quinta-feira, 14 de março de 2019

Oito Vidas Roubadas em Suzano. Quantos Massacres em Escola ainda teremos que assistir?


Tinha me planejado por dias para escrever um post chamado "ressaca do 8 de Março", estava juntando notícias e faria um novo jornal.  Mas eis que ontem aconteceu o massacre em uma escola em Suzano, São Paulo.  Oito pessoas foram mortas e há os feridos.  Rapidamente, os elos desse crime terrível apontaram para um fórum criminoso na Deepweb que é mais que conhecido.  Não citarei nomes, claro, mas de lá partiram as ameaças à Prof.ª Lola Aronovich, do Escreva Lola Escreva, algumas das feitas ao deputado Jean Wyllys e à Prof.ª Débora Diniz.  Nas vésperas do massacre na escola pública em Suzano, o youtuber Henry Bugalho denunciou que estava sendo ameaçado por eles.

Acompanho alguns desses sujeitos, o líder deles, condenado a mais de quarenta anos de prisão, desde antes de conhecer Lola, de saber da existência da Deepweb.  Eles tinham uma comunidade no Orkut, além de outros fóruns, eles estimularam o sujeito que perpetrou o massacre na escola em Realengo, no Rio de Janeiro.  Fiz vários posts sobre o caso.  Vários.  Depois que aconteceu, fecharam o grupo no Orkut e migraram, mas não se desmobilizaram.  Houve ameaça de atentado na UnB (Universidade de Brasília), por exemplo.  Eles pregam ódio às minorias, eles planejam atentados, alguns mirabolantes demais, mas não se deve subestimá-los, eles estimulam uns aos outros ao heroísmo, isto é, se matar e levar o máximo de gente junto, de preferência mulheres, melhor ainda se feministas, negros, esquerdistas, enfim.  

O tal fórum apoiava ativamente nosso presidente eleito desde antes dele se tornar viável como candidato.  Havia quem ria de seus membros.  Não ri mais.  O grupo apoiava o futuro presidente, porque o discurso da violência, do armamentismo e do preconceito, tocava nos corações dos sujeitos que se veem como "homens de bem".  A maioria deles são solitários, não raro adultos sem renda e dependentes dos pais, que acreditam que o mundo falhou com eles, pois lhes deve uma série de coisas (*riqueza, influência, respeito, mulheres ao seu gosto*).  Normalmente, eles têm baixa tolerância à frustração e se sentem ameaçados quando aqueles que consideram inferiores - negros, LGBTI, mulheres, estrangeiros - ocupam os lugares que eles acreditam que deveriam ser seus por direito.  Afinal, eles tem o merecimento entre as pernas e estampado em sua pele, porque mesmo quando efetivamente não são brancos, ou não seriam em outros países, se veem como tal (*estou incluindo o assassino de Realengo aqui*) e, não raro, são vistos assim no Brasil.  Entre a bravata e o crime, o espaço é pouco.  Basta a oportunidade e o estímulo adequado.
A AR-15 é a arma favorita dos que praticam
mass shootings em escolas nos EUA.
Mas eis que quando acontece uma desgraça como essa, todos falam de bullying.  Pesquisas feitas apontam que há bullying em todas das escolas brasileiras.  E o bullying não é coitadismo, como disse nosso presidente.  Bullying pode destruir a vida de uma pessoa?  Pode, especialmente, quando ela não tem apoio, ou já está em situação de fragilização. Bullying pode levar à evasão escolar?  Sim.  Bullying pode ser o ponto de partida para o desenvolvimento de alguma doença?  Sim, pode.  Tudo isso é amplamente estudado. Agora, esses rapazes - os eternos meninos - ainda que tenham sofrido bullying, não matam gratuitamente depois de longo planejamento por terem sofrido bullying.  Eles matam por tudo que que listei antes e matariam mais se, aqui no Brasil, tivéssemos acesso facilitado à armas de fogo de grosso calibre como nos EUA.  Os dois sujeitos de Suzano tinham um 38, porque deve ter sido a única coisa que eles conseguiram arranjar.  Tivessem uma AR-15, teriam matado muito mais, mesmo com a chegada rápida e a ação competente da polícia.

"Ah, como não é o bullying se você acabou de dizer que ele acontece em 100% das escolas?"  Não é o bullying, porque, se fosse, teríamos assassinos de todos os tipos.  Meninas sofrem bullying e não promovem massacres, nem aqui, nem nos EUA.  Homossexuais e transsexuais sofrem bullying pesado em suas escolas e desafio a me apontar um massacre produzido nos EUA perpetrado por eles, ou elas.  Pessoas de cor (POC, em inglês) raramente estão envolvidas em mass shootings, em escolas, acredito que só lembro de um caso único para os EUA (*se achar o link, cloco aqui*).  São sempre meninos brancos, que parecem normais, porque seja nos EUA, ou aqui, esses sujeitos não tem "estereótipo de bandido" que planejam e executam essas tragédias.  Daí, me deparei com esse print e o traduzi:


"Se o bullying causasse tiroteios em escolas, você veria atiradores trans, atiradores queer, atiradores mulheres, atiradores de cor (*negros, ou outros não-brancos).
Bullying não causa tiroteios em escola; a noção de privilégio, sim.  E garotos brancos são a demografia mais privilegiada até agora.
Aos garotos brancos é prometido a riqueza, o poder, e as mulheres como se fossem mercadoria em todas as formas de mídia desde a sua infância.  E quando eles não recebem o que acreditam ser seu por direito, eles reagem da forma que os meios de comunicação de massa lhes ensinaram: com gloriosa violência."
O que eu tenho a dizer a mais?  É necessário discutir os modelos de masculinidade, a forma como nossos meninos estão sendo socializados.  E, triste dizer, este é o pior momento para isso, porque os estímulos violentos vem de cima e são sancionados pela fala de autoridades.  É a masculinidade tóxica que traz com ela essa noção de merecimento que serve de motor para tragédias como as de Suzano.  Não são os vídeo-games, provavelmente, em uma sociedade menos violenta, nem o fato de os garotos terem um acesso regrado às armas, faria grande diferença, mesmo que elas, na situação em que vivemos, sejam parte do problema. Outra coisa que preciso pontuar, algo importante, é que o crime em Suzano não parece ter tido intenções misóginas.  Tratava-se dessa nova modalidade de suicídio em que o ato individual deve ser revestido de glória e heroísmo aos olhos de seus pares.  Como conseguir isso?  Ser lembrado?  Ser celebrado?  Matando gente.

Não citarei o nome dos criminosos.  Não irei postar suas fotos.  A divulgação alimenta o culto a esses fracassados, sim, era isso que eles foram, incapazes de ter empatia e desejando a destruição do próximo.  E mais, eles fizeram o que fizeram para que fossem lembrados.  Nada foram em vida, precisam ser celebrados na memória.  O esquecimento deve ser sua paga, não a negligência em relação ao crime e outros que possam vir, separem as coisas.  Minha solidariedade está com as vítimas em primeiro lugar.  As profissionais de educação, como eu.  Os adolescentes mortos, garotos todos eles, com sonhos e um futuro pela frente.  Aos feridos e feridas, às famílias.  Me dói um pouco o coração, também, pelas famílias dos assassinos.  Talvez, tenham feito o que estava nas suas condições para bem educar.  O problema é que a cultura que nos envolve muitas vezes nos cega, nos anestesia.  A gente não consegue perceber, a não ser tarde demais, que pessoas que amamos estão se perdendo e, pior, podem colocar outros a perder.

Veja o típico discurso do "merecedor".
Eu não consegui escrever um post no dia do ocorrido.  Eu tive vontade de chorar.  Muita mesmo.  Agora, os sentimentos assentaram, mas o medo, ele cresce, porque, como escrevi duas, ou três vezes no texto, eu sei que vai acontecer de novo.  E eu sei que o governo atual vai fingir que não tem responsabilidade com isso.  Eu sei que esse fenômeno vem de longe, não é coisa nova.  O modelo desses sujeitos, dos que promovem massacres em escolas é Columbine, prestes a completar 20 anos, mas os sentimentos que os alimentam são frustração e ódio por aqueles que, supostamente, "roubaram" o que eles mereciam para si, ou, no caso das meninas, ousaram recusá-los, eles que são tão bons.  Todas elas são vadias, pior ainda quando preferiram um desses inferiores.  Pode ter havido bullying?  Sim, mas não está aí a resposta.  É caso sério. Nem na depressão, aliás, ou teríamos muita gente que não é homem e (socialmente) branca cometendo atrocidades por aí.

E, não, não esqueci de Marielle.  Hoje faz um ano de sua execução, que levou, também, seu motorista, Anderson.  Queria escrever sobre ela e vou, mas Suzano teria que vir primeiro.  

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