sexta-feira, 29 de março de 2019

Comentando Banho de Vida: Um Incrível Exército de Brancaleone na Piscina (França/2018)


Faz mais de uma semana que assisti Banho de Vida (Le Grand Bain), uma comédia francesa muito simpática, com o maior elenco de desajustados que eu já vi reunida e com um gostinho de conto de fadas.  Como definir um filme que gira em torno de sujeitos depressivos, desempregados, marginalizados de alguma forma, fracassados aos olhos da sociedade, que se une para formar uma equipe de nado sincronizado e termina por disputar o mundial da categoria que é uma das poucas nas quais as mulheres são o espetáculo e os homens são tratados com desdém.  Enfim, foi um filme bem surpreendente em certos aspectos e com algumas interpretações muito boas.

Bertrand (Mathieu Amalric) está no auge dos seus quarenta anos, sofre de depressão e está afastado do trabalho faz dois anos. Um belo dia, ele vê o anúncio de equipe de nado sincronizado masculina em uma das paredes da piscina municipal. Aceito, ele passa a se dedicar ao esporte junto com uma equipe de sujeitos que a gente não consegue entender muito bem por qual motivo abraçou um esporte tão inusitado. Sob o comando de Delphine (Virginie Efira), uma ex-atleta vitoriosa, mas que tenta superar o alcoolismo, Bertrand e os novos companheiros decidem participar do Campeonato Mundial de Nado Sincronizado e encontram, enfim, um novo propósito para sua vida.

Delphine quer que os rapazes libertem a mulher interior.
O filme começa com um prólogo narrado por Bertrand que faz a analogia entre um mundo que é redondo (*a Terra, o óvulo fecundado, a roda da bicicleta que nos leva livres para onde quisermos*) e como, ao longo da vida, vamos sendo colocados em um quadrado, a escola, o trabalho, os modelos familiares e adoecemos.  Imaginei que iria assistir a um filme sobre um depressivo, mas recebi um combo de sujeitos curiosos, todos altamente problemáticos, e que me lembraram na sua empreitada os sujeitos de O Incrível Exército de Brancaleone.  Rejeitados, desacreditados, meio à margem do sistema, mas que se propõe a uma louca e impossível missão e, bem, desculpem o spoiler, eles chegam lá.  

Há oito sujeitos na equipe e o filme não explica bem por qual motivo eles se juntaram ao grupo.  Bertrand foi por curiosidade e, talvez, para tentar sair de casa.  Thierry (Philippe Katerine) é funcionário da piscina, um sujeito solitário e, provavelmente, com algum atraso cognitivo.  Seu motivo maior, além de interagir com as pessoas, é Delphine, ele se derrama todo quando olha para a treinadora.  Já os outros, não sei mesmo.

A nova treinadora.
Marcus (Benoît Poelvoorde), o mais velho do grupo, é um picareta que vive levando à falência seus empreendimentos.   Simon (Jean-Hugues Anglade) é um roqueiro frustrado, que mora em um trailer e trabalha na cozinha da escola na qual sua  filha adolescente estuda.  Seu maior objetivo é que a menina o admire, algo difícil.  Basile (Alban Ivanov) é um sujeito de 38 anos que teve um empréstimo no banco negado, ele é muito próximo de Avanish (Balasingham Thamilchelvan), um sujeito que não fala francês e que usa boias no início do filme, porque não sabe nadar.  Basile é o único que parece incomodado em ter sua atividade esportiva associada ao feminino, ele e Avanish são muito próximos e tem menos espaço que os outros sujeitos.  Fiquei com meu gaydar zunindo.  Acho que eles são um casal de ursos.

Laurent (Guillaume Canet) é o único sujeito bem sucedido profissionalmente do grupo. Gerente de uma metalúrgica, ele tem esposa e filho, porém, sofre de ataques de cólera.  Ele é um marido violento e um pai que não compreende as necessidades do filho, que tem dificuldades na fala. Bertrand desconfia que ele tem depressão, mas Laurent não busca ajuda médica e termina perdendo.  Estou dando destaque para ele, porque é uma das personagens mais desenvolvidas do filme, ainda que a que mais pareça fora do lugar na equipe de nado sincronizado.

A ideia do assalto, não é uma boa ideia.
A mãe de Laurent está em um sanatório e sofre de uma doença psiquiátrica bem perturbadora.  Ela é gentil e amorosa e, do nada, começa a agredir verbalmente as pessoas, especialmente, o filho.  Acredito que o maior medo de Laurent é ter a doença da mãe.  Na clínica, Laurent conhece John (Félix Moati), um jovem enfermeiro que rouba remédios dos idosos e desenvolveu a habilidade de prender o fôlego para não sentir os odores quando tem que limpar os quartos dos pacientes pela manhã.  Laurent o convence a ser o pilar da equipe, o sujeito que prende a respiração e dá sustentação para as piruetas dos demais.

Ao longo do filme, vemos os problemas de cada um.  Bertrand e a esposa se amam, mas seu casamento é prejudicado pela condição do marido.  Ele sofre preconceito de parentes que o veem como um encostado.  Termina aceitando emprego na loja do cunhado bem sucedido (Jonathan Zaccaï), onde termina sendo humilhado.  O filho mais velho, o despreza.  Só a filha caçula, uma criança, não lança sobre ele olhos julgadores.  É a piscina e a sociabilidade com outros sujeitos em situação complicada que lhe dá esperança.  E é legal ver como se desenvolve a amizade entre sujeitos tão diferentes e como isso, ter quem lhe ouça, ter gente solidária, ajudam a diminuir os sintomas da doença.

Claire apoia o marido e sofre, também.
A equipe de nado sincronizado era somente uma diversão até que Delphine, a treinadora, tem uma recaída na bebida por causa de uma decepção amorosa.  Dela sabemos somente que tinha uma parceira, era candidata ao ouro olímpico, mas que, por algum motivo, sua dupla se desfez e ela não conseguiu persistir na carreira.  Mais tarde, percebemos que a treinadora do pólo aquático, Amanda (Leïla Bekhti), que a olha de longe, era sua parceira.  Amanda é cadeirante. O filme não explica, mas, talvez, Delphine tenha se sentido culpada pelo acidente.

Quando Delphine tem a tal recaída, Amanda decide treinar os rapazes e, bem, ela é uma treinadora muito dura, diferente da amiga.  Ela grita com os sujeitos, bate neles, os submete a um treinamento exaustivo digno de anime de esporte.  Mas eles não a abandonam.  Há um momento em que Laurent perde a paciência e joga Amanda na piscina.  Todos os colegas vão resgatá-la e parece que ela amolece, se desculpa, mas era só fingimento, ela vai lá e se vinga. 😁  E parte da cena está no trailer. 

E eles terminam se empolgando.
E estamos nesse pé quando Thierry descobre que há um campeonato de nado sincronizado masculino, que não há equipe francesa e os caras decidem contra todo o bom senso, se inscrever.  Amanda pergunta se eles querem vencer, ou só participar.  Quando Basile responde participar, Amanda vira uma fera.  O treinamento se torna mais violento até que Delphine retorna e ambas passam a oferecer para os rapazes uma preparação mais equilibrada e sem castigos corporais.  Eles se tornam uma equipe de verdade.

Só que como arrumar dinheiro para ir para a Noruega?  Marcus quer um uniforme estiloso (*sunga, chinelos e roupão*) e Laurent diz que os outros colegas mal conseguem pagar o aluguel e não teriam como investir quase 300 euros no material.  Marcus, picareta como é, dá a ideia de roubarem.  Bem, não dá muito certo... Mas, sim, eles vão para a Noruega no trailer de Simon. E apesar dos contratempos, das loucuras, da precariedade, eles representam a França no campeonato.  Leurent, por exemplo, joga os remédios de John fora e o sujeito tem uma crise de abstinência que quase o impede de nadar... Quer dizer, ele vai, mas meio que à pancadas.  Não vou dar detalhes do desenrolar do campeonato em si, mas recomendo o filme.  Ah!  Na Noruega, o filme oferece uns fanservices inusitados, porque a câmera acompanha descaradamente a bunda dos nadadores das outras equipes, todos sujeitos jovens e em forma, em contraste com a equipe francesa.

Todo mundo no trailer.
Le Grand Bain foi indicado para vários Césars, o prêmio máximo do cinema francês: melhor filme, melhor diretor (Gilles Lellouche), melhor ator coadjuvante (Jean-Hugues Anglade e Philippe Katerine, que venceu), melhor ariz coadjuvante (Leïla Bekhti e Virginie Efira), melhor roteiro original (Gilles Lellouche, Ahmed Hamidi e Julien Lambroschini), melhor fotografia, melhor montagem e melhor som.  Enfim, uma trajetória de sucesso no seu país de origem.  A trilha sonora do filme é muito boa, também.  E parece que houve um filme com trama semelhante feito na Inglaterra chamado Swimming with Men, fiquei com vontade de assistir.

Banho de Vida é um filme otimista e a gente releva, porque ele é tão bem construído na sua simplicidade e tem uns tipos tão bizarros e, ainda assim, críveis.  O filme cumpre a Bechdel Rule?  Bem, acho que por um fio, mas o fato é que ele tem seis personagens femininas no mínimo.  As treinadoras tem destaque, assim como Claire (Marina Foïs), esposa de Bertrand, e Lola (Noée Abita), a filha de Simon que termina sentindo orgulho do pai.  Há a mãe de Laurent, com quem ele termina se acertando do seu modo, e a esposa dele, Diane (Erika Sainte), que rompe o casamento e deixa o marido para trás.  Eu gostei disso, porque mesmo que as personagens tenham a nossa simpatia, nenhuma mulher deve suportar um casamento violento.  Laurent, no entanto, se acerta com o filho e, bem, a julgar pelo desenrolar dos acontecimentos, se torna um homem melhor.

Laurent meio distante dos colegas.
Falando do esporte nado sincronizado, é um dos casos curiosos em que o esporte começou masculino, ainda no século XIX, com campeonatos somente para eles.  Só que, no século XX, os homens começaram a ser banidos de muitas competições. Sim, banidos.  A Wikipedia em inglês diz que nos campeonatos nos EUA, havia duplas e equipes mistas, mas que depois de 1941, exigiu-se, sabe-se lá por qual motivo, que homens e mulheres competissem em separado e o interesse pelas apresentações masculinas caiu.  Eles terminaram sendo excluídos mesmo.  Sozinhos, nem pensar.  Parece que o que está em discussão é incluir programas de duplas mistas em Tokyo, 2020.  Enfim, que lástima isso.

Curiosamente, são poucos os momentos em que há alguma crítica aos moços por fazerem um "esporte de mulher".  Quando elas aparecem, são ignoradas, ou rebatidas em grande estilo, como no enfrentamento entre Claire e sua irmã dondoca e moralista (Mélanie Doutey).  O que importa, afinal, é que aqueles homens recuperaram a dignidade e a alegria de viver através do esporte.  E, bem, tentar ser feliz, ou pelo menos ter uns momentos de felicidade em um mundinho tão quadrado como o nosso é o que vale.  Recomendo muito Um Banho de Vida.  Duvido muito que você termine de assisti-lo sem refletir um pouquinho sobre a vida e dar algumas risadas.

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