quinta-feira, 15 de março de 2018

Notícias diversas que me deixaram doente hoje.

Marielle participou de evento com mulheres negras
na Lapa antes de ser assassinada
Desde ontem, a gente coleciona notícias horríveis.  No período da tarde, vieram as informações e imagens sobre o confronto entre professores e PMs em São Paulo.  Professores, a maioria mulheres, queriam assistir a sessão pública que iria deliberar sobre sua previdência. PÚBLICA. Colocaram a polícia para impedir, porque os ilustres vereadores temiam ser pressionados. Eles foram eleitos, eles acolhem uma proposta da prefeitura de aumento da contribuição previdenciária, eles foram eleitos, REPITO, mas não querem ser pressionados, ouvir, prestar contas de seus atos.  

Desejam o silêncio, a aquiescência, a submissão, mas antes de qualquer protesto, mobilizam a força policial por via das dúvidas.  Professor e bandido é a mesma coisa.  Houve confronto, mas uns tinham armas, outras, só a coragem.  Se querem uma opinião que não é a minha, assistam a fala do Ricardo Boechat, hoje pela manhã.  Eu a ouvi no rádio.  A foto abaixo é a da professora Luciana Xavier, que tem a minha idade, a minha profissão, poderia ser eu.  Seu nariz foi quebrado.  Sei que é cruenta a imagem, mas precisava colocá-la.

O que ela fez para merecer um nariz quebrado? 
Ah!  Só de estar lá, merecia.
Já durante a noite, veio a notícia de que a vereadora do PSOL carioca, Marielle Franco, negra, de origem pobre, nascida na Favela da Maré, quinta mais votada do Rio, mãe, feminista, fruto de pré-vestibular comunitário (*eu lecionei em um desses no Rio*), socióloga, mestre em administração pública, defensora dos direitos humanos e relatora da comissão que tem como função fiscalizar a intervenção federal no Estado do Rio foi executada (*carro abalroado e quatro tiros na cabeça é execução*).  O motorista, um pai de família, trabalhador, terminou assassinado, também.  A polícia suspeita que o carro foi seguido por 4 km.  Rachel Dodge, procuradora geral da república, deseja federalizar a investigação.  Faz bem. Não foi um crime comum.  Há suspeitas de que policiais envolvidos com o crime (*a polícia não é criminosa, mas alguns policiais, sim*), pois, dias antes, ela denunciara a ação do 41º Batalhão, o que mais mata no Rio, na Favela de Acari.  Daí, as suspeitas em relação ao crime.

Desde cedo, houve quem se indignasse com os comentários virulentos e descabidos.  Durante a madrugada, eu não tropecei em nada do gênero, mas, agora, acabei de ver. Lendo o G1 e um monte de homens (*mulher, nenhuma*) festejando a morte de Marielle Franco. Comemorar uma morte já é demonstração de falta de caráter. Fazê-lo dizendo que foi morta pelos bandidos que defendia, é se fingir de desentendido. Ontem mesmo, o novo chefe da PM, que terminou de ser empossado, disse 'A polícia não é formada apenas por santos, mas é a instituição que está na linha de frente'. Então, pode tudo, né? Afinal, é uma guerra... Só que mesmo na guerra, há regras e punições.  Só que desde o início da intervenção, que não criou o problema, há quem se preocupe com comissões da verdade.  Quem comete crime deve ser punido, se é um agente da lei, do Estado, a pena deveria ser mais dura.

A Juíza foi outra vítima.  Será que do mesmo tipo de criminoso?
Mas é isso aí, lembram da juíza Patrícia Acioli que investigava policias bandidos? Teve seu carro crivado de balas quando chegava em casa. Crimes do tipo não são novidade. Imagino o cagaço de um político, um juiz, um policial, qualquer pessoa em posição de poder que decide mexer com nichos criminosos assentados por anos e anos. Fazer o que é certo, enfrentar as máfias.  No Rio, ou em um sertão, o modus operandi é o mesmo. Foi com a juíza Patrícia Acioli, agora, Marielle Franco. Repito, não é novidade, mas como criaram esse clima de ou está conosco, ou contra nós, de repente, tudo é permitido, tudo, especialmente, contra quem critica, investiga, ou confronta criminosos de farda ou o próprio Estado em suas injustiças.  

Quem quiser aprender mais sobre essa situação que, no Rio, vem de longe, tem Tropa de Elite 2 para assistir.  O cinema nacional já falou disso e com propriedade.  A meu ver, ele só foi negligente ao omitir as igrejas, parte fundamental das engrenagens do sistema. Sou do Rio, sou evangélica, é lamento as parcerias que vão além dos acordos de coexistência.  Já tem anos, mas a situação só fez piorar, ainda mais com a contaminação ideológica insana que motiva comentadores alucinados de portal e mesmo autoridades instituídas.

Quando eu era menina,
sonhava com outras coisas.
Para fechar, hoje, se tornou viral na rede as fotos de uma festa de 15 anos, coisa que muita gente gosta e transforma em megaproduções,   com a aniversariante posando de sinhazinha e sendo servida por pessoas negras vestidas de escravos.  Sim, o tema era escravidão, o lado bom dela, claro.  A resposta da cerimonialista: "Diante dos ocorridos, com total humildade, estamos vindo a público nos retratar e pedir PERDÃO. Jamais foi nossa intenção fazer qualquer retratação que levasse a entender que a escravidão foi algo bom em nossa história. Tínhamos a única intenção de retratar o período histórico do Império que, infelizmente, tinha escravidão".

A escravidão foi ótima, para quem dela tirou proveito. Seja como dono de escravos, seja como traficante de gente.  Negar isso é hipocrisia. Agora, o que passa na cabeça dos pais e da menina, e do cerimonialista, para não compreenderem que a escravidão foi moralmente condenável? Onde é que nós, professores de História, estamos errando?  Será que você não pode criar identidade com a sinhazinha abolicionista?  Nem com a Escrava Isaura?  Que raio de geração é essa?  E falo dos pais, a minha geração, que deveria educar os jovens.  A fala da mãe, no entanto, não me dá muito alento:  “O racismo é uma acusação pesada. Em nenhum momento passou pela nossa cabeça menosprezar uma raça, tanto que em nossa família existem negros e índios”.  Imagina, brincar de sinhá moça e sinhá dona, não é racismo, não...

O joguinho: dê um tapa na cara de
Rihanna, ou um soco em Chris Brown.
Terminando, um tiquinho de esperança, talvez.  O Snapchat, que eu nunca consegui usar, mas eu sou velha e meio travada, colocou um joguinho no ar.  Debochando de Rihanna e fazendo piada com a violência doméstica.  A estrela não gostou e colocou a boca no trombone.  Pediu que seus fãs  (*e quem não acredita que violência doméstica seja piada*) apagassem o aplicativo, Resultado?  Ações do Snapchat despencam.  Espero que o prejuízo seja enorme e outras empresas pensem duas, três, mais vezes, antes de fazerem este tipo de brincadeira.

É isso. A luta dos professores em São Paulo continua.  Os atos em protesto pela execução de Marielle se multiplicam.  Enquanto isso, o pessoal do judiciário faz greve pela manutenção do auxílio moradia.  Uma greve que nunca será declarada ilegal, claro, nem será reprimida pela polícia.  Já eu, aqui, sinto-me com o estômago embrulhado.  Não ver uma luz no fim do túnel é realmente terrível.

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