segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Riyoko Ikeda fala de cinema e de qual de suas séries ela gostaria que virasse dorama (Entrevista traduzida)

Já faz algumas semanas que o querido amigo Luiz traduziu uma entrevista de Riyoko Ikeda, autora da Rosa de Versalhes, e me enviou de presente.  Ela fala de mangá, como não poderia deixar de ser, mas fala de cinema, também.  Fiquei surpresa em descobrir que um dos meus filmes favoritos, O Homem que não vendeu a sua Alma, é um dos prediletos de Ikeda, também.  Sou realmente muito grata ao Luiz por tanta gentileza, eu jamais teria acesso a esse material se alguém que domina o japonês não se dispusesse a fazer as traduções e, neste caso, desencavar uma preciosidade como essa.  Espero que as pessoas que passarem por aqui, parem para ler.  

Como já apontei antes, esse novo formato do Blogger tornou muito difícil colocar legendas em fotos, barras e outras coisas, além disso, eles bagunçam a formatação.  É um horror.  Eu espero que eles resolvam isso um dia.  Outra coisa, Riyoko Ikeda parece envelhecer devagar devagarinho, a entrevista é de 2017, mas se você comparar com fotos anteriores, ela parece ter mudado muito pouco.  A entrevista original em japonês está aqui. E Luiz, deixe um contato, pode ser que alguém queira contratar os seus serviços.


Entrevista Especial com a mangaká Riyoko Ikeda

 Todos os meses, é exibido o programa Kono Eiga ga Mitai (Quero Ver este Filme) no canal Movie Plus, no qual personalidades que atuam em gêneros diversos conversam sobre filmes que tiveram influência em suas vidas.

Quem aparecerá no 45º programa, exibido em 5 de Junho, será Riyoko Ikeda, autora do mangá A Rosa de Versalhes  (ベルサイユのばら). Dentre as 5 obras escolhidas por essa mulher autora, a qual possui uma vontade insaciável de criar mesmo após comemorar os 50 anos de sua estreia, há filmes de crítica social como O Homem que não Vendeu sua Alma de 1966 e No Mundo de 2020 de 1973. Que tipo de filme será que Riyoko Ikeda busca?

- Dentre os filmes que você escolheu como “as obras que influenciaram seu modo de viver”, há apenas obras de crítica social, começando com O Homem que não Vendeu sua Alma (1966) [1], mas também com Limite de Segurança (1964), Alemanha, Mãe Pálida (1980), Capital Humano (2013) etc. Normalmente, é desse tipo de filme que você gosta?

Isso mesmo. Foi o filme O Homem que não Vendeu sua Alma, visto por mim durante o ginasial, o qual me fez pensar que era daquele jeito que eu também gostaria de viver. Como filmes para mim são algo importante, eu escolhi esses cinco facilmente. Dentre as obras que não escolhi dessa vez, há também filmes de que gosto sobre o Apartheid instaurado antes da independência sul-africana e sobre Mahatma Gandhi etc. Por causa do meu trabalho normal, eu consumo várias histórias românticas ou de comédia-romântica, mas no geral eu não vejo esse tipo de história.

- O que fez você começar a gostar de filmes?

Acho que ...E O Vento Levou (1939) [2] e o filme estrelado por Simone Signoret As Diabólicas (1955), aos quais assisti com minha mãe quando pequena, foram o motivo; mas eu passei a gostar naturalmente por ser algo que nos mostra um mundo o qual não se pode experienciar por conta própria.

- No programa isso também foi trazido à tona, mas você teria interesse em fazer um filme, não é?

Sim, porque é algo de que gosto. Antigamente, havia tantos DVDs e fitas VHS na minha casa que parecia uma montanha. Como ultimamente se passou a conseguir comprar filmes com o controle remoto e prontamente os ver, acontece de eu, quando me empolgo, assistir por volta de três filmes em um dia. Porém, com essa quantidade, obras chatas também aparecerem no meio (risos). Já aconteceu de eu pensar “Alguém investiu milhões em um negócio desses? Deveriam deixar que eu também criasse um filme” (risos).

- Se fosse criar, seria um filme de crítica social mesmo, não é?

Há várias possibilidades. Eu gosto de filmes B de terror também. Quanto a esse gênero, eu adoro Dia dos Mortos (1985) [3]. Vi várias vezes, com muito medo. Além dele, gosto de Alien (1979). Há também as continuações, mas o primeiro é de fato formidável. Como pessoas que fazem filmes são obcecadas com detalhes, dá para descobrir coisas novas ao ver repetidas vezes. Penso que os filmes que não perdem o frescor mesmo quando alguém os vê repetidas vezes são obras-primas.

- Qual o seu critério na hora de escolher um filme para assistir?

Acho que vou pela minha intuição mesmo. Por isso cartazes e pôsteres são importantes. Se um ator de que gosto aparece também. Por exemplo, John Travolta ou uma das estrelas de O Homem que não Vendeu sua Alma, Nigel Davenport. Eu não gosto muito desses atores magros pelos quais as mulheres no geral fazem estardalhaço; prefiro homens que tenham físico robusto. O melhor é o Shuwa-chan (Arnold Schwarzenegger), sendo O Exterminador do Futuro (1984) [4] o filme de que mais gosto. Também gosto de Sylvester Stallone. Dele o que mais gosto é Rocky (1976).

- Dentre as obras escolhidas por você, como em O Homem que não Vendeu sua Alma, há aspectos em comum com aquele mundo apresentado por A Rosa de Versalhes, em que um homem se atém à sua fé. Porém filmes B de terror e filmes de ação são algo inesperado do ponto de vista do estilo da Ikeda-sensei.

Hehe. Por outro lado, como eu vejo filmes de crítica social, ao ver esses filmes talvez eu esteja conseguindo balancear as coisas.

- Na hora de desenhar uma obra, você já foi influenciada por filmes?

O Osamu Tezuka-sensei também já falou isso, mas os filmes são feitos de vários ângulos, não é? Por exemplo, plano plongée.[5] Esse aspecto em mangás nasceu aprendendo com filmes. Eu também desenho pensando em como seria filmado caso se tratasse de um longa. Ir de um plano geral para um close-up aproximando a câmera, imaginar que tipo de música estaria tocando ao fundo etc. Eu aprendi realmente muitas coisas com filmes na hora de desenhar mangás.

- Recentemente, há muitos filmes baseados em mangás. O que você sente com relação a essa situação?

Quando A Rosa de Versalhes foi publicado, eu cheguei a ser criticada pela mídia de massa. Eles diziam que, comparando com livros, mangás acabam por enfraquecer o poder de imaginação das crianças porque eles têm desenhos. Nessas horas eu refutava perguntando “então, filmes também não seriam um problema?” (risos). E agora muitos filmes japoneses são baseados em mangá, não? Também é assim com dorama, você fica pensando se está tudo bem as coisas serem assim, não é? (Risos) Mesmo dizendo isso, há uma obra minha a qual eu gostaria que fosse feita em dorama matutino. É uma obra que fiz um pouco antes de desenhar A Rosa de Versalhes chamada Shouko no Etude (章子のエチュード),[6] que eu queria muito que fosse transformada em dorama matutino (risos).[7]

- E por fim, o que é um filme?

O ser humano só consegue viver por um tempo limitado. Porém, ao ver filmes os quais são a manifestação dos pensamentos de outras pessoas, é como se eles fizessem sua vida durar mesmo 180 ou 200 anos. Penso que filmes sejam isso.

Notas:

[1] É o cartaz do filme O Homem que não vendeu sua Alma (A Man for All Seasons), sobre Thomas Morus, autor da Utopia, chanceler do reino da Inglaterra e que se recusou a reconhecer o casamento de Henrique VIII e Ana Bolena e que o rei era o chefe da Igreja no país.  caiu em desgraça, manteve suas posições e pagou com sua vida.  É um filme impecável, ainda que limpe a imagem de Morus de alguns defeitos e omita o fato de que sua opção pelo conciliarismo (*os bispos reunidos estavam acima do papa*) era uma heresia para a Igreja Católica, também.
[2] E o Vento Levou despertou a paixão de Ikeda pelo cinema.  Outro dos meus favoritos.  Ainda estou devendo um texto sobre o filme.
[3] Ikeda curte filme trash de zumbi.  OK, nisso nós não concordamos. 😁
[4] Ikeda gosta de homens marombados!!!!! Mas Exterminador do Futuro, o primeiro filme, é muito bom realmente.
[5]   "PLONGÉE (palavra francesa que significa “mergulho”) – quando a câmera está acima do nível dos olhos, voltada para baixo. Também chamada de “câmera alta”."  Para informações sobre planos cinematográficos, clique aqui.
[6] Shouko no Etude é uma das séries de Riyoko Ikeda que eu nunca li, nem tenho em casa.  Ela foi lançada em 1974, são dois volumes e o resumo da história e o seguinte: "Um drama familiar. A jovem Shouko perdeu os pais em um acidente de carro e, desesperada, pede para ser hospedada por seus tios, trabalhando para eles em tempo integral. Ela começa uma vida de sacrifícios e enfrenta dificuldades para se integrar à família, por causa do ciúme da prima. Mas a felicidade ainda está por vir?".  Eu acho que Onii-sama E... (おにいさまへ…) daria uma novela espetacular, também, mesmo que não para o período da manhã. 
[7] A novela matinal se chama asadora, é voltada para o público feminino e tem sempre uma mulher como protagonista, segundo a J-Drama Wiki.

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4 pessoas comentaram:

Muito obrigada ao Luiz por traduzir essa entrevista deliciosa e a você Valéria, por trazê-la para cá!

Achei maravilhoso e muito enriquecedor uma mangaká tão importante e querida como a Ikeda falar sobre cinema e jogar o seu olhar sobre; concordo demais que há filmes que você vai sempre encontrar algo novo, não importa quantas vezes o veja. A ligação do mangá com o cinema é muito especial e pra mim, um dos diferenciais na maneira de ser fazer quadrinhos e construir a narrativa (sei que outras HQs também têm esse tom, mas digo pela minha experiência pessoal, onde me dei conta dessa ligação). Amo a sétima arte e tenho descoberto muitos títulos geniais aqui no SC! Esse post foi mais um deles!

HAHAHA Ikeda gosta dos bombadões! Tipo homem "com cara de homem"! A primeira coisa que pensei quando ela falou em "homens magros" foi naqueles tipos andróginos de atores/cantores do universo do Jpop e Kpop, que são bem assim, macérrimos e nada parecidos com os tipos que ela citou..rs.

Excelente entrevista! Obrigada novamente ao dois!

Então ela parece gostar de filmes de terror, voce sabia que Girodelle é um vampiro?

https://www.animenewsnetwork.com/interest/2018-02-05/latest-rose-of-versailles-manga-reveals-there-was-a-vampire-among-them/.127401

O post do Gerodell vampiro está aqui: https://bit.ly/2CZthsi

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