sábado, 20 de outubro de 2018

Resumo da entrevista de Chie Shinohara para o Comic Natalie dentro das comemorações dos 50 Anos da revista Sho-Comi


O Comic Natalie trouxe uma entrevista longa com Chie Shinohara dentro das comemorações dos 50 anos da revista Sho-Comi e, bem, quem vem aqui sabe que eu não sei japonês. eu quebro galho.  Só que como trata-se de uma das minhas mangá-kas do coração, eu fui lá tentar entender algumas coisas da conversa.  Espero que fique bom, porque fiquei bem umas duas horas nessa brincadeira.

1. Chie Shinohara gostava de trabalhar na Sho-Comi, porque ela tinha mais liberdade para criar.  Sugerir temas e histórias.  
10-gatsu no Shoujotachi. 
2. Shinohara é fã de Hagio Moto e ficava fascinada ao ler as obras da grande mestra na década de 1970.  Não que Shinohara quisesse fazer histórias como as de Hagio Moto, mas por ficar fascinada com a capacidade da mangá-ka em contar histórias dramáticas e profundas com capítulos curtos e poucos volumes.  Uma das séries que ela cita, além do Coração de Thomas (トーマの心臓), é 10-gatsu no Shoujotachi  (10月の少女たち), de 1971.  Shinohara normalmente faz séries mais longas 12 volumes para mais.
Yami no Purple Eye.
3. A seguir a autora fala de Yami no Purple Eye  (闇のパープル・アイ), de 1984, seu primeiro grande sucesso, pois sua estreia foi em 1981.  O mangá tem uma trama que lembra um pouco o filme A Marca da Pantera (Cat People) de 1982.  Enfim, pelo que depreendi, Shinohara diz que queria fazer alguma coisa que não fosse simplesmente um romance, então, ela fez um mangá que transita entre o suspense e o terror.  "Rinko é uma garota comum que nasceu com uma misteriosa marca de nascença no braço esquerdo. Mas quando essa marca começa a ficar mais escura, acidentes estranhos começam a acontecer em todos os lugares ao redor dela, envolvendo até mesmo as pessoas com quem ela se importa. O que a mágica poderosa que está despertando dentro de Rinko irá trazer?" E, bem, ela ganhou o Shogakukan Manga Award na categoria shoujo em 1987 por causa dele.  Yami no Purple Eye teve um OAV, que eu nunca consegui assistir, e um live action.  A autora fala da surpresa para ela, uma novata, de ver sua obra transposta para outras mídias e receber cartas de fãs.
Umi no Yami, Tsuki no Kage
na capa da Sho-Comi.
4. A entrevista começa a tratar de Umi no Yami, Tsuki no Kage (海の闇、月の影), de 1987.  Shinohara diz que a história foi feita a pedido do editor.  Como Yami no Purple Eye tinha sido um sucesso, ela deveria desenhar outro mangá de suspense e terror.  "Duas irmãs gêmeas contraem uma bactéria misteriosa em uma viagem e de repente ganham enorme poder. Uma irmã psicopata começa a tentar matar o outra porque ambas amam o mesmo homem, enquanto a outra irmã e seu namorado começaram a fugir enquanto outras pessoas se tornaram vítimas inocentes ..." Shinohara diz que estabeleceu que seria uma história em quatro volumes, o suficiente para construir a narrativa e as personagens e a narrativa em um ano de trabalho.  Foram 18 volumes e quatro anos de dedicação.  😁 Pelo que entendi, um dos vilões do mangá anterior de Shinohara será usado como o detonador do problema em Umi no Yami, Tsuki no Kage.  
Ryouko no Shinrei Jikenbo.
Na conversa, Shinohara comenta que publicou simultaneamente a série Ryouko no Shinrei Jikenbo (陵子の心霊事件簿) para a revista Ciao em 1988. Trata-se, também, de uma história de suspense/terror.  "Ryouko Midorikawa é uma garota em seu primeiro ano do ensino médio. Um dia, o gato que ela criou e amou por 15 anos, de repente morre. Embora Pow, o gato, odiasse água, ele morreu afogado. Ryouko está perdida em questões sobre a causa de sua morte. Mas a partir daquela noite, coisas terríveis começam a acontecer em todos os lugares ao redor dela!" A autora brinca que perguntou ao editor "Você quer algo desse tipo para uma revista como a Ciao?!"  Ele teria respondido: "Vamos tentar."  Shinohara comenta que a maior diferença das duas séries era o conteúdo sexual, UmiYami tinha muito, já Ryouko no Shinrei Jikenbo, para meninas do primário, principalmente, era bem leve.
Ao no Fuuin.
5. Chega o momento de falar de Ao no Fuuin (蒼の封印), que trabalha em cima da lenda dos quatro deuses, a mesma de Fushigi Yuugi, no mangá de Shinohara, a protagonista Soko, uma garota comum, é o próprio Souryo, o deus dragão, e condenada a provocar uma grande destruição.  Ela deve ser morta pela encarnação do deus  Byakko (*o tigre branco*), obviamente, ele o rapaz que deve cumprir a missão, cai de amores por ela.  Já a moça, não acredita que é um monstro, enfim... Mangá curto de Shinohara, só 11 volumes.  Começou a ser publicado em 1992.  Pelo que entendi, é uma das séries que a autora acredita que poderia ter feito melhor, que a história não foi desenvolvida de forma tão competente, apesar de belamente desenhada (*para quem gosta da arte de Shinohara, como eu*).
Yuuri e Kail, parceiros no amor e na guerra.
6. E chegamos em Anatolia Story (天は赤い河のほとり), a série mais longa de Shinohara com 28 volumes e que a mobilizou de 1995 até 2002.  Shinohara explica que ao começar este mangá, ela não sabia como ele se desenvolveria, mas que o último quadro do volume 28, as ruínas de Hattusas, capital dos hititas, já estava desenhada, porque a ideia veio quando ela viajou à Turquia.  
Kail em silhueta no capítulo 1.
A autora é perguntada sobre como ela conseguiu juntar tanta informação sobre o Império Hitita e eu diria não só, mas sobre as relações geopolíticas da época.  Daí, e lembrei de Riyoko Ikeda tentando convencer seus editores a fazer a Rosa de Versalhes  (ベルサイユのばら), ela diz que demorou OITO ANOS para conseguir convencer seu editor a permitir que ela fizesse um mangá histórico sobre os hititas.  "Shoujo mangá e hititas não combina.".  Pense em gente obtusa? Uma autora de grande sucesso e experiente sendo impedida de fazer um mangá que saísse do lugar comum. Como ela conseguiu que deixassem? Ao invés de uma moça do passado, pegou o clichê da garota que viaja no tempo contra sua vontade.  Recebeu sinal verde.  
Yuuri sempre corajosa, o avatar da deusa Ishtar.
Agora, dá para entender um pouco por qual motivos o fato de Yuuri ter vindo do futuro, ou mesmo a magia, não ter sido explorada de forma adequada no mangá.  Continuando, parece que com o correr da obra, até o editor interferiu dizendo que não queria que Yuuri voltasse para casa, ou ficasse indo e vindo, por isso, há quase uma ruptura, que é apontada pela entrevistadora, que é bem artificial, na minha opinião, já que a heroína praticamente esquece sua família,  e ninguém fala mais do Japão.  E Shinohara acaba dizendo que até a morte de Zananza (*Buáááá!*), ela não tinah se decidido quem seria o herói, se ele, ou Kail.  Só que, bem, e sou eu comentando, o Zananza histórico morria cedo mesmo, enfim... E seguindo a entrevista, ela confessa que planejou muito pouco e quando pensa sobre isso, ela diz para si mesma "Você é genial!" e ri.  enfim, podia ter dado tudo errado, mas funcionou, Shinohara.  Parabéns!  Daí, ela fala que como tinha que desenhar um capítulo por mês, ela não precisava se concentrar tanto, ou algo assim, mas que em seu mangá atual, Yume no Shizuku, Ougon no Torikago  (夢の雫、黄金の鳥籠), que sai a cada dois meses, ela não pode se distrair, ou faz besteira.  
Zananza vence a disputa e parte para o Egito como
noivo d
a viúva de Tutankamon, Ankhesenamun

Ele não chega ao seu destino.
Depois perguntam como ela construiu Kail, que ele é um príncipe real, não simplesmente um personagem tipo de shoujo mangá.  Shinohara então explica, se compreendi bem, que ela estimulou a imaginação das leitoras e não apresentou o rosto de Kail logo, ele aparece primeiro como uma silhueta, para somente mais adiante se mostrar por completo.  Peguei, aqui, o meu primeiro volume e vi que Kail não aparece no primeiro capítulo.  Nem lembrava mais que Yuuri tinha um namoradinho.  E quando Kail aparece, já quase na metade do capítulo 2, ele não mostra seu rosto de imediato, ele está coberto com uma capa.  
Yuuri e Kail.
Daí, a entrevistadora comenta que Yuuri e Kail foram eleitos pelas fãs da autora, em uma pesquisa comemorativa dos trinta anos de carreira de Shinohara, como o casal favorito de todas as suas séries.  É fácil de entender, eu diria... Daí, a entrevistadora fala da competência de Shinohara em desenhar cenas de amor, a mangá-ka completa dizendo que gosta de desenhar cenas de amor dinâmicas e cenas de batalha, também, da mesma forma.  Eu completo que o traço de Shinohara não é dos mais lindos, não é mesmo, mas em material de dinamismo, composição de cena, enfim, ela é uma das melhores de sua geração.  E ela sabe desenhar batalhas, coisa que, por exemplo, Fumi Yoshinaga, que é uma mangá-ka espetacular, não sabe fazer.
Anatolia Story do Takarazuka.
7.  Agora, ela fala do musical do Takarazuka.  Que se sentiu honrada e feliz por ver sua obra adaptada, que ela era fã do Takarazuka antes da adaptação, que riu e se emocionou, mesmo que a história original tenha sido encurtada para caber em 1h30 de espetáculo.  Daí, ela elogia o trabalho das atrizes, Hoshikaze Madoka (Yuuri), Makaze Suzuho (Kail), Serika Toa (Ramssés) e Aizuki Hikaru (Príncipe das Trevas). 
Zananza.
8. Entramos nos gaiden e a entrevistadora fala de emoção de ter algo novo de Anatolia para ler 16 anos depois.  Ela explica que foi convidada a desenhar um gaiden para o aniversário e que disseram que podia ser algo simples e rápido.  Shinohara diz então que lamentou ter desenhado a morte de Zananza de forma tão rápida e pouco sentimental e que, por isso, a escolha foi fácil.  E, bem, gostamos de Zananza, ela sabe.  Na época que eu estava lendo o mangá, encontrei uma fanfiction recontando o episódio que me levou às lágrimas.  Shinohara é uma malvada que mata gente muito boa com requintes de crueldade.  Daí, ela explica que o próximo gaiden, que saiu hoje e graças à Denise Bueno, eu já vi, porque nem sabia que ia ser lançado, é sobre Ramssés e aprofunda a rivalidade entre Kail e ele, seu nêmesis.  Ramssés é outro que a gente gosta, apesar de não torcer por ele.
O trio de protagonistas de
Yume no Shizuku, Ougon no Torikago.
9. E, por fim, Yume no Shizuku, Ougon no Torikago, trabalho atual de Shinohara, um josei mangá que é uma série histórico-biográfica centrada em Hürrem, a escrava russa, ou ucraniana, que foi parar no harém do sultão Suleimão, o magnífico, e conseguiu se tornar sua esposa legítima, mãe dos seus herdeiros e uma figura política central em sua época.  Shinohara ressalta que são poucas as mulheres a aparecerem nos livros de história sobre o Império Otomano e que a importância de Hürrem, ou Roxelana, pode ser medida pela quantidade de informação que temos sobre ela.  A entrevistadora comenta que é a primeira protagonista de Shinohara que não é uma garota de nossos dias.  A autora ressalta que apesar de ser uma mulher do passado, ela não perde de vista que trata-se de uma heroína de mangá feminino.  É preciso dialogar com as sensibilidades modernas, eu diria. 
Hürrem, ou Roxelana, figura central
do chamado Sultanato das Mulheres.
Shinohara também discute que Hürrem é uma heroína dúbia, com zonas cinzentas em sua personalidade.  Eu li o início do mangá, e li sobre Hürrem, enfim, ela tem que mentir, ela tem que conspirar, e ela terá que matar para garantir sua ascensão e sobrevivência, para proteger seus filhos.  Não é uma mocinha comum mesmo.  Shinohara explica, então, que o mais importante em seu mangá atual é a construção de personagens e que conversou com outros mangá-kas para saber como eles e elas fazem isso.  Já que falamos de Hürrem e Suleimão, acabei tropeçando nessa cena de uma novela turca, porque, bem, como não ter novela sobre essa mulher.  A atriz é linda, o homem é interessante, mas a cena é breguíssima.  Deem uma olhada.  Eu precisava dividir essa vergonha alheia.


10.  O que significa a Sho-Comi?  Qual o lugar dessa revista na história das publicações de mangá?  Essa parte ficou um tanto confusa para mim.  Ela fala, se entendi bem, que a Sho-Comi estava na vanguarda do shoujo mangá, que suas histórias eram dinâmicas e quentes, talvez no sentido sexual do termo.  e ela se diz feliz de fazer parte da história da publicação.  Shinohara fala que estreou junto com Chiho Saito (Shoujo Kakumei Utena) e Fuyumi Souryou (Mars), que são rivais, acredito que por competirem em sua época pela atenção das leitoras, e amigas de uma certa forma, que todas continuam em atividade.  E ela termina falando da exposição e de como está feliz.
Algumas das personagens mais
importantes da autora.
Ufa!  Deu trabalho isso aqui.  e é somente um resumo, com algumas das minhas observações.  Espero não ter ficado capenga demais e que tenha sido agradável a leitura.  Se alguém que saiba japonês perceber algum erro e quiser propor correção, deixe nos comentários, eu agradeço.

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