terça-feira, 7 de abril de 2020

Comentando Emma (BBC/2009): Parte 2


Mais de um ano atrás comecei um projeto, assistir todas as adaptações possíveis de Emma de Jane Austen, antecipando o lançamento do novo filme este ano.  Para quem não sabe, Emma (2020) já está disponível em várias plataformas (*e em torrent*) por causa do COVID-19.  Não deve estrear em nossos cinemas, infelizmente, aliás, acredito que todas as estreias cinematográficas do ano estejam comprometidas.  Pois bempara quem desejar, resenhei as seguintes versões de Emma: série da BBC de 1972 (*Parte 1/Parte 2), o filme da Miramax e o da ITV, ambos de 1996.  Faltava a série de 2009, a última da BBC, e que é a adaptação favorita de muita gente, já tinha feito a primeira resenha e, agora, aqui está a segunda parte compreendendo os dois últimos capítulos.

Não vou resumir a história de novo, para quem não conhece, peço que dê uma olhada na primeira parte da resenha.  Quando começamos o terceiro capítulo, os Weston estão discutindo junto com Emma o baile que Frank Churchill deseja dar em Highbury.  Seria uma forma de animar as coisas, já que a vila é muito pacata.  No livro, é o chamado Crown Ball, momento que reúne uma série de acontecimentos importantes, como a tomada de consciência por parte de Mr. Knightley de que ele ama Emma.  


Frank Churchill nessa versão é bonitinho e bem ordinário.
Nesta sequência da discussão sobre o baile, Mr. e Mrs. Weston ficam observando o comportamento de Frank e o imaginam apaixonado por Emma.  A versão de 2009 coloca em cena um Frank Churchill que é bem abusado, por assim dizer, ele toca Emma em várias ocasiões, ultrapassando os limites do que seria apropriado e, sim, chamando a atenção para um possível compromisso entre os dois. Tanto o pai do rapaz, quanto a ex-governanta de Emma querem o casamento e acredito que é nesta série de 2009 que o roteiro e a atuação dos atores, Jodhi May e Robert Bathurst, deixam isso mais evidente.  

Mrs. Weston, cuja gravidez é algo de conhecimento comum nesta versão, tenta juntar Mr Knightley e Jane Fairfax.  Tudo já começa no episódio anterior, quando Mr. Knightley intervém para que Frank não obrigue Jane a ficar cantando várias músicas contra sua vontade.  Aliás, falando no Frank Churchill de Rupert Evans, ele é menos um sedutor e mais cínico e infantil, além de ser fofoqueiro, de todas as versões que assisti.  Quem conhece a história sabe que ele está enganado Emma, mas ele é muito mais uma má influência do que propriamente um galanteador.  E nesta adaptação Emma é mais vulnerável, porque fica bem marcado seu caráter inocente de garota do interior.  


Jane fica tão empolgada com o baile que parece outra pessoa.
A Emma de Romola Garai parece muito menos esnobe e/ou elegante que a de outras adaptações.  Ela é mimada, como nas outras adaptações, mas cheia de alegria e leveza.  Por isso, as sequências depois da repreensão de Mr. Knightley no piquenique de Box Hill são tão marcantes, a postura de Romola Garai e a maquiagem a transformam.  Enfim, Emma é rainha de Highbury, porque não há real competição pelo posto, por assim dizer.  Nesses últimos dois capítulos, o fato dela ser pouco sofisticada fica muito evidente evidente, seja no confronto com Augusta (Christina Cole), que se acha elegante, ou Jane Fairfax (Laura Pyper), que realmente é uma moça refinada.  

Falando em Jane, a partir do terceiro capítulo vemos mais dela e  Laura Pyper nos oferece uma Jane menos contida do que a de outras interpretações. Basa ver a alegria dela com o baile, ou a sua reação firme às intromissões de Mrs. Elton. Ela mostra toda a angústia da personagem, as pressões as quais é submetida, a sua vulnerabilidade.  E, algo importante, nesta versão, Emma se esforça por ser sua amiga e é Jane que a repele, porque, bem, Frank Churchill está flertando com a protagonista e a situação de Jane, que está sendo pressionada para se tornar governanta, é precária.


Uma simples ida ao correio pode se tornar fonte de fofocas.
Se eu não consigo ver o sedutor no Frank Churchill dessa versão, pois ele é, na verdade, um sedutor e um canalha, fica evidente que ele vai fazer Jane sofrer, que ela vai amá-lo mais do que ele irá.  Enfim, o sujeito tem um caráter duvidoso e é egoísta, também.  E é interessante ver como o roteiro oferece pistas da relação dos dois mais do que em qualquer outra versão e fica fácil acompanhar como Mr. Knightley começa a juntar as peças do quebra-cabeças.  

Já que falei nele, continuo não gostando muito de Jonny Lee Miller no papel,  mas ele se sai muito bem nesses dois últimos episódios.  O peso da interpretação dele saiu um pouco do queixo e foi para os olhos.  Em vários momentos, o olhar do ator é a parte mais expressiva de sua atuação.  E vale para as cenas em que ele observa Frank e Jane, ou para o baile, quando ele realmente toma consciência de seu amor por Emma e que a relação cômoda dos dois está em perigo.  E é curioso como o roteiro mantém uma frase de Emma no livro, mas ela não se justifica.


Ele finge que não gosta e que não sabe dançar.
Mr. Knightley, que no livro era um homem que se destacava dos demais pela altura, sendo muito diferente de Jonny Lee Miller, chama a atenção no meio dos homens mais velhos que jogavam em um canto do salão.  Aliás, li um comentário sobre o livro, citando uma passagem, em que a pessoa defendia que foi ali que a própria Emma percebeu que sentia algum desejo por ele, mas, como ela era uma criatura bem inocente, que pensava mais nos outros do que em seu próprio coração, a ficha não caiu.

Voltando, Emma pergunta o que ele faz no meio dos homens velhos, mas se a gente observa, ele não estão no meio de grupo algum, só no canto do salão.  Quando Mr. Elton, e como Blake Ritson passa tão bem toda a mesquinhez da personagem, esnoba Harriet, um dos pontos altos da sequência do baile, Mr Knightley sai desse canto e vem em seu resgate.  Só que não consigo ver em Jonny Lee Miller a dignidade, a elegância e a virilidade que a personagem deveria passar nesse momento. é como se faltasse alguma coisa nele.  


Ele sabe dançar e muito bem, por sinal.
o ator se sai melhor nas sequências em que observa Emma dançando, ou quando dança com a moça, porque acredito que a coreografia geral ficou muito boa.  Ambos os atores parecem estar se divertindo e conseguem passar a ideia de que, sim, eles foram feitos um para o outro, ainda que não tenham consciência disso naquele momento.  Agora, não sei por qual motivo, e reclamei muito quando a série passou, cortaram "Brother and sister! No, indeed." ("Irmão e irmã! Claro que não.") a fala que junto com o "Badly done"dá o tom da interpretação de Mr. Knightley.  

Eu realmente lamento a mutilação, porque, comparando as versões, é ali que Mr. Knightley trai seu caráter e intenções para com Emma.  Ele jamais a viu como irmã, ainda que tenha demorado um pouco a perceber que a admirava como mulher.  A angústia da personagem fica patente daí para frente, porque o Frank Churchill dessa versão é uma má influência de fato, além de infantil, como o próprio Knightley pontua em dado momento.  Mr. Knightley teme pelo futuro de Emma e por tê-la perdido. De novo, é o olhar de Jonny Lee Miller que vai desnudando para a audiência os sentimentos.


Os dois se merecem, por assim dizer.
Já que não falei dela ainda, a Augusta de Christina Cole é arrogante e uma nova rica que acha que tem classe, mas não tem, só que está longe de ser divertida como as de outras versões.  É mais engraçado ver a reação da Emma de Romola Garai ao comportamento da esposa do pastor, sua raiva quando ela chama Mr. Knightley pelo nome, por exemplo.  Nessa versão, também, não permitem que a relação de tutela se estabeleça entre Augusta e Jane, porque há a resistência da personagem.  Acho que uma das melhores cenas das duas é a discussão sobre as cartas. 

 Augusta oferece um criado para levar as cartas de Jane.  A moça recusa, porque ela escreve para Frank Churchill e não quer que ninguém saiba.  E temos a intervenção do rabugento e divertido John Knightley para dizer que é uma questão de privacidade.  A cara dos Elton nessa hora é impagável.  E, como disse na primeira parte, como Blake Ritson está excelente como John Knightley.  Tenho certeza de que ele seria um Mr. Knightley bem interessante.


Podre, Harriet!  Mas Mr. Knightley vem resgatá-la.
Harriet nesta série consegue sinalizar bem sua admiração por Mr. Knightley e acredito que mesmo quem não conhecia a história entendeu onde estava o afeto da moça.  Emma, no entanto, permanece às escuras e toma um grande choque quando "descobre" a verdade.  No entanto, não ficou interessante não haver nenhum confronto entre as duas sobre Mr. Knightley.  Nesse ponto, outras adaptações fizeram melhor e, bem, Robert Martin é somente um elemento decorativo nesses últimos capítulos, não deram nenhum desenvolvimento real para a personagem.  Só valeu pela cara de Mr. Elton casando os dois.  Mérito de Blake Ritson mais uma vez.

O piquenique em Box Hill parece um suplício nessa versão, com moscas, calor e um Frank Churchill muito inconveniente.  A cena em que ele se deita no colo de Emma, e ela aceita, serve bem para ressaltar o quão impróprio é o comportamento do moço e o quanto protagonista está sendo influenciada por ele. E o mal estar de quem está em volta não é fruto da inveja.  Emma não percebe o quanto está se portando mal até que é tarde demais.


Abusado e inconveniente.
 Agora, como a Miss Bates de Tamsin Greig é triste e vulnerável, a cena em que Emma debocha dela é particularmente cruel.  A atriz, aliás, é uma Miss Bates diferente de todas as outras por esse tom de melancolia e desamparo mesmo.  Por outro lado, não foi tão marcante o confronto entre Mr. Knightley e Emma nessa versão, ainda que nas cenas posteriores de Romola Garai o rosto dela esteja carregado de arrependimento, vergonha e culpa.  Prestem atenção na sequência em que ela caminha na vila imaginando que todos sabem quão mal ela agiu.

Outras duas cenas preciosas são a conversa entre Emma e seu pai.  Michael Gambon é o Mr. Woodhouse mais frágil de todas as adaptações e fica tão evidente que ele se culpa por não poder se livrar de sua hipocondria e depressão.  E Emma, que também sofre com a solidão, tenta dizer que ela não se sente triste e ele não deve se culpar, que é o melhor pai do mundo.  Muito bonita mesmo essa parte.  Uma das melhores cenas da série inteira.


A cara dos dois depois da grosseria de Emma.
A outra cena é a da lua de mel de Knightley e Emma.  Esta versão não mostra o casamento dos dois, mas cria a sequência muito bonita em que Emma viaja pela primeira vez.  O pai dela controlando o temor que sente e ela alegre como uma criança.  Essa é uma das marcas da Emma de Romola Garai, a alegria quase infantil, seu desconhecimento do mundo e dos sentimentos, daí, ela ser enganada por Frank Churchill.

Voltando nele, não entendi a necessidade de criar aquela sequência de confraternização do elenco inteiro tipo final de novela da Globo.  Pior ainda, em torno do casamento de Harriet.  O que Frank Churchill e Jane Fairfax estariam fazendo lá?  Ou por qual motivo reunir todo mundo na casa dos Weston depois?  E Jane dizendo que quer ser amiga de Emma?  Depois de tudo o que aconteceu, os caminhos deles estavam separados.  Seria mais interessante mostrarem o casamento de Emma com Mr. Knightley, porque nesse evento, sim, haveria desculpa para a presença de Jane e Frank.


Final de elenco ao estilo novela da Globo.
Enfim, escrevi um monte de coisas, achava que o texto ficaria curto.  Na série de 2009 não consegui perceber nem discussões profundas sobre gênero, nem sobre classe.  Ambos so temas, mesmo em relação à Harriet e Jane são tratados de forma superficial.  Há mais preocupação em discutir o desprezo em relação aos novos ricos, porque isso se faz com os Cole e com Augusta.  Só que os primeiros conseguiram se refinar, enquanto Augusta é vulgar. Em nenhum momento fica marcado que Emma não precisa/quer casar por ser rica.  Nesta adaptação, o que é bem desenvolvido é a dependência emocional entre a mocinha e seu pai.  Essa relação que é, sim, doentia.

Gosto do figurino da série, como pontuei na primeira parte.  As roupas das mulheres em especial são bem interessantes, simples, bonitas, elegantes.  Michael Gambon  ficou uma graça om seu visual com echarpes e cachecóis.  Já Jonny Lee Miller parece sempre estar meio desalinhado, ou com uma roupa que parece ser maior que ele.  Menos no baile, claro, porque, ali, ele brilhou mesmo.

Emma vê o mar pela primeira vez.
 Ficou muito boa essa sequência.
Acho que é isso.  Recomendo a série de 2009, porque ter mais tempo faz toda a diferença quando se trata de uma adaptação literária e esta versão de Emma é muito bem cuidada.  É sempre legal assistir uma adaptação de livro de Jane Austen que mesmo não se apegando ao texto de forma rígida consegue manter a essência do original.  Assistir Emma de novo depois de ter visto  Sanditon é um bálsamo, porque um é Jane Austen, o outro, nem sei o que é.  Agora, é arrumar tempo para ver o filme de 2020 e completar essa minha tarefa auto imposta.  


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