segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Pedofilia só é problema quando convém: Não tem que prender o professor branco pedófilo, o problema são os bailes funk


Não sou nem de longe especialista nesse tipo de coisa, mas existe uma falácia argumentativa conhecida como Tu quoque (você também).  O que é isso?  Alguém faz uma bobagem e, ao ser pego, solta um "mas e o fulano?  Ele fez também" ou "todo mundo estava fazendo".  Se a gente, quando criança, tentasse um desses golpes com minha mãe, Dona Nilda respondia na lata "Se o/a fulano/a enfiar a cabeça embaixo do trem, você enfia, também?".  O trem passava perto da nossa casa.  Resumo, se é errado, é errado, o outro normalmente só é chamado na conversa para tentar livrar a sua barra.  Vamos ao ponto!

Você pode não conhecer a novela A Viagem (1994), mas
conhece o meme.  Tem com uns sujeitos de armadura, também.
Semana passada, houve uma mega operação contra a pedofilia, a 6ª fase da operação Luz na Infância, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 12 estados brasileiros e em outros quatro países. Foram 43 prisões em flagrante, 19 delas em São Paulo.  Só para se ter uma ideia, a primeira fase dessa operação prendeu 250 pessoas.  As idades dos envolvidos variam de 17 a mais de 80 anos,  estudantes, eletricista, empresário, dentista, policial, professor etc.  Gente de várias origens, nível educacional e econômico.

Um dos presos foi um professor de História e Teatro de uma tradicional e muito cara escola (*matérias falavam em 7 mil reais de mensalidade*) de São Paulo.  Sujeito de 54 anos, vinte anos trabalhando na tal escola, com filhos estudando lá, esposa profissional respeitada na área de educação, diretora de uma das unidades etc.  Um homem de classe média média, ou alta, branco.  Ele entrou no radar, porque baixava e compartilhava pornografia infantil.  Só que os policiais descobriram que ele também gravava as alunas na sala de aula usando câmeras escondidas em caixas de remédio.  O modus operandi é descrito à perfeição pela matéria do Fantástico.  Ele fez pelo menos 300 vídeos filmando as partes íntimas de meninas entre 10 e 13 anos.

O sujeito passou pelo menos 4 anos
aperfeiçoando o seu método de filmagem.
Um canalha que afirma ser doente, diz que o que fez é "coisa de velho" e que nunca tocou em criança alguma.  Ele está preso e espero que continue.  Acho complicado que algumas matérias exponham o nome da escola e da esposa, como se ela fosse criminosa, também.  De qualquer forma, o estrago está feito. 

Mesmo com a descrição da operação, que os presos eram HOMENS de diversas idades, origens e tudo mais, há vários comentários dizendo que "só podia ser professor de História" e "sendo professor de História, é de esquerda".  Nada é dito sobre afiliações políticas do professor, mas, você sabe, HOMENS de direita não fazem essas coisas. Considero esse tipo de comentário fruto do momento horroroso que vivemos.  Nenhuma surpresa aí.  Agora, o que me chamou a atenção não foi esse blá-blá-blá de minion básico, mas o outro bloco de comentários.

Há muitos comentários na matéria, esse bloco motivou meu texto.
Como vocês podem ver acima, três sujeitos, somente apaguei seus sobrenomes, se preocupam em atacar os "supostos" vídeos com "novinhas" no Youtube e o povo do funk.  Basta ler e perceber que eles não estão em nada chocados com o que o professor fez, mas de perguntando sobre "E se fosse em um baile funk?".  Um ainda diz que os policiais estão errados, porque, claro, tinha que ir no baile funk, porque lá reside o problema.

Pornografia infantil existe no mundo todo e as redes de compartilhamento de material pedófilo reúnem sujeitos de vários países.  Mulheres, inclusive, que fazem vídeos de suas crianças sob encomenda de consumidores do sexo masculino, ou por pressão do parceiro.  E se existe no mundo inteiro, não depende dos bailes funk, nem aqui, nem em lugar algum.  Mas, para esses sujeitos, o problema não é a pedofilia infantil, em si, esse professor é inocente diante dos verdadeiros criminosos, os MCs e os que promovem os bailes de periferia.
Se acabar com os bailes funk, fica fácil
erradicar a pedofilia do mundo.
Olha, além da estratégia do Tu quoque temos aquele desprezo básico pelo que é popular, normalmente produzida por gente pobre e/ou negra. "Valéria, você gosta de funk?".  Na média, não.  E eu não gosto de aglomerações, nem de som alto, ou gente gritando e correndo o risco de se esfregar em mim.  Isso quer dizer que eu dificilmente iria a um baile, boate, show de qualquer espécie, ou um culto em uma mega igreja.  Abro exceção para manifestações, porque, enfim, é meu dever cívico protestar contra o que está errado; por diversão, jamais.

"Valéria, então você acha que não devem punir a pedofilia do funk?".  Se ela existe (*e existe*), devem punir, sim.  Aliás, o poder público deveria regulamentar os bailes (*e oferecer alternativas a eles em comunidades pobres*) impedindo a entrada de menores de idade, a proliferação de drogas e o domínio do tráfico, ou da milícia.  Mas dá um trabalhão, não é mesmo?  O poder público deveria ficar de olho, também, em outras indústrias que usam mão-de-obra de crianças e adolescente, como a da moda, para coibir abusos diversos.  É dever do Estado proteger os menores, mesmo quando seus pais e responsáveis sem noção não o fazem.

Depois de uma apresentação para Vargas, em 1953,
a lei que proibia a capoeira foi suspensa.
Agora, a Valéria historiadora, que não gosta de funk, nem iria para um bloco de Carnaval, ou assistir desfile de Escola de Samba, sabe que as manifestações populares são perseguidas nesse país desde muito tempo.  Samba já foi proibidoCapoeira, também.  Terreiros de Umbanda e Candomblé são vandalizados ainda hoje, mas há no museu da polícia no Rio de Janeiro objetos de culto confiscados nos anos 1920.  Estavam em litígio, nem sei como ficou.  Só a muito custo, durante a Era Vargas (1930-45), e graças e ao esforço  e influência de um sujeito chave dentro do governo chamado Oswaldo Aranha, as coisas melhoraram um pouco para o pessoal do Candomblé.  

Para quem nunca ouviu falar de Oswaldo Aranha, ele era diplomata, ministro de Vargas, pertencia á ala não-fascista do governo e foi o secretário da ONU que conseguiu passar a resolução dos dois estados que possibilitou a criação do Estado de Israel, mas não o Palestino, como bem sabemos.  Muita gente achou que ele fracassaria; quem apostou contra ele, perdeu.  

Samba já foi proibido.
Voltando, eu não preciso gostar de uma determinada manifestação cultural para entender sua importância e os motivos da sua perseguição, ou exaltação.  Também, me causa nojo que esse tipo de gente venha deixar comentários em uma matéria atacando o funk para, no fundo, no fundo, enfatizar que o professor pedófilo (*homem branco, bem de vida, que nunca fez mal a ninguém*) não deveria ser punido.  Afinal, o problema não é a pedofilia em si, mas quem pratica, contra quem pratica e o desprezo pelos pobres e/ou negros.  Desculpe, eu precisava escrever sobre o tema. Era urgente.

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