segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Comentando A Esposa (The Wife, 2017)


Acredito que nunca fui tantas vezes ao cinema em um mês quanto nessas férias.  Cinco vezes  até o momento.  Espero conseguir ir mais uma vez ainda.  No entanto, o primeiro filme adulto que pude assistir (*Minha Vida em Marte não é adulto nesse sentido que quero dar*) foi A Esposa, que deve dar o Oscar de Melhor Atriz para Glen Close com justiça.  É um filme ácido, é doído, carregado de nuances, e que expõe as entranhas da desigualdade entre homens e mulheres.  É um filme feminista?  Não sei, mas permite que uma feminista como eu faça mil análises e comentários.  Estabelecido isso, para não estragar o prazer dos que detestam spoilers, farei a resenha em duas partes.  Se você continuar a ler depois do trailer, saiba que terá todos os spoilers possíveis.

1992, Joseph Castleman  (Jonathan Pryce), um renomado escritor, recebe o Nobel de Literatura.  Para muitos críticos, ele reinventou a prosa em língua inglesa e é o escritor vivo mais importante do século XX.  Quem não fica feliz com o prêmio é Joan (Glenn Close), sua solicita esposa, uma mulher que vive para o marido e para a família.  Joseph sempre agradece sua dedicação, mas se perguntado, faz questão de afirmar que "sua esposa não escreve".  A caminho de Estocolmo, o casal é abordado no avião pelo escritor Nathaniel Bone (Christian Slater), ele  deseja redigir a biografia de Castleman e é rechaçado por ele.  Junto com Joseph e a esposa viaja Max (Max Irons), filho mais velho do casal, que se recente do pai, porque não recebeu dele qualquer palavra de incentivo em relação às suas tentativas de se tornar um escritor.  A avaliação positiva da mãe, não é suficiente, afinal, o gênio é Castleman.


Comemorando o Nobel.
Em Estocolmo, a tensão entre o casal se agrava.  Joan (Annie Starke) rememora seus tempos de faculdade, que um dia desejou ser escritora e seu envolvimento com o professor Castleman  (Harry Lloyd), então um homem casado.  Ele termina demitido por ter um caso com uma aluna. Em outros flashbacks descobrimos o papel fundamental de Joan na carreira do marido.  Na verdade, mais do que isso, ela escreveu ou reescreveu todos os seus romances.  Amargurada, Joan se questiona sobre o que recebeu em troca.  Traições, chantagens emocionais, uma casa confortável, sem dúvida, mas o que ela fez da sua vida?  Enquanto isso, Joseph tenta seduzir a jovem fotógrafa funcionária da Fundação Nobel, já Nathaniel a confronta com os frutos de sua investigação e estimula as caraminholas de Max.  O resultado disso tudo?  Assistam ao filme.

A Esposa, é baseado no livro homônimo de Meg Wolitzer, lançado em 2003.   Imagino que, agora, receba uma edição em nossa língua.  Sua produção começou em 2014 e, ao que parece, Close foi a primeira escolha para o papel principal, mas  Gary Oldman foi o primeiro nome imaginado para interpretar Joseph Castleman.  Achei curioso, porque gosto muito de Oldman e, também, de Jonathan Pryce desde que o vi em Carrington (*filme que preciso rever*).  Acho lamentável vê-lo em papéis menores, ou fazendo vilão pé de chinelo em certos filmes.  Apesar de Glenn Close brilhar em A Esposa, acredito que Pryce deu as cores certas ao pseudo-escritor narcisista e chantagista.  Ele está realmente muito bem.  

Fascinada pelo professor.  
Outro detalhe importante para que o filme fosse tão bom, é a roteirista, Jane Anderson.  Olhando o currículo dela, vocês verão que ela roteirizou episódios séries e filmes que se passavam nos anos 1960, um pouco antes, um pouco depois.  Anos Incríveis, por exemplo.  Conversando com meu marido sobre o filme, ele logo lembrou de Mad Men e, sim, Anderson roteirizou pelo menos um episódio dessa série.  E o que temos de material comum?  A forma complacente como as mulheres (*brancas, em especial*) eram tratadas pelos homens.  

Alguns olham para essa época "dourada", em que propagandas machistas eram a regra, em que mulheres eram estimuladas e deixar as vagas das faculdades de direito, medicina e outras para os homens, porque elas iriam casar e ficar em casa depois do casamento mesmo,  em que se devia ver  o assédio como uma forma de gentileza e atenção por parte dos homens, como romântica.  Não era, nunca foi, e atrapalhou muitas carreiras de mulheres e impulsionou outras tantas de homens.


Gênio trabalhando.
A Esposa fala exatamente disso. Nos três flashbacks vemos Joan, que é muito inteligente, sendo amestrada para abandonar suas pretensões literárias.  Estudando em uma faculdade de elite como a de O Sorriso de Monalisa, ela  sonha em se tornar escritora.  O Professor Castleman, de inglês e literatura, diz que ela deve escrever, mas isso tudo é uma estratégia de sedução, para ficar mais perto dela.  Agora, quando ela encontra uma ex-aluna escritora, Elaine Mozell (Elizabeth McGovern), a autora joga um balde de água fria sobre a pobre Joan.   Ninguém publica mulheres, ninguém lê mulheres.  Seus livros ficam na estante.  

Como fã de Jane Austen, das Irmãs Brontë, de Rachel de Queiroz, até mulheres anteriores a elas, eu sei que não é para tanto, ainda que cada uma delas tenha enfrentado obstáculos consideráveis, mas a personagem de McGovern representa a maioria talvez.  Ela tem dinheiro para bancar a publicação de seu livro.  Uma tiragem pequena.  Quem o comprou?  Seus amigos e parentes, principalmente.  "Isso é papo de incompetente!".  Sim, claro, veja que a autora de Harry Potter abreviou seu nome por recomendação da editora, por isso, o J. K., para que seu livro se tornasse mais palatável.  Um nome de mulher na capa torna o livro "literatura de mulherzinha", coisa menor, às vezes, até  indigna, aos olhos de alguns.  


Escritora amargurada: nada como uma
mulher para matar os sonhos de outra.
Há até hoje mulheres escritoras que se orgulham de dizer que "escrevem feito homem", ou recebem falas assim como um elogio.  E vale para quadrinho, também.  Conheci gente que acreditava que Banana Fish tinha sido escrito por um homem, porque era muito violento, porque o traço era muito duro, seco, agressivo, porque o roteiro não tinha sentimentalismos... Está bom para vocês?  A Joan de 1960, depois do escândalo do caso com o professor, estava sustentando os dois com seu trabalho de secretária em uma editora.  Que tipo de conversa ela ouvia?  

"Ah, esse livro é muito bom, mas a autora é uma mulher." "Essa autora realmente tem uma escrita fascinante, mas é feminina demais.""Ninguém quer ler mulheres." Difícil entender do que os caras estavam falando.  Será que se o material fosse assinado por um homem a avaliação seria outra?  Tenha certeza que seria.  É uma questão de gênero, criam-se e naturalizam-se uma série de estereótipos sobre escrita masculina e escrita feminina.  A primeira, claro, é melhor que a segunda. Sobre o tema, recomendo, também, um livro maravilhoso "How to Supress Women's Writing" (Como Suprimir a Escrita das Mulheres, e tudo que lá está escrito para as mulheres poderia, sem grandes adaptações, ser aplicado à outras minorias.   


Nathaniel sabe, mesmo que Joan não confirme.
Só que Joan escuta uma outra coisa da boca de um dos editores enquanto solicitamente servia o café: "Toda a editora publica pelo menos um livro de um autor judeu." Será que para não parecer antissemita?  Será porque judeus tem fama de serem inteligentes?  Não sei, mas o fato é que ela diz ao chefe que tem o que ele precisava.  O autor é Castleman, mas o livro de estréia dele, Walnut, não parece ser realmente bom.  As críticas de Joan tinham ferido o orgulho do homem, que tendo que cuidar da casa enquanto ela trabalhava, setia-se emasculado e ameaçava deixá-la.  Mas há a possibilidade de publicação e ela corrige o livro e, bem, ele vira um bestseller.

Nesse ponto temos uma cena que é cronologicamente anterior a uma que ocorre no início do filme, mas totalmente ligada a ela "Nós publicamos o nosso livro.", comemoram os dois jovens pulando na cama.  No início do filme temos Castleman arrastando a mulher para cima da cama, ela não deseja, mas é obrigada a pular, como lá em 1960, mas a frase é diferente "Eu ganhei o Prêmio Nobel."EU, quando foi ELA, quem escreveu praticamente tudo.  


Uma honra imerecida.
Tal e qual Collete, Castleman praticamente obrigava a esposa a escrever, tudo isso enquanto ele cuidava da casa, cozinhava (*disso ele entendia, prestem atenção a uma cena em especial*), impedia que os filhos a "incomodassem" (*o que gerou sequelas no filho mais velho*) e seduzia as babás, certamente dizendo que ela era uma má esposa.  Essas experiências estão nos romances que ela escreveu.  A escrita introspectiva feminina, mulheres falam de suas vivências pessoais, de seu dia-a-dia, e são, muitas vezes, ridicularizadas por isso, parecia genial assinado por um homem.

Quando Joan descobria as traições, ele virava a mesa em cima dela, jurava amor eterno, afirmava que ele se sentia diminuído por ela, afinal, qual homem gostaria de estar em sua condição?  É uma relação abusiva.  Houve resenhas falando em Síndrome de Estocolmo e, talvez, possa ser vista por esse prisma, no entanto, Joan era recompensada de alguma forma.  Tendo introjetado a ideia de que ela, por ser mulher, nunca iria conseguir publicar, sentia-se feliz por ver sua obra fazendo sucesso, isso foi o suficiente por décadas.  Só que, como teorizaram as feministas marxistas nos anos 1970,  uma esposa, assim como um escravo, não pertence a mesma classe social de seu senhor.  Ela recebia migalhas e o Nobel vem como um choque.


O velho vaidoso tenta seduzir a fotógrafa.
Aliás, todos os laureados com o Nobel no filme, assim como a maioria deles ao longo dos anos, são homens.  Ao longo da história do prêmio houve escândalos envolvendo premiados que tinham se apropriado do trabalho de alguma mulher, ou de mulheres que trabalharam junto com os laureados em alguma pesquisa e foram, simplesmente, deixadas de fora da premiação.  Uma das cenas impactantes do filme é a que o Nobel de Física apresenta a esposa e diz "Ela também é cientista", Castleman simplesmente diz que a esposa não escreve e Joan recebe um olhar complacente da cientista-esposa.  

Em seguida, o sujeito apresenta seus quatro, ou cinco filhos (*como uma mulher se dedica à ciência tendo tantos filhos é complicado, mas vá lá...*), a mais jovem, única menina, ainda estudante, mas o pai orgulhoso projeta grandes descobertas na área da medicina para ela.  Os rapazes, todos físicos, um deles tentando provar que a Teoria das Cordas estava errada.  Max, o filho dos Castleman se ressente.  O pai não consegue ver nada de realmente bom nele, só em si mesmo, ou na esposa, quando está na eminência de perdê-la.


Castleman despreza Nathaniel.
Fora isso, Castleman depende de Joan para nulidades, também, controlar seus remédios, guardar seus óculos.  Por mais que o filme tente mostrá-lo como fazendo as vezes de dona de casa, o que o faz sentir-se castrado, sem Joan, ele estaria perdido. E ele tem um problema cardíaco, critica o filho por fumar, mas consome gordura desesperadamente.  Aliás, em 1992, a tara dos médicos e nutricionistas era combater o consumo de gordura.

Enfim, é um filme claustrofóbico, com a câmera muito focada no rosto dos atores e atrizes, Glenn Close e Annie Starke interpretam com os olhos, que expressam todas as emoções que tinham que esconder.  O filme também toca em temas sensíveis, como a exclusão das mulheres em várias áreas, os inúmeros obstáculos que temos que enfrentar para chegarmos lá, pois os homens saem em vantagem simplesmente por serem homens e faz com que reflitamos sobre quantas mulheres devem ter feito o trabalho, ou parte dele, para pais, irmãos, maridos.  Na própria literatura, o machista do José de Alencar  não colocou Aurélia, protagonista de Senhora, fazendo o trabalho de contabilidade para o irmão ruim de contas simplesmente para que ele não perdesse o emprego e a família passasse fome?  Ela não receberia o emprego mesmo qualificada, ele, sim.


O perfeito subtítulo italiano "Viver na Sombra".  Aliás,
Close ganhou o prêmio "The Invisible Woman Award"
(*Prêmio da Mulher Invisível*), nem sabia que isso existia.
Apesar de ser um filme já visto, vide Big Eyes, ou Colette, que é muito inferior, A Esposa merece todos os elogios que está recebendo.  A atuação de Close e Pryce puxa o filme, claro, mas o desempenho da jovem Joan, Annie Starke, carregada de nuances, timidez real e pretensa modéstia para não ofender o orgulho masculino, está impecável.  E ela é filha de Glenn Close, aliás.  Há ainda o resgate de Christian Slater, um astro promissor na segunda metade dos anos 1980 e início dos 1990, mas que desceu ladeira abaixo.  Ele está bem no filme.  

Fiquei pensando se o filme cumpria a Bechdel Rule e, sim, ele cumpre por causa da cena entre a personagem de Elizabeth McGovern e a jovem Joan.  De resto, trata-se de um filme encabeçado por uma mulher, tudo de certa forma depende de Joan para funcionar.  O que, claro, não significa que a mensagem seja empoderadora.  Eu me senti foi muito mais angustiada, quantas mulheres ainda estão vivendo nas sombras, fazendo o trabalho do marido/pai/irmão/filho e se calando, mas, ainda assim, satisfeita com o espetáculo.  A sala, aliás, estava cheia, a maioria da audiência era de mulheres idosas e houve mais vibração do que eu imaginava, além de palmas no final.  Algo raro, para mim, mas minha amiga disse que é coisa comum naquele cinema.  Vai saber... 


Se você assistiu ao filme, ou, pelo menos, leu o verbete da Wikipedia em inglês, sabe que Castleman e a esposa discutem, ela pede o divórcio e ele termina enfartando.  O sujeito já estava doente antes,  já havia passado mal pelo menos duas vezes durante o filme, mas o fato de morrer depois da discussão faz com que Joan se sinta culpada.  Ou será que não?

O final é dúbio.  Joan ameaça Nathaniel. Ele que ousasse infamar a memória do seu marido, expondo-a como sua ghostwriter.  Ela o levaria aos tribunais.  Isso quer dizer que ela ficaria em silêncio e seria guardiã eterna da "obra do marido".  Daí, ela vira a página do caderninho que tem nas mãos e alisa a página em branco.  Em branco... Ela vai escrever por ela mesma?  Duvido.  Minha amiga e eu ficamos nos questionando que, na verdade, ela iria escrever, sim, mas publicar como se fosse um livro, ou mais de um, póstumo do marido.


O filho indignado acusa o pai.  "Você não lembra
 nem do nome dos seus personagens!"
Não acredito mesmo que naquela fase de sua vida a personagem fosse romper o silêncio, chutar o pau da barraca, e arriscar sua imagem e seu status, afinal, ela participou da fraude.  Joan é somente parcialmente vítima aos meus olhos.  Há as estruturas patriarcais, há a relação construída sobre o abuso emocional, mas havia nela o senso de oportunidade.  O marido é uma espécie de avatar, o problema é que, com o tempo, ela parece crer que não valeu a pena.  A morte dele, no entanto, deve servir para consolidar a situação.  Tudo fica como está, afinal, qual seria o preço a pagar pela verdade?

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