sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Meu problema com listas continua! Agora, os animes que não sexualizam as mulheres.

Sexualizado, ou não?  Ou será que, neste caso, é empoderador?
Vamos para um assunto que pode aborrecer muita gente, um texto que pode fazer com que alguns passem a não gostar de mim, enfim, estou com isso engasgado aqui faz tempo.  Está circulando no Facebook - e fatalmente alguém vai postar isso no grupo do Shoujo Café de lá, uma lista de animes que não sexualizam mulheres.  Deve ter sido feita para atrair as moças geek feministas que abominam mangá e anime, porque, bem, é um material que trata mulheres muito mal e tem alto potencial de pedofilia.  

Na tal lista há um monte de animes - a maioria cheios de qualidades, onde as mulheres são meros detalhes, porque ou são séries que flertam com BL, ou histórias sobre homens nas quais as mulheres não fazem diferença alguma.  Exemplo?  Yuri!!! on ICE (ユーリ!!! on ICE).  Eu adoro a série, quem vem aqui sabe, mas pessoal trata-se de uma história sobre homens (*idealizados*) e que tem seus momentos de fanservice, só que com meninos, sendo alguns deles, como Yurio, menores de idade. A sexualização do corpo masculino está ali para que mulheres possam consumir, porque Yuri!!! on ICE tem público, somos nós. Fanservice deve ser banido de todo?  Eu defendo que não.  Quero assistir eternamente Colin Firth com sua camisa molhada em Orgulho e Preconceito e alguém que queira tirar esse meu direito para ver!


Será que todas as meninas de anime precisam ser Utena? 
Mas o shortinho de Utena também não é uma sexualização?
Enfim o que eu quero alertar - estou me dando a este direito como velha que sou - que periga a histeria de alguns chegar ao ponto de considerar até banalidades como minissaias (*sexualização*), personagens mais fofinhas (*pedofilia!*), ou namoro entre adolescentes (*mais pedofilia!*), ou (*complete com o que você achar melhor*) como um problema.  

Temos que nos preocupar, sim, com a sexualização das personagens femininas, com uniformes e armaduras absurdas, com mulheres que não tem história própria, mas estão na narrativa somente para empurrar a trama centrada em algum homem, com crianças ficcionais em situações pedófilas, com a naturalização da violência contra as mulheres e da cultura do estupro.  É nosso dever como feministas discutir tudo isso e muito mais, fora, claro, que não existe equivalência na forma como personagens femininas e masculinas são tratadas.  No entanto, há quem esteja pedindo uma ficção tão sanitarizada, assexuada, que deixa com inveja os fanáticos religiosos mais reprimidos.  E, para mim, todo reprimido, hipócrita, fiscal da moral alheia é um tarado em potencial.  O que eu quero dizer é que perigamos nos juntar ao clube deles.  É preciso cuidado.


Vi mulheres reclamando do uniforme da Mulher Maravilha. 
É direito, eu sei, mas me pareceria
mais estranho ver uma amazona coberta dos pés à cabeça.
Estou ficando preocupada com certos comportamentos que fazem com que a palavra censura circule livremente entre os extremos da direita e da esquerda da nossa sociedade.  Há gente muito hipócrita e/ou muito pudica que pode terminar definindo para a coletividade o que podemos ou não podemos ler, assistir, enfim, gostar.  É preciso cuidado e equilíbrio, ou o universo da fantasia pode se tornar cinza e sem graça como muitos filmes norte americanos dos anos 1950.

Aliás, filme sugerido: A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998).  O filme tem como protagonistas um par de gêmeos (Tobey Maguire e Reese Witherspoon), ele um fanático por uma série dos anos 1950, Pleasantville, onde tudo é certinho e bem comportado, o garoto acredita que nasceu na época errada, já ela, uma menina moderna aparentemente superficial e que só deseja ser popular, acha o irmão um esquisito.  Um dia, os dois estão brigando pelo controle remoto e acabam sendo jogados dentro da tal série.  Ambos acabam aprendendo alguma coisa.  Vale assistir.



De resto, a gente tem que tentar lembrar do que nos atraiu para os animes e mangás.  Do que eles têm de especial para nós. Eu sempre gostei das personagens e tramas complexas, de uma subversão dos desenhos certinhos norte-americanos que sempre terminavam com uma lição de moral (*He-Man e She-Ha, por exemplo*), do drama, da possibilidade de morrer, de amar, de fazer sexo, enfim.  Será que queremos uma ficção domesticada que não possa nos surpreender?  

Talvez, a saída para a não-sexualização seja simples: eliminem as mulheres.  Certos grupos de judeus ultra-ortodoxos são especialistas nisso, apagar mulheres das fotos é uma forma muito eficaz de não cair em tentação, porque, gente, uma pessoa obcecada sempre vai ver sexualização em tudo, mesmo nas coisas mais inocentes.  Moralismo nunca é a saída e serve de cortina de fumaça para muitas coisas.

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2 pessoas comentaram:

"para mim, pelo menos, todo reprimido, hipócrita, fiscal da alheia é um tarado em potencial". Essa é a frase do século. Vi essa situação tantas vezes que é de deixar a gente triste. Quanto mais pudico, mais pervertido.

Gostei muito da sua análise, vou dizer minha opinião masculina sobre isso.

Eu me coloco no lugar de um(a) mangaká, algo que todos podemos fazer. Imagine que você queira colocar uma personagem feminina em sua obra, independente do que sua obra for, você vai ser criticado.
Shoujo:
Garota Inocente apaixonada: Retrata as mulheres como frágeis, idiotas, que só servem para ser usadas....
Protagonista decidida que não quer nada com o protagonista e ele tem que tentar tudo pra conquistá-la: Uma ofensa retratar o público feminino sem sentimentos.
Romance adolescente estilo T.Children: Incentivo a pedofilia.
Garota que ama o garoto, observa e espera o momento pra se declarar: Uma ofensa, mostra as mulheres carentes e covardes.
Se é um garoto tímido que observa a garota até ter coragem pra chamar pra sair: Incentiva o assédio.
Shounen:
Se é resgatada pelo protagonista: Ofensa, mostra as mulheres como indefesas e dependentes.
Se tem superpoderes ou luta: Incentiva a violência contra mulher.
Se só existe: Não dão importância as mulheres.
Mahou Shoujo: Incentivo a pedofilia.
Slice of life:
História de um pai que cuida de uma filha: Incentiva pedofilia
Moe: Incentiva a pedofilia.
Clubes escolares normais:Incentiva a pedofilia.
Josei:
História de uma dona de casa: Desrespeito as mulheres no mercado de trabalho.
Romance entre chefe(a) e empregado(a): Incentiva assédio.
NTR: Retrata as mulheres como "prostitutas"

Sempre quando falam em censura, anime incentiva isso e aquilo eu gosto de falar 2 coisas.
1) "Ficção é ficção, realidade é realidade": Se não conseguimos diferenciar isso, é necessário tratamento.
2) Qualquer obra que alguém falar, seja quadro, música, filme, série,anime, animações em gerais, novelas, games,etc. o falso moralismo consegue mostrar que "ofende" alguém ou "incentiva" algo ruim. Ex: Milagre da Rua 34, falso moralismo diz que incentiva a violência, desrespeita o ateísmo, retrata mulher como carente a procura de um pai pra sua filha.

Acredito que a sociedade esqueceu uma coisa simples, ninguém é obrigado a assistir, ler, ouvir o que não lhe agrada, só que ninguém tem o direito de censurar e ofender o que não lhe agrada.

Gostei muito da sua frase do porque vemos animes.
Só complemento, com a questão do por que os animes, filmes e etc. são criados?
Gosto da frase do Scorsese, os bons filmes não são feitos para serem decodificados, consumidos ou compreendidos,nem são feitos para serem amados pelo público, simplesmente foram criados porque alguém com uma câmera decidiu fazê-los. Os mangás não foram feitos para me agradarem, mas porque alguém tinha uma história e queria pública-la, e alguém tinha uma editora que precisava dessa história.

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