quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Comentando o primeiro filme de Haikara-san ga Tooru (Japão, 2017)


Anteontem terminei de assistir ao primeiro filme de Haikara-san ga Tooru (はいからさんが通る),  Gekijouban Haikara-san ga Tooru Zenpen ~Benio, Hana no 17-sai~ (劇場版 はいからさんが通る 前編 ~紅緒、花の17歳~), baseado no mangá de mesmo nome publicado na extinta revista Shoujo Friend entre 1975 e 1977.  Para  quem não conhece a série, trata-se da obra mais conhecida e popular, ainda que não a mais importante, de Waki Yamato.  A série venceu o 1º  Kodansha Manga Award na categoria shoujo empatado com Candy♥Candy (キャンディ♥キャンディ) em 1977.

A nova animação, que atualiza de forma muito competente o character design original, foi lançada em duas partes no cinema (*2017-2018*) como forma de comemorar os 50 anos de carreira da autora.  A escolha de uma nova animação para Haikara-san é meio óbvia, a série é muito amada pelos japoneses, já tinha recebido adaptação animada para a TV (42 capítulos entre 1978-79), quatro adaptações live action (1979, 1985, 1987, 2002) e uma adaptação para o Teatro Takarazuka (2017).

Uma garota moderna.
Haikara-san ga Tooru conta a história de Benio Hanamura, uma garota moderna vivendo no início do século XX.  No início da história, ela é uma colegial de 17 anos, que sonha em casar com o homem que ama e escolher qual o seu lugar no mundo.  Ela é cheia de energia, tomboy, mas não se destaca, nem nas artes femininas, que são muito enfatizadas em sua escola, nem em aspectos acadêmicos, mas ela é boa em kendô.  

O pai viúvo lamenta tê-la educado mais como um garoto do que como uma menina.  Seus melhores amigos são Tamaki, uma verdadeira ojousama, rica, aristocrática, e que, mesmo sendo feminista, consegue ser agradável e se destacar nas prendas femininas, e Ranmaru, seu vizinho, apaixonadíssimo por Benio, e que se prepara para ser onnagata (ator especializado em papéis femininos no teatro Kabuki).

Tamaki mente que não fez sua lição de casa de costura
para ser punida junto com Benio.  A garota ainda aproveita para fazer 

um discurso feminista que irrita e surpreende a professora.
Um belo dia, depois do colégio, o pai de Benio lhe comunica que ela  irá se casar em breve com Shinobu Ijuin, um jovem tenente, para cumprir uma antiga promessa. O avô de Benio era apaixonada pela avó de Shinobu, mas eles eram de níveis sociais muito diferentes, mesmo pertencendo ao grupo dos samurai.  Assim, eles juraram que, no futuro, com a revolução Meiji (1868) consolidada, eles veriam seus filhos casados.  Ambas as famílias tiveram filhos homens, então a promessa passou para a próxima geração.  Agora, cabe à Benio e Shinobu cumprirem o juramento de seus ancestrais.  Amor romântico não estava na equação.

No diálogo entre Waki Yamato e Yamagishi Ryouko, traduzido pelo Luiz para o blog, a autora deu informações surpreendentes sobre o mangá.  Primeiro, houve a recusa de um mangá histórico pelo editor.  Mesmo com A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) e outros mangás shoujo históricos bem sucedidos, ainda assim, Haikara-san ga Tooru quase não saiu.  Ela apelou dizendo que os uniformes das garotas durante o período Taisho (1912-26) eram adorados pelas meninas.  Boa propaganda, portanto. 

Shinobu confunde Benio com Ranmaru.
Outro ponto que ela levanta é a que o mangá não fez tanto sucesso no início.   A maior reclamação?  Queriam que ela definisse de quem Benio gostava.  Não parecia estar muito claro para as leitoras se Shinobu, ou Ranmaru, ou ninguém.  A autora teve que fazer concessões e temperar sua série com humor, história e clichês do shoujo mangá.  E, bem, o resultado foi muito bom e deu à autora a fama e o sucesso que lhe permitiram fazer mangás históricos mais densos, além de dramas os quais o humor tinha uma função bem menor.

Vou atropelar a resenha e o resumo da história, porque é melhor entrelaçá-los.  Benio não é perguntada em nenhum momento se deseja cumprir a promessa do avô, ela é obrigada a isso.  Shinobu, o noivo, e de categoria superior, tem o direito e o privilégio de recusá-la.  Ele, cumpridor das tradições, e mais impelido a isso ainda, porque sobre ele há o peso da mestiçagem (*sua mãe é europeia*), assume integralmente o compromisso.  "O amor pode nascer depois do casamento".  A protagonista quer que ele a dispense, especialmente, depois de descobrir que sua melhor amiga, Tamaki, sempre amou o rapaz. Ele, no entanto, está disposto a levar o enlace até o fim, apesar das trapalhadas e malcriações de Benio.

Dar língua é uma coisa comum nos mangás shoujo da década de 1970.
O comportamento de Shinobu é historicamente preciso e nós sabemos desde o início que ele é honrado, além de muito bonito e que, rapidamente, passa a amar a noiva. Agora, e se Shinobu fosse violento, cheio de vícios, feio, muito mais velho, enfim, Benio seria obrigada a casar com ele de qualquer jeito.  Eu adoro Haikara-san ga Tooru, mas não posso deixar de analisar a história, cujo original tem muito mais humor do que o novo filme, sob um ponto de vista feminista.  É uma história que normaliza, usando vários subterfúgios, um quadro clássico de violência contra uma mulher, na verdade, contra uma quase menina.

Benio passa semanas longe da escola, porque o pai a envia para um treinamento na casa do noivo.  Ela deve aprender os costumes da família que a receberá.  A mesma situação é mostrada em Waltz wa Shiroi Dress de (円舞曲は白いドレスで), série de Chiho Saito que se passa mais ou menos vinte anos depois de Haikara-san.  Nesse caso, o noivo é arrogante e impositivo, a família dele trata a noiva de condição social inferior com desdém.  No caso de Benio, ela é submetida a uma dura rotina pela governanta da família, deve aprender a cozinhar, a lavar roupa do modo correto, a se comportar.  A avó de Shinobu a acolhe como uma neta, Shinobu a cobre de cuidados, mas seu avô, extremamente conservador e machista, tenta  tornar a vida da moça difícil.

Benio tem dificuldades com os talheres ocidentais.
A história segue com Benio sendo vista como um sopro de modernidade na casa dos Ijuin, ela enfrenta e conquista o amor do avô do moço.  Benio inclusive consegue fazer com que a mágoa do velho pela esposa se dilua, afinal, ele sempre soube que ela preferia ter se casado com outro.  Não é uma situação fácil. Ainda assim, Benio acaba indo embora  e voltando para a casa de seu pai.  O motivo é um mal entendido, ela acredita que Shinobu tem uma amante, uma gueixa, mas ao chegar em casa, a protagonista é expulsa pelo pai.  Seu lugar não é mais ali, ela deve ficar na casa do seu futuro marido, não importa o que aconteça.

Percebem que com todo o humor e o romance, é uma história violenta?  Benio é colocada em uma situação sem alternativa.  Era aceitar seu destino ou cair em desgraça. O contrabalanço é Shinobu, sempre paciente e já apaixonado.  A resenha da Wikipedia ressalta a "bondade" do moço, dizendo que ele sempre perdoa as gafes e escândalos de Benio.  Sim, é um direito dele perdoá-la, ou puni-la, ele ser bonzinho é sorte de Benio, mas se colocada em termos realistas, a situação dela é bem miserável.

Benio enfrenta o avô de Shinobu.
Tamaki, a amiga de Benio, acaba preferindo a amizade a lutar pelo amor de Shinobu.  Assim, preserva a relação com os dois.  Já Ramaru se disfarça de maid e vai trabalhar na casa dos Ijuin.  Todos são enganados por ele, menos Shinobu.  Benio, antes mesmo de ir para a casa de Shinobu, tenta fugir de casa com Ranmaru.  Ele se declara e ela, mesmo o vendo como um irmão, aceita a "fuga de amor".  Ambos terminam sendo confrontados por um yakuza que acaba apanhando da moça.  

Benio, uma especialista em kendô, dá uma surra nele com sua sombrinha.  Trata-se de uma espécie de catarse.  Ele desconta no cara que, a partir daquele momento, a trata como seu oyabun (親分), chefe mafioso, literalmente, pai adotivo.  O sujeito passa a segui-la e ser seu guarda-costas.  Termina, também, responsável por controlar seus passos de Benio quando lhe é permitido voltar à escola. 

Benio se declara para Shinobu, mas, como
estava bêbada, termina por esquecer.
No colégio, Benio é informada que várias de suas amigas se afastaram para casar, ou se preparar, como ele, para o casamento.  A sala de aula está pela metade.  Casamento, apesar dos protestos de Benio, era o destino das mulheres.  Benio tenta lutar contra a sociedade, mas termina sendo arrastada por ela, afinal, passa a amar Shinobu.  O problema é que quando ela se declara, está bêbada.  Sim, Benio tem um fraco pela bebida.  Ela aparece embriagada três vezes.  Shinobu a salva duas vezes de vexames maiores.

É curioso que o fansuber colocou no final uma mensagem sobre consumo de bebidas e menores, que, por questões históricas, a prática era possível na época em que a história se passa.  Não sei se estava no filme original.  No mangá, Benio bebe muito mais.  É curioso que no anime da Rosa de Versalhes, que é da mesma época, as bebedeiras de Oscar, que é adulta, são minimizadas.  O mesmo não acontece em Haikara-san o anime original, nem no filme.

Ranmaru vira criada pessoal de Benio.
Só que a história dos dois é interrompida.  Shinobu é enviado para a frente de combate.  Qual seria a guerra?  Qual era o ano?  Provavelmente, 1918, ou 1919.  O rapaz faz  parte das forças japonesas que partem para a Rússia para se opor aos bolcheviques e, se possível, tomar parte do território russo para o Japão.  Era o momento da chamada Guerra Civil (1917-1922), e o comunismo não estava consolidado.  De lá, ele envia uma carta para Benio, cheia de amor, enviando uma flor (marinka) e a promessa de lhe trazer Vodka, a maravilhosa bebida russa. 😊

Na parte do front, temos a apresentação de uma personagem que terá importância na segunda parte da história, o sargento Shingo Onijima que, como era clichê na época, se opõe ao comando de Shinobu.  Ele o despreza por ser jovem e imaturo.  Shinobu o enfrenta e submete.  Há isso em Yamato ( 宇宙戦艦ヤマト), na Rosa de Versalhes, é a mesma estrutura narrativa.  Só que Shinobu, tal como aconteceu com Oscar, é perseguido por seus superiores.  Shinobu por ser mestiço, Oscar por causa de seu pai (*achou que eu era escrever por ser mulher, não é?*), que tinha desavenças com o general.  O fato é que Shinobu desaparece na frente de combate.

Shinobu salva a vida de Benio em seu primeiro encontro.
Esse é um ponto de virada na vida de Benio.  Ainda noiva, ela poderia voltar para a casa paterna (*porque ele agora a aceitaria de volta*) e retomar sua vida. A moça, no entanto, decide cortar seus cabelos e vestir o quimono de viúva que sua mãe nunca teve a possibilidade de usar (*seu pai lhe dera a peça quando ela deixou o lar desejando que nunca precisasse usá-lo*).  É como um voto perpétuo de não se casar e um comprometimento de cuidar dos avós de Shinobu.  Eu terminaria o filme nesse ponto, mas a história ainda seguiu, porque queriam introduzir Tosei ainda nesse primeiro filme.

Acontece uma situação insana, a família Ijuin era rica, tanto que na cerimônia fúnebre simbólica de Shinobu parentes estavam discutindo a herança, e, de repente, parece mergulhada em dívidas.  É como se a ausência de Shinobu, que já estava fora fazia pelo menos um ano, convém ressaltar, tivesse feito os velhos meterem os pés pelas mãos.  O fato é que Benio assume as rédeas da família e vai em busca de um emprego.  Depois de bater cabeça (*no mangá isso rende situações hilárias*), graças à uma mãozinha de uma amiga, ela se torna jornalista.

Shinobu se declara para a noiva na véspera de sua partida.  
Tosei, que iria se tornar seu chefe, resiste em contratar mulheres.  Ele tem alergia ao mero toque feminino e sua misoginia (*o termo é usado na obra*) vem de problemas que teve com a mãe (*isso deve ser revelado no filme dois*).  Mas Benio termina por impressioná-lo e é contratada.  Nesse ponto, é mostrado o quanto ela trabalha duro e ao fundo ouvimos a orquestração do tema de abertura do anime dos anos 1970.  Achei uma bela homenagem.  Eu assisti alguns episódios da série dublados em italiano.  Foi curioso descobrir que, assim como o anime da Rosa de Versalhes, ele não fez sucesso na época de sua exibição e foi encurtado.

Nos minutos finais do filme, ficamos sabendo que Shinobu não morreu, que ele está em Irkutsk, capital da Sibéria.  Chegam notícias ao Japão de que um grupo de desertores está atacando os japoneses na Mandchúria e que o líder do grupo parece ser nipônico.  Benio se enche de esperanças e quer partir para lá.  Quando entrega sua carta de demissão, Tosei, que já tem sentimentos por ela, recusa e a envia como repórter para a Sibéria.  Ela o abraça e ele percebe que não tem mais alergia à Benio. Ela parte com seu guarda-costas yakuza, nas cenas finais, ela crê que passou por Shinobu na estação de trem.  Há cenas do próximo filme com Benio vestida de noiva... 

Benio é cachaceira mesmo.
Falando do nome do mangá, "haikara-san" significa literalmente colarinho alto, a gola da camisa social, imagino.  Uma vestimenta ocidental e masculina, mas que poderia fazer parte do figurino da moça moderna que Benio queria ser. Claro, que quando isso é lançado sobre ela por Shinobu, trata-se de um apelido pejorativo.  Ele não reconhece nela a noiva prometida em um primeiro encontro, ele acredita que Ranamru, com seus trejeitos femininos e sua elegância, é a filha do Major Hanamura.  

Acredito que o correspondente em inglês ao termo "haikara-san" seria "bluestocking", que, no início, servia para denominar mulheres intelectualizadas membros da  Blue Stockings Society, mas, posteriormente, foi usado para atacar  as feministas e sufragistas que não reconheciam o "seu lugar".  Mas há um termo em japonês para "bluestocking" que virou nome de uma revista literária feminista, Seitō (青鞜 ).

Shinobu, Benio e Tosei.
Terminando, assisti ao movie legendado em português.  Apesar do Bluray ter sido lançado no Japão em abril, se não me engano, as legendas só foram sair em novembro, ou dezembro, de 2018.  Como conheço o mangá, consigo me guiar na história sem grandes problemas, porém, a legenda fez umas escolhas que não em agradaram e achei que deslizou algumas vezes.  Nada que comprometa o prazer de assistir a obra, claro.  Não vi torrent do segundo filme ainda, preciso procurar.  A qualidade da animação é tão boa que a gente tem vontade de assistir sem legenda mesmo.

Pediram que eu acrescentasse o "como assistir" e "onde ler".  Enfim, é possível baixar o filme legendado em português, o trabalho foi feito pelo Fênix Sub.  Não achei em outra língua.  Agora, tempos atrás um fansubber, que só legenda primeiros capítulos de séries clássicas, legendou em inglês o primeiro episódio da série original.  Tem para baixar e eu sei que está no Youtube, também, mas não consegui encontrar.  Em italiano, acredito que se encontre tudo, basta jogar "Una ragazza alla moda" ou "Mademoiselle Anne", títulos da série quando foi lançada por lá.  Eu tenho a edição do mangá  em italiano.  Comprei faz muito tempo.  Há scanlations do mangá?  Acredito que alguma coisa exista disponível por aí, eu não encontrei.  Com minha internet capenga no Rio, não tem como fazer uma busca  mais ampla.

GOSTOU?

3 pessoas comentaram:

Mas no final é um filme bom? é divertido? É uma boa adaptação? A história ficou muito corrida? Deu para entender bem os personagens? EU quero ver o filme, ele vale a pena?

Sim, da pra entender muito bem, infelizmente ontem mais conteúdo em br

Você não assistiu o segundo? Queria muito saber o que aconteceu... Se ela se casa Shinobi ou não. (Amo spoiler. Pode me dar!)

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