sábado, 1 de agosto de 2020

Comentando uns romances muito mais ou menos que eu andei lendo esses dias


Estou de férias, quer dizer, tive uma semana sem precisar ir ao trabalho.  Antes que alguém pergunte, não, não estamos tendo aulas presenciais (*ainda*), mas eu não estou no grupo de risco e estou indo regularmente ao Colégio Militar de Brasília.  Pois bem, semana passada, estava passando pelo Amazon e apareceu recomendação de vários livros de Jess Michaels.  Achei que não conhecia a autora, tamanho o impacto que dois livros anteriores dela tinham deixado em mim.  Enfim, esqueci completamente dela e não comentei os tais romances, porque os mocinhos eram bem detestáveis.  Ao que parece, os livros da autora são sempre contemporâneos aos de Jane Austen.  É um dos períodos favoritos das autoras de romances populares para mulheres.

Enfim, olhei o que tinha disponível dela, esquecida completamente do que já tinha lido, vi que ela faz aquelas sagas de família e coisas assim.  Eu amo a série De Burgh da Deborah Simmons, sete irmãos mais a novella com a história do pai e acabou, isso, claro, depois de quase vinte anos de publicação.  Agora, aquela coisa de irmãos, tios, primos, primas, agregados que a Hannah Howell escreve, acho que são vinte e sete livros, me deixam saturada.  Enfim, o que acabou me chamando a atenção lá nas ofertas do Amazon  foi uma novela da Jess Michaels uma novela (*romance  curto*) chamado Fascinated (The Wicked Woodleys Book 6).  



Sim, peguei o último livro de uma saga, porque ele estava bem baratinho, menos de 10 reais e tinha uma característica curiosa, a história era de um romance entre dois homens.  Nunca tinha lido livro desses de banca, estilo Harlequin, com um romance que não fosse hetero.  Eles existem, claro, mas normalmente estão em séries próprias, não dentro de uma coleção convencional.  Acabei comprando, também, The Other Duke (The Notorious Flynns Book 1).   Só que me deu curiosidade e acabei lendo o livro dois da coleção.  

Fiquei pensando se jogava este texto fora, ou terminava, decidi terminar e publicar, afinal, já tinha escrito muita coisa. Esta série Os Notórios Flynns saiu em português, é livro de banca, dos que não tem muito brilho, com roupagem e preço de livraria, um desperdício, eu diria. Vou comentar os três livros em um texto só, afinal, não é nada complexo e vai ser uma panorâmica da minha opinião sobre a escrita da autora.  Comecemos pelo livro #1 dos Notórios Flynn.

O resumo de O Outro Duque é o seguinte: "Durante anos, Serafina McPhee está comprometida a se casar o duque de Hartholm e, por quase o mesmo tempo, ela luta para encontrar uma maneira de sair desse noivado. Quando ele morre repentinamente, ela não chora, mas se emociona com a ideia de que estará livre. Infelizmente, os melhores planos dão errado quando o próximo na fila para o título, o primo do duque, Raphael "Rafe" Flynn, é forçado a assumir o compromisso. Mas Serafina conhece a reputação de Rafe como libertino e também não quer nada com ele, mesmo ele sendo devastadoramente bonito.

Ela lhe propõe um acordo: ela concorda com o casamento e fornece a Rafe seu herdeiro e um sobressalente ["a heir and a spare"]. Depois que cumprir seu dever, ele a deixará ir. Rafe está intrigado tanto por sua beleza quanto por seu total desgosto com a ideia de ser sua noiva. As mulheres normalmente caem aos seus pés, não o temem.  Como o casamento arranjado não é algo do qual Raphael "Rafe" Flynn possa escapar, ele concorda com os termos de Serafina McFhee.  

Mas quando, na noite de núpcias, descobre a verdade sobre a tortura que ela sofreu nas mãos de seu antecessor, se vê impelido a não apenas cumprir sua barganha com sua nova esposa, mas a apresentá-la ao desejo. Enquanto eles se aproximam, se rendendo a prazeres perversos, emoções perigosas podem violar todos os acordos que fizeram."


Sim, o ponto de partida do livro é esse, um casamento imposto aos protagonistas e essa ideia absurda de que seria aceitável que a mocinha morasse separada do marido e que ele a visitaria somente para gerar seus herdeiros.  Eu digo que é absurda, não, porque casais nobres não pudessem viver separados, ou passassem longos períodos sem se ver, mas que, normalmente, um arranjo como esse só viria depois que o dever de produzir um herdeiro e um extra, dois meninos, vejam bem, fosse cumprido, não antes.  Mas Serafina decide ficar um pouco mais para ajudá-lo a aprender a ser um duque  e, claro, porque está apaixonada por ele, ainda que não admita.  

Falando dos protagonistas, ambos são bonitos beirando a perfeição e, como seus nomes sugerem, são comparados à seres angelicais.  Até conhecer Raphael, que se dispõe a acolhê-la e lhe apresentar os prazeres da carne, a mocinha teve uma vida absolutamente miserável pai, mãe, noivo, sogra, todos eram horríveis com ela.  Não darei maiores detalhes, mas era uma vida bem miserável mesmo.  Por causa disso, Serafina tem dificuldades em confiar no marido imposto apesar de todas as qualidades que o sujeito demonstra desde o seu primeiro encontro.  

E é engraçado, porque a todo instante é repetido que a família Flynn tem má fama, mas o que vemos é o mais perfeito dos cavalheiros.  Parece que o intuito da autora é vender um mocinho inatacável, capaz de abdicar de seus interesses, de seu prazer, em prol da mulher amada.  Que mulher hetero não iria querer um homem desses?  Raphael (*que, às vezes, é escrito como Rafael, por erro, talvez*) é o sujeito mais compreensivo e paciente a ponto de ser absurdo, porque a partir de um dado momento da história, não faz sentido que a mocinha queira ir embora e, ainda assim, a autora o coloca aceitando pacificamente a decisão dela.  Ele deu a sua palavra e, mesmo sofrendo, ele vai cumpri-la.


O quadro de personagens do livro é pequeno, porque a história é sobre o casal e o mundo não importa muito.  Só que, ao mesmo tempo, como se trata de uma série, a autora apresenta os protagonistas do futuro livro, os irmãos de Raphael, Crispin, que quer livrar o irmão do casamento e que ele volte à vida louca de antes, e Annabelle, uma moça inteligente, mas que quer casar bem, isto é, com um nobre e se sente manchada pelo mau comportamento dos irmãos e do pai já falecido.  Além disso, há o pai horrível de Serafina, que é redimido no final, a mãe de Raphael e a tia que era mãe do noivo morto de mocinha.

Mesmo com as incoerências, comentarei melhor mais abaixo, o livro é envolvente, e eu li muito rápido.  Os protagonistas são simpáticos, embora a solução do grande mistério do romance, os atentados sofridos pelos dois, tenha sido resolvida com muita facilidade.  É meio óbvio o que estava acontecendo, quem era o responsável, o problema é a resolução mesmo.  Sim, há alguém que quer matar o novo duque, mas o liro não é sobre isso, não é mesmo?  É sobre romance e sexo. Há muitos dos dois, ainda que a insistência da mocinha com a separação se torne irritante a partir de um determinado momento.  

Vamos ao segundo livro, A Amante do Canalha, o resumo do Amazon é o seguinte: "Annabelle Flynn é a irmã dos dois maiores libertinos de Londres, e sua reação a isso, foi tornar-se a imagem da pureza. Mas não perdeu a natureza sensual de sua família e é perturbada por impulsos que não ousa seguir.

Ela ignora as demandas de seu corpo e, em vez disso, se lança em duas atividades diferentes: Buscar um casamento adequado na Sociedade e tentar salvar seu irmão libertino, seguindo-o até Donville Masquerade, um chocante inferninho e casa de jogos dirigido pelo misterioso Marcus Rivers.



Durante o dia, Annabelle é uma elegante dama e procura um marido sério para combater a reputação selvagem de seus irmãos. À noite, ela se infiltra nos negócios de Marcus... e, eventualmente, se vê seduzida na cama dele.  Mas uma dama não muito adequada e um canalha totalmente inadequado podem encontrar algo em comum fora do quarto? E Annabelle estará disposta a trocar paixão por "perfeição" fria e calculada?"

 Terminei o segundo livro, hoje, de manhã.  Se a trama do primeiro livro era simples, mas fácil de engolir, a do segundo, nem tanto.  Annabelle é pintada como inteligente no primeiro livro, neste segundo, ela é capaz de enganar todo mundo e ir com regularidade até o tal clube no qual o irmão, Crispin, está se destruindo  sem despertar suspeitas.  Vejam só, ela vai com a carruagem da família até o tal clube, não em uma carro alugado, nenhum empregado a entrega para a mãe, ou para o irmão.  Difícil, bem difícil.

O resumo pinta Annabelle como alguém que reprime seus desejos sexuais.  Bem, isso durou pouco no livro.  Aliás, uma das críticas feitas a esse livro é o do excesso de cenas de sexo, que são descritas em detalhes.  Sim, um pouco menos ajudaria o livro, mas, de novo, os livros da autora parecem privilegiar o sexo à história.  Só que há um detalhe importante, Annabelle vai para a cama com Marcus, verdade, mas ela nega a ele sua virgindade.  Ela pretende se casar com um nobre e se tornar uma dama respeitável e, para isso, ela precisa estar intocada.  Só no hímen, que fique claro, eu até ria quando alguém dizia que ela era uma inocente, ou que eles não tinham feito sexo ainda.

Annabelle me fez lembrar dos livros do John Jakes, autor de romances populares norte americano mais conhecido pela trilogia Norte e Sul  - North and South (1982), Love and War (1984) e Heaven and Hell (1987) - que virou série de TV.  As mulheres que ele escrevia, ou eram santas de altar, perfeitas e imaculadas, ou... Bem, ele colocou a vilãzinha enrolando toda a família para ir catar marinheiros no porto e ninguém sequer descobriu.  E, na idade, ela superava Annabelle, porque começou a fazer esse tipo de coisa com uns 13 anos.  Agora, pensem a possibilidade de uma mocinha filha de fazendeiro sulista às vésperas da Guerra de Secessão com essa autonomia toda.  Na série de TV, deram uma moderada nos surtos do autor, eu fiquei imaginando que Annabelle era tão fora do tom quanto as mulheres de John Jakes.



Mas vamos ao mocinho.  Ele é lindo, ele é rico, ele é um cavalheiro em todos os sentidos, ele não força a mocinha a coisa alguma, ela é que o arrasta, de uma certa forma, ele a ama faz anos e ficava de plantão no portão da casa dela para conseguir vê-la ainda que de relance.  Qual seria o problema então, se ele é amigo dos irmãos de Annabelle e era do pai dela, também?  Marcus tem uma origem obscura e se sente muito inferior à moça e ele não quer estragar o sonho dela de se casar com um nobre.  Para ficar com ele, ela teria que descer uns degraus, sair mesmo da boa sociedade, não seria ele a arrastá-la.

Resumindo, o mocinho é mais gostável que a mocinha, pelo menos para mim.  E não é por ela ter esse plano de ascensão social mesmo que abrindo mão do amor, mas porque Marcus me parece sincero em seu sofrimento e amor.  Já Annabelle é aquela protagonista um tanto absurda e que a autora quer vender como uma versão feminina de seus irmãos, mesmo que ela mesma tenha consciência de que não pode ser, de que às mulheres são impostos limites, que a ousadia de uma mulher pode lhe custar caro. Quando efetivamente eles se entregam a uma prática sexual que eu duvidava que a autora fosse colocar no livro, mas que era óbvia e deveria estar na história, ele se sente sujo e humilhado, porque, afinal, a mocinha lhe negava a sua virgindade, mas aceitou ser penetrada de outra forma.  Eu entendo a revolta do sujeito.

Agora, mais uma vez, temos um mocinho quase perfeito, cheio de bons sentimentos e de lealdade.  Mas eis que o título do livro no original o chama de "scoundrel", que seria "uma pessoa desonesta ou sem escrúpulos".   A autora escolheu a palavra, mas em nenhum momento o mocinho passou perto disso, afinal, não há sequer a condenação no livro aos negócios que ele mantém.  Jess Michaels parece gostar de colocar esses inferninhos de elite nos seus livros, porque em outro dela que eu li, havia, também.  A diferença é que o mocinho levava a esposa para lá meio que contra a vontade dela, enquanto nesse livro, Marcus faria o possível para evitar que Annabelle estivesse naquele lugar, ela é que gosta e é voyeur e não vê problema em nada daquilo.



Não preciso dizer, obviamente, que eles ficam juntos.  Há umas críticas que cobram um final para o livro, mas o livro tem um final bem convincente, pelo menos, para mim.  E vamos para o último livro, que é bem curtinho, e foi o que me fez ler o primeiro livro dos Flynns.  O resumo do livro Fascinated (The Wicked Woodleys Book 6)  é o seguinte: "Faz mais de uma década que o amante de Aaron Condit, o visconde Noah Seagate, morreu. Apesar de alguns casos temporários, ele não teve um relacionamento real desde então. Mas agora ele foi convidado para a casa de sua melhor amiga, Leticia Blackwood, e ele será confrontado com uma profunda tentação na forma de seu irmão, Griffin Merrick.

Griffin vê Aaron em certos clubes há muito tempo e não pode negar que deseja o bonito advogado. Mas segredos de longe no passado e um desejo de não machucar alguém que ambos amam estão entre eles. O tempo gasto sozinhos leva a um caso passional, mas apenas o tempo dirá se eles podem superar tudo o que os mantém separados. E se eles estão dispostos a arriscar perder tudo, a fim de encontrar o amor."

O livro é muito curtinho, mas acredito que foi bem ousado da parte da autora fechar uma de suas sagas com uma história sobre dois homens.  Não sou muito versada nesse tipo de literatura, mas é inédito para mim.  Um dos méritos do livro é me enganar em relação a quem seria o uke (passivo) e o seme (ativo) da relação, isso porque o desenvolvimento da história me lembrou muito a de um mangá BL.  De repente, foi desse tipo de mangá que a autora tirou a ideia.

Todas as personagens do livro participaram de outras histórias da saga e é muita gente sendo citada dentro de uma história tão curta, mas toda a ação se passa em um encontro de família.  Um dos livros é sobre Leticia Blackwood que, inocente, viveu um triângulo amoroso com Aaron e o seu primeiro marido.  Super boazinha, Leticia acabou perdoando os dois e se tornando amicíssima de Aaron, por isso mesmo, ele não deseja feri-la de novo mantendo um romance com o irmão caçula dela.  E Aaron está de olho em Griffin faz tempo e, mais uma vez, tem essa história de frequentar esses clubes de sexo, ainda que a coisa só seja referida e, não, mostrada.


Thomas Gainsborough, "Peter Darnell Muilman, Charles
Crokatt and William Keable in a landscape" (c. 1750)
Já Griffin, o tal irmão, sofre uma pressão absurda da mãe para se casar e procriar.  O moço pensa mesmo em cometer suicídio e Aaron o impede.  O relacionamento dos dois acontece, temos as cenas de sexo super detalhadas que a autora adora, mas o ponto é, quem vocês acham que estava bancando o/a casamenteiro/a?  Mas esse livro não me fez querer saber da história de Leticia, ou de outras personagens dessa série.

De resto, a autora tenta discutir de forma séria a questão da homossexualidade no período regencial, das penas que poderiam ser impostas caso alguém fosse descoberto (*e não fosse poderoso o suficiente para calar as pessoas, mas isso a autora não escreve*), a subcultura gay do período  e tudo mais, só que, depois da primeira noite de amor com Aaron, Griffin fica com um sorriso besta na cara e parece não perceber que não pode dar bandeira na frente de todo mundo.  É assim, Michaels tenta ser densa nesse livro e fracassa absurdamente, mas, enfim, se você não está preocupado com isso, a leitura pode ser agradável.


Uma "molly" (homossexual) no pelourinho, 1763,
do livro Political and Personal Satires,
vol. 4 p.220. © British Library
A tomar pelos dois livros dos Flynn, um dos objetivos da autora é reforçar que sexo é algo bom, saudável, e que as mulheres devem expressar o seu desejo e esperar que seu parceiro as satisfaça.  Pensem no caráter pedagógico desse tipo de material, porque, ainda hoje, a ideia machista prevalente é que as mulheres se interessam menos pelo sexo e que isso é algo que elas fazem para satisfazer o parceiro.  Ler material em que o prazer não é algo que você somente oferece ao outro e que sua satisfação vem da satisfação dele é algo progressista.  O problema, claro, é a super idealização desse parceiro compreensivo, paciente e disposto a fazer tudo pela mocinha do livro.  

Um detalhe super importante é que nesses dois livros da saga dos Flynn não há sequer sombra de qualquer atividade sexual que não seja consentida e desejada.  As moças querem, os moços querem, se elas dizem não, eles respeitam.  É uma abordagem absolutamente moderna da masculinidade, por assim dizer.  Estou reclamando?  Não, porque nos outros livros da autora os mocinhos não eram nada perfeitos.  Resumindo, a discussão sobre sexo e prazer é importante, mas ela não se aprofunda, tampouco as personagens da autora são minimamente realistas.  Mas o que uma pessoa busca nesse tipo de literatura?  Provavelmente, diversão rápida, ou se afastar da realidade mesmo.  Mas vamos aos problemas! 


Reproduções de 1898 C.E. Brock para o livro Emma.
Eu fui marcando algumas inconsistências ao longo da leitura, vou colocar os problemas que vi nos três livros.  No Outro Duque, o pai de Serafina é um sujeito pomposo, orgulhoso de sua posição social, mas a autora o coloca andando à cavalo,  um homem como ele certamente teria uma carruagem. No segundo livro dos Flynn, o conde super formal, vaidoso e tudo mais que pede a mão de Annabelle, também aparece em um dado momento andando à cavalo, sem usar sua carruagem, quando vai visitá-la. Lembrei-me de Emma repreendendo o Sr. Knightley por esse tipo de prática no livro de Jane Austen.  Para Emma, não ficava bem para um cavalheiro andar à cavalo por aí podendo ter uma carruagem, salvo, claro, se ele fosse jovem e ousado, ou seja, não se aplica a nenhum deles.  

Outro ponto é que os protagonistas dançam valsa no livro 1 em um baile da alta sociedade como se fosse a coisa mais normal do mundo.  O ano era 1813, a dança era uma novidade na Inglaterra, considerada escandalosa e não muito bem aceita ainda na boa sociedade.  Em um artigo sobre danças no período regencial (1811-1820), encontrei a informação de que a valsa só se tornou comum mesmo depois de 1815, antes disso, era escandaloso que os corpos ficassem tão juntos.  Aliás, esse erro da valsa também foi cometido em Sanditon, a série supostamente baseada em um livro de Jane Austen.

No livro 2, a apresentação de Annabelle à sociedade, seu "coming out", foi adiado por causa da má fama da família.  Assim, quando o irmão se torna duque, ela é formalmente apresentada aos "Upper Ten Thousand", ou "the Ton" (le bon ton), o mais alto extrato da aristocracia britânica.  Esse povo é adorado por essas autoras de romance de banca, mas não costuma aparecer nos livros de Jane Austen, só lembro da viscondessa parente dos Elliot em Persuasão.  Retornando, segundo o livro, Annabelle deve ter por volta dos 25 anos, uma solteirona, ou quase.  As moças eram apresentadas à sociedade durante a Regência entre os 16 e 18 anos.  Perguntei-me qual sentido fazia ficar tratando Miss Flynn como se ela fosse uma debutante, quando, na verdade, ela só passou a ir à festas que não tinha acesso antes.

Outro problema são as roupas.  Quando Raphael tira as roupas de Serafina, ela está usando apenas vestido e chemise, sem stays, ou espartilho, ou o que seja. É um erro grosseiro, por assim dizer.  No segundo livro da série e a autora comete o mesmo erro, Annabelle é descrita sendo despida três vezes e, em nenhum momento, se fala de espartilho, é sempre vestido e chemise e só.  E nem falei em outras roupas de baixo...  Vejam o vídeo abaixo com uma dama se vestindo no período Regencial.  E, por último, porque cansei, acho engraçado que a autora coloque como algo normal, comum até, que as pessoas se tratem por apelidos carinhosos.  Serafina tão ciente das exigências de sua posição social, não iria chamar seu marido Duque pelo nome, menos ainda por apelido, "Rafe", ao falar com estranhos.  É outro deslize, porque, normalmente, esposos se tratavam de maneira formal diante de estranhos.  Nos outros livros, a mesma coisa acontece.  



Concluindo, ainda não sei se deveria perder meu tempo com essa resenha coletiva.  Jess Michaels  não é uma autora na qual eu consiga ver grandes qualidades.  Seus livros são rasos, cheios de imperfeições e isso pode ser fruto do fato dela escrever muito rápido.  Se clicarem no link com o nome dela, vão ver que ela escreve vários livros por ano, tudo muito rápido, não tem como manter a qualidade, ou, no caso dela, ter qualidade.  Eu gosto de romances de banca, principalmente, os "históricos", sou até indulgente com eles, mas Michaels comete muitas derrapagens.  Mas, enfim, se você quiser arriscar, basta clicar na capa dos livros e ir direto para o site do Amazon.

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1 pessoas comentaram:

Eu nunca li esse tipo de material e não faria ideia do que pegar pra começar, mas adorei a resenha coletiva, mesmo você não dando muita moral pra autora..rs. A melhor parte é sempre as suas impressões, porque conversam muito bem com o tipo de conteúdo que você discute aqui.

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