quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Comentando O confeiteiro (The CakeMaker/haOfeh miBerlin, 2017)



Ontem, aproveitei o meu aniversário para ir ao cinema e assistir a um filme que estreou em dezembro e que eu queria muito ver, mas não tinha tido a oportunidade.  Parecia que ele estava esperando por mim para sair de cartaz no Liberty Mall, porque estava em uma única sessão, a primeira da tarde, bem ao meu gosto.  Saí do trabalho e, finalmente, fui assistir o Confeiteiro e, bem, o primeiro trabalho do diretor e roteirista Ofir Raul Grazier me impressionou bastante.  Tenho certeza que ele entrará na minha lista de melhores do ano, quando fizer o meu post sobre todas as resenhas de 2019.

A história do filme é mais ou menos a seguinte, Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria em Berlim, ele conhece  Oren (Roy Miller), um israelense que sempre vem comer suas tortas e comprar biscoitos.  Depois de muitos olhares, os dois terminam tendo um romance, só que Oren tem família em Israel e nenhuma intenção de sair do armário.  Isso magoa Thomas, que não consegue entender algumas atitudes do amante.  Um dia, Oren não retorna mais.  O tempo passa e Thomas não tem notícias até que descobre que o amante faleceu.  

Oren sempre ia até o café de Thomas,
um dia, eles terminam se acertando.
Angustiado e curioso, ele viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren. Ao chegar lá, ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, Anat (Sarah Adler), em um café que pode perder o selo kosher se descobrirem que um não judeu está preparando os alimentos.  O tempo passa, os dois ficam cada vez mais próximos, e Anat nem imagina que ambos estão tentando superar o luto que sentem pelo mesmo homem.  Já Thomas vive momentos de culpa e desejo, tentando lidar com sentimentos que estão além do certo e do errado.

O Confeiteiro tem uma história sensível, que incomoda e faz pensar, as personagens principais, Anat e Thomas, são simpáticas, muito mesmo.  Eu imaginei que poderia em algum momento sentir raiva ou algo semelhante em relação a Thomas, afinal, ele está enganando a esposa de seu amante, mas, não, a minha empatia superou qualquer amarra moral que eu pudesse ter.  É bom quando a gente se envolve emocionalmente com um filme e torce pelas personagens.  E eu não era a única, quem estava na sala, e havia um bom público levando-se em consideração o tempo que a película estava em cartaz, parecia suspender a respiração em determinados momentos.  Thomas será descoberto?  Anat e Thomas vão se tornar amantes?  E como fica esse rolo todo?

Anat queria ser a massa nas mãos do confeiteiro e conseguiu.
 Outro ponto importante de O Confeiteiro é que é um filme muito erótico.  Há um termo em inglês, "food porn", que se aplica aqueles vídeos e fotos lindas de comida que fazem a gente ter orgasmo só de olhar (*peguei a ideia dessa matéria aqui*).  Há muito disso em o confeiteiro.  A câmera acompanha as mãos de Thomas fazendo massa e, a partir de um determinado momento, sabemos que Anat, queria estar no lugar dela.  E, bem, ela consegue.  E fazia anos que não via uma cena de sexo tão erótica em um filme e com um detalhe, ambos estavam vestidos.  

A outra cena extremamente sensual do filme, é anterior a essa, quando Thomas vai passar o Shabat com ela e o filho e leva uma torta floresta negra.  Depois que o rapaz vai embora e ela está lavando a louça, ela pega o prato onde ele comeu, se delicia com os restos da torta que ficaram ali e lambe o prato lentamente e com sofreguidão.  Comida pode ser utilizada para muitas coisas, não é a primeira vez que o é como metáfora de sexo, mas em O Confeiteiro acertaram em cheio.

Anat aprende a cozinhar com Thomas.
Curiosamente, nenhum dos protagonistas é realmente bonito.  Tim Kalkhof, que interpreta Thomas, é um sujeito na média, sem grandes atrativos salvo a sua boca.  Sim, acho que poucas vezes vi lábios tão bem desenhados e sensuais.  O diretor disse em entrevista que pediu que o ator engordasse um pouco, porque, segundo ele, um confeiteiro trabalha com massas e bolos, precisa provar e comer o que faz e deve ser rechonchudo.  Parece uma imagem um tanto distorcida da coisa.  Quem vê Masterchef deve lembrar de vários confeiteiros que apareceram por lá e eram magros.  Em cena, Thomas não é mostrado comendo em exagero, mas aparece em mais de uma cena se exercitando.

A atriz que faz Anat é muito competente, mas passa a imagem de uma mulher comum, sem glamour.  Mais ainda, alguém submetida a muito estresse.  Ela vive seu luto e carrega culpas em relação à morte do marido por tê-lo pressionado.  Seu empreendimento corre o risco de perder o selo kosher, isto é, uma certificação dada pelos rabinos e que garante que a comida produzida segue as estritas regras de pureza judaicas.  Eu realmente não sabia que para ser kosher de verdade, um alimento precisa ser preparado por um judeu.  Enfim, a questão parece ser mais complexa do que eu imaginava.

Thomas deseja estar com a família de Oren, estar perto do
amante morto de alguma forma, mas sente culpa.
O próprio diretor criticou essas regras em uma entrevista dizendo que antes os religiosos simplesmente confiavam e compravam em estabelecimentos de confiança e que , hoje, tudo está submetido a uma burocracia absurda.  De qualquer forma, Anat não é uma mulher religiosa, ela confronta o cunhado, Motti (Zohar Shtrauss), a personagem mais desagradável do filme, quando ele a pressiona para demitir Thomas e quando ele recomenda ao sobrinho que não coma nada que o alemão tenha preparado.  Anat se revolta e diz que quer que o filho possa comer o que desejar, kosher, ou não.  

Discordo de uma resenha que li, dizendo inclusive que o filme era ruim, e que dizia que Anat vivia oprimida pelo patriarcado. Não sei se assisti ao mesmo filme, porque o que vi foi uma mulher que mesmo fragilizada, não se dobra ao cunhado que quer mandar nela, tampouco permite que ele tenha maior ingerência sobre a vida de seu filho do que o necessário.  E fico mesmo pensando se não foi Motti que denunciou o café de Anat e o fez perder o zelo kosher.  Na verdade, não sei se Motti era casado ou viúvo, se tinha interesse por Anat.  Fiquei pensando no filme israelense Preenchendo o Vazio e como o arranjo de casar o viúvo com a irmã da esposa era visto como ideal.  Nesse caso, talvez Motti, um homem muito religioso, quisesse casar com Anat, a viúva do irmão. 

Motti tenta intimidar Thomas.
O fato é que a religião é um fator central no filme, mesmo que Anat resista a se dobrar.  O selo kosher garante maior clientela, perdê-lo pode significar um grande prejuízo.  Ao longo do filme, os alto-falantes avisam várias vezes que está para começar, ou começou o Shabat, marcando o ritmo da vida dos habitantes de Jerusalém a partir da prática religiosa. Oren, apesar de sua vida dupla, ou mais que isso, porque desconfio que ele traia Thomas e Anat com outros homens, era muito religioso.  

Uma das cenas em flashback - são várias no filme - mostra Oren com Thomas na cama e o sujeito perguntando ao amante se ele não pretendia se casar e ter uma família, que isso era importante para que alguém fosse completo.  Thomas fica profundamente ofendido e com razão.  O fato é que entre os judeus religiosos, o casamento é algo fundamental e entre os ultra-ortodoxos ele tende a se realizar muito cedo.  Um homem gay cristão, especialmente católico, pode tocar a sua vida dupla sendo  muito religioso e continuar solteiro, um judeu religioso seria cobrado pela sociedade.  Oren se curva, ele casa, ele tem um filho e ele trai a esposa.

Hanna sabia do segredo do filho e acolhe Thomas.
Curiosamente, a outra personagem feminina de destaque é a mãe de Oren, Hanna (Sandra Sade) e  que permite que a Bechdel Rule se cumpra.  Hanna é uma mulher religiosa, ela cobre a cabeça com turbantes ou usa o sheitel (*peruca*). Desde o primeiro momento em que ela coloca os olhos em Thomas, ela é tomada de simpatia pelo moço.  O convida para o Shabat, manda marmitas de comida para ele e obriga Motti, o filho mala, a levá-las na casa do rapaz.  Ela o chama para vir até sua casa cozinhar com ela e, bem, ela diz que ele pode ir conhecer o quarto de Oren, se quiser.  Seria somente intuição materna, ou ela era a confidente do filho morto? O fato é que a mãe de Oren é uma das coisas mais simpáticas do filme.

Voltando, não consegui simpatizar com Oren, mas não consegui desgostar dele.  O fato é que ele trai e eu sou solidária com Anat.  Ainda que ele seja pressionado pelo sistema, ele tinha campo de manobra, mas preferiu viver uma cômoda vida dupla.  Qual o papel de Anat em sua vida afinal? Eu sei que tenho o privilégio hetero e não preciso esconder meus afetos, mas não consigo ver com bons olhos quem sacrifica alguém que diz amar para manter as aparências e seus próprios interesses. 

"Eu a beijei aqui".  Poderia ser grotesco, mas não vi dessa forma.
Curiosamente, as únicas cenas de sexo com nudez do filme são de Oren e Thomas.  Não consegui achar essas cenas tão eróticas quanto as entre Anat e Thomas.  E há um detalhe que poderia parecer sórdido, mas que acabou fluindo bem, quando estavam juntos, mesmo durante o sexo, Thomas perguntava sobre a esposa de Oren e o que ele tinha lhe dito, ou feito com ela.  Era como se ele tivesse criado um elo com Anat, ainda que a coisa possa parecer um tanto perturbadora.

O diretor, na entrevista que já citei outras vezes, comenta que não se preocupou com a questão da orientação sexual de Thomas, mas de mostrar a complexidade dos sentimentos humanos.  Que uma personagem não deve ser julgada a partir da sua sexualidade, mas do que faz, ou deixa de fazer em uma história.  Ele não queria colocar Thomas em uma caixinha e, bem, conseguiu.  Algo que o diretor diz, também, é que não pretende fazer filmes somente protagonizados por pessoas LGBTI, mas que em todo o filme que fizer, elas estarão presentes.  

A famosa torta floresta negra.
Enfim, caminhando para o final, o fato é que Anat descobre tudo.  Ela tinha que descobrir, aliás, demora demais, ou não queria ver o que estava na sua frente.  Sua reação em um primeiro momento não é das melhores.  E como poderia ser?  O filme é realista o tempo inteiro e o retrato que traça da complexidade dos sentimentos humanos é muito pertinente e crível.  Agora, eu ficaria muito decepcionada se a última cena de Thomas fosse tomando tapas na cara dados por Motti.  Aliás, que raiva daquele homem.

Em O Confeiteiro, a comida ajuda as pessoas a criarem laços, a se entenderem.  As cenas de Thomas cozinhando não são somente eróticas (*Ah, mas as que são...*), há também as cenas ternas, tudo é carregado de sentimento, de carinho.  Ele ensina Anat a cozinhar.  Ele consegue criar laços com o filho de Oren, que não fala inglês, a língua que ele usa para se comunicar em Israel, através da comida que prepara.  Ele consola o coração da mãe de Oren cozinhando com ela. O alimento mais do que as palavras - e é um filme falado em três línguas (*alemão, hebraico e inglês*) - cria pontes entre as personagens do filme.

Thomas consegue dialogar com os outros através de sua comida.
O final de O Confeiteiro é aberto, sim, mas não quer dizer que as coisas tenham dado errado, muito pelo contrário.  Anat e Thomas curaram suas feridas, superaram a culpa e conseguiram seguir em frente, apesar de Oren.  Irão ficar juntos?  Terão futuro?  Ora, nem todo filme precisa desse final feliz certinho para ser um excelente filme.  E, antes que eu me esqueça, achei a trilha do filme linda.  Ficaria ouvindo por horas e horas.  É isso.  Tem O Confeiteiro para baixar na internet.  E realmente é notável que o filme de um estreante consiga ser tão bom.  O Confeiteiro foi o candidato israelense ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira este ano, mas não chegou à seleção final.  Nem todos os bons filmes chegam lá, afinal.

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