domingo, 27 de maio de 2018

Novelando com muito Atraso: Comentando Sinhá Moça (1986)


Sei que há o povo que ama meus posts sobre novela e um outro grupo que odeia posts sobre novela.  Como eu gosto de novelas de época e acredito que seja relevante discutir telenovela pelo seu valor como produto cultural, lamento (*lamento nada!*), mas continuaremos tendo posts sobre elas.  E estou devendo alguns comentários sobre Sinhá Moça, a primeira versão, que chegou ontem aos seus 102 capítulos no Canal Viva.  Imagina, rolou tanta coisa e eu, por enrolação, excesso de trabalho, doença, whatever, não comentei uma linha sequer. Não será um grande texto, deve ficar uma desorganização só, mas deve ficar um texto grande, será inevitável... Mas vamos lá, eu escrevi um geralzão sobre Sinhá Moça antes dela reestrear, está  aqui.  

Nesse tempo todo de novela, meio que assisti de forma acelerada (*está tudo no Youtube*) a versão de 2006, que eu não tinha visto. Eu ficava na ansiedade por um novo capítulo, um tanto chateada, porque, efetivamente, a mocinha e o mocinho passam capítulos e mais capítulos sem se ver, e fui olhar o remake.  A primeira coisa que acabei fazendo, foi inevitável, comparar interpretações.  As originais e as de 2006.  Conclusão?  É difícil categorizar quem está melhor, ainda que as falas sejam praticamente as mesmas, as interpretações são bem distintas.  Você pode preferir uma a outra, mas é realmente complicado dizer que fulano/a ou ciclano/a estava melhor no papel.  Por exemplo, Débora Falabella é uma Sinhá Moça muito mais autoritária e mimada do que a de Lucélia Santos.  A mocinha da primeira versão parece mais coquete e joga muito melhor com comportamentos de pretensa submissão do que a heroína de 2006.  Qual é a melhor?  Difícil escolher.  O mesmo talvez valha para quase todo o elenco.  

A foto não é da cena em si, mas a cena do café da manhã na
casa dos fontes é bem diferente nas duas versões.
Adoro o Rubens de Falco, mas não sei se ele é melhor que Osmar Prado no papel.  São interpretações muito diferentes, simples assim.  O barão de Araruna de 1986 não parece frágil em nenhum momento.  Rubens de Falco é feito de gelo.  O Barão de 2006, chega a chorar em várias cenas.  Falando nisso, até o momento, não vi homem chorar na novela de 1986.  Parecerem emocionados, tristes, sim, mas lágrima é coisa de mulher.  A novela de 2006 atualiza comportamentos de gênero ao gosto do século XXI (*e comentarei uma cena específica mais para frente*), daí, é aceitável que homens pareçam frágeis e chorem.  Mas seria esse comportamento tão aceitável no século XIX?  

Outro caso, você terá uma Cândida muito mais firme e capaz de tomar atitudes em Patrícia Pilar do que em Elaine Cristina.  Há cenas que foram efetivamente reescritas para que a mãe de Sinhá Moça tenha voz.  Há uma em particular que em 1986 era somente entre o Barão e Sinhá Moça, terminando com o pai repreendendo a filha por sua ousadia e a mocinha baixando a cabeça.  Na mesma cena de 2006, temos a Baronesa participando do diálogo e defendendo a educação para as mulheres.  A dinâmica é completamente outra, o efeito, também.  

Não sei quem é a mais bonita,
se Elaine Cristina, ou Patrícia Pilar.
A Cândida de Elaine Cristina é muito mais submissa ao marido e compõe parte importante de sua interpretação através de silêncios e olhares.  Agora, uma vantagem para Patrícia Pilar é que ela é mais alta que Osmar Prado e veja que isso tem um efeito cênico importante, também.  Normalmente, as mulheres são mais baixas que os homens que são seus pares românticos.  E Patrícia Pilar parece mais alta que Bruno Gagliasso, também, apesar de terem a mesma altura.  Agora, não me peçam para decidir quem é a mais bonita, se Elaine Cristina, ou Patrícia Pilar, eu não consigo.  Agora, periga que tanto uma quanto a outra sejam as mulheres mais bonitas em ambas as novelas, ou que Patrícia Pilar seja a mais bonita nas duas... 

Falando em interpretações realmente distintas, temos Bruno Gagliasso e Daniel Dantas.  Ambos interpretam o irmão do mocinho, Ricardo.  Daniel Dantas compõe o sujeito meio maluquinho, meio gênio, meio safado que parece tímido e tonto à primeira vista.  Assim, o tipo de pessoa que ninguém parece dar conta de suas capacidades.  Há humor na interpretação de Daniel Dantas, mas nada exagerado, já na novela mais recente, a personagem cômica mais importante é Ricardo. Como Gagliasso se especializou em compôr maluquinhos, ele deita e rola criando, inclusive, um sotaque que o torna uma espécia de núcleo caipira de um homem  só da trama.  O efeito é fazer rir e faz, mas eu prefiro o Daniel Dantas.  Aliás, um ator muito competente, mas que raramente recebe o destaque que merece.  Em Sinhá Moça, ele brilhou, e foi um vilão espetacular na fraca Ciranda de Pedra.

Ricardo se faz de doido por conveniência nas duas versões.
Outra interpretação muito distinta é a do feitor Bruno.  Valter Santos faz um homem cruel, chucro, medíocre e crível.  Você poderia encontrar vários homens como ele ainda hoje circulando pelas ruas.  Já Humberto Martins vai num caminho semelhante ao de Bruno Gagliasso e a gente fica se perguntando, eu pelo menos, se o feitor de 2006 não sofreria de algum déficit intelectual.  Eu prefiro o de 1986.  Falando de outras interpretações, e não vou falar de todas, Raymundo de Souza tem muito mais recursos dramáticos que Eriberto Leão, e seu Rafael, portanto, é muito mais forte dentro da trama.  Prefiro, também, a Juliana de Luciana Braga, porque ela realmente parece uma adolescente, tem algo de doce e ingênuo que a sua versão de 2006 não me passou.  E, bem, Tony Tornado é um Capitão do Mato muito mais impressionante do que o de Maurício Gonçalves, ainda que este último (*eu fiz uma matéria com ele na faculdade*) possa ser um ator melhor.

Mas falemos de Rodolfo agora.  Eu assisti criança a versão de 1986.  Menina, eu achava o Marcos Paulo a coisa mais perfeita como o mocinho (*só era menos interessante aos meus olhos que o Lauro Corona em O Direito de Amar*).  Achava ele lindo e continuo vendo da mesma forma.  Ele passa toda a densidade necessária ao galã, tem senso de humor (*sem exageros*), é galante e viril.  E, bem, aqui, não tenho dúvidas de quem é melhor, aos meus olhos, pelo menos.  Danton Mello é um bom ator, mas ele sempre me parece à beira de uma crise de risos.  O problema pode ser comigo, mas seu Rodolfo não me passa a seriedade que eu espero do herói nas situações pelas quais ele enfrenta.  A novela de 2006 tem muito mais humor, criou-se a regra de que novela das seis tem que ser leve e bem humorada, daí, talvez para quem viu primeiro a versão mais recente, ou quem é mais jovem, Danton Mello seja o melhor Rodolfo, eu não consigo gostar dele no papel.  Agora, ele parece um Rodolfo mais jovem e, bem, qual seria a idade da personagem?  Não sei.

E a mocinha não consegue nem imaginar
que o cavaleiro que lhe joga rosas é Rodolfo.
É muito difícil saber qual a idade das personagens centrais de Sinhá Moça e na novela de 1986 ninguém parecia estar se importando muito com isso.  Todos os atores - Marcos Paulo, Daniel Dantas, Raymundo de Souza - já passavam dos trinta anos e pareciam ter a idade que tinham.  Lucélia Santos estava com 28 anos e não parecia ter muito menos.  Elaine Cristina tinha 36 anos, acredito, e fazia a mãe da mocinha.  Há uma determinada cena em que Mário (Tarcísio Filho), um dos filhos de fazendeiros que é apaixonado por Juliana, diz que Dimas teria idade para ser seu pai... Exagero do ciúme, claro.  Já Ricardo, é sempre tratado como alguém muito jovem, um menino, mas Daniel Dantas tem quase a mesma idade que Elaine Cristina...  E Ana do Véu, interpretada em 1986 por Patrícia Pilar, qual idade teria?

Sinhá Moça e Rafael cresceram juntos, tinham idades tão próximas que, inclusive, tomavam banho nus no rio na infância.  Esse dado é usado pela mocinha em ambas as versões como uma forma de provocar Rodolfo (*sim, ela estava alfinetando o sujeito*).  A diferença não poderia ser de mais de 4 anos, aliás, deveria ser menos.  Já Rodolfo, formou-se em Direito e ficou um ano na capital tentando fazer a carreira lá.  Ele é descrito por todos como aluno brilhante.  Ora, um Castro Alves passou no exame de admissão para a faculdade de Direito com 15 anos, se não me engano, e começou a cursar com 16.  Se fôssemos tomar isso como base, 16, 17 anos, somássemos uns 5 anos, no máximo, mais o tal ano de permanência na cidade grande, Rodolfo deveria ter uns 22, 23 anos.  E Sinhá Moça?  Ela foi estudar na capital.  Ela era mais jovem.  Deveria ter, no máximo, 18 anos, 19, talvez, e seria mais velha que Juliana e Ana do Véu.  Bem, para gostar da novela você não pode se importar com essas coisas, não... Nesse aspecto, a novela de 2006 foi um pouco mais cuidadosa, um pouco somente.

Patrícia Pilar estava linda
e divertida como Ana do Véu.
Revendo a novela original é possível ver, também, o quanto as sensibilidades modernas e a classificação indicativa tem peso dentro da forma como a história é narrada.  Em 1986, praticamente todos os homens fumam.  Ora, era normal que homens fumassem, aliás, era uma marca de que o sujeito tinha se tornado um adulto.  Em 2006, depois de tantas campanhas antitabagistas e por conta da classificação indicativa, ninguém fuma, ou eu mal me lembro de ter visto um cigarro, ou cachimbo.  E, claro, os beijos são muito mais intensos (*José Coutinho e Adelaide que o digam, assim como Ricardo e Ana do Véu...*) em 1986, há também uma certa tensão sexual (*vide a cena da cozinha entre Rafael e Juliana, ou as tantas lá do Ricardo com Ana do Véu e a Baronesa*) que foi quase eliminada da versão de 1986.  

E há uma tentativa de limar situações que pudessem parecer machistas demais. E, claro, aí o povo esquece que a novela se passa no século XIX e tem um recorte realista.  A situação inicial do trem, com Sinhá Moça viajando sozinha e encarando Rodolfo, quando ele coloca que é diferente um homem solteiro viajar sozinho de uma mulher na mesma condição fazê-lo, permanece intacta nas duas versões.  Agora, conforme a novela vai caminhando, algumas cenas se tornam muito diferentes nas duas versões e sempre para dar uma ideia de maior autonomia para as mulheres ou conferir-lhes um lugar de fala de maior proeminência.

A trilha sonora de 1986 é melhor.  Só de não ter
Leonardo berrando na abertura já ganha 100 pontos de bônus.
Um dos momentos cruciais da primeira fase da novela, porque culmina com Rodolfo revelando que mentiu para o Barão de Araruna quanto a ser monarquista e escravocrata, é quando Sinhá Moça se deixa trancar na senzala para cuidar de Justino, o escravo odiado pelo feitor e que tinha sido condenado a ser morto de pancadas por sua rebeldia.  Em 1986, Rodolfo elogia a mocinha na sua coragem e desvelo, mas é categórico em dizer que ela agiu mal ao passar a noite com os escravos na senzala, pois poderia ter sido abusada por eles.  Como mulher, ela deveria se preservar e seu comportamento seria socialmente condenável.  Em 2006, Rodolfo não se arvora ao direito de julgá-la nesse aspecto e a elogia inclusive por ter se deixado trancar.  A mudança parece pequena, mas é enorme, porque vai contra qualquer padrão de modéstia, recato, e desejo masculino de proteção (*ou posse*), ou o que seja que vigia na época.  Mas o novo Rodolfo parece um sujeito mais antenado com nossos dias por causa disso.  

E precisamos sempre lembrar que é Benedito Ruy Barbosa o autor desse história, daí, a única pessoa que fala da possibilidade do abuso sexual é Rute que, nas duas versões, diz com todas as letras que os escravos deveriam estuprar a mocinha, porque seria a maior vingança contra o monstruoso pai que ela tem.  Em uma sociedade patriarcal, a honra de um homem é frágil e depende da honra de suas mulheres... Trocando em miúdos, os homens são bem menos machistas, inclusive o próprio Barão de Araruna, na versão mais recente, mas sororidade, que também já era uma coisa em alta em 2006, mandou lembranças.  As mulheres continuam sendo cruéis umas com as outras, mas cabe ressaltar que essas cenas são raras e não há mulheres más em Sinhá Moça.  Nenhuma mesmo.

E o casamento é semana que vem. 
E antes que o texto se torne quilométrico, vamos para a tal cena problemática que eu disse que iria esmiuçar.  Se você não assiste Sinhá Moça, e não leu meu primeiro texto sobre a novela, talvez esteja boiando no meu blá-blá-blá, mas vamos situar algumas coisas.  Sinhá Moça é a mocinha que pode ser compreendida tanto como adiante de seu tempo, como quanto uma criaturinha mimada e um tanto egoísta.  Ela é as duas coisas.  No início da novela, ela se encanta por Rodolfo, o jovem advogado em quem ela perde a confiança depois de um mal entendido.  Como ela é cabeça dura e mimada, o tal mal entendido ganha proporções gigantescas apesar de todos os esforços do rapaz para se explicar.  Porque ele se esforça, enfim.  Nesse ponto,  em relação aos maus tratos que a mocinha lhe impõe, eu sou #TeamRodolfo em qualquer das duas versões.

Quase ao mesmo tempo, volta para Araruna, o tal Rafael, que, criança ainda, tinha sido vendido pelo pai da mocinha.  Ela acredita que ele é seu primo, filho de um parente falecido do Barão de Araruna.  Na verdade, Rafael é irmão de Sinhá Moça, algo que foi revelado pelo bisavô do sujeito antes dele ser morto no tronco de pancadas.  Rafael usa um nome falso, Dimas.  Sinhá Moça acredita que Rafael seja o tal "Irmão do Quilombo", uma espécie de Zorro que abre senzalas e deixa rosas na janela da mocinha.  Obviamente, o tal Irmão do Quilombo é Rodolfo que, orgulhoso e ferido, não quer contar a verdade. Sinhá Moça acredita amar Rafael desde a infância e ainda mais agora, já que ele é o tal justiceiro.

Rubens de Falco compõe um Barão de Araruna,
frio, cruel, cínico e com um senso de humor
peculiar, mas ele ama a única filha.
Bem, nós, a audiência, sabemos que eles são irmãos.  Ainda que uma semente de dúvida seja lançada pelo Frei José (Sérgio Viotti) e eu realmente não lembrava que Rafael tinha tido umas crises de ciúmes pela irmã lá pelas tantas da novela (*onde estamos agora*), porque lá no início quando Sinhá Moça se jogava para cima dele, o rapaz se comportava tal e qual um monge.  Resumo da história, Frei José vedo o drama instalado, acaba contando para a mocinha que ela é irmã de Rafael e que ela não pode ter nada com ele.  Nada.  E, bem, em uma novela que é lenta nas duas versões,  a mocinha, que tinha sido expulsa de casa pelo pai e estava morando na cidade descobre em um estalo que ama Rodolfo.  Na verdade, que sempre o amou. E isso gera uma das declarações de amor mais falsas que eu já vi em qualquer lugar, filme, novela, livro, mangá, qualquer lugar.

Quando a mãe vem levá-la para casa, e esta é a pior burrada que Sinhá Moça fez até agora, porque outras ainda virão, Dona Cândida pede para que Rodolfo convença a filha a voltar com ela.  O rapaz, constrangido, leva Sinhá Moça para o gabinete.  Diz que Rafael foi tirado da cadeia pelo Irmão do Quilombo e saiu da cidade.  Ela poderia ir atrás dele, ou voltar para casa, afinal, Rodolfo sabe que não é amado por ela.  Bem, a partir daí, a mocinha se declara para o herói, diz amá-lo desde sempre, lhe enche de beijos (*de forma diferente em cada versão*) e diz que se enganou.  E, bem, a cena não me convence nem na primeira, nem na segunda versão.  É uma mudança de sentimento tão súbita que, bem, sei lá, poderia ter sido feita de forma muito melhor.  

Gésio Amadeu está nas duas versões da novela. 
Na primeira como Fulgêncio, na segunda, como Justo.
Nas duas versões, Rodolfo fica perplexo, meio desnorteado, mas não recusa o amor da moça, claro.  Agora, na versão de 1986, ele diz para ela que tinha jurado (*ele jurou em 2006, também, mas teve amnésia*) que só aceitaria Sinhá Moça de volta se ela pedisse perdão de joelhos. E, bem, ela se ajoelha e pede perdão.  Horror!  Horror!  Ora, bolas, dada as humilhações e acusações que ela lhe fez, não digo que ele estava pedindo muito, não.  Só que, aí, temos uma Lucélia Santos toda coquete, que se ajoelha fazendo troça e lançando olhares lânguidos.  Rodolfo aceita as desculpas e a levanta dizendo que a prefere altiva como a conheceu e não humilhada.  Isso não existe na nova versão e é algo que faz falta em uma sequência importante que é, tanto em 1986, quanto em 2006, um tanto absurda.

Mas fazendo a ponte com outra novela, Essas Mulheres da rede Record, uma livre adaptação de três obras de José de Alencar, Senhora, Lucíola e Diva, que é de 2005, temos mudanças semelhantes.  A telenovela também eliminou uma parte importante do livro Senhora que é quando a mocinha, depois de ter humilhado o marido ao longo de tantas páginas para que ele virasse gente (*porque no livro ele era um traste mesmo*), se ajoelha aos pés dele, reconhece seu valor e pede perdão, oferecendo-se como dócil esposa. Veja que, no livro, ela tinha todos os motivos para ter feito o que fez, mas uma mulher precisa ser submissa e em um livro de José de Alencar mais ainda.  Além disso, o Seixas da novela da Record não ser o traste do livro, ter "razões" para ter agido mal, não colocaram uma mocinha de joelhos pedindo perdão.  

O baile de Ana do Véu foi um dos pontos altos da novela.
Eu defendo que a gente rediscuta papéis de gênero, que revise certos clichês da literatura, da TV e do cinema, que mostre que o humano era plural em todas as épocas da história, mas há umas atualizações que são desnecessárias e acabam gerando um anacronismo que não é muito cabível em uma obra que se propõe a ser realista.  Por exemplo, em um Cordel Encantado, um Meu Pedacinho de Chão, ou mesmo, com mais comedimento, em Orgulho e Paixão, que está no ar, certas liberdades são possíveis.  A gente pode ter comportamentos que destoem do que seriam os padrões de uma determinada época, mas tentar retirar um machismo que seria característico da maioria dos homens de um período histórico para que o herói pareça mais moderno, é um equívoco.  

O Rodolfo de 2006 me parece menos interessante que o de 1986, porque nem é um sujeito efetivamente moderno e adiante de seu tempo (*se é para radicalizar, que façam direito*), nem consegue ser um homem médio razoável para a sua época, daí, acaba parecendo fraco, quando deveria ser galante e viril (*dentro das convenções dos romances românticos baratos e folhetins*).  E nem vejo as tais mudanças como uma boa contribuição para a rediscussão do  papel das mulheres.  Sinhá Moça continua parecendo uma garota mimada com o agravante de parecer autoritária e um pouco mais insensível, ainda que Débora Falabella tenha um ar muito mais juvenil que ameniza essas características, só que ela lida com um Rodolfo que é mais maleável e sensível, por assim dizer.  De qualquer forma, a Sinhá Moça de 2006 não me parece mais empoderada, por assim dizer, nem mais forte que a original.

Chica Xavier é minha Bá favorita.
Que mais dizer.  Duas coisas, pelo menos.  Algo que eu não me lembrava da novela de 1986, nem poderia, porque eu era criança e esses temas nem eram discutidos abertamente, é o fato do pai do Barão de Araruna ser um pedófilo.  Foram conversas que se entrecruzaram.  O Barão com a esposa, a Bá (Chica Xavier) com Sinhá Moça, Rafael com o Capitão do Mato, enfim.  A irmã de Bá, Balbina (*que será interpretada idosa por Ruth de Souza*) teve vários filhos com Pai José (Milton Gonçalves), o reprodutor da fazenda.  Bá não sabe com quantos anos ela teve o primeiro filho, que, por acaso, é o Capitão do Mato.  Segundo a Bá, ela poderia ter menos de 12 anos, mas era espevitada e jeitosa, ainda que absolutamente inocente. Justo (Grande Otelo) era outro escravo, mais ou menos da mesma idade e apaixonado por Balbina.  

O pai do Barão, levou a menina para dentro de casa e tentou abusar (*ou abusou dela*), despertando a ira de sua esposa, que acusou a escrava de ter roubado e cortou-lhe um dedo da mão como castigo.  Na conversa entre Bá e Sinhá Moça, fica claro que Balbina era uma criança e é sugerido que o Barão preferia levar para rede essas escravinhas novinhas.  No outro diálogo, o Barão fala de quando seu pai escolheu Cândida para ser sua esposa e a descreveu em termos dos mais elogiosos.  Está claro, também, que ela era muito jovem.  13 anos?  Talvez.  E Cândida, constrangida, diz que quando o sogro foi pedir sua mão a olhou de forma estranha como se a pedisse para si mesmo.  


Ruth de Souza estava no filme
Sinhá Moça e fez o papel de Balbina.
O Barão fica indignado, mas o que está claro é que o fundador de Araruna era um devasso que tinha particular apreço por garotinhas e as tomava para si quando podia.  Se isso foi limado da novela de 2006, eu não sei, não vi esses capítulos.  Não deveria ser incomum e a forma como a coisa é colocada por Bá, sem susto, sem nenhum horror, só aponta para a normalização da violência, porque é ela que norteia a escravidão e suas práticas.  O fato é que a escravidão só era boa para quem dela usufruía.  Daí, é lamentável, por exemplo, que alguém promova uma festa na qual uma debutante é a sinhazinha servida por escravos e escravas, como aconteceu dia desses.  O fato é que nem a escola parece ensinar direito sobre a escravidão, nem as telenovelas, às vezes tão enfáticas nos seus horrores, parecem sensibilizar as pessoas como outros temas o fazem.  

Mais triste, no entanto é o fato de elencos negros expressivos (*e talentosos*), como os de Sinhá Moça, só serem vistos em novelas sobre a escravidão, reforçando esse estigma da subordinação e da exclusão.  E Sinhá Moça nem é o melhor material de reflexão sobre escravidão, que fique claro, pois as personagens boazinhas de Benedito Ruy Barbosa são abolicionistas, mas nenhuma tem um discurso realmente crítico, muito menos subversivo (*bastava uma só*) sobre a relação entre negros e brancos, ou sobre as hierarquias sociais. A racionalidade dos brancos é sempre maior, os negros não raro são criticados por sua passividade e por traírem sua "raça", ao mesmo tempo que o branqueamento, algo muito nosso mesmo, é exaltado.  Não há nenhuma referência aos negros e negras que, quase às vésperas da Abolição atuavam ativamente no intuito de libertar, ou dar fuga aos seus irmãos e irmãs de cor.  Lutar pela abolição, em Sinhá Moça,  é coisa de branco.  Fora, claro, a mania de redimir seus coronéis, que é regra em todas as suas novelas.  Mesmo o terrível Barão de Araruna volta e meia é louvado mesmo por Rodolfo e será exaltado no final.  Disso, eu me lembro bem.  Vejam bem, a novela é boa como novela, mas não posso fechar meus olhos para essas questões.


E a novela ainda tem muito mais poesias de Castro Alves do que eu me lembrava.  E eu amo Castro Alves.

Terminando já, nesse momento, estão todos no Quilombo e é notável a diferença da novela de 1986 da mais recente: as pessoas parecem mais sujas e desmazeladas como deveria ser.  Rodolfo quando vai à cavalo roubar Sinhá Moça do trem não está todo engravatadinho como na versão de 2006, mas o mais leve possível.  No Quilombo, sua camisa não está mais limpinha e está suado e não como a de Danton Mello que reclama do suor e do trabalho pesado, mas parece quase que saído do banho.  E os homens aparecem sem camisa.  Estão no quilombo, estão trabalhando na roça, não ficam todos alinhadinhos.  O cuidado da novela de 2006 foi muito maior em manter o elenco bonito do que mostrar a adversidade da situação.  É interessante, porque esses realismos são muito mais vistos nas obras recentes e, não, nas novelas e filmes mais antigos, mas, também aqui, a novela de 1986 parece mais fiel à realidade.

É isso.  Sinhá Moça de 1986 é melhor que eu lembrava e ainda tem no elenco gente maravilhosa como Grande Otelo, o melhor Justo, Jacyra Sampaio, a eterna Tia Anastácia em uma excelente interpretação, Neuza Amaral, a elhor mãe de Rodolfo e Ricardo, enfim, muita gente boa.  Se demorei 102 capítulos para comentar Sinhá Moça, só devo fazer um novo texto no final da novela.  Estou mais engajada em comentar Orgulho & Paixão e estou devendo um texto faz uma semana, ou mais. 

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3 pessoas comentaram:

Eu adoro seus textos sobre novelas Valéria, espero que continue com eles, o seu blogue é um dos únicos que conheço que comentam novelas, em especial as mais antigas, com mais propriedade e fazendo analises mais profundas.
Não assisti Sinha Moça de 1986, na época não era nem nascida, lembro que quando passou a de 2006 estava na escola, mas só fui assistir mesmo depois via youtube, assisti vários capítulos, gosto da adaptação de 2006. Não sabia de todas essas diferenças, e acho estranho ver a Lucélia Santos fazendo a filha do Rubens de Falco, depois de assistir os dois em Escrava Isaura, tive acesso a essa novela pelo dvd que lançaram, gostei muito apesar dos cortes.
Uma novela que gostaria muito que fizessem remake ou nova versão é Helena de Machado de Assis, me pergunto porque a Globo não faz um remake como fez com Sinha Moça e Cabocla, e outras novelas de época que sempre voltam.
Espero que continue com seus textos sobre novelas pois eles deixam o blogue melhor ainda :)
Um grande abraço

Olá,Valéria!

Sou fã ardorosa da novela Sinhá Moça, que infelizmente terminou esta semana, e, lendo sua análise tão bem escrita e aprofundada, queria deixar aqui a minha a satisfação e alegria por encontrar pessoas que saibam trazer questionamentos e reflexões como você brilhantemente os realizou. Desse modo, se não for pedir muito, seria possível, fazer uma análise sobre o fim da novela? Fico ansiosamente no aguardo por uma nova leitura e resposta por meu comentário.

Abraços,

Márcia, obrigada pelos comentários. Escrevi um novo texto sobre Sinhá Moça. Ficaria feliz se vc lesse.

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