quinta-feira, 6 de junho de 2019

Discutindo Empoderamento com Capitã Marvel, Elsa, Oscar e Utena



Hoje cedo, vi um comentário no grupo do Facebook do Shoujo Café que me deixou alarmada.  Na verdade, as coisas andaram meio animadas por lá, mas negativamente.  Enfim, uma pessoa escreveu sobre uma cena deletada do filme Capitã Marvel "(...) a ideia de empoderar tanto a mulher não era ser melhor q o homem? Então pq fazer ela agir igual?".  Bem, uma mulher empoderada não é necessariamente alguém superior aos homens, moralmente falando.  Não sei de onde a pessoa tirou a ideia, porque o mais comum é que as pessoas reclamem por acreditarem que mulheres feministas queiram ser iguais aos homens, mas preciso escrever algumas palavrinhas sobre isso.


Dar igualdade (civil) é reconhecer o direito de acesso
aos benefícios e oportunidades em uma sociedade. 
Historicamente, eram correntes de pensamento conservadoras, política e religiosamente, que normalmente advogavam uma suposta superioridade moral das mulheres para negar-lhes direitos civis, ou isentá-las dos pesos desse mundo.  Por essa perspectiva, as mulheres já são moralmente superiores, são os "anjos do lar" e a responsável pela formação dos grandes homens ("A mão que balança o berço, governa o mundo").  Há um mural no colégio onde trabalho com essa temática,  as grandes mulheres por trás dos grandes homens.  Um amorzinho! #SQN 


A frase continua sendo usada até hoje. 
Você, mulher, tem um tremendo poder e responsabilidade.
Por essa lógica, se um filho faz algo de errado, a culpa é da mãe que não cumpriu bem seu papel, talvez, por ter uma carreira e se preocupar com ela.  Sim, nesse tipo de narrativa, a culpa sempre acompanha as mulheres.  Por essa lógica, a mulher (*tem que ser no singular mesmo, porque só há uma alternativa*) não precisa, nem deve, almejar mais do que a maternidade e o casamento, porque no lar ela tem tudo o que precisa. Ah, sim!  Na propaganda, essa mulher é sempre branca e burguesa (*ou de classe média*), mas é ela representa esse universal idealizado.
Maternidade burguesa idealizada.
Mas de onde vem a palavra "empoderar"?  Na origem, o termo "empowerment", que veio da Administração de Empresas, significava "descentralização de poderes".  A ideia seria horizontalizar a gestão de uma empresa, dando mais poder para as partes envolvidas, em oposição ao modelo vertical, que concentrava poder nas mãos de poucos.  Bem, a primeira vez que tropecei no termo em inglês "empowerment" foi em algum texto da época do meu doutorado (2003-2008).  A gente assimila a ideia fácil, empoderar seria tomar nas suas mãos o seu destino e, claro, mudar a balança de poder estabelecido em uma determinada sociedade.  


A imagem veio daqui.
Em um sistema patriarcal, quem tem mais poder são os homens; como somos racistas, os brancos tem mais poder que os não-brancos; como somos heteronormativos, os LGBTI tem menos poder que os hetero; como somos classistas, os ricos dominam os pobres.  Nessas relações desiguais de poder, os mais fracos são silenciados, logo, a ideia de empoderar, significa dar voz e autonomia, direito de escolha, direito de participar da construção das narrativas, aos que antes eram privados disso.  Trazendo para os temas do Shoujo Café, as mulheres ficcionais normalmente tinham pouco poder, seja porque eram escritas principalmente por homens, seja porque os estereótipos de gênero (*papéis masculinos e femininos*) eram impostos.  Por exemplo, uma mulher poderosa demais é uma anomalia, daí ser tratada como louca, ou uma exceção e louvada exatamente por isso, já que não ameaça o poder como privilégio masculino. Elizabeth I pode ser vista assim.  Ele não pretendia mudar o status quo das mulheres, ela estava cumprindo o seu dever apesar de ser mulher.

Joan W. Scott explica bem por que alguém como
Hillary jamais poderia dizer os absurdos que Trump diz.
A historiadora Joan W. Scott deu uma excelente entrevista tocando no tema e vou citar um trecho longo: "Há um estereótipo de gênero, no qual os homens são os líderes, os governantes, e as figuras poderosas, e as mulheres são os destinatários passivos de sua proteção, amor ou de qualquer coisa que seja. É uma resposta psicológica profundamente enraizada para as questões de liderança, que sempre foi definida como [uma característica] masculina.  E apesar de termos tido mulheres líderes, como Angela Merkel, Margaret Thatcher e Indira Gandhi [primeira-ministra da Índia de 1966 a 1977], a habilidade de exercer um poder extraordinário é ainda entendida como um traço de masculinidade, particularmente uma masculinidade excepcional - mais forte e poderosa.  (...) Em tempos de crise e revolta na sociedade, as pessoas se voltam para figuras de poder e masculinidade extraordinários em busca de salvação.  O problema aí é que, se uma mulher tenta exercer esse poder, ela é vista como anormal, não-feminina, masculina, em maneiras que são entendidas como perigosas. Porque a outra coisa que esses caras fazem é apelar para noções tradicionais de masculinidade e feminilidade.  Então, Bolsonaro fala para vocês que mulheres devem cuidar da casa; na Turquia, [o presidente Recep Tayyip] Erdogan diz que o papel principal da mulher é ter filhos, para salvar nosso futuro; Trump pensa nas mulheres com objetos de satisfação sexual. O que quer que nós sejamos, nos apresentar como poderosas é considerado anormal."

Yon-Rog fez de tudo para que a Capitã Marvel
não desenvolvesse plenamente seus poderes.
Se eu associo o poder ao masculino, uma mulher poderosa é uma anomalia, uma mulher, ou menina, que busca se empoderar é uma ameaça à ordem.  A cena em que a Capitã Marvel, já no final do filme, diz para Yon-Rogg (Jude Law) que ela não precisa fazer nada para agradá-lo, é o ponto alto do empoderamento da super-heroína.  Ali, ela rompe com o olhar masculino e delimita qual é o seu espaço e passa a ter uma existência autônoma.  Ela termina seu processo de libertação.   É como Elsa de Frozen, que tanto incomoda nossa ministra Damares, quando ela canta Let it Go, ele se liberta das amarras, do olhar dos outros, da necessidade de esconder suas capacidades e seus sentimentos, e se empodera. Ela não se torna uma pessoa melhor, não ainda, mas ela deixa de ter vergonha de se mostrar forte.  E, sim, as mulheres são ensinadas a parecerem frágeis, porque isso não é feminino. E não é feminino por quê?  Por incomodar os homens, por ameaçar o seu poder.  Como pontuei no início do parágrafo, é lamentável que poder seja sinônimo de masculino em muitas cabeças.

Elsa se empodera, mas o que a torna
uma pessoa melhor é reconciliar-se com sua irmã.
Em A Rosa de Versalhes  (ベルサイユのばら), que vocês devem estar lendo, Oscar tem vários momentos de empoderamento até romper com a ordem patriarcal e ser quem ela deseja ser, inclusive escolhendo de que lado da política deseja estar.  Cito dois momentos.  O primeiro, quando a protagonista decide sair dos guardas reais, posto conseguido pela influência do pai, para o exército regular.  Ali, ela buscou se definir como pessoas fora da órbita de influência paterna, tendo que sobreviver à oposição de seu superior, o General Bouillé, quanto seus subordinados.  O segundo momento, é quando Oscar está lendo os Iluministas e seu pai a repreende e quer jogar os seus livros fora.  Ela reage dizendo que os livros são seus, comprados com seu dinheiro.  

Oscar em seu uniforma azul.
Já chegando ao fim, vou ter que tocar em Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ).  Na animação, que desenvolve bem mais as discussões de gênero, nossa heroína afirma desde o início da trama que não deseja ser uma princesa, quer ser o príncipe.  A imagem que temos da princesa, e que produções modernas vem ajudando a transformar, apresenta a mocinha como alguém incapaz de salvar a si mesma, ela precisa do herói.  Utena é, portanto, uma subversão dos papéis tradicionais de gênero, seu empoderamento incomoda, mas como ela é ingênua, torna-se vulnerável à sedução do vilão.  O que ele quer roubar dela?  A espada que ela traz dentro de si, seu espírito de luta.  

Akio quer proteger Utena?  Não!  Castrá-la e assujeitá-la.
Em algum ponto da reta final do desenho, Akio diz que "Espadas não combinam com vestidos".  Nesse momento, Utena está vestida de princesa, aparentemente assujeitada, mas ela resiste e mostra que mesmo vestida de princesa, ela não se submeterá à representação social associada a ele.  A resistência a empodera novamente, e ela vence, ela se liberta e ajuda Anthy a se libertar, também.  Mas vejam lá o final da série, Anthy dando um fora em Akio, pegando a sua boina e indo embora. Eu acho esse final lindo! Ninguém empodera ninguém, a gente, no máximo, aponta o caminho e/ou se empodera junto.

Mas ela resiste e vence.
Se empoderar não é se colocar acima de, mas reivindicar seu direito a uma cidadania plena, à satisfação como indivíduo completo e, não, como mero apêndice de outro, seja pai, seja marido, seja filho.  Às mulheres durante muito tempo foi negada a possibilidade de uma identidade autônoma, os feminismos, nas suas múltiplas vertentes, buscam garantir esse direito, mas cabe ao indivíduo ir atrás desse empoderamento que é pessoal.   Não sei se o texto conseguiu sintetizar todas as ideias necessárias, mas queria voltar a reforçar que se empoderar nada tem a ver com ser melhor que outras pessoas, empoderar-se tem a ver com se tornar uma pessoa melhor, mais forte e capaz de conduzir seu próprio destino e ajudar a mudar o mundo.

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