segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Comentando Pride & Prejudice: Atlanta (EUA/2019): Jane Austen e Discussões sobre o que é ser negro nos Estados Unidos


Quinta-feira, assisti ao filme Pride & Prejudice: Atlanta, uma versão atualizada de Orgulho & Preconceito de Jane Austen com um elenco totalmente negro.  Trata-se de uma produção da Lifetime para a TV e acredito que esteja disponível em streaming no Amazon.  A adaptação modernizada é dirigida por uma mulher, Rhonda Baraka, e assim como outras baseadas em Jane Austen, tem altos e baixos, mas consegue ser interessante e divertida boa parte do tempo.

Atlanta, 2019, o Reverendo Bennet (Reginald VelJohnson), pastor da mais importante igreja batista da cidade, tem cinco filhas solteiras e uma esposa disposta a casá-las a todo custo.  Um jovem rico chamado Bingley (Brad James) chega à cidade e acaba entrando no radar da Sr.ª Bennet (Jackée Harry), o moço é rico, solteiro e frequenta a igreja.  Tudo perfeito!  Bingley termina por se interessar pela mais velha das moças, Jane (Raney Branch), uma jovem viúva recatada e gentil.


Sabe aquela parte em que Darcy fala que Lizzie
não é tão bonita para tentá-lo? 
Pois é... O mais alto é o vilão espetacularmente bonito.
Já a segunda filha, Lizzie (Tiffany Hines), está às voltas com uma campanha de preservação da arquitetura do bairro, que se tornou alvo do interesse de um poderoso especulador imobiliário.  No afã de defender uma causa nobre, ela termina entrando em conflito com Will Darcy (Juan Antonio), amigo de Bingley e em campanha por um assento no congresso dos Estados Unidos.  Para Lizzie, Darcy está mancomunado com o especulador e a coisa se torna pior quando ela imagina que o moço está prejudicando o relacionamento da irmã com Bingley.

Enquanto isso, chega à Atlanta o Reverendo Stevie Collins (Carl Anthony Payne II), ex-aluno do pai das moças e disposto a se casar com uma de suas filhas.  Collins está ajudando na campanha de Darcy à mando da tia poderosa do rapaz.  A promessa de Catherine Darcy (Victoria Rowell), caso o sobrinho tenha sucesso, é que Collins assumirá a igreja pastoreada pelo Reverendo Bennet como prêmio.


Jane é bonita, recatada, religiosa e prendada.
Além de Lizzie e Jane, a única das irmãs que tem algum espaço na história é Lydia (Reginae Carter), a caçula namoradeira que procura parceiros no Tinder.  Ela termina cruzando com George Wickham (Phillip Mullings Jr.), um sujeito experiente e sedutor, que está de alguma forma ligado à família Darcy.  Lydia acaba protagonizando um pequeno drama que, além de escandaloso, pois ela é filha de um pastor, pode comprometer o futuro da moça.

Não sei se resumi bem a história, mas Orgulho & Preconceito: Atlanta é um bom divertimento que não dura mais que 1h20min, muito pouco para que algumas questões sejam desenvolvidas.  Por exemplo, pouco vemos de Kitty (Alexia Bailey), que é descrita como a filha fofoqueira e melhor informada (*sobre a vida alheia*) da família, e Mary (Brittney Level), uma espécie de nerd que ajuda na divulgação do livro da mãe.  Sim, a Sr.ª Bennet, no filme, escreveu um guia sobre relacionamentos e casamento, mas como fazer propaganda do livro com cinco filhas sem marido?


Lydia procura namorado no Tinder e vive na bebedeira
e na jogatina meio que escondida da família.
Diferente do original, nesta adaptação Sr. e Srª Bennet se amam muito e mantém uma sintonia que rende boas cenas.  Jackée Harry é uma divertidíssima Sr.ª Bennet e Reginald VelJohnson um marido e pai amoroso disposto a tudo para proteger sua família. Como acontece na maioria das adaptações, a Sr.ª Bennet parece mais com a original do que o marido, mas nessa versão em Atlanta a mãe da família Bennet é menos sem noção, eu diria, mas não menos esforçada, vide a cena em que ela troca as plaquinhas na mesa de uma festa de casamento para que suas filhas se sentem perto dos homens mais interessantes, Bingley e Darcy, respectivamente.

Agora, o destaque do filme é o Sr. Collins.  A composição da personagem dialoga bem com o original, pois é puxa-saco, mesquinho e ridículo, mas lhe dão novas cores, o desse filme é muito sonso e ambicioso.  Quando ele chega na casa dos Bennet, é bem recebido pelo pai das moças, mas vem com uma história de que Deus lhe deu uma visão, que ele deveria se casar com uma de suas filhas (*de preferência Jane, a mais bonita e adequada para ser esposa de um pastor*) e assumir a igreja do sogro.  A partir daí, a relação dele com o antigo professor, azeda.
O reverendo Collins garante boas risadas.
E a Sr.ª Bennet tentando empurrar Lizzie para cima dele, o que faz com que tenhamos algumas cenas quase que tiradas do livro de Austen e outras bem divertidas.  "Um homem assim não fica solteiro por muito tempo!", ela diz para Lizzie.  "Sim, verdade!  Por isso ele está solteiro por quarenta anos.", completa o Sr. Bennet.  E, bem, Collins encontra sua esposa de pastor perfeita, o que me fez lembrar da proposta de casamento de St. John Rivers para Jane Eyre no livro de mesmo nome, em Charlotte (Kellee Stewart), melhor amiga de Lizzie.  Só que nessa versão atualizada, eles parecem se apaixonar de verdade, um consegue compreender bem as necessidades do outro.

Caroline (Keshia Knight Pulliam), irmã de Bingley, faz o gênero má, só que ao estilo patricinha moderna.  Ela me lembrou mais as meninas nojentinhas de Hana Yori Dango (*e o filme me fez lembrar do mangá em vários momentos*) do que a esnobe irmã de Bingley do original.  Caroline deseja Darcy, ela tem o apoio da tia do moço, Catherine, mas não há muito espaço para ela na história, também.  
Esse terno é horrível.
Sua maior maldade é ter que emprestar um vestido para Lizzie, quando ela vai ao resgate de Jane que tinha se acidentado na mansão de Darcy, Pemberley.  Ela escolhe uma roupa que é decotada e curta, algo que constrange Lizzie, só que, ao mesmo tempo, chama a atenção exatamente de quem ela não queria que olhasse para a moça...  Mas Lizzie, que no filme é despojada e prefere roupas confortáveis, acaba se saindo bem ainda assim. 

A relação entre Lizzie e Darcy deveria ser o ponto alto do filme, mas não me empolga tanto.  Darcy é menos orgulhoso do que a média, ele só parece ser sério e ambicioso, algo fundamental para um político.  Já a Lizzie tornada ativista de causas comunitárias, está mais disposta a agredir do que ouvir.  Existe uma sugestão no filme de que ela foge do amor, que ela se doa demais para a comunidade (*esposa perfeita para um político em ascensão, não acham?*), mas não se aponta motivo para isso.  


Lizzie e sua melhor amiga.
Agora, um detalhe interessante de Orgulho & Preconceito: Atlanta é o choque cultural.  O filme expressa o conflito entre a família Bennet, que está bem firme em suas raízes sulistas, com um falar carregado por expressões utilizadas pelos negros e uma imagem muito precisa do que é ser afro-americano, e os Darcy e os Bingley.  Eles falam "como brancos", eles praticam esportes que não são "coisa de negro".  Bingley é um golfista de elite, uma exceção, como Tiger Woods, um dos melhores do esporte em todos os tempos e que é citado no filme.  Darcy pratica equitação e Lizzie pergunta "Negros andam à cavalo?".  

Lembrei de Hana Yori Dango (*que tira parte de sua inspiração de Orgulho & Preconceito*) por conta do conflito, do choque de Lizzie com o ambiente super rico e chique dos moços, mas, também, de The Fresh Prince of Bellair, protagonizado por Will Smith.  Como parei para olhar os primeiros episódios na Netflix no sábado, pude fazer a ponte de imediato.  


Para os Bennet, o mundo dos Darcy e dos
 Bingley é muito luxuoso e embranquecido.
Os Darcy e os Bingley são como a família dos tios de Will, ricos que se esforçam para se integrar a um mundo no qual os brancos são a maioria.  Eles querem ser vistos como outros iguais dentro do grupo social ao que pertencem, mas para se integrar, renegam várias coisas que os outros negros consideram como fundamentais para a sua identidade.  O choque de Will está em paralelo à repulsa de Lizzie.  A discussão sobre o que é ser negro de verdade não é aprofundada, não há tempo, afinal, mas está no filme.

O filme cria, mas não desenvolve bem, um vilão, Antwan Tippett Jr. (Timon Kyle Durrett), o especulador imobiliário.  Ele arrasta um caminhão por Lizzie, que o odeia e despreza.  O sujeito também mantém alguma relação com Darcy, seja por ser investidor de sua campanha, seja por terem negócios juntos.  Para Lizzie, ambos são farinha do mesmo saco, mas, claro, não é bem assim... 


Catherine planejou o futuro do sobrinho
e não quer que Lizzie atrapalhe.
E chegamos à Wikham, olha, um dos problemas do filme, talvez o maior de todos, é ele.  Quando o sujeito aparece, ele é militar voltando de uma missão da ONU em Botswana,  e interage com Lydia.  Aparentemente, ele é o mesmo cafajeste do livro, em sua primeira e única cena com Lizzie, a sensação fica mais forte, só que o roteiro caminha para outro lugar.  Preciso dar spoilers agora.  

Lydia engravida de Wikham e esconde da família.  Quando a coisa é revelada, fica parecendo aos olhos da família que ela foi abandonada por ele, já a moça defende a tese de que nunca tiveram compromisso sério.  Estabelece-se, então, uma conversa interessante entre a jovem, suas irmãs e a mãe que evidencia que o filme assume uma forte perspectiva cristã conservadora.  E, não, esse não é o problema para mim.


As mulheres se apoiam nesse filme e isso é
interessante, apesar da história enviesada de Lydia.
Jane, que é um amor de pessoa, pondera que toda criança precisa de um pai.  Ela lamenta que seu marido, que ela afirma que foi colocado por Deus em sua vida, tenha partido tão cedo e seu filhinho (*que deve ter cinco, ou seis anos*) não o tenha por perto.  Sim, ter pai é importante, mas o que acabam impondo para Lydia não é que seu filho tenha um pai, mas que é necessário que ela aceite Wikham como marido.  Em que ano o filme foi produzido?  2019.  

Será que uma mulher, qualquer mulher, ainda mais com uma família tão amorosa, precisa se submeter a uma situação como essa?  Casar para que seu filho tenha um pai?  Ou é a imagem do pai pastor que está em jogo?  Enfim, o fato é que Wikham não era o boy lixo do livro de Austen e ele quer assumir a responsabilidade sobre o filho e Lydia.  Se a fala de Jane sobre o amor por seu marido e sua crença de que seu casamento foi feito no céu são bonitas, o desenlace da história de Lydia não é.  


O Reverendo Bennet é um pai e marido amoroso.
Toda criança merece ter um pai e uma mãe (*ou outro arranjo que seja emocionalmente válido*), mas nenhuma mulher precisa se casar com um homem que não ama, ou deseja a seu lado, para isso.  Não nos Estados Unidos, ou no Brasil, ou em boa parte dos países Ocidentais.  Fica parecendo que o casamento é meio que um castigo para um mau passo, não há nada da empolgação da Lydia original na atriz que interpreta o papel.  Não gostei dessa parte mesmo.

Voltando para Jane, uma das melhores cenas do filme, porque a atriz que faz a irmã mais velha dos Bennet é muito boa, é quando Jane chora o abandono de Bingley.  É um momento de grande sensibilidade e sororidade, não entrarei em detalhes, mas é uma cena que permite que a atriz que faz Lizzie brilhe também.  A gente quer que Jane seja feliz e Darcy está metido no rolo e isso azeda a relação dele com Lizzie ainda mais.


E tem casamento, claro!
Já terminando, Victoria Rowell é uma Lady Catherine De Bourgh razoável.  A conversa dela com Lizzie, aquela na qual ele pretendia intimidar a moça e fazê-la entender que ela estava muito abaixo do sobrinho, existe no filme.  E a velha dama tenta chantagear a moça ameaçando seu pai.  Se ela não sair do caminho de Darcy, seu pai perderá o pastorado da igreja e, claro, seu ganha pão.  Aliás, parece que ninguém na família trabalha, só o pastor mesmo.

Concluindo, as melhores coisas do filme são o Sr. e a Sr.ª Bennet, o reverendo Collins e Jane.  O homem mais bonito do filme é Timon Kyle Durrett, o vilão que não se assume como tal, nem tem espaço para disputar Lizzie com Darcy de forma consistente.  Tiffany Hines não é uma Lizzie ruim, mas, assim como Juan Antonio, que faz Darcy, não é marcante.  Acho que faltou um pouco de densidade ao filme e não é desculpa ser para a TV.  Agora, ele é muito bom para refletir sobre o choque cultural entre os negros muito ricos e os demais, pois o abismo entre eles é grande.


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