quarta-feira, 25 de março de 2020

Comentando Emma (BBC/2009): Parte 1


Mais de um ano atrás comecei um projeto, assistir todas as adaptações possíveis de Emma, de Jane Austen, antecipando o lançamento do novo filme este ano.  Para quem não sabe, Emma (2020) já está disponível em várias plataformas (*e em torrent*) por causa do COVID-19.  Não deve estrear em nossos cinemas, infelizmente.  Pois bem, resenhei a série da BBC de 1972 (*Parte 1/Parte 2), o filme da Miramax e o da ITV, ambos de 1996.  Faltava a série de 2009, a última da BBC, e que é a adaptação favorita de muita gente.  Assim com a outra série, a de 1972, a adaptação será em duas partes.  

Para quem não conhece o básico do livro, Emma conta a história da única heroína de Jane Austen que é rica por nascimento e goza das vantagens que o dinheiro pode trazer.  Emma Woodhouse (Romola Garai) tem bom coração, mas é um tanto mimada, seu hobby é arrumar casamentos para os outros, enquanto esquece de si mesma.  A jovem se dispôs a cuidar do pai viúvo e idoso (Michael Gambon) e acredita que sendo rica, pode evitar o casamento sem grandes problemas.  

Emma é mostrada menina no início da série.
Emma tem um vizinho, George Knightley (Jonny Lee Miller), 16 anos mais velho que ela, que visita Hartfield, residência dos Woodhouse, com grande frequência.  Mr. Knightley é o único a apontar as falhas no comportamento da protagonista, que é poupada por todos. O irmão mais novo de Knightley, John  (Dan Fredenburgh), é casado com a irmã mais velha de Emma, Isabella (Poppy Miller), o que os torna parentes de certa maneira.  

A história começa com o casamento da governanta de Emma, arranjado pela própria, aliás.  Com a partida de Miss Taylor (Jodhi May), Emma sente um grande vazio e decide tomar como sua  protegida uma órfã pobre, Harriet Smith (Louise Dylan), e arranjar-lhe um bom casamento.  A moça já tem um pretendente, mas Emma decide que Robert Martin (Jefferson Hall), um arrendatário de terras de Mr. Knightley, não é digno de Harriet e decide que a moça irá se casar com Mr. Elton (Blake Ritson), o pastor, que, na verdade, está em busca do dote da heroína.  A coisa não termina bem e Elton acaba se casando com uma noiva rica e esnobe (Christina Cole).  No meio disso tudo, dois jovens se mudam para a vila de Highbury onde se passa a história.

E já era manifesta a sua índole casamenteira.
Jane Fairfax (Laura Pyper), moça órfã, mas de boa família e muito bem educada, é tudo o que Emma deveria ser em termos de comportamento social e não é. Emma se recente disso e negligencia a moça, evitando ao máximo conviver com ela. O outro novo morador da vila é Frank Churchill (Rupert Evans), filho de Mr. Weston (Robert Bathurst), o homem que se casou com a governanta da protagonista.  

Frank Churchill é charmoso, mas leviano, e Emma se sente atraída por ele e se comporta mal por influência do rapaz.  A situação gera atrito entre a heroína e Mr. Knightley que, em silêncio, sempre foi apaixonado pela moça e acredita tê-la perdido para o pretendente mais jovem.  De qualquer forma, Emma termina frustrada em todos os seus planos como casamenteira e se desespera ao descobrir que ama Knightley e que pode tê-lo perdido para sua amiga, Harriet Smith.

Emma toma Harriet como sua protegida.
Essa resenha vai cobrir os dois primeiros capítulos da série de 2009, assim, acredito que possa comentar melhor alguns pontos.  Eu gosto muito dessa série, depois de tanto tempo sem uma adaptação de Emma, é preciso reconhecer a qualidade do trabalho, a beleza da fotografia e do figurino.  As roupas de Romola Garai em especial me parecem bonitas e práticas, quando em casa, e bem elegantes em momentos formais.  Outra ponto forte dessa adaptação é que mesmo se afastando do texto original em vários momentos, não se perde o livro de vista.  As palavras não são exatamente as mesmas, mas a gente reconhece Austen nos diálogos e na forma como as relações humanas são apresentadas.  

Uma opção dessa adaptação foi começar antes do livro em si, explicando certas questões que, quando começa a história, já estão dadas.  Por exemplo, explica-se a origem da hipocondria do Mr. Woodhouse: a perda da esposa.  Michael Gambon é mostrado como um pai e avô muito amoroso, e fica bem marcado o quão velho ele é, frágil e dependente de sua filha caçula, Emma. 

Michael Gambon talvez seja o mais frágil
Mr. Woodhouse das adaptações que eu assisti.
Ela não manda no pai, esse não é o tom dessa versão, há, na verdade, uma relação exagerada de dependência entre os dois, que tem impacto na forma como a heroína percebe suas possibilidades matrimoniais.  Não é por ser rica que ela não quer pensar no assunto, é por causa de seu pai a quem deve proteger e cuidar nessa fase da vida.

A adaptação de 2009 enfatiza a solidão da protagonista e algumas cenas são tocantes, porque mostram o quão vazia a vida de Emma é.  As pessoas vão partindo, em boa parte por ação da mocinha, que tem como sua responsabilidade pessoal arrumar casamentos para todos, enquanto ela fica para trás em uma casa grande e com o pai idoso, a quem ama, que é muito terno com ela, verdade, mas que é uma companhia um tanto sufocante.  Mr. Woodhouse é depressivo e a Emma de 2009 talvez seja, também.

Jane Fairfax tem um comportamento reservado.
Outro ponto dessa adaptação, e só se pode fazer isso quando se tem tempo, no caso, uma minissérie ajuda, é tentar entrelaçar Emma, Frank Churchill e Jane Fairfax desde sua infância.  Se você leu o livro, parece forçado, mas para quem tem contato com a história a partir da minissérie, a coisa funciona bem.  Ao longo do primeiro capítulo e parte do segundo, há toda a ansiedade de Emma em rever o filho de Mr. Weston, a antecipação pela sua chegada, que é mais forte nessa versão do que em outra qualquer.

Quando Frank Churchill entra em cena, na metade do segundo capítulo, mais ou menos, Emma parece enredada por ele.  Mr. Weston e a antiga governanta de Emma, especialmente, não conseguem disfarçar que querem juntar os dois.  A Mrs. Weston, que nessa versão parece muito mais amiga de Emma, uma igual, age mesmo como uma casamenteira, seja para Emma e Frank, quanto para Mr. Knightley e Jane Fairfax.  

A antiga miss Taylor era mais amiga do que governanta.
Jodhi May é uma Mrs. Weston bem mais jovial e risonha do que a média.  E temos várias cenas dela com Emma, passeando pela vila, visitando Miss Bates.  Essa proximidade é marcante nessa versão.  E isso tem impacto na Emma de Romola Garai, que, apesar de esnobar os inferiores, não tem ar de superioridade, ou excesso de elegância e afetação.  

Enfim, voltando para Frank Churchill, Rupert Evans dá um tom de adolescente brincalhão, risonho, debochado.  E como a Emma de Romola Garai faz a linha moleca, até meio maluquinha, os dois fazem um belo par.  Highbury é muito chata, então vamos tentar rir do que pudermos.  A principal vítima de ambos são Miss Bates e Jane, mas Emma, claro, não sabe o segredo guardado por seu parceiro de maledicência.

Frank Churchill é uma péssima
influência para Emma nesta versão.
Enfim, como a adaptação começa antes do livro, mostrando eventos passados, ela se preocupa em dimensionar a relação de Mr. Knightley com Emma desde a infância da heroína.  Romola Garai convence como uma garota de seus 12, 13 anos, porque ela imprime na sua Emma um ar de moleca.  É bem desenhado, também, o quanto a educação de Emma foi descuidada.  Ela nunca teve uma mão firme que a guiasse, Miss Taylor, futura Mrs. Weston é mais uma amiga do que propriamente uma preceptora.  E do pai, bem, os cuidados maiores são com a saúde da garota, não com sua formação intelectual, ou com as prendas que uma dama deveria desenvolver.

Como temos esse longo flashback inicial, a aversão e inveja de Emma em relação à Jane Fairfax é bem delineada.  Miss Bates (Tamsin Greig) visita constantemente a família para ler as cartas de Jane e contar dos progressos e virtudes da moça, marcando bem a diferença em relação à Emma e sua atitude preguiçosa diante dos estudos.  A Miss Bates de Tamsin Greig traz, também, uma tristeza e melancolia que nenhuma outra atriz imprimiu no mesmo papel.  Ela não é uma personagem cômica em nenhum momento desses dois episódios iniciais, o que destoa de qualquer outra adaptação.  Tenho pena dessa Miss Bates, não consegui rir da personagem em nenhum momento.

Tamsin Greig é a Miss Bates mais triste de todas as adaptações.
É evidente a sua condição de humilhação dentro da pequena sociedade de Highbury.  A necessidade de prestar reverência aos Woodhouse, Weston, Knightley, Elton, porque precisa deles.  Ela e a mãe (Valerie Lilley), assim como Jane, dependem da caridade das pessoas de sua própria classe social.  Se o tom de Tamsin Greig é de melancolia, o de Laura Pyper é de timidez.  Jane é esquiva e um completo oposto à expansiva Emma de Romola Garai.  

Assim como na versão da ITV, a Emma de 2009 costuma ter delírios e imaginar coisas.  É assim que ela constrói uma imagem do incidente entre Jane Fairfax e Mr. Dixson, quando este lhe salvou a vida.  Emma considera Miss Bates uma pessoa desinteressante, mas as histórias da solteirona alimentam sua imaginação, afinal, a mocinha tem uma vida bem limitada.  E isso é algo importante nessa versão de Emma, que caracteriza bem o provincianismo da heroína.  Emma nunca saiu, muito por causa do pai, da vilazinha onde nasceu.  Ela somente finge que não se interessa por outros lugares, daí buscar distrações como casar os outros.

A atriz que interpreta Harriet é muito bonita.
Falando nisso, a Harriet de Louise Dylan é bem bobinha.  Ela não é somente ingênua e se encontra vários degraus abaixo da boa sociedade de Highbury, sendo mostrada inclusive como excessivamente inculta.  Pode ter sido engraçada a cena em que Emma, de longe, tenta guiar Harriet, que não sabe usar os talheres, ou o guardanapo, mas isso seria algo que ela aprenderia na Academia de Mrs. Goddard (Veronica Roberts).  Trata-se de uma escola para meninas pobres nas quais elas deveriam aprender a ser úteis e, se necessário, trabalhar para famílias ricas ou melhor colocadas na vida.

Harriet é pensionista nessa escola e ninguém sabe quem paga suas despesas, daí, Emma imaginar que ela é filha de um nobre que não pode assumir uma filha natural.  Há pelo menos duas cenas nas quais fica claro que Harriet seria já quase uma professora na escola, como Jane Eyre foi no livro de Charlotte Brontë, antes de partir para Thornfield.  Por pior que fosse a instituição, usar os talheres é o mínimo que a criatura deveria saber.  É a óbvia ignorância de Harriet em relação às mínimas regras da boa sociedade que possibilita à Emma, uma jovem que está distante de ser realmente prendada para sua classe social, como Jane Fairfax é, pareça muito refinada ao seu lado.  Nesta versão, até porque Jane Fairfax não mostrou muito a que veio ainda, o fato de Emma preferia estar com alguém inferior para poder brilhar, não fica tão evidente.

Emma e Mr. Knightley se bicam
bastante nos primeiros dois episódios.
Já Robert Martin, que é apaixonado pela protegida da heroína, mas esnobado por causa de Emma, é usado para ilustrar a existência de outros grupos sociais em Highbury.  Ele não é um camponês, é um jovem trabalhador, com boas ideias, além de possibilidades de ascender socialmente, e que tem o apreço de Mr. Knightley, de quem arrenda terras.  Só que Knightley, que é repreendido por Emma por não se comportar como um cavalheiro deveria em alguns momentos, é mais flexível que a heroína com os seus inferiores.  Sim, é esse o tipo de sociedade na qual se passa a nossa história.

Mr. Knightley é bem flexível em relação aos "inferiores", mas isso é também seu direito de classe, ser generoso, magnânimo, mas ele poderia agir de outra forma, se assim desejasse.  Emma é muito mais apegada aos seus preconceitos de classe, mais até que seu pai.  Por isso, ela desdenha não somente Robert Martin, mas os Cole, uma família cuja fortuna veio do comércio.  Eles são personagens marginais no livro que muitas vezes são omitidos das adaptações mais corridas.  Como temos quatro episódios, eles estão lá, para ilustrar que Jane Austen não parece desprezar aqueles que ascendem pelo trabalho duro, ainda que, salvo o Capitão Wentworth de Persuasão, eles não sejam protagonistas de suas histórias.

Blake Ritson é um excelente Mr. Elton.
Mas eu tenho alguns problemas com essa adaptação.  O maior, talvez, é que deveria existir uma regra proibindo um ator, ou atriz de interpretar dois protagonistas de uma história de Jane Austen.  No máximo, o sujeito que foi um mocinho pode voltar duas décadas depois como pai de alguém.  Tipo, fez Mr. Darcy e em outra adaptação volta como Mr. Weston.  É o máximo que eu suporto.  Jonny Lee Miller foi Edmund Bertram em Mansfield Park de 1999.  Já Blake Ritson fez o mesmo papel em Mansfield Park de 2007.  Não há escassez de atores na Inglaterra.  Será que não poderiam escalar outros atores?  

Muito bem, isso, claro, não quer dizer que os atores estejam mal em seus papéis.  Blake Ritson  está muito bem como Mr. Elton.  A cena da carruagem, o ápice da personagem nesses primeiros dois capítulos, é bem interessante.  Ritson não faz um Mr. Elton que tenta agarrar Emma, ele é sinuoso em alguns momentos, noutros, ele me lembra aquele morceguinho de Anastácia, especialmente, quando é rejeitado e volta para seu banco encolhido, humilhado, só que com um olhar de rancor, ódio.  Este Mr. Elton não é engraçado, ele é perigoso.  Essa á a impressão que ele deixa na cena toda.

Blake Ritson está excelente como John Knightley,
mas acredito que ficaria melhor como o protagonista.
Agora, já que falei de Elton, tenho que falar de John Knightley, o cunhado de Emma.  Essa personagem é uma das minhas coadjuvantes austenianas favoritas.  Gosto bastante da personagem, e mesmo tendo poucas participação na história, quando entregam o papel para um ator interessante, ele rende.  Dan Fredenburgh é mau humorado, sempre com ar de tédio, impaciência até.  Com os filhos, com a esposa e, principalmente, com o sogro.  Ele tem um olhar que faz o velhinho Mr. Woodhouse ficar até meio encolhido.  Essas cenas são ótimas, porque cabe à Emma e Mr. Knightley tentar evitar uma explosão dele.  Divertidíssimas as cenas em que ele participa.  

John Knightley é adverte Emma do interesse de Elton por ela e olha com muito desprezo para o pastor que, durante o jantar de Natal na casa dos Weston, fica tentando de forma muito impertinente garantir a atenção da heroína.  E ele é que deixa Emma sozinha na carruagem com Elton, talvez, para ver o circo pegar fogo.  E, claro, há o olhar dele.  Mas uma das melhores cenas é quando Mr. Elton encontra Emma, dois dos sobrinhos e John Knightley na rua.  Emma fala que Harriet estava doente e o pastor nem finge simpatia, mas debocha dizendo que com os sobrinhos em casa, ela terá muita ocupação.  Fica claro o desprezo dele por Harriet, Emma não vê, mas John Knightley vem cobrar satisfação.  Quem é Mr. Elton para falar da educação de seus filhos.  A cena é divertida e tensa, por assim dizer, porque por pouco Mr. Elton não apanha.

A cena em que Mr. Knightley e Emma
fazem as pazes é bonitinha.
E chegamos ao Jonny Lee Miller.  Eu não gosto dele como Mr. Knightley, ainda que entenda perfeitamente a escolha por ser um Mr. Knightley sarcástico.  Ele não é sério e reservado como a versão com Mark Strong, nem é é charmoso e espirituoso como o Knightley de Jeremy Northam, a personagem nessa versão é mais acessível aos seus inferiores (*pobres, mulheres, crianças*), mas se mantém a relação de tutela em relação à Emma, que rejeita o tratamento, claro. Ele parece e é mais velho que Romola Garay, ainda que, por conta da altura, ambos são praticamente do mesmo tamanho, ele não pareça intimidador em nenhum momento.  

Mas qual meu problema com o ator?  O primeiro, ele já fez um protagonista de Jane Austen.  O segundo, ele sempre parece à beira de uma crise de riso.  Ele tem o mesmo problema do Danton Mello, que eu apontei em um dos meus textos sobre Sinhá Moça.  Como já o vi em outros papéis, não foi uma linha de atuação, é dele mesmo. Nao sei se é por causa do formato do maxilar, mas é isso, ele parece estar sempre prestes a rir e, em alguns momentos, solta uns sons que parecem risadinhas abafadas. E esse tipo de cacoete, porque deve ser um cacoete mesmo, acaba prejudicando algumas sequências, pelo menos, é assim que eu percebo a coisa.  Bem subjetivo, eu sei..

Romola Garai faz uma Emma meio molequinha.
Agora, assim como escrevi para a série de 1972, eu preferia que fizessem uma troca.  Acredito que Dan Fredenburgh seria um excelente Mr. Knightley e ainda que eu não tenha achado sua data de nascimento, acredito que ele tivesse a idade adequada pea o papel.  E o acho mais bonito que Jonny Lee Miller, além de mais alto e capaz de parecer estar falando sério.

É isso, por enquanto.  A resenha já atrasou, deveria ter saído na segunda-feira, para você ter ideia do quanto demorei.  Só para fechar, talvez, inclua Clueless (Patricinha de Bervely Hills) nas minhas resenhas, mas uma web série que me recomendaram, não irei olhar, não.  E sei que existe uma versão indiana de Emma, também, mas nunca assisti, nem fui atrás do material.  E, para quem quiser o livro, deixo o link do Amazon.

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