quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dahya, a Rainha Guerreira que atrasou a conquista muçulmana no Norte da África


Estava lendo o Dicionário de História da África e me deparei com a seguinte frase "Fim da resistência berbere, liderada pela guerreira Kahina, ao expansionismo árabe (695).".  Eu nunca tinha ouvido falar dessa mulher e, claro, ao sair para procurar descobri que era mais uma personagem muito interessante, cuja história se mistura com a lenda e que, bem, pouca gente talvez conheça, ou eu sou muito ignorante, enfim.

Kahina, cujo nome poderia ser ⴷⵉⵀⵢⴰ, Daya, Dehiya, Dihya, Dahya ou Damya, foi uma rainha bérbere e líder religiosa e militar que liderou a resistência na Numídia (Argélia atual e parte da Tunísia) à conquista muçulmana do Magrebe, no Norte da África. Ela nasceu no início do século 7 e morreu no final do mesmo século, ou, no máximo, no início dos século seguinte.  A rainha, que era, também, uma líder religiosa, lutou ao lado de outro líder da resistência ao avanço islâmico na região, Kusaila (*Caecilius ou Aksel*), um rei cristão que venceu os muçulmanos repetidas vezes até ser finalmente derrotado e morto.  

"La Kahena", a estátua está na Argélia.
Com a morte dele, Dahya tornou-se a principal líder da resistência das tribos bérberes, segundo as fontes que eu achei, sua atuação durou entre 35 e 40 anos. É bom marcar isso, porque, para muita gente, fica parecendo que a conquista muçulmana na região foi um passeio entre muitas conversões e pouca resistência. Há duas versões sobre sua morte, em uma delas, a rainha morreu em batalha e de espada na mão, na outra, ela teria cometido suicídio para não cair nas mãos do inimigo.  De qualquer forma, ela teria morrido bem idosa.

Há muitas lendas em torno de Dahya e especulações sobre sua religião.  Uma dela é a de que ela seria rainha de uma tribo judaica da região.  Sim, havia grupos de judeus no Norte da África e ela poderia ser um deles.  Como várias fontes islâmicas apontam para a presença de um "ídolo" sendo levado à frente das tropas da rainha, há os que defendem que ela poderia ser pagã, ou, algo mais provável, cristã.  O ídolo poderia ser um estandarte com a imagem da Virgem Maria ou de Jesus Cristo.  O Norte da África foi uma das regiões mais cristianizadas do antigo Império Romano, Cartago e Alexandria foram bispados importantíssimos e os bizantinos ainda se faziam presentes na região quando os muçulmanos chegaram.

Carga da Cavalaria Bérbere.  Escola Francesa, c. 1870.
De qualquer forma, vejam só, Kahina ou Al-Kāhina não é um nome, é uma palavra árabe que significa  “profetisa”, “vidente” ou “bruxa”.  Uma mulher que lidera tropas e exerce poder religioso só pode ser bruxa, ou algo semelhante.  Os muçulmanos acreditavam que para que ela fosse vitoriosa, só poderia ter o dom de ver o futuro.  Não pensem que o apelido é elogio, porque a tolerância da ortodoxia islâmica com práticas mágicas é baixa, especialmente, quando a praticante é uma mulher e inimiga, ainda por cima.  E Dahya é mais lembrada por esse nome-apelido dado por seus inimigos do que or seu próprio nome.  Enfim, achei que valia a pena comentar sobre essa rainha guerreira.  Além do Dicionário de História da África, estou usando como fonte a Wikipedia, o artigo Al-Kāhina – A ”Bruxa” berbere que barrou as Conquistas Árabes e o artigo da Enciclopédia Bérbere.  

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1 pessoas comentaram:

Nossa, não consegui ler sobre ela e não pensar num bom filme!

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