domingo, 30 de junho de 2019

Comentando Ōoku #15: Um dos Melhores volumes da série!



Ontem, terminei a leitura de mais um volume de Ōoku (大奥), série de Fumi Yoshimaga, que conta uma história alternativa do Japão durante o Shogunato Tokugawa.  Neste momento da história, a autora está tentando fazer algo que os escritores desse tipo de ficção não costumam executar, uma vez criado um ponto de divergência com a História "como realmente aconteceu", não há grande preocupação em criar um ponto de convergência.  Yoshinaga, que recebeu vários prêmios por sua obra, pretende, sim, já que é necessário, levar a história do Japão de volta ao curso que conhecemos.  Conseguirá?   Será convincente?  Sabe, eu cheguei a desconfiar, comecei a temer, lá no volume #13, que ela fracassasse, mas, ao que parece, ela vai conseguir resolver o problema que criou.

Ōoku começou em 2005 com um volume que se fechava em si mesmo.  Século XVII, governo da shogun Tokugawa Yoshimune, os homens japoneses foram dizimados por uma praga chamada varíola vermelha.  Com uma proporção de 1 homem para cada mulher, a sociedade se adaptou, as mulheres assumiram o poder e os postos de trabalho em todas as áreas possíveis.  O shogun é uma mulher e ela tem um harém, o Ōoku, uma grande demonstração de riqueza e de vaidade em um momento no qual a maioria das mulheres não tem condição de ter um marido.  

Felicidade em Ōoku é um convite à tragédia.
Para muitos jovens, habitar o harém do shogun é um sonho, um privilégio que pode trazer comodidade para as suas famílias e uma possibilidade de fuga da prostituição e outras situações degradantes.  Mas muitos anos se passaram desde Yoshimune, ou mesmo de Iemitsu (1604-1651), a primeira mulher a assumir o comando do shogunato.  A varíola vermelha foi debelada e a população masculina se recuperou.  Agora, apesar de ainda termos uma mulher shogun (Iesada), o Japão está às vésperas da Revolução Meiji (1868), os navios norte-americanos chegaram em  1853, e os nobres japoneses se dividem em facções, pró e contra a abertura comercial, algo inevitável, segundo os que tem mais visão, com o imperador desempenhando um papel político inevitável em um momento que antecede uma guerra civil.

O volume #15 foi um dos melhores de toda a série, o gancho que a autora deixou, com certeza é o melhor até agora e vou ficar muito furiosa com Yoshinaga se ela fizer pouco caso da surpresa que causou nas últimas duas páginas desse volume.  Ela já desperdiçou ganchos antes. Com sua dose de drama e intriga política (*a micro e a macro*), além de dor e sofrimento, o volume #15 confirma mais uma vez uma das máximas da série que é ninguém pode ser feliz por mais de um volume.  No entanto, não é ainda um volume de despedidas, pois apesar da morte de Iesada, uma das shoguns mais sofridas da série, ainda temos por mais algum tempo  Taneatsu, seu consorte, e Tachiyama, o grande mordomo do harém.  

Para quem lê o mangá, olhe o padrão do quimono
 de Taneatsu e lembre quem o usou antes.
Taneatsu, depois de viúvo, entrou para a história japonesa como Tenshō-in, deve ficar até o fim da série.  Espero, aliás, que Yoshinaga não estique Ōoku para além do volume #20, ainda que eu saiba que essa feiticeira pode levar a série adiante renovando suas tramas da mesma forma que renova as personagens.  A média de duração das personagens importantes da série é de três volumes, acredito, mas isso é uma forma de nos lembrar que o protagonista não são as pessoas, mas o próprio Ōoku, o harém do shogun.  

Quando o volume #15 começa, e no Japão ele teve edição limitada com drama CD, Iesada, que tantos abusos tinha sofrido, está bem e feliz com seu marido, Taneatsu.  Ele, que foi plantado pelo clã Satsuma para conspirar contra o shogunato, decidiu que sua real função era fazer a soberana feliz.  E Iesada, que todos criam ter saúde demasiado frágil, está grávida.  Ambos ainda lamentam a morte da habilidosa ministra Abe Masahiro, personagem importante nos volumes #13 e #14, ela conseguiu mudar a vida da shogun, protegendo-a do pai abusador e lhe dando esperanças de futuro.  Iesada também ganhou a segurança para opinar em questões de governo e quem não gosta nada disso é Ii Naosuke, novo chefe do gabinete de ministros.  E preciso comentar uma coisa, Naosuke era o DÉCIMO QUARTO filho, foi mandado para um mosteiro budista, recebia uma mesada minguada e por uma série de acontecimentos fortuitos terminou herdando o domínio do pai.  Caso excepcional, talvez único, na História Mundial.

Ao externar sua dor e sua frustração, Taneatsu
se torna alvo do desprezo de outros samurai. 
Vontade de dar colo para ele.
Ii Naosuke desejava controlar a sucessão e irá torcer (*e agir?*) para que a shogun não leve a termo sua gravidez.  Ele também age para que o tratado comercial com os norte-americanos seja assinado. Nos seus cálculos, um acordo comercial com os americanos poderia livrar os japoneses de um ataque de ingleses, ou franceses, que estavam expandindo seus impérios coloniais. Se Masahiro pretendia estender as negociações (*algo fundamental para que o Japão conseguisse fortalecer suas defesas*) e conseguir atrair os daimyos relutantes, ele opta por ações violentas e expurgos.  Sua vítima mais proeminente é Tokugawa Nariaki, chefe do partido contra o tratado, e que desejava que seu filho, Yoshinobu, fosse apontado como próximo shogun.  A pressa de Ii Naosuke em entrar em acordo com os americanos, sua truculência, faz com que o Imperador Kōmei interfira politicamente.  

Desde a morte de Masahiro, vários daimyos tinham de aproximado do imperador e o monarca, que pouco poder tinha, decide tomar medidas antes nunca vistas no shogunato, ele baixa um decreto se dirigindo ao clã Mito e, não, ao shogun Tokugawa.  Enquanto isso, o clã de Satsuma para tomar o poder.  A efetividade dos planos é limitada dentro do mangá, o próprio Taneatsu, que deveria ser peça chave, age contra os interesses de seu clã, mas o que temos é uma situação de pré-guerra civil.

Taneatsu e Iesada um dos casais mais felizes dessa série. 
Eu quero mais um live action de Ōoku
!
Yoshinaga consegue oferecer volumes muito bons quando decide sair do Ōoku  e o volume #15 consegue um raro equilíbrio entre o dentro e o fora.  Não sei se ela vai conseguir desenhar guerra, não sei se esta é sua intenção, mas o fato é que para não ter que fazer isso, ela terá que provar mais uma vez o seu talento.  Pois bem, morre Iesada, para grande luto e tristeza de Tachiyama e Taneatsu.  O consorte é proibido de deixar o Ōoku e tornar-se monge, algo que fazia parte da tradição, ele desconfia que Iesada desejava que ele guiasse a nova shogun, Tomiko, agora, Iemochi.  Muito jovem para governar sozinha, a menina termina sendo tratada como incapaz por Naosuke, mas depois do assassinato do ministro, Tenshō-in (Taneatsu) se tornará figura mais que preponderante em seu reinado.

Não sei se para quem cai de pará-quedas nessa resenha, o texto faz muito sentido, mas o fato é que você pode achar todas as resenhas de Ōoku até esse volume no Shoujo Café.  São anos de leitura e torcida, inclusive, para que o mangá seja lançado aqui.  Enfim, nesse volume, algumas questões mais que importantes são tratadas, também temos ecos de Arikoto, o concubino favorito da shogun Iemitsu, e de Lady Kasuga, que era capaz de qualquer coisa pelo bem do Japão, para que não houvesse guerra civil.  Tenshō-in e Takiyama decidem que cabe a eles agir como essas duas figuras outrora fizeram para garantir que Iemochi reine e que a guerra civil seja evitada.  Por isso, o casamento entre a jovem e um príncipe vindo de Kyoto é tão importante para apaziguar o imperador e o shogun.

O príncipe que é uma princesa.
O problema é que o príncipe Kazu, assim como a princesa "real" desta história, lembrando que a maioria das personagens do mangá tem seu sexo biológico trocado, não quer ir para Edo (Tokyo), não quer se casar.  O Shogunato promete uma série de coisas, inclusive que irá expulsar os estrangeiros dentro de um prazo de alguns anos.  O casamento se realiza.  Historicamente, Iemochi e a princesa Kazu se deram bem e viveram felizes para os padrões da época.  O problema, e esse é o gancho do final do volume, é que Kyoto não envia o príncipe que era esperado (*e que aparece em certo momento do volume*), mas uma mulher disfarçada.  A última página é ela afrontando Tachiyama.  Houve casamento, poderá haver alguma diversão no leito nupcial, mas não filhos.  É uma forma de ataque ao Shogunato.  Uma declaração de guerra?  Ou será outra coisa?

Como Yoshinaga vai resolver esse problema?  Iemochi tinha se mantido virgem para o casamento inspirada na história de amor de Taneatsu e Iesada.  Há um momento do volume em que Tachiyama desconfia que a moça ama Taneatsu (Tenshō-in) e urge que ela tome concubinos e produza herdeiros.  Só que ela tem por Tenshō-in uma devoção paternal e ele, bem, é incapaz de amar qualquer mulher que não seja sua finada esposa.  O fato é que historicamente Tenshō-in e Kazu foram adversárias (*eram ambas mulheres*) em determinado momento para, mais tarde, se tornarem aliadas em favor do Shogunato e da pacificação.  Vamos ver no que dá isso.

Kazu e Iemochi vão se dar bem uma
com a outra, o que vai acontecer?
De qualquer forma, e eu estou caminhando para o fim, o sofrimento de Taneatsu, que foi separado da esposa grávida e impedido de estar ao seu lado em seu leito de morte (*ela deve ser sido assassinada*) entra nos momentos mais comoventes da série.  Taneatsu é o novo Arikoto, mas somente agora irá ter que mostrar se tem a astúcia dosada com bondade dessa personagem tão amada, ou se irá ser o novo Emmonosuke, o dark Arikoto, capaz de conspirar sem medo e de agir sempre pensando no país e em seu próprio poder.  Talvez, essa parte caiba a Tachiyama, mas é difícil saber.

O fato é que quando Taneatsu lembra da última conversa com a esposa, uma sequência que é colocada na forma de flashback, quase chorei.  Se estivesse sozinha, choraria com certeza.  Ōoku me fez chorar outras duas vezes e, bem, os responsáveis foram Arikoto e Emmonosuke.  De qualquer forma, nessa conversa, Ieasada, cheia de esperança, fala do futuro e da revolução que quer fazer.  Ela deseja um Japão no qual as pessoas sejam valorizadas por sua competência, independente de serem nobres, ou não, de serem mulheres, ou homens.  Palavras poderosas, emocionantes, mais do que sábias, mas o Japão da série, assim como o mundo em que vivemos hoje não estava pronto para isso.  

Iesada revela seu sonho, construir um Japão no qual o mérito pese
mais que a origem social, ou o sexo biológico de uma pessoa.
Taneatsu se lembra que ele nunca se encaixou, que como samurai de Saitama, o único domínio do Japão onde a varíola vermelha não dizimou a população masculina, os homens tratavam as mulheres como lixo e ele, por ser diferente, era discriminado.  Veio daí o desejo de ajudar Iesada a superar seus medos e o apoio que ele decide dar a Iemochi.  No seu sofrimento e incapacidade de esconder sua dor, Taneatsu recebe novamente olhares de desprezo, ele não encontra paz, mas decide tirar do seu amor por Iesada e seu amor pelo Japão a força para seguir em frente e será uma árdua tarefa.

Enfim, ficção e realidade se cruzam em Ōoku.  Nesse volume, que deveria ter a capa branca, não o #14, há os que agem pelo Japão e confundem, por vezes, sua vontade com os interesses do país.  Ii Naosuke foi um deles, curiosamente, ele foi assassinado, também, por heresia, ele liberou a prática do cristianismo no Japão.  Há, também, os que agem por interesse próprio, rompendo com os laços de fidelidade que seriam sagrados.  Como os samurai que matam Naosuke, ou o senhor de Satsuma.  E há os que sofrem as consequências e tentam fazer o melhor.  Reforço meu desejo que Yoshimune não se estenda ainda mais e que consiga terminar seu mangá brilhantemente.  O volume #17 sai em agosto no Japão.  Espero que ele seja o penúltimo da série.

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