sexta-feira, 1 de junho de 2018

Natalidade no Japão cai pelo segundo ano consecutivo, mas é mais fácil jogar a culpa nas mulheres.


O Japan Times trouxe uma matéria falando do recorde negativo na natalidade e das taxas de casamento do país.  Segundo o último relatório, nasceram somente 946,060 em 2017, no Japão, enquanto isso, o número de casamentos declinou, também, e o número de óbitos aumentou, afinal, a população nipônica envelhece rápido e mesmo sendo marcada pela longevidade, um dia as pessoas morrem.  

De acordo com os relatórios, é o segundo ano consecutivo que o número de nascimentos fica abaixo do 1 milhão.  A queda da população foi a maior do pós-guerra, porque morreram 1,340,433 no mesmo período, ou seja, uma diferença de 394,373 pessoas, se eu entendi bem a notícia.  Fora isso, nasceram menos 30,918 que em 2016.  Pelos cálculos do ministério responsável, seria necessário que a natalidade japonesa fosse de 2.07 para que a perda populacional fosse estabilizada, mas as taxas estão em 1.43.  O governo japonês tem como meta empurrar a taxa de natalidade para 1.8 até 2025, mas percebe-se que isso não irá estancar a sangria.

Berçário no Hospital de Misato, Prefeitura de Saitama, 2014.
Já nos casamentos e, no Japão, ter filhos fora do casamento é um estigma social e as mulheres tem pouco ou nenhum apoio estatal nesses casos, caíram para 606,863, queda de 13,668.  Fala-se muito em medidas efetivas do Estado, porque é de seu interesse, claro, para estimular casamentos e natalidade, mas, normalmente, é mais fácil culpar as mulheres.

Eu não comentei, porque foi na época que Júlia e eu estávamos doentes e eu cheia de provas para corrigir, um político japonês (*e não foi o primeiro*) chamado Kanji Kato, um velhinho de 72 anos, fez um pronunciamento dizendo que as mulheres solteiras são um peso morto na sociedade.  Ou seja, para quem não entendeu, e muita gente fingiu que não entendeu, ignorando até as reações negativas no próprio Japão, este gerontocrata reduziu as mulheres aos seus úteros.  

O interesse dos homens pelo
casamento também precisa ser medido.
Ser solteira – como se o casamento dependesse somente das mulheres – é um ato contra o bem estar da sociedade.  Mesmo se eu não quisesse discutir o simples fato de uma mulher não querer se casar, ou mesmo ter filhos, parem e reflitam que há mulheres que não podem gerar filhos.  Seriam, então, essas mulheres um peso maior ainda para a sociedade, pois nem constrangidas a ter filhos elas poderiam ser, já que sua única função seria a procriativa.  Pensou The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia)?  Pois é, essas coisas estão logo ali na esquina, se não abrirmos os olhos.

O fato é que o estímulo para que as mulheres tenham filhos no Japão é pouco.  Para ter filhos, precisam se casar.  Casadas, a pressão é para que abandonem suas carreiras, aliás, esse é o ideal.  Tempos atrás, um desses políticos geniais, disse que as mulheres tem prazer em ficar em casa...  Os serviços de creche no Japão não são dos mais amplos.  Daí, como na maioria das sociedades capitalistas baseadas em altíssima competição e baixa natalidade (*ou pressão para que assim seja*), um filho é algo que custa caro, muito caro.  E, surpreendentemente, o número de crianças  na pobreza e dependendo da caridade vem aumentando no país, que é um dos mais ricos do mundo.  

Mães se encontram com Ministro do
Bem-Estar Social e pedem mais creches.
E vamos supor que o casamento acabe, as pensões, quando existem, são absurdamente baixas e esta mulher terá sérios problemas para voltar ao mercado de trabalho, quanto mais retomar sua carreira, fora, de novo, o estigma social... Qual o estímulo para que uma mulher independente abra mão de sua renda, talvez até uma renda importante para a economia do país, e se case e procrie?  Fora isso, há pesquisas no Japão que apontam que o excesso de trabalho tem deixado as mulheres tão cansadas que elas não tem energia para namorar.  Deve ser a mesma coisa para os homens.

Mas é mais fácil culpar as mulheres, especialmente, quando se é homem e quando se está velho, alienado dos dramas do mundo moderno, e no poder.  Enfim, alguma coisa precisa ser feita, e não vai ser culpando as mulheres que a situação vai se alterar. 

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