quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Comentando Adoráveis Mulheres (Little Women/1994): Uma bela versão, mas não tão feminista quanto parece


Sábado de manhã, parei para assistir ao filme Little Women de 1994.  Alguém me perguntou se eu iria resenhar os outros filmes por conta da nova adaptação da Greta Gerwig e eu achei que poderia ser uma boa ideia.  Vou conseguir?  Não sei, não sei mesmo, mas pelo menos o de 1994 está aqui.  Eu realmente não sei quantas vezes assisti ao filme da australiana Gillian Armstrong, a primeira mulher a dirigia uma adaptação do livro de Louisa May Alcott, mas acredito que foi uma só.  Lembro que, na época, não tinha gostado de uma série de coisas.  Revendo bem uns vinte anos depois, achei um filme muito bom, mas continuo mantendo as minhas duas críticas mais pesadas.  Falo delas no final do texto.  Vou fazer contrapontos com o filme da Greta Gerwig, mas o mínimo possível, talvez, só no fim da resenha.  

Little Women conta a história das quatro irmãs March (Meg, Jo, Beth e Amy), mostra seu amadurecimento e a transição da adolescência para a idade adulta com suas alegrias, dores e desafios (Bildungsroman).  Quando a história começa, a família está em uma condição econômica muito precária, porque seu pai, que se voluntariou como capelão na Guerra de Secessão (1861-65), perdeu a fortuna da família.  As meninas moram com a mãe (Susan Sarandon), a quem chamam carinhosamente de Marmee, e a criada, Hannah (Florence Paterson), que continuou com elas mesmo depois do empobrecimento.  
Adoráveis Mulheres é um título perfeito.
Jo (Winona Ryder), a protagonista, que lamenta ser uma garota e, não, um rapaz, deseja ser escritora, e detesta trabalhar como acompanhante da Tia-avó rica (Mary Wickes). Quando começa a história, ela tem 15 anos e escreve peças teatrais que encena com as irmãs.  Logo no início do livro, durante um baile, ela acaba conhecendo e ficando amiga do recém-chegado Laurie (Christian Bale), neto de Sr. Lawrence (John Neville), o vizinho rico da família. O rapaz, que tem mãe italiana, morou na Europa até a morte dos pais e tem dificuldades em se ajustar aos Estados Unidos e às expectativas do avô, que quer que ele abandone os sonhos de se tornar pianista.  Os laços entre os Lawrence e os March se estreitam graças a essa amizade dos jovens e o Sr. Lawrence termina por apoiar a família tornando sua vida menos dura.  

A filha mais velha, Meg (Trini Alvarado), se apaixona pelo tutor de Laurie, John Brooke (Eric Stoltz), para desespero de Jo, que queria que todas as irmãs permanecessem sempre juntas e da tia velha, que deseja que as meninas façam bons casamentos e possam trazer alguma fortuna e alento para a família.  Quando suas esperanças em Meg, a mais bonita das irmãs, são frustradas, já que Brooke é pobre, e como Jo é um caso perdido, a velha passa a investir na caçula, Amy (Kirsten Dunst/Samantha Mathis), que responde positivamente aos seus ensinamentos.  
Meg sacrifica seus pés em nome da vaidade. 
Pobre, ela tem que usar sapatos velhos pequenos 
demais no baile.  
A menina sonha em ser uma dama e poder usufruir de todos os luxos que só dinheiro pode comprar.  Para alcançar esse objetivo, ela sabe que precisa casar bem.  Enquanto isso, Beth (Claire Danes), a mais tímida das irmãs, tem como consolo a sua música e acompanhamos a saúde da menina oscilar ao longo do filme.  Para Beth, não há sonhos de casamento, nem de carreira, todos só querem que ela fique na família o máximo de tempo que conseguir.

Quando assisti esta versão de Little Women, eu estava na faculdade.  Na época, eu era muito dura ao julgar filmes e minisséries, achei a escolha do título nacional (*Adoráveis Mulheres*) horrível e lembro bem de ter prestado mais atenção aos defeitos que via na película do que às suas grandes qualidades.  Hoje, mesmo o título me parece razoável, afinal, trata-se de uma história de mulheres, uma mãe e suas filhas.  Por qual motivo deveria esse filme seguir o modelo das produções anteriores e colocar "As Filhas do Dr. March", quando o homem participa tão pouco da história.  As meninas são mais filhas de Marmee, a mãe guerreira que cuida delas e as orienta com uma força que parece ser infinita (*ainda que saibamos que ela sofre e não é pouco*).  Logo, sendo Adoráveis Mulheres, o título pode incluir a mãe, também.  Isso é legal.
Christian Bale estava perto da perfeição.
O filme tem muitas qualidades e é necessário destacar algumas coisas.  Little Women de 1994 é a primeira adaptação feminista de um livro que foi, de certa maneira, escrito por uma mulher que era muito progressista para a sua época.  A família da autora era abolicionista, sua mãe defendia o sufrágio feminino e foi a primeira mulher assistente social do estado Massachusetts,  os Alcott eram a co-educação e que não houvesse discriminação racial nas escolas.  O pai da família foi à falência por ter aceito crianças negras em sua escola modelo.  Todas essas questões estão no filme de Anderson em linhas de diálogo que não são originais, mas se relacionam diretamente com a biografia não somente de Alcott, mas de sua família.

Ouvindo o podcast do Frock Flicks sobre o filme, elas trazem a informação de que Susan Sarandon foi chamada para o papel de Marmee depois que a diretora a viu em um protesto com seus filhos.  Marmee faria isso, ela defendia as ideias  que acreditava serem justas e engajava suas filhas em suas lutas.  A escalação foi perfeita.  Sarandon compõe uma Marmee amorosa, uma mulher do século XIX, mas com ideias próprias que ajudaram a torna a família March tão singular.  Claro, houve um ponto no qual o roteiro estica demais a corda e que me deixou bem mordida na época em que vi o filme pela primeira vez.  
Marmee, uma mãe carinhosa.
Marmee fala na frente de Brooke sobre ser contra espartilhos.  Ele é homem, solteiro, ele está apaixonado por Meg e ela por ele.  Não acredito que a Marmee do livro diria algo assim.  Mas é o único ponto fora da curva.  A história do espartilho retorna no baile de debutantes de Sally Moffat (Janne Mortil), amiga rica de Meg, mas foi conversa entre mulheres.  As moças do Frock Flicks também criticaram isso e ponderaram que teria sido melhor ideia, a crítica a um modelo de espartilho, porque as March no filme parecem usá-los, mesmo que sejam os modelos para crianças, que eram mais flexíveis.  

Já que estamos falando de roupas, o detalhismo e beleza desse filme é de encher os olhos.  Colleen Atwood foi indicada ao Oscar e ao Bafta de melhor figurino pelo filme.  Há momentos em que parecemos estar olhando para fashion plates, as ilustrações que tinham como objetivo ressaltar qual era a moda de uma determinada época.  O baile de Sally Moffat, em especial, é o momento ápice desse deleite visual.
As mocas ricas ficam com pena de Meg e seu vestido inadequado.
Na verdade, este Little Women que se esmera em detalhes nas roupas, nos cabelos, nos sapatos (*quando aparecem*) e cabelos, deixando evidente quem é rico, quem é remediado e quem é pobre.  Diferentemente, da última versão de Little Women, ou da adaptação da BBC de 2017, as meninas usam cabelos que, se não são perfeitos, estão próximos do que deveriam ser.  Mesmo a espevitada Jo usa os cabelos presos no baile no qual conhece Laurie.  Ela não está com um penteado elaborado, ou na última moda, trata-se de algo simples, condizendo com a personalidade de Jo e a ética familiar dos March, mas, também, como  o que seria requerido de uma moça de sua idade.  

E Jo, no livro lamenta ter que se curvar a essas exigências, crescer, ter que ser chamada de Miss March, usar saias longas e prender o cabelo.  Há um diálogo específico, quando ela é repreendida por Meg em que a garota arranca a rede que prendia seu cabelo e diz que vai usar duas tranças até chegar aos vinte anos.    No filme de 1994, Jo, que tem 15 anos no início da história, já está usando saias de mocinha e, não, de criança.  Esses detalhes são importantes.  Ela quer se rebelar, mas há limites.  Não é possível se insurgir contra todas as regras e continuar pertencendo à sociedade.
Jo e Meg indo trabalhar.  Cabelos presos e chapéu.  Mais atrás é
possível ver Amy com a saia mais curta, porque ela é uma criança.
Também é interessante observar Laurie e Christian Bale está muito bem no filme, muito mesmo. O ator deveria ter uns 19 anos quando filmou Little Women e consegue marcar o amadurecimento da sua personagem da adolescência até a idade adulta de forma muto convincente. No início, ele está todo preocupado em saber como deve se comportar.  Se deve recolocar a casaca ao encontrar Jo na biblioteca, onde os dois estão se escondendo durante o baile.  Ele não cresceu em Massachusetts e existe aquela complacência superior dos norte-americanos com os europeus, "Deve ser o fato dele ter sangue italiano!", para certos comportamentos do moço.  É o figurino, também, que marca o crescimento de Laurie e seus estados de humor.  

Primeira coisa, ele sempre usa gravata. Em várias produções atuais, o pessoal do figurino parece achar que era opcional para um homem respeitável descartar essa peça de vestuário, não era, tanto quanto não era adequado para uma moça crescida, ou mulher, deixar de usar chapéu e espartilho.  Aliás, a gravata permaneceu como obrigatória no figurino masculino depois que essas peças do feminino caíram em desuso. Quando entra na sua fase rebelde sem causa, depois de rejeitado por Jo, ele aparece sem o item.  Mas ele pode, ele é rico e é homem e pode comprar sua presença na boa sociedade.  
Espiando o baile.
Nessa fase, Laurie passa a usar uma barba meio largada e bigode, quando se conserta, graças à Amy, ele tira a barba e apara melhor o cabelo.  Detalhes, que são importantes na composição de uma personagem.  No final da película, ele parece e se comporta como um homem adulto, não como um garoto.  Nas versões de 2017 e 2019, Laurie, mesmo no final, continua parecendo um adolescente.

Falando em Amy, Little Women e Entrevista com o Vampiro foram as estreias de Kirsten Dunst como atriz, os dois são do mesmo ano.  Ela tinha a idade da personagem que interpretava, 12 anos, algo raro, talvez inédito.  Talvez, nas filmagens tivesse ainda menos.  Ela está perfeita, perfeita, perfeita.  Na verdade, eu realmente a considero a melhor Amy criança de todas as adaptações e escrevo isso, porque a maioria erra ao manter a mesma atriz durante todo o filme, dos 12 anos aos 22, 23.  Um equívoco mesmo.  E isso só não fica tão evidente do filme da Gerwig, porque a narrativa não é linear e ninguém sabe com certeza qual a idade das personagens.  
A Amy mais perfeita de todas.
Enfim, há duas cenas da Amy criança que são particularmente interessantes e destacam o talento da pequena atriz.  A primeira, quando o pai volta da guerra e todo mundo corre para abraçá-lo.  A pequena Amy não corre, ela se joga , chorando de alegria, e vai deslizando no chão até agarrar as pernas do pai.  É tudo tão terno e espontâneo que parece que foi ideia de momento da pequena.  

A segunda foi de Laurie levando Amy para a casa da Tia March, quando Beth cai doente e ela corre risco de pegar escarlatina.  Eles misturam dois diálogos diferentes do livro, o da carruagem e o que acontece em uma visita de Laurie para a menina exilada.  Ali, Amy faz seu testamento, diz o que vai deixar para as irmãs quando morrer e que não quer partir sem ser beijada.  Laurie promete beijá-la antes de morrer se necessário for.  Sim, Amy já estava apaixonada por ele.
Eles não me convencem como um casal.
É um ponto de virada e uma solução bem urdida para ganhar tempo e deixar base para o que virá depois.  Dá até pena de Samantha Mathis, porque, efetivamente, ela não tem metade do carisma da pequena Dunst.  E sua Amy e fria, contida demais.  Ela se tornou uma dama, verdade, mas sem a vivacidade que manteve no livro e que aparecem em outras versões.  Fiquei imaginando como seria juntar uma Amy menina Kirsten Dunst com uma adulta Florence Pugh.  Seria perfeito.  E, não, Mathis e Bale não me convencem como casal apaixonado.  Eles simplesmente ficam juntos.

O Laurie desse filme parece interessado em entrar para a família, não em casar-se com a mulher que descobriu amar e que, bem, é irmã daquela que ele julgava ser sua alma gêmea.  E Bale é muito expressivo no seu amor por Jo.  Na festa de Natal, o olhar que ele lança para ela, o primeiro olhar apaixonado, é tão apaixonado que não há dúvida da mensagem que o ator deseja passar.  Lembrou minha cena favorita de Orgulho & Preconceito de 1995, só que sem a mocinha retribuir o afeto do sujeito.  E, sim, foi um belo trabalho o de Christian Bale nesse filme.
Meg é repreendida por Laurie.
Falando um pouco de Meg, Trini Alvarado é a melhor Meg de todos os filmes, eu diria, não lembro de outra que tenha atuado melhor.  Ela tem uma beleza peculiar, ela passa doçura sem exageros, ela consegue ter a atitude correta da irmã mais velha e, ao mesmo tempo, é a donzela romântica e a mais conservadora da família.  Meg tem boas cenas com as imãs, a mãe e Eric Stoltz.  No entanto, algumas das melhores são com Laurie.  E essas cenas com o rapaz retomam o caráter moralizador do livro.  

Meg vai ao baile de Sally Moffat e lá quer se comportar como as outras moças.  O moço aparece e pergunta para uma Meg com um copo de bebida alcoólica na mão se os March não eram "temperance people", isto é, defensores da proibição do álcool.  De novo, o filme dialoga com a biografia familiar da família Alcott, ainda que, mais adiante, cometa um deslize imperdoável no mesmo tema.
O casamento de Meg é um dos
momentos bonitos do filme.
Enfim, Laurie tinha recebido de Jo a ordem de tomar conta da irmã e ele segue à risca, sendo duro.  A relação entre os dois é de desigualdade, ele, como homem, tem o direito e o dever de zelar por ela.  O filme faz uma leitura feminista do filme, mas não é infiel a ele.  Sim, Louisa May Albott constrói uma história centrada nas mulheres, mas dá aos homens, Brooke e Bhaer, em especial, mas até Laurie, o direito de repreendê-las e corrigi-las.  

Como vemos pouco de Meg depois do casamento, há um claro desequilíbrio entre a primeira e a segunda parte do filme.  As cenas em que a moça é repreendida e corrigida pelo marido não estão na versão de 1994.  Seus dramas de dona de casa super atribulada com a chegada dos gêmeos, nem vem ao caso, porque as crianças, nesse filme, só nascem no final da película.  E, claro, as discussões sobre como é ruim er um marido pobre, são ignoradas.  Só me resta admirar Trini alvarado e Eric Stoltz juntos, porque eles formam o casal mais bonito do filme.  Nesse caso, Greta Gerwig foi mais generosa.  
Beth tem uma morte lenta.
Claire Danes, que faz Beth, também tinha idade muito próxima da personagem e estreou no cinema em Little Women.  Na época, ela era uma das estrelas adolescentes em ascensão no cinema e na TV norte americana e ela oferece uma grande interpretação, oscilando força e fragilidade.  A maquiagem funcionou muio bem mostrando a degradação física da personagem.  É possível ver o sofrimento de Beth e a sombra da morte sobre ela.  Há uns recursos interessantes que é mostrar as mãos da moça ao piano.  No início, eram mãos saudáveis, com o passar do tempo, elas assumem um caráter meio cadavérico.  Só não digo que Danes é a melhor Beth, porque as atrizes que interpretaram a personagem em 1949 e 2017 são igualmente memoráveis.

Vemos mais de Beth do que de Meg na segunda parte do filme, porque é para ela que Jo escreve suas cartas.  Também dão uma cena de Meg com Jo para Beth.  No filme de Gerwig, a mesma cena foi dada para Amy.  daí, vocês tiram que a cena é importante, mas que, na média, Meg não recebe a atenção que merecia nas adaptações.  Agora, não colocaram Beth sendo convidada para tocar o piano na casa do Sr. Lawrence e o velho observando às escondidas.  Por conta disso, é estranho quando colocam o vizinho dando o piano para Beth e dizendo que já deveria ter feito isso antes.
Jo e Beth tem um elo muito forte nessa versão.
Falando de Winona Ryder, ela consegue ser uma boa Jo, com todos os altos e baixos de humor da personagem.  Ela não é particularmente atlética, ou grosseira para uma dama, ou rebelde, mas uma Jo alegre, eu diria.  Mesmo já com quase 25 anos, ela foi capaz de convencer como uma adolescente.  Ryder é uma daquelas criaturas que pareceu ser bem mai jovem que era até que, de repente, envelheceu.  De qualquer forma, a atriz que faz Jo não pode, nem ser tão jovem, nem tão madura, mas uma atriz versátil.  Por isso a escalação da Jo na série de 2017 é tão problemática.  Enfim, na época de Little Women, ela também estava em evidência e tinha uma sólida carreira.  

Eu gosto da Jo de Winona Ryder, ela é morena, o que já ganha pontos comigo, mas ela não me impacta como Katharine Hepburn e June Allyson, que eram mais velhas e que terminam sendo criticadas por causa disso e, supostamente, por carregarem demais na interpretação da personagem quando adolescente.  eu as considero bem próximas do livro nos seus exageros, porque Jo era assim.  Comparativamente, Winona Ryder parece ser uma Jo mais neutra.  Para se ter uma ideia, ela nem exclama "Christopher Columbus", como no livro, ou nas duas versões anteriores para o cinema, ainda que coloquem outra expressão menos engraçada no lugar, nem tem aquele discurso feminista mais afiado das últimas versões.  
Sozinha em Nova York.
Não, ela não é minha Jo favorita, mas não é ruim, nem boa demais.  Agora, a interação de Ryder com Claire Danes em especial é excelente.  Nesse filme, se dá muito peso ao elo entre Jo e Beth e, por conta disso, o sofrimento da protagonista com a agonia da irmã é imensa.    Como Claire Danes entrega uma das melhores Beths de todas as adaptações, Winona Ryder acompanha e consegue brilhar especialmente nas cenas com essa atriz.  E, bem, é de cortar o coração.

E chegando ao ponto complicado: Mr. Bhaer.  Gabriel Bryne é um grande ator, elegante, sexy e tudo mais.  Ele tinha mais ou menos a idade da personagem do livro, era, na verdade, um pouquinho mais velho.  Até aí, sem problema, só que o seu Bhaer é muito diferente do livro.  Revendo o filme, percebi uma das coisas que mais me incomoda nele: o excesso de informalidade.  Em uma das primeiras cenas com Jo, ele já vai sugerindo que ela o chame de "Friedrich".  De professor pobre com dos sobrinhos, ele é transformado em um renomado professor da universidade de Berlim que teve que deixar seu país.
O Bhaer desse filme não tem nenhuma
reserva em seduzir Jo.
Ora, naquele período para ter que sair da Alemanha, levando quase nada, deixando uma posição de prestígio, só podia ser por perseguição política.  Seria ele comunista, por exemplo?  Defensor do liberalismo político aos moldes ingleses?  Talvez fosse um caso de antissemitismo?  Há quem veja indícios no livro de que Bhaer poderia ser judeu.  O filme não faz questão de deixar claro o motivo para Bhaer ter vindo para a América.  Se estabelece então um jogo de sedução entre o professor e Jo que é mais evidente que no filme de Greta Gerwig.  Ele fala de filosofia, do transcendentalismo, que era a doutrina abraçada pelo pai de Louisa May Alcott, para a jovem.  Ele a leva para as rodas de debates com seus alunos, todos homens.

Sim, esse Bhaer monta um círculo filosófico em torno dele, enquanto o do livro tinha que se virar dando aulas de alemão para os filhos das boas famílias de Nova York.  O Bhaer do livro oferece bebida alcoólica para Jo e lhe diz para tomar "como se fosse remédio", ele beija a moça e os dois passam a viver na pensão em Nova York com intimidades tais que parecem de um casal de fato.  E não pensem que falo de sexo, mas, sim, eles desenvolveram rapidamente uma intimidade que seria escandalosa para a época e, claro, bem distante da relação que eles construíram no livro.
Lá vem o balde de água fria.
Chegando ao ponto nevrálgico, Jo pede que Bhaer leia seus escritos.  No livro, ela não faz isso, a discussão toda acontece quando ele critica um exemplar de um jornal sensacionalista para o qual Jo escrevia sob pseudônimo.  Ele desconfia que ela seja escritora, neste filme, ele diz que descobriu que ela escrevia ao observar seus dedos sujos de tinta  Bem, ela poderia ser uma escritora compulsiva de cartas, por exemplo.  No livro, Bhaer critica o que ela escreve de forma bem impessoal.  

Literatura popular barata era visto como algo pernicioso para a juventude, material de baixa qualidade.  No filme de 1994, o professor não critica somente o que ela escreve, mas COMO ela escreve.  "Você deve escrever sobre o que você conhece."  É engraçado que no início do filme Jo diz para Beth que não é divertido escrever sobre o que conhecemos, mas sobre o que imaginamos.  Resumindo, é um mansplaining  dos infernos.  
Como eles já estão se beijando antes,
o beijo do final perde impacto.
Apesar disso tudo,  o filme coloca Bhaer aceitando se colocar como palpiteiro das histórias de Jo que ele criticou, trazendo café no quarto dela, sim, era esse nível de intimidade, enquanto ela está escrevendo.  Só que ele não se segura, afinal, ele sabe melhor sobre o que Jo deseja, sobre o que ela deve escrever, do que ela mesma.  Olha, nem no livro do século XIX, o Prof. Bhaer se dá a esse desfrute.  É mais que um discurso moralizador, é a legitimação de tutela masculina em um filme que, até esse momento, era feminista.  

Podem reclamar do Prof. Bhaer do Louis Garrel, mas pelo menos a Greta Gerwig nos joga logo na cara que de Bhaer ele só tem o nome.  No filme de 1994, há a tentativa de convencer de que aquele professor estava próximo da proposta original quando, na verdade, é outra personagem distinta e, claro, em contradição permanente com o professor criado por Louisa May Alcott, com os princípios que a família da autora defendia e que se fazem presentes no livro.  

Temos a cena do guarda-chuva, claro.
E, de certa maneira, a personagem encarnada por Gabriel Bryne também é construída com o intuito de nos convencer de que ele não é um engodo, mas um prêmio de consolação para Jo.  O romance dos dois convence, verdade, mas só se você esquece do livro. E, claro, nesse filme não dá para fazer aquele contraste machista  entre homem "de verdade" e garoto, porque, bem, é o Christian Bale. 😉

E, sim, temos a cena do guarda-chuva que, vista isoladamente, é bonita.  A Jo de Winona Ryder não se atira em cima de um homem, porque está encalhada e é sua última chance.  Ela ama o Prof. Bhaer e não pode deixá-lo ir embora quando ele aparece na sua porta.  Simples assim.  Como na última versão, a ordem de vários acontecimentos foi alterada, mas um, em especial, definiu o destino dos dois, a antecipação da herança da Tia March.  

Maravilhosa Tia March.
Falando nisso, nem comentei sobre a personagem, Mary Wickes é uma das melhores Tia March das adaptações e Little Women foi o último filme da atriz (*embora sua voz aparece em O Corcunda de Notre-Dame*), ela não está maquiada para parecer mais velha, ela era uma atriz bem idosa mesmo e muito competente. Tia March não tem a cena do noivado de Meg, mas teve ótimas sequências e oscilou entre seu coração de pedra e a ternura pelas sobrinhas, em especial, Amy.

Já que eu falei da Tia March, não posso deixar de comentar uma inconsistência ligada a outra personagem idosa do filme.  Hannah, a criada que é quase da família, aparece rezando a Ave Maria quando descobrem que Beth está com escarlatina.  Não tenho nenhuma estatística nas mãos, mas a possibilidade dela ser católica em Massachusetts e trabalhando para quakers era remota.  Em Nova York, talvez, mas na cidade de Concord não deveria haver uma viva alma católica.

Não critico quem os queria juntos e se sentiu frustrado.
É isso.  ficou grande a resenha e nem sei se escrevi tudo.  Para quem quiser, tem resenha do filme da Greta Gerwig e da minissérie da BBC de 2017 (*Parte 1 e 2/3*) no blog.  Tentarei resenhar os filmes de 1949 e 1933.  A minissérie de 1978, não garanto, não.  A de 1970, eu não tenho, nem nunca vi por aí.  de resto, reforço que o filme é muito bom, tem uma bela fotografia (*algumas paisagens são mostradas várias vezes para marcar mudanças e passagens de tempo*), figurino e ótimas interpretações de todo o elenco.  Se nenhuma outra adaptação nova aparecer que seja mais adequada, quando Júlia tiver idade, será o filme de 1994 que vou usar para lhe apresentar Little Women.

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