segunda-feira, 27 de abril de 2020

Comentando Sayonara Rose Garden! #1: Parece um mangá fofinho, mas ele tem muito mais a oferecer.


Este final de semana terminei de ler o volume #1 de Sayonara Rose Garden (さよならローズガーデン), ou Goodbye, My Rose Garden, de Dokuta Pepako na edição americana da Seven Seas, mas, quem quiser, pode ler as scanlations, há dois volumes disponíveis na rede.  São somente três no total.  A história do mangá é mais ou menos a seguinte:

Hanako é uma jovem japonesa, uma professora, que decidiu ir para a Inglaterra para conhecer o seu autor favorito, Victor Franks.  As palavras do autor a inspiram e ela sonha em ser uma escritora como ele.  A moça era professora em seu país, mas se sente incapaz de causar impacto positivo na vida de suas alunas depois do suicídio de uma delas.  A garota não queria ser obrigada a entrar em um casamento arranjado.

O amor à literatura as une.
Na Inglaterra, a jovem vai todos os dias até a editora do seu autor favorito, só para ser escorraçada de lá.  O Sr. Franks não recebe fãs, ninguém sequer conhece o seu rosto.  Em uma dessas tardes, a moça está absolutamente decepcionada e perdendo a esperança, quando uma moça aparece e lhe estende a mão.  Ela ajudaria Hanako a conhecer o Sr.  Franks em troca de um favor.  A inglesa também oferece um emprego para Hanako em sua casa, como sua criada pessoal (maid).

A jovem se chama Alice, ela é filha de um conde e uma pessoa reservada.  Seu maior tesouro é uma imensa biblioteca.  Ela e Hanako estão unidas pela paixão pela literatura.  Um dia, Alice revela o que deseja de Hanako, ela quer que a moça a mate quando chegar a hora.  Teria Alice alguma doença grave?  O fato é que a moça tem um noivo, que parece muito bonzinho, mas tem um ciúme atroz da moça.  E há rumores de que Alice teria tendências pouco naturais, na verdade, há algo no seu passado, um escândalo... 

Alice chora nos braços de Hanako e
o noivo fica corroído pelo ciúme.
Eu achava que a leitura de Sayonara Rose Garden seria uma leitura bobinha.  De fato, a ideia da mocinha japonesa que quer ser escritora indo sozinha do Japão para a Inglaterra em 1900, me parece bem forçada.  Salvo isso, o mangá é bem agradável e consegue discutir temas bem sérios, enquanto nos oferece uma arte muito bonita.  Está longe de ser uma Kaoru Mori, mas a autora tem potencial.

Neste primeiro volume, há discussões de gênero, afinal, Alice é Victor Franks, mas não pode revelar sua identidade.  Há a discussão de como autoras mulheres são tratadas com complacência e certo desprezo.  Há, também, a questão da herança.  Acredito que a autora vá desenvolver melhor a questão nos volumes seguintes, mas Alice é a filha mais velha, ela não vai herdar o título do pai e das suas propriedades, udo vai para o parente homem mais próximo.  Igual Downton Abbey.  

Ela quer que Hanako a mate.
O noivo, que parece ter uma paixão doentia por Alice, é esse parente.  O casamento é para manter a propriedade na família.  O rapaz se sente ameaçado pelos rumores do passado, teme que Alice prefira mulheres a ele.  A atitude dele com a japonesa muda quando o rapaz vê Alice chorando nos braços da criada.  Não havia nada na cena, salvo solidariedade, mas ele vê as duas juntas e algo ruim começa a crescer dentro dele.  Não me surpreenderia se tentasse se livrar de Hanako.  

A japonesa traz um sopro de liberdade para a vida de Alice.  Nesse primeiro volume, a relação das duas, até por conta do medo do escândalo e do pecado por parte de Alice é somente de amizade.  A inglesa se sente reprimida por uma série de papéis sociais, de normas e obrigações.  Hanako a ajuda a subverter algumas coisas.  As duas correndo na chuva no final foi uma sequência bem bonita e, sim, libertadora.  "Damas não correm."  Hanako mostra para a patroa que elas podem correr e que isso é divertido.

Alice ensina Hanako como erguer a
saia graciosamente, se necessário.
Já Alice ensina Hanako a usar roupas ocidentais, ela comenta sobre o fato da moça ter crescido livre dos espartilhos (*mais uma difamação dessa peça de roupa tão útil!*).  Alice não quer mudar Hanako, mas sabe que para sobreviver na Inglaterra, ela deve conhecer os costumes do país.  Além disso, ela quer que a moça tenha meios de escapar, quando finalmente cumprir sua parte do acordo... 

No free talk no fim do volume, a autora fala que leu muito sobre a Inglaterra da época, os romances entre mulheres, as interdições e tudo mais.  Acredito que ela está dando um peso idêntico aos romances entre homens e entre mulheres. O moço da livraria/editora fala da morte de Oscar Wilde e há toda uma conversa entre Hanako, que fica chocada da homossexualidade ser contra a lei na Inglaterra, Alice e o livreiro.  

Houve eventos no Japão para promover o
mangá e essa imagem é de um deles.
Enfim, o erro de Oscar Wilde não foi a sua homossexualidade, essa indiscrição, desde que discreta, seria passável dentro da boa sociedade.  O problema foi expôr para o mundo e, pior, manter um relacionamento com o jovem filho de um nobre poderoso.  Agora, havia muito mais tolerância com relacionamentos entre mulheres, desde que houvesse discrição.  Fora que, para muita gente, só há sexo quando há pênis e duas mulheres se relacionando pode ser uma fase, algo fruto da confusão, ou do fato de não se ter achado o homem certo ainda.

Só que pelo que sabemos até o momento, o escândalo de Alice está ligado a um romance com sua governanta, ou seja, uma mulher de classe social inferior com uma adolescente que estava sob sua tutela.  Alice não era senhora de si e não conhecemos ainda o quanto sua família é repressiva.  Acredito que o problema reside ai.  De qualquer forma, só nos próximos volumes para saber mesmo.

Hanako não sabe que o autor que
 tanto admira é, na verdade, Alice.
É isso, Sayonara Rose Garden é mais que um mangá fofinho, ele pode trazer umas discussões interessantes.  Algumas coisas me surpreenderam e espero continuar a leitura para saber se Alice vai morrer, por qual motivo deseja colocar fim em sua vida.  E, claro, como Hanako poderá ajudá-la.  O "rose garden" do título é um dos refúgios de Alice, o outro, claro, é a biblioteca.  Para quem quiser, as scanlations dos dois primeiros volumes estão aqui.  

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