quarta-feira, 17 de junho de 2020

"Enquanto houver RACISMO, não haverá DEMOCRACIA", infelizmente, não teremos por muito tempo...


Deveria estar escrevendo sobre outras questões, mas uma, mais urgente, se impôs.  Na semana passada, um dos filhos do presidente afirmou que não há casos como o de George Floyd no Brasil.  Há, sim, acontecem todos os dias, o que não existe são reações populares semelhantes e uma empatia da opinião pública em relação às vítimas, claro, autocrítica, também não existe.  Sua cor de pele parece ser um atestado de culpabilidade, ou azar.  A violência policial contra negros é uma política de Estado no Brasil, ao que parece.  E há um artigo com esse título no Deutsche Welle, veículo de comunicação alemão.

Quase em ato contínuo, desconsiderando ações anteriores desse senhor, o presidente da Fundação Palmares ordenou a retirada das biografias de personalidades negras do site da instituição.  Gente como Luís Gama, que inclusive foi apropriado por movimentos negros que se afirmam de direita, não é digno de ser lembrado.  Nem o engenheiro abolicionista e monarquista André Rebouças.  Todos foram retirados.  Nada mais doce do que ter um homem negro fazendo essa limpeza.  É possível invocar, inclusive, o tal "lugar de fala" que é usado e abusado pela internet a fora.


Busto de Luís Gama, no Largo do
Arouche, em São Paulo.
Recordar esses homens e algumas mulheres, certamente havia algumas por lá, deve ser algo ofensivo.  A quem?  Aos que negam tanto o racismo, algo presente no nosso cotidiano, e que, ao mesmo tempo, buscam invisibilizar qualquer presença dos africana em nossa História.  Aos negros, o silêncio, e a escravidão.  Sabe aquelas ilustrações que SEMPRE aparecem em nossos livros didáticos?  Pois é...

“Aplicação do Castigo do Açoite”,
do francês Jean-Baptiste Debret. Você certamente
estudou em algum livro com essa imagem. 
Será que seu livro didático falava de Luís Gama?
Já ontem, o Sr. Bertrand de Orleans e Bragança, que príncipe não é, porque a monarquia acabou por aqui faz tempo, palestrou no Itamaraty.  Entre ofensas à China, afirmações de que não é possível queimar a floresta tropical nem com lança-chamas (*Ele tem um livro sobre a "psicose ambientalista"*), afirmou que não existe "não tem problema racial" e que ""Estão tentando criar esse problema", disse. "Aqui, todos nos damos bem", garantiu. Ao falar das qualidades do país, ele citou a existência de um povo "pacífico", mas também marcado pela "doçura e lealdade".".  

Nada como um homem branco, rico, velho e "nobre"  falando para a gente acreditar, não é mesmo?  E digo uma coisa, quanto mais leio sobre Pedro II e a Princesa Isabel, mais certeza tenho de que ele e ela, sem contar ainda com a Imperatriz Leopoldina, teriam vergonha de alguns de seus descendentes.  E não vou me tornar monarquista por reconhecer méritos em figuras ligadas ao período imperial brasileiro, só não me peçam deferência por sujeitos reacionários negacionistas, ostentando títulos que só existem no mundo da fantasia.

Ela voltou.
Para fechar a fatura, acordo e vejo nos trendings topics do Twitter a palavra "Krespinha".  O que é isso, afinal?  Quando é que o Twitter vai voltar atrás e me devolver o os trending topics mundiais?  Enfim, Krespinha é uma espécie de esponja de aço que a Bombril produziu durante muito tempo e que tinha saído de linha, pelo menos com esse nome, mas voltou.


A propaganda de 1952.  Associação direta entre a
palha de aço e o cabelo da menina negra.
Na propaganda desencavada de 1952, uma menininha negra de trancinhas, com aquele traço que era comum nos quadrinhos e desenhos animados da época, era a garota propaganda do produto.  A analogia era entre o cabelo da criança negra, dos negros, enfim, e a esponja para limpeza pesada.  Poderia esticar mais e lembrar que a maioria das empregadas domésticas eram, e ainda são, negras.

Muita gente estava comentando e uma mulher, que deveria ter mais ou menos minha idade, postou sua foto e comentou do quanto ela demorou a aceitar seu cabelo, porque, durante muito tempo, ouviu que ele era crespo, feio, que deveria ser alisado.  Olha, eu não me identifico como negra, já escrevi isso inúmeras vezes, sou fruto de muitas misturas, mas meu cabelo é crespo.  Eu não consegui ainda superar esse adestramento da infância.  


Toda menina negra, ou com cabelos crespos,
sabe o que essa ilustração significa.
Meu cabelo era ruim, não era bonito como o da minha mãe, em quem os genes indígenas falam mais alto, precisava ser alisado.  Meu primeiro alisamento foi aos seis anos, a idade que minha filha tem hoje.  Aliás, quando ela era bebê, uma amiga de minha mãe, mulher negra, a elogiou e disse algo assim "Ainda bem que ela nasceu clarinha, né?  E com cabelo liso."  Enfim, é muito triste e revoltante que a empresa não perceba que o nome está errado e a falta de timing da coisa, a falta de sensibilidade.  Ou, de repente, dado os exemplos citados anteriormente, talvez, não.

E termino relembrando de uma das músicas brasileiras mais conhecidas, "O Teu Cabelo não Nega" de Lamartine Babo e sua primeira estrofe: "O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega mulata/Mulata, eu quero o teu amor".  A mulher negra serve para usar a krespinha e para os prazeres da cama, afinal, a cor não pega.  Os filhos mestiços nascidos dela, talvez nunca tenham o nome do pai branco em sua certidão de casamento.  Eu não sou a favor da censura, temos é que refletir sobre a sua letra, como sempre fiz com minhas turmas de terceiro ano.  O racismo é estrutural e está, também, nos produtos de limpeza e nas músicas.


Alguns românticos, inocentes, distraídos, ou canalhas progressistas de ocasião, talvez estejam lamentando muito o retrocesso, como se, um dia, o Brasil tivesse deixado de ser racista.  Amiguinhos, não nego o retrocesso dos últimos anos, mas o racismo e sua negação sempre estiveram presentes no nosso dia-a-dia.  Só tinha se tornado feio, sintoma de falta de educação, externar isso em voz alta e tornar o racismo em política pública.  Agora, parece que liberou geral.  De resto, por favor, visitem a página do manifesto "Enquanto houver RACISMO, não haverá DEMOCRACIA", por favor.

P.S.1:  Uma matéria racista bônus para vocês, leiam esse fragmento“Pra quem é de Toledo (PR) e sabe… a Igreja Batista do Calvário fica na Vila Pioneira, que é uma região mais pobre, né? E na Pioneira a gente não via loira, né? Como a minha esposa, e quando ela veio pro culto, tipo, destacou, porque o pessoal [da igreja] é tudo assim mais classe pobre, mais moreninho, meio encardido, um povo meio sujo… mas ela veio e essa aí é da Zona Norte, zona mais nobre da cidade…”.  É um pastor louvando a beleza de sua esposa em comparação com os fiéis que frequentam a sua congregação.  Nem vou comentar.
P.S.2: A Bombril se desculpou e tirou a Krespinha do site, depois de todo o escândalo que a propaganda gerou.  A explicação, claro, não me convenceu.  O mesmo produto ficou anos no mercado sem ostentar esse nome de inspiração racista mesmo que, lá atrás, quando foi criado, as pessoas não tivessem consciência disso.  por qual motivo ressuscitar o nome AGORA?

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1 pessoas comentaram:

O Brasil nunca foi grande coisa, mas pelo visto, está mesmo virando o lixo do mundo. Parece que todos os ratos e baratas que estavam escondidos, ou pelo menos andavam mais discretos, resolveram dar as caras todos de uma vez e estão ganhando os holofotes.

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