domingo, 28 de junho de 2020

Série animada feminista causa controvérsia na TV Pública Portuguesa


Pénélope Bagieu é uma quadrinista francesa que já teve algumas de suas obras lançadas no Brasil pela Editora Nemo.  Uma morte horrível, eu tenho aqui em casa, mas não tinha comprado ainda Ousadas: Mulheres Que Só Fazem O Que Querem.  O fato é que Ousadas, no original Les Culottées, uma série de Webcomics publicada no Jornal Le Monde se tornou animação.

Thérèse Clerc descrevia a si
mesma como insubmissa.
O episódio que deu problema foi o sobre a feminista Thérèse Clerc  (1927–2016), ativista pelos direitos das mulheres que chegou a ser agraciada com a Legião de Honra francesa em 2008.  Clerc era defensora do direito de aborto e chegou a transformar seu aparamento em uma clínica clandestina antes da aprovação da Lei Veil de 1975.  Enfim, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu várias queixas devido a um episódio da série infantil “Destemidas”, nome em Portugal, porque ele trata de temas como  aborto, homossexualidade, feminismo, divórcio e religião.

Thérèse Clerc no quadrinho.
Teresa Paixão, a diretora de programas da RTP2, falou ao site Observador que os temas certamente são sensíveis, mas que  “Compete sim à televisão pública falar de todos os assuntos e de todas as formas de vida (...) Além disso, nada do que a senhora defendeu é ilegal em Portugal”.  O fato é que o episódio específico foi tirado da grade para avaliação.  Eu até conversei com um amigo português que, talvez, o erro tenha sido alocar o desenho em um bloco infantil genérico.
Imagem da animação.
Ousadas é uma coletânea de biografias de mulheres notáveis, foi publicado em um jornal, sem indicação de idade.  O fato de ter sido convertido em animação, não o torna produto infantil automaticamente.  Como acontece muito ainda, há quem acredite que baste ser animação para ser infantil, ou que todas as crianças são iguais, logo, um desenho para crianças mais velhas, por exemplo, o novo She-Ra, pode ser colocado tranquilamente junto com Doutora Brinquedos, porque, afinal, tudo é desenho.  Acredito que o problema com Les Culottées no bloco Zig Zag da RTP  Rádio e Televisão de Portugal) deriva disso.


Por exemplo, Júlia tem seis anos, pelo que vi de Ousadas, ela poderia ver alguns episódios sem problemas.  Poderia assistir todos?  Será que o tema aborto é para ser introduzido nesse momento?  Eu não sei.  Mas suponhamos que ela visse em uma animação e viesse me perguntar, eu teria que explicar.  Muitos pais e mães não querem passar por isso, ou serem pegos de surpresa.  Minha impressão da série, e encomendei no Amazon os dois volumes dos quadrinho, é que é material para crianças mais velhas, adolescentes e adultos.  


Phulan, ou Phoolan, Devi não está na edição em língua inglesa.
Olhando na Wikipedia, consta, por exemplo, que a edição em língua inglesa do quadrinho sofreu censura, Phoolan Devi, conhecida como "Rainha dos Bandidos", foi excluída, porque aborda o tema do casamento infantil e Devi foi violentada pelo marido quando tinha 10 anos.  Eu não censuraria, mas, de novo, acredito que por conta do traço, as pessoas acreditam que se trata de um quadrinho para crianças.  Júlia, por exemplo, sabe o que é afeto, amor, heterossexualidade, homossexualidade, mas não lhe foi explicado ainda o que é sexo.  É hora?  Não sei.  Será que seria interessante ela ter acesso a isso de repente em uma animação?  Acho que não.  De qualquer forma, cabe aos responsáveis ficarem atentos ao que suas crianças assistem e às emissoras adequarem os conteúdos dos seus blocos de programação.

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