terça-feira, 25 de junho de 2019

Gamer rebate comentário machista e perde contrato com marca de acessórios para gamers


Usei o mesmo título da matéria do Jornal O Dia, porque ela expressa perfeitamente o que houve nesse caso e se posiciona de forma critica em relação à questão.  Enfim, não conheço Gabi Cattuzzo, não sou gamer, muito longe disso.  Só que, como não podia deixar de ser, chegou em mim o incidente no qual a moça, uma gamer importante do cenário brasileiro, deu uma resposta enviesada para um sujeito que a assediou, muito provavelmente, por já ter sofrido isso tantas e tantas vezes, e acabou sendo alvo de uma campanha de misóginos, machistas e afins.  Resultado, a Razer Brasil, empresa ligada ao ramo, anunciou que vai retirar seu patrocínio.  O comunicado está aí embaixo:



Mais cedo, antes de saber mais detalhes do caso, eu tinha me posicionado da seguinte forma, Cattuzzo é uma pessoa pública, por isso mesmo, deve ter cuidado com a forma como se expressa em suas redes sociais, e a empresa patrocina quem quiser.  Ainda que mantenha essa posição, sei muito bem do momento terrível em que vivemos, isto é, toda a sorte de escória se sente empoderada para expressar o que tem de pior e ameaçar as pessoas que considera mais fracas.  Gabi Gattuzzo disse que todos os homens são lixo e uma turba de homens (*e mulheres validadoras*) prontamente age como se ela tivesse ameaçado promover um genocídio de metade da raça humana.  

se você não é lixo, não vai dar a mínima para isso.  Mas qual não foi o resultado?  Ela, seus familiares e amigos começam a receber ameaças de morte.  Sim, de morte.  Mulheres são chamadas de uma série de coisas absurdas todos os dias no coletivo, nem por isso saem por aí ameaçando MATAR os homens, muito menos, matando seus desafetos, ou pessoas que dizem amar profundamente, como os homens fazem.  Mulheres matam, mas em uma proporção muito menor aos dissabores que enfrentam no dia-a-dia.


A atitude da Razer Brasil, que disse que não vai renovar o patrocínio com a moça, foi saudada por 9 entre dez misóginos da internet.  A ação, aliás, foi orquestrada e atingiu os objetivos. É para comemorar mesmo.  A empresa se posicionou imediatamente contra a moça e a acusou de fazer discriminação por sexo (!!!!!).  Seja lá o que signifique isso, trata-se de uma invenção para justificar a covardia, ou a cumplicidade.  Olhei o Twitter faz pouco e existe uma onda de indignação.  Bem, é direito da empresa deixar de dar dinheiro para Gattuzzo, é direito dos consumidores apoiar essa medida, ou boicotar a marca.  Simples assim.  Acabei de ver que Felipe Neto, que tem estado do lado certo da maioria das causas nos últimos tempos, veio a público defender a moça.  Bom, espero que aumente a onda de indignação.

Discuti mais cedo com um moço que veio na linha do "quem lacra, não lucra".  Pergunto-me se já esqueceram da ressaca causada pelo sucesso da Capitã Marvel, porque está mais que provado que abraçar causas justas não causa benefícios somente para a sua consciência.  Ele citou o exemplo de Neymar, que perdeu patrocínios por conta do escândalo recente.  Perdeu, sim, nem tanto por causa do suposto estupro (*sim, nada provado, apesar da moça já ter sido julgada e condenada*), mas muito mais por ter cometido um crime ao expor as imagens da moça, conversas, nome do filho criança dela na internet.  E, olha, que ele já era sonegador antes disso e, bem, continuava em alta.  Só que ele recebeu inúmeros apoios, começando pelo presidente, o mesmo que não prestou uma solidariedade sequer à família negra fuzilada pelo Exército no Rio de Janeiro.  Enfim, se houvesse o mesmo peso e a mesma medida, não teríamos um homofóbico, misógino e racista eleito e festejado, inclusive em meios cristãos.  Resumindo, os pesos e as medidas não são as mesmas, homens e mulheres não são tratados da mesma forma em nossa sociedade..

Misóginos querem que as mulheres fiquem "no seu lugar",
aqueles que eles determinaram para elas.
Voltando, o meio gamer é extremamente machista e tóxico. Querem ver?  Segue algumas notícias: Em campanha contra machismo nos games, youtubers sentem assédio na peleNo “Dia do Orgulho Nerd”, mulheres expõem o lado tóxico dessa comunidadeAnita Sarkeesian talks about exposing gaming’s most toxic trends with sheer dataConheça Anita Sarkeesian, a crítica de games que está sendo execrada na internetAnita Sarkeesian: uma voz mal-entendidaO que as mulheres fazem para driblar o machismo em games online?Mulher denuncia ataques machistas em jogos online etc.  Poderia continuar listando matérias o dia inteiro e em várias línguas.  O meio nerd em geral é muito machista e uso nerd para abarcar tudo, a seção dos games pode ser mais exacerbada, mas não abri o Shoujo Café e antes dele o Shoujo House e uma lista de discussão no Yahoo, porque as mulheres e suas opiniões eram bem acolhidas em grupos mais amplos.

Enfim, Gabi Gattuzzo poderia ter respondido de forma diferente.  Ela poderia não ter generalizado, aliás, detesto esse tipo de coisa.  Ela poderia ter respirado e dado uma resposta melhor, mas ela não fez nada de tão nefasto assim.  Abominável é ser ameaçada de morte e ver a festa que alguns estão fazendo, porque, aparentemente, conseguiram anular uma mulher, uma gamer e aparentemente feminista.  É disso que se trata, uma ação coordenada para tentar silenciar mulheres, aterrorizá-las e a empresa, a Razer, agiu no mínimo precipitadamente, ainda que, repito, seja direito deles patrocinarem quem quiserem.


Terminando, deixo o vídeo do Clayson sobre o assunto, está aí em cima.  Ele explora bem o caso.  Não concordo com ele quando diz que a empresa deveria separar a gamer de suas ideias.  Não.  Se uma pessoa é horrorosa, salvo em caso de necessidade absoluta como vencer uma guerra, ou impedir uma catástrofe, não se deve dar voz e espaço para ela.  Raros são os monstros que já nascem grandes, sabe?  Mas nem é o caso.  

Não há simetria entre o que uma mulher gamer sofre e a indignação (*seletiva*) dos homens que se sentiram ofendidíssmos com a generalização.  Infelizmente, porém, é o mundo em que vivemos.  Espero que a Gabi Gattuzzo não se deixe calar e logo esteja com um novo patrocínio.  Sim, estou me posicionando.  Entre os misóginos e hipócritas, eu fico com ela.  Perdeu a paciência, mas é mais vítima do que uma coletividade que raramente se junta para algo de positivo.

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