segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Comentando Prelúdio do Arco-Íris (NewPop), mais um lançamento de Osamu Tezuka no Brasil


Sábado fiz a leitura da coletânea de histórias curtas de Osamu Tezuka lançadas pela NewPop.  Trata-se de mangás curtos publicados em revistas shoujo entre 1958 e 1975, sendo que a última história, Prelúdio do Arco-Íris, dá título ao volume completo.  Foi mantido o formato original da publicação de 1977, o mesmo volume foi relançado em 1999 e na edição de obras completas de Tezuka em 2010, é o volume 87.  Lendo o volume, e não fui checar a data das histórias no final do volume, li às cegas mesmo, só tenho três coisas a dizer:

Senti-me como se estivesse abrindo uma cápsula do tempo.  Sabe o que é isso, não?  Não leu Orange?  É quando um grupo de pessoas se junta e coloca em uma caixa objetos, ou cartas para serem vistas no futuro.  Dez anos, cinquenta anos, enfim.  Pegar esse volume publicado pela NewPop foi bem assim.  É possível ter um vislumbre do que Tezuka fazia nos anos 1950, dos (pre)conceitos do autor, do que era a média do shoujo mangá na época.  É meio chocante, sabe?  Mas, ainda assim, é Tezuka e confrontando o material mais antigo com Prelúdio do Arco-Íris ou Niji no Prelude (虹のプレリュード), o mangá mais moderno, de 1975, é possível ver o quanto a arte e a narrativa do autor evoluiu.


Trata-se de um material de valor histórico, se você se interessa, por exemplo, por saber o que era mangá nos anos 1950, mangá de Osamu Tezuka, especificamente, o volume deve ser comprado por você.  Se você é fã do “deus dos mangás”, também vale adquirir a obra.  É uma boa homenagem da editora ao mestre que completaria 90 anos em 2018, caso estivesse vivo.

Agora, e este é o terceiro ponto, provavelmente ninguém vai se interessar por mangá, menos ainda por shoujo mangá, por causa desse volume.  Ele não é formador de novas audiências, ele é uma curiosidade e, muito provavelmente, seria possível encontrar material melhor de Tezuka, menos datado, por assim dizer, para lançar.  Não sei qual a intenção da NewPop, enfim, se for homenagear Tezuka, está valendo, agora, eu realmente não acredito que vá atrair público, não.

Ao fundo, tudo lembra o Takarazuka.
Vamos lá, o volume tem 224 páginas e cinco one-shots.  Não sei quais os critérios de Tezuka para organizar esse encadernado lá nos anos 1970, mas espero que essas obras não sejam as mais representativas dele na demografia depois de A Princesa e o Cavaleiro (リボンの騎士, porque, se forem, é bem decepcionante, sabe?

Prelúdio do Arco-Íris (Niji no Prelude), publicado na Shoujo Comic, é um romance histórico envolvendo Chopin, o futuro grande pianista, seu amigo Joseph, um revolucionário que luta contra a ocupação russa da Polônia, e Louisie, uma jovem que finge ser o irmão para ingressar no conservatório de música de Varsóvia.  Cria-se um triângulo amoroso entre os três, na verdade, um quadrado, porque um soldado russo tenta se aproximar da moça, e a coisa termina em tragédia.  Para começo de conversa, o resumo que está antes do mangá já entrega toda a trama, inclusive o seu final.  Eu não faria isso, mas vá lá, de repente foi uma exigência dos japoneses.

Joseph conhece Louisie sem saber que é uma moça.
A abertura de Prelúdio do Arco-Íris traz uns quadros bem Teatro Takarazuka, como se fosse efetivamente um espetáculo da Revue, como ele era fã do teatro musical feminino, trata-se de uma homenagem.  Ficou simpático mesmo, agora, os elogios não vão muito além.  Em 1975, estávamos no meio da revolução do shoujo mangá com as autoras do grupo de 1948 (Riyoko Ikeda, Hagio Moto, Keiko Takemiya etc.) e outras tantas como Yukari Ichijo publicando loucamente, com altíssima qualidade de roteiro e fazendo mil experimentações visuais, nesse sentido, o quadrinho de Tezuka é muito pobre, muito, muito mesmo.  É Tezuka, mas é ultrapassado para o que se fazia naquele momento.  

Mesmo a questão da moça travestida é esvaziada.  Eu imaginava que Louisie assumiria a identidade do irmão não somente para prestar-lhe homenagem, mas porque o conservatório não aceitava mulheres.  O problema é que há mulheres estudando lá, elas são mostradas, mas não desenvolvidas, salvo por Louisie e a mãe de Chopin, que só aparece em uma única sequência, todas as personagens femininas estão lá para alívio cômico.  De qualquer forma, é uma história agradável de se ler, bem narrada, mas é muito mais Tezuka do que shoujo mangá da década de 1970, aliás, ele mesmo diz no posfácio que era um projeto maior que ele não teve como desenvolver do jeito que desejava.  Agora, Prelúdio do Arco-Íris é lembrado no Japão, tanto que virou peça de teatro em 2014.

Elenco da peça de teatro.
A Cortina é Azul Nesta Noite Também (Kaaten wa Konya mo Aoi/カーテンは今夜も青い) foi publicado na Shoujo Comic em 1958.  É uma história muito, muito bobinha.  Talvez a mais fraca do volume, eu diria, porque ela tem um roteiro bem rasinho.  A trama gira em torno de uma grande atriz que sofre um colapso nervoso ao ver um objeto vermelho enquanto estava no meio de uma apresentação.  Sua irmãzinha, ainda uma menina, como as leitoras dessa história deveriam ser, quer descobrir o motivo do trauma e por qual motivo somente um tom de vermelho tem efeitos daninhos sobre sua irmã.  

Descobrimos então, que a atriz é uma princesa que foi resgatada por um soldado japonês em um país distante.  Toda sua família foi morta e ela realmente está com sua vida ameaçada. Há um assassino e uma detetive, mas quem salva o dia é a menininha.  Deve ser o típico exemplo dos shoujo mais banais da época com uma protagonista criança, trama rocambolesca e centrado nas relações familiares.  Só que faltou EMOÇÃO e, bem, nesse tipo de história, sentimentos fazem toda a diferença.

Abertura de A Cortina é
Azul Nesta Noite Também.
Em seguida temos uma adaptação para os dias atuais, quer dizer, para 1959, do Mercador de Veneza de William Shakespeare.  O nome em japonês é Venice no Shounin (ベニスの商人) e o mangazinho foi publicado na Chugaku Ichinen Course.  Com esse nome, parece ser uma revista para crianças em geral e, não, para meninas.  “ichinen”é primeiro ano, logo, material para criancinhas, ou menininhas, de sete anos na média.  Talvez, tenha sido a primeira adaptação para mangá dessa peça de Shakespeare, mas há outras, porque achei imagens, já do mangá de Tezuka, nenhuma.  E acredito que não encontrei, porque é um Tezuka realmente muito fraco.

Quem conhece o Mercador de Veneza sabe que não é material infantil, mas Tezuka insere humor, simplifica as questões e temos, de novo, uma mocinha que se traveste de homem em um dado momento da história. Só que tudo é muito diluído e o conflito, sendo visto quase sessenta anos depois, não gera impacto algum.  Como pontuei, ler esse material é pura curiosidade, saltando aos olhos o fato de Tezuka experimentar muito pouco visualmente.  

Louisie é assediada pelo oficial russo.
Não há figure style, por exemplo, as imagens rompendo com os enquadramentos, coisa que já era feito por Shotaro Ishinomori e comum nos shoujo mangá de Miyako Maki e Macoto Takahashi. Olhando assim, só esse material do volume, fica parecendo que Tezuka estava fazendo material de segunda, ou que ele era menos criativo que outros contemporâneos.  Prefiro acreditar na primeira opção e reforçar que concordo com Deborah Shamoon, o shoujo deve muito mais às revistas literárias femininas e autores como Takahashi e Maki, entre outros, do que Tezuka.

Por fim, há mais duas histórias que, apesar da quadrinização bem formal, são interessantes por motivos diferentes.  A Concha (みどりの真珠/Midori no Shinju) foi publicado em 1958, na revista Shoujo Club.  Trata-se de uma história que deixaria de cabelo em pé quem acredita que Tintin no Congo é racista.  Temos um japonês náufrago que é resgatado por uma princesa e sua velha (*e feia*) dama de companhia.  O moço está ferido e precisa de cuidados, mas as leis da ilha não permitem a presença de estrangeiros, a velha dama de companhia o adverte que deve partir logo.  O japonês, que é um arquiteto, se recupera logo e sai pela vila onde está escondido, logo de cara, questiona os costumes locais, os taxa de bárbaros e provoca uma confusão.

Louisie se revela e abriga o revolucionário.
Levado à presença do rei, só não é morto, porque a princesa, que se chama Lima, intercede por ele.  Os dois se apaixonam, o moço começa a querer reformar o reino, civilizando-o.  Só que o rei é influenciado por uma cruel feiticeira que não quer perder o seu poder.  Quer lugar mais atrasado do que um dominado por superstições ditadas por uma mulher?  A tal feiticeira quer melar o romance e chega a provocar uma guerra para atingir seus objetivos.  Obviamente, a armação fracassa graças ao engenho do japonês.

A princesa quer casar com ele, mas, para isso, ele precisa ficar, pois o rei não dá permissão para que a irmã parta com ele.  O japonês não quer permanecer em um lugar tão atrasado, além de colocar os pais como prioridade.  Entre o amor e o dever, ele não tem dúvida, vai embora sem olhar para trás.  A princesa se desespera e faz uma loucura para conseguir trazer seu amor de volta e provar que é digna dele.  Obviamente, não dá certo, mas a culpa, claro, não é do japonês, mas dos costumes bárbaros locais.

Páginas coloridas da  A Canção do Pavão Branco.
Sinceramente?  Em 1958, depois de tudo o que rolou na 2ª Guerra e sendo Tezuka esperava mais discernimento, mas o discurso que impera em “A Concha” é o do “fardo do homem branco”, neste caso, não é bem branco, mas é superior, porque é civilizado e pode ditar as regras para aqueles que são inferiores e que somente ele pode salvar.  Assim, é bem desagradável mesmo.  Agora, é interessante como Tezuka insere a questão da hierarquia dos deveres.  Antes da moça, da amada, há a responsabilidade maior que é com os pais.  Infelizmente, não encontrei imagens desse mangá para ilustrar o post e fiquei com preguiça de fotografar o meu exemplar.

O último mangazinho se chama A Canção do Pavão Branco (白くじゃくの歌/Shiro Kujaku no Uta) que é simples, infantil, mas é bem bonitinho, sabe?  Lançado em 1959, ele foi publicado na Nakayoshi.  Temos uma mãe e uma filha que vivem na pobreza e tem esperança de que o pai da família, desaparecido na 2ª Guerra seja reencontrado.  Uma expedição que está procurando combatentes japoneses perdidos em ilhas do Pacífico encontra o capacete do Capitão Chikara Ogawa, só que o pavão branco do título não quer desgrudar dele.   O bicho é levado para o Japão junto com as evidências da morte do militar.

Viram a arma de fogo... Pois é... 
A filha do militar, uma menina de nome Yuri, insiste com a mãe para ficar com o pavão, de quem o pai tinha falado na última carta que escrevera à família, e termina por desenvolver forte amizade com o bicho. Por causa do pavão, a menina acaba indo parar em um show de talentos, ela toca o piano e o pavão dança.  Só que Yuri se torna uma mini celebridade, ocupada demais para cuidar de Piku, o pavão.  Seu empresário quer se livrar do bicho e a menina e o pavão terminam por se separar, o que não traz benefício para nenhum dos dois.

Curiosamente, essa história trágica (*mas não darei spoilers*), porém singela, tece uma crítica social a um fenômeno comum no Japão até hoje, o das idols.  Yuri se torna uma celebridade, super ocupada e explorada, mas a fama é tênue.  Quando o interesse do público diminui, seu empresário a abandona.  Para muitas meninas, o fim da carreira poderia indicar o começo de outros problemas, como depressão, por exemplo.  De qualquer forma, Tezuka diz no posfácio que se inspirou na história de uma estrela mirim real, Tomoko Matsushima (松島トモ子), que continua na carreira artística até nossos dias.

Yuri recorda o seu pavão branco.
Enfim, no geral, gostei da tradução e da adaptação da NewPop.  Não usam os honoríficos (*san, sama, chan, entre outros*), mas não fizeram falta.  Não gostei de terem usado nossa moeda, o real, em uma das histórias.  Que mal há em deixar ienes?  Há resumos de quatro histórias do volume bem no início do livro, por algum motivo, esqueceram de A Cortina é Azul Nesta Noite Também.  Será que não estava no original?  No finzinho do volume, no posfácio escrito por Tezuka, o autor fala que faz tempo que os homens deixaram de escrever shoujo e que poucos homens os leem (*Qual seria o problema nisso?*), mas Tezuka escreve em seguida que as mulheres (*seria incluindo as meninas, também?  Teria que perguntar para quem traduziu, talvez.*) quase não leem mangás dessa demografia, porque preferem shounen.  

O posfácio é de 1979, o Grupo de 1948 já tinha revolucionado o shoujo mangá, a primeira revista josei, a YOU, seria criada em 1980.  O fato de Tezuka ter se afastado da demografia talvez o impedisse de ver que naquele momento não havia crise alguma, muito pelo contrário, a produção e consumo de shoujo mangá estava a todo vapor, com múltiplas temáticas e abordagens, muito diferente do material esquemático que encontramos nesse volume que a NewPop publicou.

Para Tezuka, somente homens fãs do Takarazuka,
como ele mesmo, continuavam lendo shoujo.
Enfim, reforço o que disse lá no início, ler Prelúdio do Arco-Íris é como abrir uma cápsula do tempo, uma janela para o passado.  Trata-se mais de um documento histórico do que de um mangá no sentido estrito da palavra, uma curiosidade, do que uma leitura interessante em si mesma.  É Tezuka e vale como homenagem, ainda mais nos seus 90 anos, mas não tenho muito mais a acrescentar, salvo que fico feliz do shoujo mangá ter evoluído tanto, especialmente, graças às mulheres que adentraram a indústria de mangá.  Olhando esses shoujo de Tezuka, é fácil entender a diferença que elas fizeram.

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2 pessoas comentaram:

A New Pop lança muita coisa do Tezuka, mas nem sempre vale a pena. É bom poder ler a opinião de mais alguém antes de sair comprando. Eu cheguei a colocar esse no carrinho de compras, mas não estava realmente decidido a comprar.
Por mera questão de curiosidade histórica, já comprei bastante coisa do Tezuka. Esse eu passo, com certeza.

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