segunda-feira, 2 de março de 2020

Comentando Jojo Rabbit (EUA/2019): Um filme estranho, mas muito eficaz


Faz quase um mês, foi na véspera do Oscar, que assisti Jojo Rabbit.  Já deveria ter resenhado, mas fui atrasando e atrasando.  Aliás, perdi a conta das coisas que estão pendentes.  E não deixei de comentar por não ter gostado de Jojo, muito pelo contrário, é um filme estranho e interessante, pois consegue ser dramático, engraçado e cruel ao mesmo tempo.  Poderia, inclusive, ter recebido mais indicações, porque eu apostaria que se Roman Griffin Davis fosse um homem adulto, ou, pelo menos, estivesse no final da adolescência, ele seria indicado para melhor ator.

Resumir a história do filme não é fácil, vamos ver se consigo.  Johannes "Jojo" Betzler é um menino de dez anos vivendo na Alemanha já no final da II Guerra Mundial.  Jojo vive com a mãe, Rosie, enquanto seu pai está supostamente desaparecido no front italiano.  O menino é solitário, tímido e mantém uma relação de altos e baixos com a mãe muito amorosa, mas liberal e crítica demais para uma boa alemã nazista.


Em Jojo, há momentos em que a gente ri de nervoso.
Jojo acabou de entrar para a Juventude Hitlerista e tenta exibir um furor nacionalista que nem sempre parece ser tão firme, enquanto recebe conselhos de seu amigo imaginário, o próprio Hitler.  Yorki, seu melhor amigo é seu único companheiro fiel, aquele que entende as angústias do menino frente os ritos de passagem que deve enfrentar.  Tudo estava nesse pé, até que Jojo descobre que sua mãe esconde uma adolescente judia em seu sótão.  Jojo não sabe o que fazer e precisará repensar toda a educação nazista que recebeu, afinal, a menina não parece em nada com as caricaturas antissemitas que lhe mostraram na escola.

O que eu posso dizer de Jojo Rabbit?  Ele me lembra um pouco A Vida é Bela, mas é um filme coeso (*a película italiana me parece tentar amarrar dois filmes em um só*) e que não escorrega no dramalhão.  Cheguei a chorar, mas ri bastante, também.  O que o diretor e roteirista Taika Waititi faz é discutir uma série de questões espinhosas sem parecer se importar com o julgamento.  Nas mãos de alguém menos habilidoso, ou sensível, Jojo Rabbit poderia ser um fracasso, porque rir do nazismo é algo que exige muita coragem mesmo.


Uma mãe muito moderna.
Jojo Rabbit é um filme um tanto anárquico, na verdade, e lendo a entrevista com  autora do livro, Christine Leunens, só confirmou o que eu já tinha procurado saber, o livro parece sério, duro, enquanto o filme, sem perder o original de vista, consegue trazer leveza para um momento extremamente dramático.  No livro, o jovem Johannes, que não tem apelido de Jojo, era de fato um jovem fanatizado.  No filme, o menino quer ser aceito em um grupo e, para isso, precisa abraçar as ideias que vem com ele.  

O apelido "rabbit", coelho, vem exatamente da incapacidade do garoto de matar.  A autora do livro comenta que conversou com vários ex-membros da JH e da Liga de Moças Alemães e que os meninos contaram que em seu treinamento tinham que matar coelhinhos.  Christine Leunens trocou coelhos por patinhos e, quando pegou o roteiro, deparou-se com o animal que tinha omitido para diminuir as possibilidades de rastreamento de suas fonte (*não me convence muito, mas vá lá...*)


Não há coelhinhos no livro.
Jojo, apesar do filme insistir que o menino é um fanático, me parece mais uma criança querendo se encontrar e os meninos não tinham escolha, a entrada na JH era compulsória.  Aliás, pesquisando para a resenha acabei me deparando com um grupo jovem de resistência ao nazismo que eu não conhecia, os Piratas de Edelweiss, meninos que caiam na clandestinidade, para não serem obrigados a entrar para a Juventude Hitlerista.  Há um filme alemão de 2004 sobre eles.

Voltando, o amigo imaginário de Jojo é uma espécie de reforço ao seu lado fascista, levando-o a fazer coisas que podem ser perigosas, vide o incidente da granada que é cômico e trágico ao mesmo tempo, ao mesmo tempo que cumpre um papel de pai para um menino inseguro.  Essa fragilidade de Jojo fica patente na sua incapacidade de amarrar os sapatos, a mãe faz isso por ele, mas e quando ela lhe faltar?  Jojo Rabbit é um filme sobre amadurecimento, sobre a transição difícil da infância para adolescência, talvez uma vida adulta precoce.  Processo que seria dolorido em situações normais, é ainda pior em tempos de guerra.


Elsa e Jojo desenvolvem uma relação curiosa.
Falando em mãe, Scarlett Johansson estava luminosa como Rosie, a moderna mãe de Jojo envolvida com a resistência ao nazismo.  Ela não sabe se pode, ou não, confiar no filho que tanto ama. A personagem é central em uma das cenas mais impactantes do filme e que obrigam Jojo a crescer finalmente, aprender, enfim, a amarrar seus sapatos.  Johansson tem, também, um figurino magnífico, aliás, é um dos destaques do filme.

Mas a interação de Jojo é maior com a menina Elsa, que está escondida em sua casa.  Se você assistiu, ou leu, minha resenha do filme alemão Os Invisíveis sabe que a garota é uma deles, judeus que permaneceram incógnitos durante toda a guerra, escondidos em casas alemães, ou misturados a eles e vivendo perigosamente.  A situação de Elsa, escondida em um espaço secreto da casa de Jojo é precária.  Ela teme ser descoberta, ela não sabe que a guerra está no fim, ela depende da bondade dos alemães.


Um dia, a Gestapo faz uma visitinha.  Não fosse o Capitão K...
Jojo e Elsa entram em choque, mas aprendem a se respeitar e estimar.  Conforme o sentimento de Jojo por ela vai crescendo, a influência de seu amigo imaginário sobre ele diminui, afinal, ele passa a rejeitar muitas das baboseiras antissemitas que lhe ensinaram.  Ela o vê como um irmão caçula, já Jojo, e é engraçadíssima a cena das borboletinhas na barriga, oscila entre esse sentimento fraternal, afinal, ele tinha uma irmã da idade de Elsa que morreu recentemente, e o primeiro amor.  

Sim, acredito que o filme só não investiu nesse caminho, o do primeiro amor, porque, bem, vivemos em um tempo no qual esse tipo de sentimento poderia ser interpretado como abuso sexual de crianças.  Jojo se nega inclusive a aceitar um beijo da garota quando está se lamuriando que nunca será beijado.  Ele não quer um beijo por piedade.


O amigo imaginário tenta convencer Jojo a não confiar na mãe.
Falando da precariedade da vida de Elsa, um dos momentos mais tensos do filme, ainda que permeado de humor, é a visita da Gestapo.  Elsa, Jojo e a mãe do menino são salvos pelo Capitão Klenzendorf, um ex-combatente cego de um olho e que dirige o campo de treinamento das crianças.  O Capitão K, como ele gosta de ser chamado, é interpretado de forma muito convincente pelo excelente  Sam Rockwell.  Algo que para mim ficou nas entrelinhas é que o Capitão K tinha um caso com seu ajudante de ordens, Finkel (Alfie Allen), que chega a ter ciúmes das crianças.  

Como o filme recorre muito ao realismo fantástico, é difícil saber se o uniforme alegoria de escola de samba que o Capitão K usa durante a invasão de Berlim pelos soviéticos é real, ou não.  Agora, é nesse ponto que o filme comete um deslize feio.  Dentro do filme fica parecendo que os norte americanos e os soviéticos chegaram juntos a Berlim, ou atuaram na mesma frente de combate, não foi desse jeito, mas Jojo não é um filme realista e tudo ficaria OK comigo não fosse um detalhe.  Depois da batalha, com os americanos desfilando com suas bandeiras, os soviéticos são mostrados executando soldados alemães capturados.  
Capitão K e seu ajudante de ordens.  Para mim, eles são um casal.
Nesse momento, com a guerra terminada, vencida, coisas assim não ocorreram. Fica parecendo que os americanos são gente boa e os soviéticos malvados. Agora, não há uma palavra sobre estupros, nem por parte dos soviéticos, que são sempre lembrados quando se fala no tema.  Uma outra representação um tanto rasa, mas o objetivo é o deboche mesmo, é a forma como a Liga das Moças Alemães, o correspondente feminino da JH, é mostrada.  As meninas, segundo a fanática instrutora Fräulein Rahm (Rebel Wilson), deveriam aprender as prendas femininas: a cuidar de feridos, fazerem camas e terem filhos para o Reich.  

Sim, sim, procede, o discurso nazista oficial estimulava famílias numerosas e dizia que toda mulher tinha direito a três Ks: Kinder (crianças), Küche (cozinha) e Kirche (igreja).   Ainda assim, as meninas acabavam fazendo coisas que excediam esses papéis tradicionais, como acampar, praticar esportes e mesmo participar ativamente das ações no final da guerra (*algo que o filme mostra*).  Quando escrevi o artigo que vem como apêndice do mangá 1945, me deparei com esse tipo de informação.  Os tempos da Liga das Moças Alemães era lembrada com carinho não pela doutrinação nazista, mas pela possibilidade de fazer o que os irmãos faziam, e o filme mostra meninas e meninos em atividades conjuntas, era um lugar de transgressão de papéis de gênero.


Archie Yates é uma gracinha e cada vez que ele dizia "Oh, Jojo!".
E para os meninos, pelo menos no filme, a coisa é um tanto assim.  Elsa chega a dizer que Jojo não é nazista, mas um garotinho que quer pertencer a um grupo.  O amigo fofo de Jojo, Yorki (Archie Yates), é desse jeito.  Estar na Hitlerjugend era fazer parte de algo grande, era servir ao país, ao Füher, mas, também, uma forma de estar com outros garotos e se divertir com eles.  

De qualquer forma, mesmo que eu aponte problemas na película, Jojo Rabbit é uma delícia, um filme muito bem executado e que tem um discurso pela compreensão entre os diferentes e contra o extremismo ideológico.  Jojo Rabbit, ao mostrar a brutalidade da guerra pelos olhos de uma criança, reafirma a inutilidade da carnificina e celebra a coragem dos que resistiram sem armas.  A mãe de Jojo fazia parte de um grupo que, acredito, é referência direta à Sociedade da Rosa Branca.  No fim das contas, a guerra transforma o menino Jojo em homem, mas não por brutalizá-lo, mas por possibilitar que ele cresça e amadureça diante das adversidades sem abrir mão da sua capacidade de amar e compreender os diferentes.


Taika Waititi poderia ter sido indicado a melhor coadjuvante.
Quando terminei de assistir ao filme, algo que fiz em casa, infelizmente, fui olhar o livro no Amazon.  Caging Skies (*O Céu que nos Oprime, em português*), sim, o livro não se chama Jojo Rabbit, porque o garoto não tem esse apelido e não há coelhos nele, li umas resenhas muito bem estruturadas e a maioria apontava que o filme era totalmente diferente, inclusive, desqualificando o livro.  Confesso que perdi a vontade de lê-lo, mas olhando a longa entrevista que achei com a autora, posso repensar essa ideia.  

Antes de terminar, Jojo cumpre a Bechdel Rule por um fio, por causa das conversas entre Elsa e Rosie.  Ainda assim, as personagens femininas são importantes e muito da ação do filme se baseia na interação entre Jojo e sua mãe, ou, mais ainda, entre o menino e Elsa.  Se puder, assista Jojo Rabbit é um filme surpreendente.  Atenção ao uso dos Beatles no filme... Quem poderia imaginar? 


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