspecto machista e até misógino de muitas obras eróticas, penso no seguinte, durante muito tempo, as mulheres foram reprimidas em seus desejos sexuais. A boa mulher, de preferência deveria ver o sexo como um meio de alcançar alguma coisa, ser mãe. Sexo seria sacrifício, o prazer sexual algo que poderia, inclusive, por em risco a salvação de sua alma. Se a literatura erótica ajuda uma mulher reprimida a repensar o sexo, ou o prazer, a se libertar de certas amarras, a, quem sabe, pensando em uma relação heteronormativa, a negociar com o parceiro, a se ver no direito de viver sua sexualidade de forma mais completa, ela já cumpriu um grande papel empoderador. É assim que eu percebo a questão.

Muita literatura popular feminina Ocidental vira mangá no Japão.
Agora, é fato (*e eu leio literatura erótica*) que muito do que se produz, e são em sua maioria as mulheres que produzem esse tipo de literatura para mulheres, ainda se mantém amarradas aos padrões da sociedade em que vivem, isto é, a sociedade é machista, as fantasias que esses livros vendem, não raro são. Como lidar com isso? É possível ir em busca de coisas alternativas. É possível ver como fantasia e, bem, cada um tem a sua (*sem perder de vista, em um plano mais crítico, a sociedade que ajuda a produzi-la*). Desliga-se metade do cérebro para ler e liga-se depois. É possível, em alguns casos, dialogar com as autoras, algumas gostam de trocar idéias com as leitoras tanto quanto as mangá-kas.  Eu já escrevi mais de uma vez para a Deborah Simmons e ela me respondeu.  Inclusive a entrevistei para a matéria sobre mangás Harlequin que escrevi para a NeoTokyo (*AQUI*).

O que eu recomendaria, se você permitir, é que você não se culpe em relação ao tipo de fantasia que consome, mas que não ignore os aspectos problemáticos do material. É possível dizer que, sim, tem defeitos, que pode mesmo ser ruim, mas eu gosto. É possível, sim, ser feminista e gostar de materiais que não levantem as bandeiras dos feminismos. É possível tirar lições individuais de material com problemas. O que não se deve é, por ser fã de um certo tipo de material, defende-lo como se não tivesse problemas. Eu poderia comentar mais do que leio no Shoujo Café, mas penso que nem sempre seria adequado.

Gosto muito da série De Burgh.
É isso, acabou a resposta.  Eu realmente me surpreendo quando as pessoas tentam demonizar uma mídia como um todo sem avaliar as nuances e, especialmente, a forma como cada pessoa se apropria delas.  Eu já fui uma julgadora cruel, que desqualificava muita coisa, gêneros inteiros, por simples pre-conceito, porque, bem, como queimar na fogueira se eu nem tinha avaliado nada?  Lido unzinho sequer?  E como formar opinião a partir de um único livro, filme, novela, o que seja?  Quase me passei a abominar Fumi Yoshinaga, uma das minhas atuais mangá-kas favoritas por causa de um único BL que tinha lido dela.

Nunca perdoarei terem entregue a série De Burgh
para Nanao Hidaka desenhar.
Enfim, um material popular, erótico, seja lá o que for, pode se prestar a uma série de coisas, desde a simples fuga da realidade, até a reflexão sobre problemas da vida, a cura interior mesmo.  Já comentei, acho que eu um Shoujocast, ou em posts, enfim, de como determinada parte de Mars, de Fuyumi Souryou, falou diretamente para mim, me tocou, me fez chorar, porque consegui me ver na situação da protagonista.  E, bem, para começo de conversa, ela era uma adolescente e eu uma mulher feita.

Independente da parte erótica, é um livro excelente.
Pretendo comentar alguns Harlequin mangá que andei lendo.  Maioria da Deborah Simmons, minha autora do coração, mas, também outras.  Agora, há uma quantidade enorme de mangás desse tipo em inglês e disponíveis para o Kindle.  Tenho que me controlar para não sair comprando, porque eles colocam até umas amostras grátis com várias obras juntas... Você começa a ler e já viu... 

Há muito material Harlquin para ler em inglês.
E achei uma lista interessante de romances eróticos para mulheres.  Há clássicos como Pássaros Feridos (The Thorn Birds) e até Outlander.  Quanta gente assiste esse seriado sem saber sua origem como literatura feminina?  E como retomei - e não sei se terminarei - Game of Thrones, há cenas eróticas que poderiam ser encontradas em qualquer livro erótico para mulheres, qual a diferença na hora de avaliar?  Eu diria, especialmente, a aturoria, mas isso daria outro post... 

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