sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Novelando: Meu Último texto sobre Orgulho & Paixão, porque promessa é dívida!

O casal mais fofo.
Faz mais de um mês que terminou Orgulho & Paixão e com tanta loucura acontecendo nesse país, eu ainda fiquei doente e acabei protelando meus dois prometidos textos.  Perdoem-me, mas vai ser só um mesmo, este.  Comecei e parei de escrever várias vezes, deveria ter publicado na segunda, mas minha filha está doente (*pneumonia e sinusite*) e não tive como organizar ideias e escrever algo mais complexo.  Enfim, vou fazer um mistura das duas coisas que queria comentar.  A primeira, quais os casais - fora Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Müller), claro - que foram o maior destaque da novela.  A segunda, em que a novela se destacou e deixou como boa mensagem em um momento tão triste quanto o nosso.  Não sei se alguém, nessa altura do campeonato, irá se importar com esse texto, mas, neste caso, promessa é dívida e fica no arquivo, um dia, talvez, alguém passando por aqui, termine lendo.  Vai saber?

Os Melhores Casais da Novela


O melhor casamento da novela.
fiz um texto comentando por quais motivos acredito que Darcy (Thiago Lacerda) e Elisabeta (Nathalia Dill) não foram, por assim dizer, o casal da novela, que terminou atrapalhado pelo ritmo acelerado do início da novela, como se fosse urgente juntá-los logo.  Faltou orgulho, faltou preconceito, logo, eles se acertaram rápido demais com o agravante de não terem nenhum obstáculo realmente sério, ou construído como tal dentro da trama, a vencer.  Por conta disso, acredito que os três melhores casais (*hetero*) da novela foram Ema (Agatha Moreira) e Ernesto (Rodrigo Simas), Julieta (Gabriela Duarte) e Aurélio (Marcelo Farias), Mariana (Chandelly Braz) e Brandão (Malvino Salvador).

O caso de Ema e Ernesto quase resultou naquele clássico roubo de protagonismo que termina por anular quem deveria ser o centro da história, porque enquanto o casal principal da novela não conseguia mobilizar a audiência, a baronesinha e o carcamano se tornaram quase que um xodó de quem assistia a Orgulho & Paixão.  Fora isso, e também já comentei antes, o planejamento de seguir o original e juntar Ema e Jorge (Murilo Rosa) foi abandonado rapidamente. Em certo sentido, foi interessante, porque já teríamos um romance entre uma moça muito mais jovem e um homem mais velho, Mariana e Brandão, ainda que ambos os casais fossem cânon austeniano, por assim dizer, mas a novela era livremente inspirada e, não, uma adaptação cuja proposta era se manter próxima dos originais.

Ema se apaixona por Ernesto e solta os
cabelos, se liberta de muitas convenções.
Agatha Moreira é muito boa atriz, não lembro dela ter se saído mal em papel algum, curiosamente, sua Ema era muito mais próxima em comportamentos gerais da original de Jane Austen do que as outras mocinhas principais da trama, neste caso, Elisabeta e Mariana.  Claro, a Ema da literatura era rica e nunca empobreceu, casou-se com um homem de sua classe social, mas o seu caráter espevitado, sua alegria e bom humor, a necessidade de arrumar a vida de todo mundo, estavam lá.  Na novela, ela precisou romper com seus preconceitos de classe, ao descobrir que está apaixonada por um homem pobre e muito diferente do que foi sonhado para ela, um obstáculo real e que foi trabalhado de forma decente.

Ernesto começou um chato e achei que ele iria ser uma personagem com discurso político panfletário e bem artificial, acabou não sendo, seu viés político foi sendo esvaziado, na verdade, e ele se aburguesou.  Ruim?  Bom?  Acontece.  Mesmo antes da novela chegar ao fim, eu sabia que ele terminaria prefeito e terminou mesmo.  Bem no começo, houve um teste dele com Elisabeta, não convenceu de forma alguma.  Ele combinou com Ema e, acredito, a presença dele foi um dos motivos pelos quais a personagem de Ary Fontoura não morreu no meio da novela, como planejado.  


"Muralhas de Jericó".
Como em algum momento pontuou o Nilson Teixeira, acho que foi no Twitter, não em um texto específico, Ema e Ernesto viraram quase um sitcom dentro da novela.  Isso foi bom na maioria do tempo, houve até do recurso das “Muralhas de Jericó” que eu tinha visto em "It Happened One Night", com Clark Gable e Claudette Colbert, se bem que foi usado em outros filmes, pois Ema era uma das poucas mocinhas que se recusava a transar antes do casamento.  Só que perigou ser cansativo em determinados momentos, aquela temporada dos dois escondidos na praia, por exemplo, foi meio longa demais.  Acredito que só se salvou a situação, porque os atores eram realmente muito simpáticos.  Resumindo, Ema e Ernesto foram o casal fofura da trama, apesar de Jorge ter ficado largado.  E eu torcia muito por Jorge no começo da novela.  Muito mesmo.

O segundo casal interessante da novela, claro, foram Julieta e Aurélio, o casal maduro cujo romance foi desenvolvido com a lentidão e atenção que os protagonistas não receberam.  Não foi uma história perfeita, mas foi legal ver a relação dos dois sendo construída e levando a gente a se questionar sobre qual seria o problema de Julieta, o motivo dela recusar o afeto de Aurélio, usar sempre preto, fugir de qualquer relação mais íntima.  Ela não era má, a gente entendeu isso de saída, mas era cheia de rancores.  Qual seria a origem deles?  A frieza não era frigidez, havia medo e traumas a vencer.  

Espinhos para o marido, mistério revelado
já na metade final da trama.
A violência conjugal, a origem da rigidez de Julieta, que era incapaz inclusive de esboçar gestos de carinho em relação ao filho, era algo comum, não podemos esquecer, e se você não sabe, eu explico, que estupro marital não é algo fácil de caracterizar.  A ideia de que uma mulher deveria “servir” ao marido era corrente até alguns anos atrás, não era coisa de Coronel Jesuíno de Gabriela, e há quem concorde com isso até nossos dias.  Casou para quê?  Enfim, Marcos Bernstein fez um trabalho de reflexão a respeito mostrando como a paciência de Aurélio foi fundamental para fechar as feridas da amada.  Eu acredito mesmo que foi feita uma analogia entre o cuidado que ele tinha com os cavalos doentes e o cuidado que teve com a mulher ferida.  Aliás, eles se aproximaram de verdade por causa dos bichos e de Ema, se bem me recordo.

Falando das imperfeições, acredito que eles terem ido morar juntos sem serem casados foi um dos piores anacronismos que o autor cometeu entre as tantas liberdades que foram tomadas e que não ajudou no andamento geral da história.  Não houve disse-me-disse, não houve rejeição por parte da sociedade, ou mesmo qualquer crítica.  Eles deveriam ter se casado e, depois, ido para a mesma casa, poderiam ter mantido o romance em segredo, ou o que seja, mas, e já sinalizei, foram tantos anacronismos na novela, que não faz diferença, eu acho.  Por exemplo, um recorrente, era ninguém usar luto depois de um funeral, ou Julieta com os cabelos soltos e aquele figurino estranho no último capítulo da trama.  OK, a gente acabou relevando os dois amasiados e continuou gostando dos deles, mas faltou um pouco de tato nesse aspecto.  

Julieta e Aurélio não se entenderam muito bem no começo.
De resto, tanto Gabriela Duarte, quanto Marcelo Farias me surpreenderam. Nunca os considerei grandes atores, via ambos como inexpressivos, e eles sempre estiveram à sombra de seus pais (Reginaldo Farias e Regina Duarte), mas se mostraram muito competentes nesta novela e trabalhando juntos depois de um bom tempo.  O papel certo, um texto inspirado, a química entre os intérpretes de um casal, podem fazer a diferença.  Nesse caso, fez toda e muita gente esqueceu o quanto odiava Gabriela Duarte do tempo em que ela fazia as mocinhas e torceu pela mulher madura que tentava reconstruir sua vida e foi se humanizando aos poucos.  Enfim, Orgulho & Paixão teve casais de todo o tipo, Aurélio e Julieta representaram o tipo maduro, por assim dizer.

E chegamos em Mariana e Brandão. Se vocês pegarem meus primeiros textos sobre a novela, antes mesmo dela estrear, vão ver que reclamei um monte da escalação de Malvino Salvador como o Coronel Brandão.  Ver o melancólico e sensível Coronel Brandon de Austen transformado em um sujeito obcecado por exercícios físicos e boa forma (*lembram do início da novela?*), todo certinho no seu papel de autoridade e por traz dos panos dando uma de vingador mascarado me fez torcer o nariz.  Fora isso, ele ainda ficou – só no início da trama, vejam bem – chorando as pitangas com Jorge por causa do amor por Mariana.  Problema dois, Mariana deveria ser muito mais jovem que Brandão, daí parte do impedimento da parte dele e do desprezo da mocinha, mas Chandelly Braz, com seus 33 anos, não parecia ser tão mais nova assim que o ator de 42 anos.  Não parecia mesmo.

O início dese casal foi meio atribulado e equivocado, eu diria.
O fato é que eu não apostava nada nesse casal, não gostava deles no início das novela, mas ele se tornou o meu favorito na trama.  O início, com a correria tola para que Mariana fosse para a cama com Uirapuru (Bruno Gissoni) para terminar abandonada e o fato dela ser uma mocinha irritante (*eu não gosto muito da original, também*), não ajudaram muito.  Daí, Mariana se descobre apaixonada por Brandão e é rechaçada por ele, que vivia atrás dela, sem motivo algum.  Marcos Bernstein, aliás, não corrigiu isso, porque a trama de Josephine (Christine Fernandes), o relacionamento com a mulher casada e a culpa que ele sentia, não casa com o comportamento de Brandão no início da trama, de atirado à retraído e mesmo lamentando amar Mariana por se considerar indigno dela.  Enfim, mas eis que, talvez pela interação com Luccino e a trama louca do Mário, a da identidade secreta da mocinha, a coisa começou a funcionar comigo.  

A história da garota travestida é um clichê, já falei dele várias vezes, já fiz até capítulo de livro discutindo as garotas-príncipe dos mangás.  A graça é que o absurdo – porque Luccino ensina Mariana a ser homem e se apaixona pelo rapaz que criou – da trama me cativou.  Ver Brandão confuso em relação aos sentimentos dele pelo moço, que era moça, sua orientação sexual em questão, não pareceu forçado, mesmo sendo, e me peguei rindo com tudo aquilo em um momento no qual é muito, muito difícil rir de alguma coisa.  E eu respeito uma história quando ela me provoca o riso, ou as lágrimas. Enfim, toda a situação do Mário, o triângulo com Luccino e Brandão tinha algo de ridículo e, ainda assim, deu certo.
Mariana amava o Motoqueiro Vermelho
sem saber que era Brandão.
E Mariana, que começou disputando o posto de irmã mais chata com Lídia (Bruna Griphao), se tornou a minha Benedito favorita.  A graça é que ela ainda virou uma fujoshi (*quer saber o que é isso, clique aqui*) modelo ao ficar shippando Luccino e Otávio.  E, no fim das contas, Mariana e Brandão tiveram seus obstáculos a vencer, coisa que os protagonistas oficiais da novela não enfrentaram de verdade, passaram por ajustes em suas personalidades.  Ela amadureceu um tanto, ele superou alguns preconceitos e receios.  Não foi tudo perfeito, seja pelo começo meia boca dos dois na novela, seja, porque Bernstein cometeu lá os seus equívocos na construção de uma mocinha empoderada.  Já escrevi sobre isso em outro texto, o último sobre Sinhá Moça, então, dê uma olhada lá, por favor.

É isso, meus três casais favoritos.  Gostava do Rômulo (Marcos Pitombo) e da Cecília (Anajú Dorigon), também, claro, mas eles eram tão doces que enjoava às vezes e, claro, não tiveram obstáculos a superar, tudo foi muito, muito rápido.  Aliás, uma das doideiras da novela, e nem se trata de anacronismo, é bobagem mesmo, é que as pessoas decidiam casar em uma semana e tudo bem.  Gente, há trâmites a cumprir e no caso do casamento católico, precisava correr proclamas, a comunidade precisava estar ciente de que fulano e fulana iriam se casar.  Hoje, o prazo são três domingos com o documento afixado na paróquia do noivo e da noiva.  Ninguém casava na igreja em menos de um mês, então, poucas coisas me irritaram tanto na novela quanto essa história de vamos casar e é agora.  Deixa estar, alguém pode dizer, afinal, a novela falava do passado para falar do presente, mas, neste caso, a coisa não valia nem em nossos dias.

Sororidade, Empoderamento, Merchandising Social 


A sororidade marcou a relação entre as irmãs.
Enfim, por quais motivos lembraremos de Orgulho & Paixão, para além de usar os livros de Jane Austen como base?  Primeira coisa, lembraremos da novela por causa de Lucicno e Otávio, daqui muitos anos, alguém dirá que foi o primeiro beijo homoafetivo em uma novela das seis e talvez muita gente diga que eles foram o melhor casal gay em uma novela brasileira até 2018.  Como podemos mergulhar anos em uma situação de censura, ou autocensura por parte das emissoras, serão por muito tempo o melhor, eu garanto.  No entanto, vamos um pouco além, acredito que a novela se destacou por três pontos:

1. Sororidade: Em Orgulho & Paixão, as mulheres eram, na maioria do tempo, solidárias umas com as outras, esta é a ideia de sororidade a qual me refiro.  Esse clima de mulheres que se apoiam, começando dentro do núcleo das irmãs Benedito, rendeu muitas cenas e diálogos para aquecer o nosso coração e repensar a forma como lidamos com nossas semelhantes e problemas.  Faltava conflito em alguns momentos, concordo, mas vivemos em uma cultura na qual as mulheres são estimuladas a disputarem umas com as outras, especialmente, por causa de homem, a diminuírem umas às outras.  A novela mostrou mulheres que se ajudavam, que se queriam bem, que brigavam, às vezes, mas faziam as pazes e saiam fortalecidas.  Lembrou, em certa medida, O Sorriso de Monalisa.

A mais bela amizade da trama. 
A amizade entre Ema e Elisabeta, especialmente, foi bonita e verdadeira assim como muitas amizades assim na vida real.  Eu tenho uma amiga de vida toda, em quem posso confiar, apesar de nossas diferenças.  Fora isso, as irmãs que se apoiavam e a empatia que as mulheres da trama tinham umas para com as outras deu o tom da obra.  Até Julieta mostrava empatia por suas semelhantes, mesmo quando ainda era uma personagem hostil.  Mesmo que não engula Fani (Tammy Di Calafiori), já falei sobre isso, e ache sua vingança exagerada e incoerente ao atingir Cecilia da forma como atingiu, ali, na relação entre as duas, prevaleceu, também a boa vontade entre mulheres e a compreensão de que em um mundo de homens, nós precisamos nos ajudar e tentar nos compreender.  

Exatamente por conta desse tom que marcou toda a obra, a personagem de Lady Margareth pareceu tão exagerada e absurda.  Era uma vilã fora do tom, porque seu ódio intenso e seu desprezo por todos não aprecia se sustentar sobre bases muito sólidas, e destoava desse clima feliz, sim, mas no bom sentido, e de solidariedade entre as mulheres.  Uma amiga, que não está acostumada com essas vilãs exageradas, reclamou que a presença da megera quebrava o clima de sororidade de uma novela que caminhava em um passo bem slice of life, por assim dizer.  Eu lhe dou certa razão.  Enfim, a novela pode ser lembrada por mandar essa mensagem, mulheres podem ser amigas e podem e devem se ajudar e tentar se compreender.
Julieta sofria calada e descontava sua dor em outras pessoas.
2. Empoderamento: Outra palavra da moda que está muito ligada à novela, claro.  As mulheres foram as principais empoderadas.  Desde a mocinha que conseguiu sair do seu mundo limitado, amadurecer e ganhar asas, passando por Ema que de menina rica e mimada terminou se tornando uma mulher completa e terminando com Julieta superando seus traumas, praticamente toda personagem feminina da trama se empoderou de alguma forma.  Claro, Lídia continuou Lídia, já foi agraciada com um final feliz que não tinha no livro, aliás.  Ofélia começou e terminou a trama quase da mesma forma.  Só que salvo por uma ou outra personagem, especialmente as femininas, se empoderaram de alguma forma, cresceram e tomaram posição diante do mundo e venceram seus temores e preconceitos.

Ema é um dos casos mais importantes, porque ela representava valores conservadores.  Queria viver para o lar e terminou descobrindo novas possibilidades, encontrou o amor, claro, é novela, mas conseguiu desenvolver outras potencialidades sem culpa e vando isso como positivo.  Mariana foi outra que amadureceu e conseguiu se posicionar diante do mundo de forma corajosa e sendo ela mesma, vide seu casamento, o melhor da trama.  Como todo mundo acabava se ajudando, estou falando das personagens boas, claro, ninguém se fortaleceu sozinho.  Sororidade ou solidariedade, se você não é mulher, ajuda no empoderamento. E quem se empodera acaba, também, empoderando outros e, assim, conseguimos produzir um mundo melhor.  

Xevier era mais que machista, ele era
misógino e violento com as mulheres.
3. Merchandising Social: Houve muitos em Orgulho & Paixão desde a questão da crítica à violência contra às mulheres, com direito à mensagem no fim de alguns capítulos, até a ênfase nos direitos dos homossexuais de serem respeitados na sua diferença.  Pequenas mensagens eram colocadas aqui e ali normalmente sem resvalar em um tom panfletário, ou naquele discurso que parecia ensaiado.  Nem tudo foi orgânico, claro.  Januário (Sílvio Guindane) tinha textos muito mais inspirados no início da trama para expor o racismo do que no final, quando a personagem se tornou meio chatinha, por exemplo.  O tom de Elisabeta era deveras exagerado em alguns momentos, eu sei, mas, no geral, Marcos Bernstein e sua equipe trabalharam bem.

Uma das questões era sobre o lugar das mulheres. Mariana é inquirida por Otávio sobre os motivos de se vestir de homem.  Ela diz que não quer ser um homem, mas quer fazer coisas que os homens e a sociedade não permitem às mulheres.  Coisas, claro, que ela, ou qualquer mulher, poderiam fazer tão bem como qualquer homem.  Convenções sociais.  Será que o mundo precisa ser desse jeito?  Há algo de natural na forma como a sociedade organiza os papéis de gênero?  Coisa de menino, ou de menina?  Mariana, aliás, era uma moça vaidosa e, ao mesmo tempo, adorava aventura e atividades que eram vistas como pouco apropriadas para uma mulher.  Há problema nisso?  Não.  A gente precisa é ser feliz.  E o pedido de desculpar de Ofélia (Vera Holtz) à filha mais velha, Elsiabeta, no último capítulo, por tê-la castrado nas suas possibilidades e ambições, foi outro dos pontos altos da novela.

Um dia?  Quem sabe?
Otávio diz para Luccino que chegará um dia em que não precisarão ter medo, em que pessoas como eles poderão dançar em público.  A gente vê e entende, porque homofobia é um problema concreto em nossos dias. Houve, também, o melhor diálogo explicativo sobre o que é privilégio hetero que eu já vi na minha vida.  Só não entendeu, quem não quis.  Como aprendemos a gostar das personagens, ter empatia por eles, talvez até uma pessoa homofóbica seja capaz de refletir e, quem sabe, rever alguma de suas posições.  E acredito que a Globo permitiu que a relação dos dois fosse colocada em uma novela das seis antecipando que questões assim não poderão ser tratadas no futuro, talvez em nenhum horário.  Foi bem pedagógico, eu diria, além de bonito.

E Julieta?  Através dela discutiu-se abuso sexual e violência no casamento.  Um dia as leis vão mudar, acho que algo assim foi dito em um capítulo.  Bem, em 1910-12, período da novela, uma esposa era quase propriedade do marido, seus bens pertenciam ao cônjuge, em caso de separação (*que não permitia recasamento*), a guarda dos filhos ficava com o pai.  Era um mundo duro para as mulheres.  Mudou bastante.  Mudou o suficiente?  Podemos atrasar ainda mais as mudanças elegendo o presidente "errado" no domingo.  Daí, é lamentável que Marcos Bernstein não tenha desenvolvido um pouco mais a história de Josephine.  Ela era abusada, também?  Qual era a relação dela com o marido de verdade?  Há diferença entre mistério e dubiedade e uma história mal contada.
O maior pecado de uma mulher?  Ser uma péssima mãe, claro!
Assim, um dos calcanhares de Aquiles da trama foi a forma como o autor tratou a maternidade.  Já pincelei isso, claro, mas é que acabou entrando em contradição com o olhar feminista que foi lançado sobre uma série de discussões. Cecília era assujeitada pela ideia de ser mãe.  Acabou que Marcos Bernstein meio que confirmou a esterilidade dela, ou do marido.  Amélia (Letícia Persiles), que nunca teve função real na trama, sacrificou-se pela maternidade, valia a pena morrer por isso e ela morreu mesmo.  Josephine não tinha perdão, porque acima de tudo ela era uma péssima mãe, uma egoísta que colocava sua felicidade pessoal acima dos filhos.  

Ludmila (Laila Zaid), a feminista mais feminista da trama, ficou no impasse e eu gosto muito da personagem e do trabalho que a atriz fez.  Terminou não sendo mãe, claro, mas a história dela com Januário foi meio jogada no final.  Foi o único caso em que desejei que uma personagem anunciasse uma gravidez de último capítulo.  “Decidimos tentar.  Estamos grávidos.”  Poderia ter sido legal isso, mostrar mudança de posições, quem sabe?  Ou poderia ficar do mesmo jeito, um casal sem filhos por opção, mas com um trabalho menos preguiçoso da parte do autor.  Eles apareceram no último capítulo, mas se não tivessem, não faria diferença.

Amor e casamento não combinavam para Fani.
E, por fim, a defesa do direito ao prazer sexual feminino sem culpa.  Algo que é tabu até hoje e que incomodou muita gente.  “Em 1910, não era assim!”  Curiosamente, as pessoas não se preocupam com outros anacronismos, mas se preocupam quando uma mulher faz sexo por opção, com o cara que ela escolheu, sem estar dentro de um casamento, e se sente feliz e realizada.  Claro, o autor poderia ter dosado melhor.  Todas, ou quase todas as mulheres, porque temos Jane e Cecília eram bem conservadoras, por assim dizer, pareciam livres demais. 

E, não, Fani não era do grupo das moderninhas, ainda que muita gente pense que sim.  Recusar um casamento formalizado pode se dar por vários motivos, os dela eram o medo de perder o amor e, bem, esse sentimento era medieval, por assim dizer.  Há casos históricos de mulheres que recusaram o casamento, porque o matrimônio seria sinônimo de obrigação e o amor precisa de liberdade.  Tenho uma tia que chocou minha mãe quase trinta anos atrás ao defender essa ideia.  Minha tia dizia, que se seu companheiro casasse com ela, estariam juntos por obrigação, logo, o amor morreria.  

Elisabeta fazia sexo sem culpa om Darcy.  Horror!  Horror!
As mulheres são educadas para verem o casamento como coroamento do amor, ou uma forma de segurança perante a sociedade, como conforto materialmente, também, amar livremente é algo arriscado, mas essa recusa ao casamento da Fani, que surpreendeu muita gente, tinha mais a ver com um posicionamento crítico em relação aos matrimônios legítimos que ela viu do que uma forma de marcar posição sobre liberdade sexual feminina.  Ela não era Elisabeta, ela era uma moça que tinha visto muitos casais infelizes e atribuía ao papel passado diante do padre a fonte desses problemas.  Assim, meio como a minha tia sergipana.

É isso.  Não foi um texto inspirado.  Nem sei se alguém queria ler ainda sobre a novela, mas eu tinha que terminar o que me propus a fazer. E não falarei mais de Orgulho & Paixão.  Realmente, já deu.  Posso até voltar ao texto e corrigir alguma coisa, mas não há mais nada a escrever de verdade sobre a trama.

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