sábado, 25 de agosto de 2018

Comentando Troca de Rainhas (L'Échange des princesses, 2017)


Ontem, fui ao cinema e assisti a um filme que estava muito ansiosa para conferir, Troca de Rainhas (L'Échange des princesses).  Quando vi o trailer, ainda no ano passado, o filme histórico franco-belga atraiu de imediato a minha atenção, porque iria focar na infeliz aliança de casamento dupla entre Luís XV e Mariana Vitória da Espanha e Luís, herdeiro do trono espanhol, com Luísa Elisabeth d’Orléans, Mademoiselle de Montpensier.  Usei o termo “infeliz”, porque a princesinha espanhola seria devolvida depois de residir por quatro anos na França e a princesa francesa retornaria para seu país em desgraça depois de ficar viúva.  

A paz, intuito maior desse arranjo (*Será?*), foi garantida, mas ao custo do sacrifício de duas meninas.  Promissor?  Sim.  Elogiado?  Sim, pela maioria das críticas.  Minha percepção do filme como historiadora?  A película quis falar de muita coisa, não conseguiu aprofundar quase nada.  O diretor,  Marc Dugain, focou demais nas figuras masculinas, eles, também, os jovens príncipes, sacrificados no altar da diplomacia, ainda que com mais recursos do que as suas noivas-criança, e terminou entregando menos do que prometia.  Mas vamos lá:
A troca de princesas na Ilha dos Faisões, que dá nome ao filme.
O ano é 1721, com o intuito de garantir a paz entre a Espanha e a França, abalada depois da Guerra da Quadrupla Aliança (1718-1720), o regente francês, o Duque de Orleans (Olivier Gourmet) propõe ao rei Filipe V da Espanha (Lambert Wilson) uma aliança de casamento.  O rei da França, Luís XV (Igor van Dessel), então com 11 anos, se casaria com a infanta Mariana Vitória (Juliane Lepoureau), uma menina de 3 anos, em contrapartida, o herdeiro do trono espanhol, Luís (Kacey Mottet Klein), de 14 anos, aceitaria a filha do regente, Luísa Elisabeth (Anamaria Vartolomei), de 11 anos, como esposa.  Os casamentos, concretizados em 1722, pareciam uma obra-prima da diplomacia entre casas reais, mas resultaram em completo fiasco.

Avaliando o filme do diretor Marc Dugain, e refleti bastante sobre os pontos fracos e fortes da película desde ontem, não consigo vê-lo como mais do que mediano.  Ele entrega de forma eficiente a mensagem central, uma crítica à política de casamentos entre as casas reais europeias, algo iniciado na Idade Média e que se estendeu, pelo menos, até o século XIX, e que sacrificava principalmente as mulheres, algumas delas, como Mariana Vitória, pouco mais que bebezinhos, aos interesses do Estado.  Enfim, casamento era uma alternativa à guerra dentro da diplomacia do Antigo Regime.  É preciso ter isso em mente e uma das coisas que o filme repete vez por outra é que a França não tinha mais recursos financeiros para novas guerras.  Era mais fácil e econômico tentar casar uma princesa.
Um close no rosto da atriz.
A Princesa Palatina agia como avó da rainha.
Por esse prisma, o filme parece atingir o que foi o objetivo da autora, Chantal Thomas (*entrevista aqui*), que seria dar voz às mulheres esquecidas nas aulas de História e evidenciar o tratamento cruel dispensado às princesas.  A personagem favorita da autora do livro é a Princesa Palatina, Elizabeth Charlotte (Andréa Ferreol), mãe do duque de Orleans e que, no filme, tem a incumbência de orientar a neta sobre seus deveres para com sua família e com a França, que seu casamento era uma honra e que, ao partir, ela deveria ter em mente que nunca mais veria sua família de sangue.  A reação da menina é imediata, ela afronta a avó lembrando-a do quanto a velha princesa tinha sido infeliz, pois foi entregue em casamento a um homossexual... O filme voltará a tocar no tema da homossexualidade, sem, contudo, apresentar uma discussão consistente sobre o tema.

Li sobre a Princesa Palatina a primeira vez quando estava na faculdade e em um livro da coleção primeiros passos sobre a Sociedade de Corte, se não me engano, de autoria do Renato Janine Ribeiro.  Basicamente, por causa da etiqueta de Versalhes, os pais da princesa alemã não teriam o direito de usar assentos equivalentes na corte francesa e como seria uma ofensa oferecer-lhes algo inferior, ou que uma princesa francesa (*lugar ocupado por Elizabeth Charlotte*) abrisse mão de seus privilégios, ela nunca pode rever sua família.  Enviava cartas, pinturas com sua imagem e a do filho mais velho, mas foi privada de qualquer contato físico com os seus.  
Luísa Elisabeth não fazia questão de ser simpática.
Diante da neta rebelde, a Palatina é só dureza e incitação do dever, afinal, esta é a função das velhas, garantir a manutenção da ordem, pois seu status e poder (*delegado*) dentro de uma estrutura patriarcal reside basicamente no fato de serem agentes que garantem a submissão das mulheres jovens. Agora, com a jovem rainha da França, interpretada pela adorável Juliane Lepoureau, a velha é a avó que todo mundo queria.  Como única remanescente na corte da geração do rei Luís XIV, bisavô de Luís XV, ela tem livre circulação junto aos aposentos da jovem rainha que, na verdade, não é mais do que um berçário.  

Cabe ressaltar que por tudo o que li, Mariana Vitória foi tratada com muito carinho por quem estava ao seu redor (*o rei não se incluía nesse grupo*).  Apesar da separação da família, ela não foi maltratada, por assim dizer, por seus cortesãos e foi aclamada pelos franceses.  O problema é que Luís XV era o último de sua estirpe e não poderia esperar que uma menina de 4 anos chegasse a idade núbil para começar a procriar.  E, sim, é isso mesmo, apesar de muita gente não saber, a maioria dos casamentos reais não era consumado de pronto, especialmente, quando os noivos eram jovens demais.  Uma princesa, não raro, só iria cumprir suas funções conjugais depois de menstruar a primeira vez.  Casamento, aliança, arranjo de famílias, no entanto, nada tem a ver com essas questões, não de forma imediata, daí, você poderia, sim, enviar sua criança de quatro anos para uma terra estrangeira e estava tudo bem.
Mariana Vitória foi muito bem acolhida
por Madame de Ventadour.
O prólogo do filme, antes de qualquer das princesas entrar em cena, é do jovem rei Luís XV.  Órfão de pai, mãe, bisavô, de irmãos, com a tenra idade de cinco anos, ele deveria ser protegido como um tesouro.  A primeira mulher proeminente da película é a então governanta do rei, Madame de Ventadour (Catherine Mouchet), que, agindo contra a etiqueta, impede que os cortesãos e os médicos contaminados pela varíola entrem nos aposentos reais para saudar o novo rei.  Ela os vê como potenciais assassinos e, bem, o plot da conspiração para eliminar o último dos Bourbon franceses (*não o último, mas o mais próximo do trono*) para dar lugar à casa de Orleans deveria ter sido explorado na película e não foi.

Luís XV foi uma criança de saúde delicada e um adolescente que alguns criam que não chegaria a idade adulta, era urgente conseguir-lhe uma princesa com quem pudesse ter filhos o mais rápido possível.  Mas o Duque de Orleans, o regente do país, tinha outros planos e conseguiu para o jovem rei, que ele buscava manter no maior isolamento possível, uma noiva que demoraria bem uns 10 anos para atingir a idade núbil.  Seria muito fácil montar um roteiro que atirasse sobre o Duque de Orleans, e a maioria dos livros de História não iria contra essa afirmativa, a maquinação contra o jovem monarca.  Morto Luís XV, ele seria rei.  Curioso foi descobrir, graças ao filme, que Filipe V da Espanha, sobre quem eu tinha lido muito pouco, não tinha aceitado passivamente a perda do trono francês.  
O Rei Filipe V teve em Lambert Wilson um grande intérprete
 e é uma das melhores coisas do filme.
Para quem não lembra, ou não estudou na escola, e vou tentar não me estender, o trono espanhol ficou vago, o último rei Habsburgo do país, Carlos II (1661-1700), apontou o sobrinho, Filipe, segundo neto de Luís XIV, como herdeiro.  Obviamente, Inglaterra, o sacro Império Romano Germânico (*que tinha outro candidato*), a Holanda, Portugal, não aceitariam uma união entre as coroas francesa e espanhola.  O resultado foi a Guerra de Sucessão ao Trono de Espanha (1701-1714).  Pelos Tratados de Utretch, Filipe V reinaria na Espanha, mas teria que abrir mão do seu direito ao trono francês.  Tecnicamente, ele não poderia preterir o trono, mas foi à guerra na Itália para tentar sua sorte.  E uma personagem considerada importante nessa história, é sua segunda esposa, Elisabeth Farnese (Maya Sansa).

A rainha Elisabeth Farnese está presente em praticamente todas as cenas com o rei espanhol, mas não fica marcado no filme a sua importância política e ascendência sobre ele.  Fica evidente, no filme, que ela não gostou da nora, Luísa Elisabeth, mas o fato é que a adolescente não fez questão de agradar.  Poderiam ter dado espaço para as ações da sogra contra a nora, mas não o fizeram.  Estou pontuando isso, porque foram chances perdidas de tornar o filme, que é bem fragmentado, mais interessante.
A família real espanhola.
Falando em Luísa Elisabeth, escolheram uma atriz muito madura para o papel da menina de 12 anos.  Na verdade, houve um descaso com algo muito importante, marcar as idades, o tempo passa e todos – Ana Maria Vitória, Luís XV, Luís I, Luísa Elisabeth – continuam com a mesma aparência.  Luísa Elisabeth chegou na Espanha em 1722 e foi devolvida, viúva, em 1725.  No filme, seu comportamento lembra o das caricaturas modernas de adolescentes, ela não gostava de nada, não tinha objetivo algum, e sentia particular prazer em afrontar a corte espanhola.  A garota passou a infância em um convento, mas nada é dito sobre isso, ou o choque de ser arrancada de lá para receber a notícia de um casamento precoce e (*quase*) imediato.  Nada!  

Ora, se pegarmos fontes paralelas ao filme, o que encontramos é uma recepção fria, Luísa Elisabeth não foi saudada como a jovem Mariana Vitória, uma sogra que desgostou dela desde o primeiro momento, um rei mentalmente instável (*isso o filme mostra bem*) e um marido absolutamente imaturo e assujeitado aos pais, confessores, professores, todo mundo.  Li o artigo da Wikipedia em inglês (*que é mais rico que a versão francesa*) e é descrito que a menina tinha oscilações de humor e, talvez, fosse bipolar.  Ora, estava lúgubre, melancólica, silenciosa, ora, tinha acessos de euforia, corria pelos corredores do palácio gritando, tirava a roupa em público, saia em cavalgadas (*ela gostava de andar a cavalo e o filme nem faz menção a isso...*), subia em árvores.  Desconfiava da comida que lhe serviam, mas escondia alimentos, às vezes sujos, para comer depois.  Desenvolveu mania de limpar janelas com a própria roupa. 
La Quadra seduz a jovem princesa.
De tudo o que escreveram sobre ela, e foi muita coisa, afinal, era uma princesa estrangeira da qual a Espanha queria se livrar, o filme só mostra o desprezo para com o marido, que é todo paciência, breves cenas de melancolia (*ela foi arrancada de sua família aos DOZE ANOS!*), uma cena em que ela aparece comendo na igreja e abandonando uma missa e sua suposta homossexualidade.  Aqui, o filme parou para dar ampla atenção (*e está no livro, também*) para o caso entre uma das damas de companhia, chamada de La Quadra (Gwendolyn Gourvenec), e a princesa.  Na verdade, a mulher mais velha aproveitou-se da vulnerabilidade da menina, que não tinha experiência nenhuma na área afetiva, ou sexual.

Olha, uma das acusações mais comuns feitas a princesas estrangeiras, especialmente, quando demoravam a parir herdeiros, ou não eram vistas com simpatia, era de práticas lesbianas.  É tipo escolher o que a sociedade da época tinha de pior e lançar sobre a criatura.  Maria Antonieta foi acusada de ser lésbica e, ao mesmo tempo, de ter mil amantes homens.  É o vale tudo de atentar contra a honra de uma mulher e, claro, atingir a dos homens aos quais ela pertence.  Estabelecido isso, não há nada de empoderador, ou revolucionário, em acatar tais acusações sem provas evidentes.  É o mesmo que acreditar nas denúncias de incesto e bruxaria feitas contra Ana Bolena para se livrar dela.
Seria Luísa Elisabeth bipolar, ou,
simplesmente, uma princesa rebelde?
Agora, depois que o marido de Luísa Elisabeth se torna rei, depois que o sogro doidinho renuncia, é criada uma situação de romance entre o jovem príncipe, de quem a gente é levado a ter pena, e a esposa.  Ela estava encarcerada (*no filme, por ordem dos sogros, afinal, o marido é bonzinho*), suas damas lhe são retiradas, e, agora rei, Luís manda soltá-la.  Subitamente, por este ato de rebeldia contra os pais, ele ganha ares galantes aos olhos da esposa e Luísa Elisabeth passa a se esforçar por amá-lo, gostar do que ele gosta.  

O casamento por fim é consumado com sucesso (*lesbianismo é passatempo, vocês sabem...*) e tudo parecia estar indo bem até que o garoto pega varíola.  E, algo que me irritou, a Wikipedia fala que Luísa Elisabeth ficou ao lado do marido o tempo inteiro, mostrando-se amorosa e prestativa.  No filme, ela é trancada à força com ele e não mandam médicos para atender o rei.  Difícil acreditar que isso tenha bases históricas, por mais alucinadas e arcaicas que fosse a etiqueta da corte espanhola, acredito ser impossível que se deixasse um monarca morrer sem atendimento, ou apoio de médicos e criados.
O Duque de Orleans poderia ter rendido um excelente vilão.
Voltando para a França, e o filme vai e volta o tempo inteiro, o que vemos é um Luís XV fraco, um menino acuado pelos seus ministros, primeiro refém do Duque de Órleans e, mais tarde, aturando o Louis Henri de Bourbon, Duque de Bourbon e Príncipe Condé (Thomas Mustin), que assume como regente, segundo o filme, quase que por inércia do jovem monarca.  O Duque de Bourbon era, desde que a ideia surgiu, contra o casamento espanhol e é a única criatura em cena que hostiliza a rainha-criança, que a ofende e maltrata.  O ator me lembrou muito o Fábio Porchat, olhando as fotos, não parece, mas em cena são iguaizinhos. O Condé de Mustin é cheio de tiques, exagerado, afetado.  Obcecado pela ideia do rei anular o casamento e cheio das insinuações sexuais para ver se o menino entendia suas obrigações.  

Agora, curioso é que introduzem, e não sei se baseado em um evento histórico, ou não, o tema da homossexualidade de novo, pois além de obcecado pela ideia da morte, o jovem rei parece incerto de sua orientação sexual.  Para completar, dois dos jovens nobres de seu séquito são pegos no ato e exilados da corte, ou sei lá. Nada é explicado corretamente, nem se sustenta muito que o jovem rei tenha sido mantido em castidade.  Há toda uma tensão sexual, na forma como são mostradas a necessidade de Luís XV e seu primo espanhol de esperar que suas noivas estejam prontas para consumar o casamento.  Agora, uma coisa é a repressão sexual que o filme mostra na Espanha, outra é o ambiente muito mais aberto da corte francesa.
O mais à esquerda é Condé.
Nunca li uma biografia de Luís XV para saber quando teve suas primeiras mantes, mas sei que o bisavô dele, Luís XIV, teve suas primeiras amantes aos 12, 13 anos.  É sabido, também, que o Rei Sol virou um carola no fim da vida e “sossegou” por assim dizer, talvez, isso tenha tido impacto sobre a criação dos netos e do bisneto.  Agora, Luís XV, por sua vez, será lembrado pelas muitas favoritas que teve e por ser tudo, menos fiel a sua futura rainha, Maria Leszczyńska.  Então, por qual motivo Condé, que em tela parece ser meio devasso, que promove jantares com o rei com a presença de mulheres de “má fama”, não foi capaz de arranjar uma prostituta, ou mesmo uma donzela, para colocar na cama do jovem príncipe?

Voltando à Condé, dava nervoso quando ele entrava em cena, porque ele nunca tinha nada de útil politicamente a dizer.  Era uma caricatura.  A única vez, e como tudo no filme não há desenvolvimento, em que ele faz alguma ponderação sobre questões de Estado é quando questiona o excesso de liberalidade do Duque de Orléans, que tinha suspendido a censura e dado poder ao parlamento.  Mas fica aí, a função do sujeito é fazer caras e bocas e azucrinar o jovem rei para que ele aceite um processo de anulação de seu casamento.
Quem seria capaz de maltratar uma criança fofinha como essa.
Falando da pequena Mariana Vitória, a relação dela com o jovem rei é pautada pela estranheza desde o início.  Um pré-adolescente aceita desposar uma menina de quatro anos, uma criaturinha amorosa e que cumpre com seu dever, aceitando a separação e sua nova condição sem reclamar, mas que sabe do abismo que existe entre eles.  A afeição que poderia surgir da parte do garoto seria a mesma que por um animalzinho de estimação, ou uma irmã caçula, só que nada acontece em parte por timidez do garoto, em parte, porque o jovem rei é mantido afastado da esposa-criança.  Fora que, desde o início, há uma nota de ciúmes, já que a pequena herda a governanta do rei, que ele mesmo chamava de “mamãe” Ventadour.

A atriz Juliane Lepoureau, que interpreta a rainha-criança, é fofa ao extremo, mas está interpretando uma criança que tem metade de sua idade. Seria muito complicado, impossível, eu diria, conseguir que uma criança de quatro ou cinco anos fizesse o papel de Mariana Vitória.  Ela não tem muitas falas no início, mas tem que atuar e vestir roupas pesadas, agora, conforme o tempo passa, a jovem atriz passa a ter algumas cenas importantes e falas um pouco mais complexas.  E ela se sai muito bem, mas apesar do filme ser sobre ela, a criança é mais um objeto da ação do que um agente.  Os adultos, Luís XV, são mais importantes para o andamento da história do que a criança cuja função e, na maioria das cenas, parecer e ser uma gracinha.
Cabelos absolutamente fora do padrão.
Já terminando, porque escrevi demais e fiquei o dia inteiro indo e vindo nessa resenha, preciso comentar uma cena chave, e que dá o nome ao filme, a troca das princesas na Ilha dos Faisões (Île des Faisans).  Este era o lugar onde outras princesas foram trocadas antes e fica bem na fronteira da França com a Espanha.   Mariana Vitória e Luísa Elisabeth chegou à ilha em 9 de janeiro de 1722.  Tiveram que se despir de tudo o que era de seu país de origem, tal e qual é mostrado no filme Maria Antonieta, ou na Rosa de Versalhes, e trocaram de lado, com cortesãos dos respectivos países sobre tapeçarias de cores distintas.  A coisa lembrava até um tabuleiro de xadrez.  O lado francês com cores iluminadas, o espanhol com cores mais escuras.

Falando no figurino do filme, não posso julgar o rigor da reconstituição das roupas, estou longe de ser uma especialista como as moças do Frock Flicks, que já apontaram vários defeitos só de olhar o trailer, mas o filme me passou um ar de pobreza.  O tempo passa, anos, a marcação é feita por letreiramentos (*ARGH!*), e, por exemplo, o rei Luís XV aparece usando o mesmo casaco de caça com aplicação de peles por três vezes em anos diferentes.  Parece que nem se deram ao trabalho de fazer uma segunda roupa e mesmo que fosse a favorita do príncipe, ele está em idade de crescimento, mas não cresce, claro, continua com cara de menino do início ao fim da película.  
Quadros das princesas, compare com os cabelos do filme.
Agora, se não posso julgar as roupas, sei bem que os cabelos estão ruins.  Algumas perucas masculinas são espetaculares, mas, na maioria das vezes, o cabelo dos homens são naturais, assim como o das mulheres, e parece desgrenhado. Ninguém aparece com os cabelos empoados e as meninas-rainhas andam até com o cabelo solto.  Deem uma olhada nos quadros de época e ficará evidente a falta de cuidado do filme com a questão.  O filme pontua muito baixo nesse quesito e se tem uma coisa que me irrita em filmes e seriados de época é anacronismo em relação aos cabelos.  Posso relevar, mas esse filme abusou muito.  Maquiagem, a gente entende, cabelo esculhambado, não.

Que mais?  Algo importante, o casamento não foi duplo, deveria ser triplo, quando Luísa Elisabeth parte para a Espanha, sua irmã, Philippine Élisabeth, a neta favorita da Prinesa Palatina, vai junto com ela com o intuito de se tornar noiva do infante Carlos. A menina, que tem cinco anos, acaba sendo melhor acolhida e se mostra mais amável que Luísa Elisabeth, ainda assim, o casamento não se realiza, talvez por retaliação, e ela é devolvida em 1728.  A esperança de que o casamento pudesse se concretizar, o esforço de sua mãe, a duquesa viúva de Orleans, se estende até o fim da vida da princesa, em 1734, aos 19 anos, de varíola.  Philippine Élisabeth não é citada no filme, talvez para simplificar as coisas, por assim dizer.  De resto, o filme tomou algumas liberdades, é um filme, não um livro de História.  O que questiono sempre é que tipo de liberdades e com quais efeitos para a compreensão da obra, ou das personagens históricas envolvidas e, em especial, qual o impacto para a leitura do papel das mulheres.
A pintura desse famoso quadro é mostrada no filme.
E qual foi o destino das princesas?  Mariana Vitória foi devolvida à Espanha, mas terminou se casando com o rei de Portugal.  Ela foi a mãe de D. Maria I e, portanto, avó de D. Pedro I.  Já Luísa Elisabeth retornou para a França, aos quinze anos, humilhada e, por conta de alguma manobra de Filipe V, sem direito a sua pensão como rainha viúva da Espanha.  Não li em nenhum lugar que tenha tido varíola, algo mostrado no filme, mas foi proibida pelo rei, Luís XV, de frequentar a corte.  Passou a viver em  château de Vincennes, mais tarde, no palácio de Luxembourg. Morreu esquecida até pelos membros de sua família com 32 anos. 

Fechando, não acredito que precise dizer, mas digo assim mesmo, o filme cumpre a Bechdel Rule.  Apesar de focar mais nos homens do que deveria, Troca de Rainhas passa uma mensagem feminista que é a crítica ao uso das mulheres como moeda de troca entre Estados.  Chantal Thomas, a autora do livro (*edição em inglês, em francês, só achei audiobook no Amazon e não encontrei na Livraria Cultura*), escreveu, também, Les Adieux à la reine, que virou filme em 2012.  Eu resenhei para o blog e o considero melhor que Troca de Rainhas.  O filme poderia ser melhor, muito melhor, entretanto, e eu daria três estrelas de cinco.  Aproveitei a oportunidade para ver no cinema, mas acredito que teria sido melhor ver em casa, porque o filme parecia bem promissor e entregou muito pouco.


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