domingo, 14 de abril de 2019

Comentando Shazam! (EUA, 2019): Um filme de Super-Herói Tamanho Família


Quinta-feira passada, dia seguinte à estreia, assisti Shazam!  e foi um caso raro de trailer que confirmou-se por completo.  O trailer foi uma pequena antecipação de um filme inteligente, engraçado e que consegue dialogar com vários tipos de audiência sem subestimar, ou ofender ninguém.  O Capitão Marvel, cujo nome não é dito em nenhum momento, encontrou um intérprete perfeito em Zachary Levi, que convenceu como o adolescente em corpo de adulto tendo que assumir responsabilidades para além daquilo que jamais poderia imaginar.  Ao terminar o filme, a vontade é de um pouquinho mais.  Espero que a DC não tarde em fazer a continuação, porque ela será muito bem-vinda.

O resumo da história é mais ou menos o seguinte.  O mago Shazam (Djimon Hounsou), guardião dos setem pecados capitais estava em busca de alguém que pudesse receber seus poderes e tornar-se o nov guardião.  O filme começa com o encontro entre Shazam e o futuro Dr. Sivana  (Mark Strong) em 1974.  Então somente um menino, ele não se mostra digno de se tornar Shazam.  Mais tarde, o jovem  Billy Batson (Asher Angel), um órfão que não parava em nenhuma casa de acolhimento, termina sendo escolhido pelo mago já enfraquecido e se torna Shazam.  


Os atores pareciam estar se divertindo em cena.  Adoro ver isso!
No início, ele se diverte junto com seu companheiro de quarto Frederick "Freddy" Freeman (Jack Dylan Grazer) descobrindo quais são seus poderes e fazendo coisas que a maioria dos adolescentes gostaria de tentar, caso tivesse super poderes.  Só que o vilão, Dr. Sivana, consegue colocar sob seu comando os sete pecados capitais e deseja que Shazam lhe entregue seus poderes, também.  Resta saber se nosso jovem herói estará à altura do desafio.  Se não estiver, sua nova família, que ele começou a amar, e o mundo, enfim, podem estar condenados.

O Capitão Marvel, também conhecido como Shazam, nasceu em 1939.  A década de 1930, marcada pela Grande Depressão foi uma época fértil para os quadrinhos de vários tipos, tratava-se de uma diversão barata que permitia que a população esquecesse temporariamente do desemprego, da fome, do desespero.  Foi esta década que fez nascer o gênero de superaventura, Super-Homem, Batman e antos outros, como o Capitão Marvel.  A graça de Shazam é que ele colocava em cena um garoto, e os jovens tinham muito pouca voz nessa época, recebendo os poderes de um herói lendário, tornando-se instantaneamente homem feito e enfrentando males que nem os adultos de verdade conseguiriam.  Imagine como deveria ser libertador.


A primeira família heroica.
A criação da extinta Fawcett Comics introduziu outras ideias, como uma garota sidekick (Mary Marvel), ou o conceito de família heroica com a ampliação do número de membros na equipe.  Todos se transformavam, mas, nas origens, só o Capião Marvel era um homem feito.  Só que a DC entrou em uma querela judicial com a Fawcett Comics acusando Shazam de ser um plágio do Super-Homem e venceu.  Sério, venceu.  A Fawcett Comics fechou e, mais tarde, a DC comprou os direitos sobre o herói e seu universo.  No entanto, já existia a Marvel e o uso do nome do herói precisou ser repensado.  Lembro de ter assistido algo do desenho animado do Capitão Marvel quando criança, mas nunca li nada do herói.  E vamos ao filme!

Shazam! é um daqueles filmes que a gente termina de assistir e assistira de novo e de novo.  Ao optar por um tom de dramédia, os realizadores fugiram do caráter sombrio de muitos filmes da DC e criaram um produto acessível para as mais diferentes faixas etárias.  Vários assuntos sérios aparecem na tela, como o abandono parental e o conceito de família.  Sem relevar a atitude da mãe do herói, que se perdeu aos três anos e sonhava em reencontrar sua família biológica, Shazam! pode induzir à reflexão de que a mulher que abandona a criança, não raro foi abandonada primeiro.  De qualquer forma, esse tema marginal permite repensar o quanto super-valorizamos laços de sangue, algo cultural, e deixamos de perceber que relações sólidas e emocionalmente compensadoras podem nascer de onde menos se espera.  A família acolhedora multirracial de Billy é maravilhosa nesse sentido.


Se você tivesse 14 anos e se tornasse adulto,
o que você iria querer experimentar?
Falando do herói, o protagonista, Zachary Levi, fez um trabalho maravilhoso mostrando todo o deslumbramento e confusão que uma experiência como essa poderia gerar em um adolescente.  Como me mandaram para o 1º Ano do Ensino Médio em 2019, estou convivendo de novo com garotos da idade do Billy Batson e, sim, na média, acredito que todos eles fossem se comportar de forma semelhante ao herói.  Quais são meus poderes?  O que fazer com eles?  Ah, que divertido!  Ah, sim!  E teve uma referência rápida à Big - Quero ser Grande.  Vocês viram? Enfim, a interação entre Zachary Levi e Jack Dylan Grazer, o jovem Freddy, foi excelente.  

Entre os atores jovens, Grazer foi o que se saiu melhor e suas cenas foram ótimas desde o primeiro momento.  A minha única crítica é que o bullying praticado contra ele, especialmente, a história de atirar um carro sobre um menino, ainda mais de muletas, foi super-exagerado.  Duvido que algo assim - deliberadamente atropelar uma pessoa - não resultaria em polícia sendo chamada e tudo mais.  Agora, em um filme com tantas qualidades, essa bola fora, porque foi mesmo, pode ser relevada.


Um vilão com "V" maiúsculo.
Os primeiros contatos com o vilão foram engraçadíssimos, apesar de já sabermos que a personagem de Mark Strong era muito perigosa.  Nas legendas, decidiram chamar o vilão de Silvana, seu nome brasileiro, apesar de a todo tempo lermos em tela (*por exemplo, no escritório e no laboratório da família do vilão*) e ouvirmos "Sivana".  Parece coisa pequena, mas é como assistir Harry Potter com legendas e as criaturas normalizarem o texto a partir das opções da tradução nacional, só que em menor escala.  Um desperdício.

Falando do vilão, Mark Strong, que estava super elegante no filme, é um dos meus atores favoritos.  Já lamentei em outras vezes que Hollywood adora pegá-lo para fazer o vilão, mas ele estava muito bem como o terrível Dr. Sivana.  O vilão quebrava o tom de humor do filme com sua crueldade, ele efetivamente passava a imagem de ser capaz de toda sorte de atrocidades, por assim dizer.  Daí, vinha o herói com sua inocência, sem entender, no início, que era uma questão de vida ou morte para ele, Shazam, para o futuro das pessoas que amava e o planeta.  Mais tarde, revestido de certa segurança e tendo ajustado algumas questões emocionais, ele consegue retomar o poder da narrativa e colocar o vilão em seu devido lugar.  Uma das suas armas?  O humor.  E foi ótimo.


Nos primeiros encontros, o herói, um garoto
em corpo de adulto, não sabe o que fazer.
Não considero o Dr. Sivana nas suas motivações melhor que o Abutre do penúltimo Home-Aranha (*o último foi a animação*), mas ele consegue ser muito melhor do que a maioria dos vilões de filmes de herói.  Ponto para Shazam! de novo.  Já que falei de Homem-Aranha, ainda prefiro o herói da Marvel, o filme com Tom Holland me impressionou mais, tinha o gostinho dos filmes adolescentes de quando eu era adolescente, mas fizeram um trabalho maravilhoso com Shazam!.  Também não acredito que caiba comparação entre Capitã Marvel e Shazam! salvo em bilheteria.  O filme da heroína me impactou mais como mulher, há todas as questões de gênero, de empoderamento e tudo que vem no pacote, mas Shazam! me pareceu melhor como filme.  Percebem a linha que eu estou traçando?  Posso ter gostado mais de um determinado filme por motivos pessoais, e reconhecer que outro filme foi superior como cinema.

Terminando, porque não quero dar spoilers, não.  Vejam o filme!  Ele é ótimo!  O filme não cumpre a Bechdel Rule, acredito, mas está cheio de personagens femininas interessantes e de diversidade em quase todos os aspectos.  É um filme sobre Shazam!, mas todo mundo tem espaço para trabalhar e aparecer.  E temos aquelas boas mensagens sobre superação das adversidades (*Billy consegue ir além, o vilão, não*), perdão, perseverança, solidariedade, sacrifício e amor pelo próximo.  


Agora, ele tem uma família.
Outra coisa, não sei se é um filme para crianças de menos de sete anos.  Eu adoraria levar a Júlia, minha filhinha de cinco anos, ela iria amar certos momentos do filme, mas enho plana consciência de que ela iria se dispersar.  O prólogo, por exemplo, me pareceu um tanto longo, poderia ser mais enxuto.  De resto, trata-se de um dos melhores filmes de super-herói que eu já assisti.  Veria de novo sem problema, se tivesse tempo.  


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