segunda-feira, 1 de julho de 2019

Comentando o Volume #1 de O Marido do Meu Irmão: Gengoroh Tagame para todos os públicos... Ou Quase!



Ontem, concluí a leitura de Otouto no Otto (弟の夫), aqui, O Marido do Meu Irmão, de Gengoroh Tagame.  A minha intenção era publicar a resenha ontem mesmo, seria uma forma de marcar o último dia do mês do Orgulho LGBTI, só que minha conexão estava péssima e, mesmo agora, nem sei quando a resenha irá ao ar.  É possível que tenha que recorrer ao tablete, ou celular, porque o laptop não quer conectar.  Problemas de estar de férias.

A série, originalmente em quatro volumes e em dois formatos na versão da Panini, conta a história da relação entre Yaichi, sua filha Kana e Mike Flanagan, um canadense casado com o gêmeo do protagonista, Ryouji.  Sim, eu diria que Yaichi, um divorciado que ficou com a guarda da filha e vive de renda, é o protagonista do mangá, pelo menos, no primeiro volume nacional.  Um belo dia, Yaichi abre a porta e recebe um emocionado abraço de Mike, assustando-se.  O estrangeiro se desculpa e se apresenta como seu cunhado, marido de seu irmão gêmeo, falecido um mês atrás.  Yaichi talvez não permitisse que Mike ficasse em sua casa, mas a entrada em cena de sua filha Kana, uma criança de seis, ou sete anos, e o acolhimento imediato que ela dá ao “tio” terminam por definir a questão.  Mike fica como hóspede, como qualquer parente ficaria, mas isso é somente o começo de uma jornada de autoconhecimento, superação de (pre)conceitos e de cura do luto para Aichi e o cunhado. 


Abraçar não é algo da cultura japonesa e Yaichi
tem suas próprias travas em relação a isso, também.
O anúncio de O Marido do Meu Irmão foi muito bem recebido pela maioria das pessoas que eu conheço.  A série foi aclamada no exterior por discutir questões importantes como sentido de família, diferenças culturais e diversidade.  O reconhecimento da qualidade do mangá de Gengoroh Tagame materializou-se em prêmios, a série recebeu um dos Eisner Award, o Japan Media Arts Award, e um dos prêmios da Associação Japonesa de Cartunistas.  Gengoroh Tegame tinha construído sua carreira nos mangás pornográficos para homens (*Bara Manga*) e meu primeiro contato com essa demografia foi exatamente com um ou dois mangás dele.

O Bara Mangá é muito mais underground que o BL, por exemplo, por um motivo muito simples, os mangás femininos homoeróticos tendem a retratar uma homossexualidade idealizada para satisfazer, principalmente, mulheres heterossexuais.  Já os Bara Mangá são direcionados efetivamente para homens gays, tendem a ser crus e diretos na representação do sexo e sua arte é bem mais agressiva, ou, melhor dizendo, esteticamente agradável ao público que se destina.  As antologias Bara são muito mais raras e o meio digital é mais usado para a circulação desse material.


Estranhamento.
Tagame cruzou uma ponte importante com Otouto no Otto, ele saiu da margem e foi para o centro, publicou em uma revista seinen, a Monthly Action, a mesma de Orange, entre from 2014 e 2017.  O processo que Tagame parece estar fazendo é mais ou mesmo que Fumi Yoshinaga fez ao sair do BL, sua origem, mas uma demografia ainda vista com restrições, para o mainstream, seja shoujo, josei, ou seinen.  O resultado?  Finalmente, seu talento foi notado e recebeu todo o reconhecimento possível com o lançamento de Ōoku (大奥), celebrado como uma obra prima.  Não deveria ser assim, afinal, ela já era extremamente competente antes.  O mesmo vale para Gengoroh Tagame.

Em Otouto no Otto, Tagame faz um slice of life, um mangá centrado em questão aparentemente insignificantes do cotidiano, o dia-a-dia de uma família, suas refeições, as pequenas alegrias.  Faz-se um contraste entre a percepção do mundo de uma criança pequena, ainda não suficientemente socializada seja em aspectos culturais do seu próprio país, vide a questão do abraçar, seja nos preconceitos sociais.  Kana quer apresentar o tio Mike aos seus amiguinhos, mas sua melhor amiga é proibida de ir até sua casa porque a mãe o considera uma “má influência”.  A menina inquiri o pai para saber o que isso significa, explicar é complicado.  Vejo em Kana muito da minha filha, elas têm mais ou menos a mesma idade, personalidades diferentes, mas a forma como Tagame representa uma criança é muito precisa.


Yaichi faz um escândalo
quando vê essa cena.
Já Yaichi, bem, ele tem que lidar com sua homofobia internalizada.  Ele não lida bem com suas emoções, a resistência em abraçar a filha é mais que cultural, a incapacidade (*isso é visto em sonho*) de chorar nos funerais dos pais não é somente por ele ser japonês, a sombra que existe sobre o afastamento dele e do irmão gêmeo é algo a ser explicado.  O fato é que Yaichi é um pai responsável sob qualquer ótica.  Ele sabe que é seu dever zelar por Kana e possibilitar que ela se torne uma pessoa melhor do que ele é.  Assim sendo, ao discutir temas como homofobia e conflito cultural, Otouto no Otto é, também, um mangá sobre o ato de educar e cuidar de uma criança, “parenting” em inglês.  Será que posso usar paternagem?  Acredito que, sim.  

De qualquer forma, a situação de Yaichi é peculiar, ser pai divorciado no Japão não é comum, mais raro ainda deve ser ter ficado com a guarda de filha e dedicar-se integralmente aos cuidados de uma criança.  Aichi se vê como uma anomalia nesse sentido.  Que homem vive assim?  Ele não trabalha, vive de aluguéis.  Mike, então, elogia o trabalho que ele faz, sim, trabalho.  Ele é dono de casa e um pai amoroso, isso é tão importante quanto ter uma profissão.  Percebam que Tagame está sendo extremamente transgressor, porque ele está sinalizando que os papéis tradicionais de gênero, os tais comportamentos ditos masculinos, ou femininos, nos castram, geram frustração e, claro, nos são impostos por uma rede de condicionamentos.  Fosse Yaichi uma mulher, sua culpa seria outra, a de não ter conseguido manter seu casamento.


Não vou dar spoiler, mas é um
momento importante desse volume.
E Mike?  Bem, ele veio ao Japão com uma missão.  Eu fui buscar spoliers, eu sei do que se trata, mas nesse primeiro volume, a coisa vai se abrindo aos poucos.  Em primeiro lugar, ele veio conhecer a família do marido, os lugares que ele amava.  Quando ele mostra para Yaichi a lista dos lugares que deseja conhecer não há nada de grandes pontos turísticos, mas são espaços que tiveram um valor afetivo importante na vida de Ryouji.  Essa parte do mangá é muito bonita.  Mike também parece querer curar velhas feridas de Yaichi, seu papel é um pouco o daqueles anjos, fadas, viajantes do tempo, whatever, que entram na vida de uma pessoa para ajudá-la a resolver seus problemas, ser feliz.  

Yaichi teve problemas em aceitar a homossexualidade do irmão, ele não conseguia olhar para gays sem vê-los primordialmente como seres sexuais.  “Quem era o marido e quem era a esposa?”, Kana pergunta para Mike.  Yaichi de pronto quer censurar a filha, Mike é todo compreensão em explicar, ambos eram maridos, afinal, era uma relação entre homens.  Yaichi se surpreende, porque ele toma consciência de como pensava errado.  É claro, há outros arranjos, há homossexuais que efetivamente querem ser a “esposa”, mas, a maioria, quer somente ter um parceiro e o reconhecimento diante da sociedade e das leis de que seu amor é legítimo.  Há toda uma discussão, aliás, sobre o casamento gay, ele é possível no Canadá, mas não era, à época de publicação do mangá, possível no Japão.  E ainda não é, há prefeituras que o reconhecem, mas,  nacionalmente, ainda não


Otouto no Otto teve dorama no ano passado.
Otouto no Otto é um mangá didático.  Em alguns momentos, ele pode parecer didático demais para alguns, mas nem todas as pessoas estão acostumadas com os temas tratados.  Ao invés dos boxes de conversa do autor, ainda que eles existam, há textos explicativos de Mike sobre temas tão variados como a origem da bandeira do arco-íris até o que é um urso (*gay grande e peludo, como Mike*), não sei quais outros temas Tagame vai enfocar, mas bom ver o nome do nosso país entre os países nos quais gays e lésbicas podem se casar.  Talvez, apareçamos de novo entre os que são recorde em violência homofóbica.  

Que mais dizer?  Há bastante fanservice masculino em Otouto no Otto.  Não adianta negar, Gengoroh Tagame não abriu mão do seu estilo nesse mangá.  Há cenas de nudez, há homens malhados em roupas apertadas, há closes nas cuecas e é possível ver o delineamento do órgão sexual masculino (*avantajado*) ali.  Você pode ler pelos temas, pela história, que é muito boa, porém não serei eu a tapar o sol com a peneira.  Isso vem no pacote.  Vale a pena ler Otouto no Otto?  Vale.  O trabalho de tradução e edição de texto da Panini está muito bom, a qualidade gráfica do material, idem.  Só elogios para essa parte.  Aguardo ansiosamente o volume dois.  Deixo o link para compra no Amazon.

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2 pessoas comentaram:

Você chegou a assistir o dorama?! Eu consegui achar legendado, logo depois que terminei de ler o primeiro volume do mangá e gostei de comparar. Certos aspectos que passam despercebidos em um são melhor retratados ou interpretados no outro. A relação do Yachi com a esposa, por exemplo. Só acho que Panini atrasa muito os seus mangás, os bimestrais viram quadrimestrais, os mensais trimestrais e assim por diante...

* ex-esposa (só uma correção)

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