quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Comentando Yesterday (Reino Unido/2019): E se Somente Você Lembrasse dos Beatles em todo o Mundo, o que você faria?


Quinta-feira, assisti ao filme Yesterday e saí bem levinha da sessão, era o que eu precisava, aliás.  É um filme simpático, fofo, cheio de músicas dos Beatles e com um elenco carismático liderado por Himesh Patel e Lily James.  Do mesmo diretor de Quem Quer Ser um Milionário?, Yesterday é uma película que eu recomendaria para todos os fãs dos Beatles e para quem está com o coração meio triste a amargurado, afinal, a gente não precisa somente de filmes dramáticos, sombrios ou reflexivos.  Com isso, já deixo claro, não se trata de um filme profundo, é só bonitinho e divertido mesmo.  Mas vamos ao resumo:

Jack Malik (Himesh Patel) é um aspirante a músico, que luta faz vários anos para conseguir fazer sua carreira deslanchar.  Ele tem o apoio de sua única fã, melhor amiga e empresária, Ellie Appleton (Lily James), em um dado momento, ele diz que só se tornaria um grande astro por milagre e ela responde E sabe qual a melhor frase do filme?  "Milagres acontecem, afinal, se transformaram Benedict Cumberbatch em símbolo sexual, tudo é possível."   A moça também é apaixonada por ele desde a infância mais remota.  Um dia, quando Malik está voltando para casa de bicicleta, acontece um balck out mundial e ele é atropelado.  Depois de receber alta do hospital, ele sai para comemorar com os amigos e decide cantar Yesterday dos Beatles só para descobrir que ninguém conhece a música, ou o conjunto de rock mais famoso da História.  Perplexo, Malik viverá um dilema moral, ele pode se tornar finalmente o astro que sempre sonhou, mas terá que se apropriar das músicas dos Beatles para isso.  Só que ele é o único que sabe que os Beatles existiram, então... 

Como assim ninguém sabe quem são os Beatles?
Como pontuei lá o primeiro parágrafo, o novo filme de Danny Boyle não vai lhe proporcionar nenhuma reflexão profunda sobre o mundo, a sociedade contemporânea, ou outro grande drama que aflige nosso tempo, a película, aliás, nem se propõe a responder uma pergunta básica, "Afinal, o que aconteceu para que os Beatles tivessem desaparecido?".  Minha teoria é que Jack foi jogado para um dos muitos universos paralelos na piscada que o Sol deu, pois tudo foi causado por uma explosão solar, segundo Elle explicou.  

Não sei se você assistiu Sliders, mas a premissa da série de TV era a da existência de múltiplos universos e a possibilidade de deslizar (*daí o título em inglês*) de um para o outro universo, só que os protagonistas acabaram presos nesse processo sem conseguir retornar para casa.  Em um dado episódio, eles retornam para um universo idêntico ao seu, acreditam que, finalmente, estão em casa, só que pequenas, muito pequenas mesmo, diferenças revelam que não.  Vai que existe uma pista em  Yesterday que eu não vi?

Um CD amador apresenta Jack e os Beatles para o mundo.
Não quero dar muitos spoilers, mas se você viu o trailer já sabe que Malik vai usar as músicas dos Beatles para se tornar uma estrela.  Ele começa a anotar o mais rápido possível as letras das músicas do conjunto para não esquecê-las.  Eu consigo imaginar o desespero.  Só você lembra de uma coisa, não há traço dela na memória coletiva, é preciso registrar para que a informação não se perca.  Como historiadora, essa ideia de apagar parte da História me deixa angustiada.  Com o passar do filme, a gente descobre que outras coisas sumiram, também (*não vou revelar o quê*), e que Malik não se lembra com precisão de todas as letras do conjunto.  E há outra coisa, claro, nem todas as músicas dos Beatles fazem sentido sem os Beatles. 😄

O que começa de forma ingênua, materializando-se em um CD gravado em um estúdio de fundo de quintal (*ou beira de ferrovia, como queiram*), acaba se tornando um fenômeno mundial graças ao cantor Ed Sheeran.  Aliás, volta e meia esse moço aparece em filmes, estava no último Bridget Jones, preciso saber pelo menos de quem se trata.  Enfim, ele vê talento em Malik graças ao seu CD amador e o convida para abrir seu show em Moscou.  Elle, que é professora de Matemática, não pode ir (*nem se esforça*) e Malik acaba levando Rocky (Joel Fry), um amigo meio louco, como seu apoio.

Preciso descobrir quem é Ed Sheeran.
O sucesso de Malik faz com que a empresária norte-americana de Sheeran, Debra Hammer (Kate McKinnon), decida empresariar o rapaz.  A personagem é uma caricatura da capitalista selvagem e ela vê Malik como um produto, uma oposição completa ao tratamento amoroso que ele recebia de Elle.  Elas são as duas mulheres importantes do filme e ainda que eu goste da personagem de Lily James, finalmente fora de um filme de época, devo dizer que ela era muito egoísta.  Ela queria Jack para si, ela alimenta seu sonho, ela inclusive o desaconselha a exercer sua profissão, ele também era professor de alguma coisa.  

Professores trabalham demais e ele não teria tempo para a carreira, é o argumento dela.  Sim, verdade, trabalhamos demais, mas qual era a opção de Jack?  Fazer bicos e trabalhos braçais, ganhando pouco e sendo visto como fracassado por todos, seus pais inclusive, menos Elle.  O moço era seu e somente seu, as músicas dos Beatles o tornam popular no mundo inteiro e ela se ressente disso, mas não faz nada para redimensionar sua relação com ele, na verdade, ela o culpa por não ter percebido que ela o amava desde sempre.

Você deixou ele partir.  Agora, é tarde.
Essa parte, descobrir que ela tinha desaconselhado Jack a ser professor, me decepcionou com a personagem.  Até essa cena, que é muito rápida, imaginei que ele tivesse abandonado os estudos para se dedicar à música, que isso tivesse sido decisão dele.  Simplesmente, ele se guiava pelos conselhos de Elle e deixou de fazer algo que ele também gostava, lecionar.  E no trabalho como estoquista, ele sofre toda uma sorte de humilhações, seu chefe olha para ele com desdém, como professor, ele não passaria por tantos apertos. 

Por isso mesmo, Elle é uma personagem fofa, mas muito complicada.  Ela quer o sucesso de Jack, mas quando ele vem, ela não o apoia, ela o quer somente para si.  Fracassado, ou como eterna promessa, ele estaria sempre perto dela, sob sua asa.  Ela o ama, mas não se declara.  A personagem, aliás, nada tem de feminista, ela fica esperando que o rapaz cumpra com os papéis de gênero esperados de um homem.  Malik tem que tomar a iniciativa.  Já ele, seguindo um clichê, também, tem medo de perder a amiga, a intimidade que tem com ela, se der um passo errado.  Rocky, que vira seu apoio na nova fase da vida, vive no ouvido dele dizendo que se fosse ele, transaria com Elle várias vezes por dia.   É fofinho o romance dos dois, mas altamente problemático e nada saudável.   Fora isso, acho que os dois permaneceram virgens até quase os trinta anos, um esperando pelo outro, sem se mexerem para materializar coisa alguma.

E se descobrirem que você é uma fraude?
O sucesso de Jack separa os dois.  Será que eles se acertam no final?  Será que Jack era o único a se lembrar das músicas dos Beatles?  Será que algum dos Beatles originais existe naquele universo?  Será?  Não vou estender mais a resenha.  Yesterday é um filme legal e é somente isso mesmo, uma película para aquecer o seu coração.  Contempla diversidade étnica, não decidi se cumpre, ou não, a Bechdel Rule, mas não apresenta nada de novo em termos de representação feminina.  Há uma mulher deformada pela ambição, temos a mãezona de Jack e Elle que é incapaz de colocar para fora o que deseja, porque está muito apegada aos papéis tradicionais.  Isso torna o filme ruim?  Não, eu pagaria ingresso para ver de novo, se tivesse tempo sobrando.

Enfim, se você é fã dos Beatles, dê uma chance para Yesterday.  Se gosta de filmes para aquecer o coração em tempos tão sombrios, ele será bom para você.  Se lhe agrada um romance fofinho e despretensioso, é uma boa opção, também.  Acredito que alguma indicação ao Oscar Yesterday há de receber, porque como filme, ele funciona muito bem.  Há algumas sequências muito bonitas e emocionantes, além do drama moral de Malik.  De resto, a gente sai cantando, ou assoviando, Beatles.  E, bem, o mundo seria muito mais triste sem as músicas maravilhosas dos Garotos de Liverpool.  

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