segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Deu saudades de As Brumas de Avalon... Não sei o motivo, mas deu.


Isso era para ser um post do Facebook, mas decidi trazer para cá.  Eu comprei a  nova edição de As Brumas de Avalon em formato Kindle, porque, bem, minha edição antiga está no armário que só será aberto quando for de fato arrumar a mudança e porque me informaram que a nova tradução estava muito boa.  Eu tenho em inglês, mas As Brumas é um dos poucos livros que me fez empacar na leitura quando decidi ler no original.  Não sei o motivo, mas o inglês arcaico fake da Marion Zimmer Bradley me deixava enervada, é como tentar ler os livros da Hannah Howell naquele suposto inglês misto de escocês supostamente medieval.  Eu largo o livro.  E antes que alguém diga que a culpa é minha, eu li A Letra Escarlate e Um Ianque na Corte do Rei Arthur no original, e o inglês arcaizado do  Nathaniel Hawthorne e do Mark Twain, dois autores do século XIX, não me colocaram para a correr.

OK, não estou aqui para falar de tradução e arcaísmos.  As Brumas de Avalon é uma releitura feminista e wiccana (*porque é isso mesmo*) das lendas do Rei Arthur.  Se a pessoa conseguir lidar com isso, terá horas garantidas de diversão com personagens super interessantes e revisitará acontecimentos das lendas arturianas sob um novo olhar.  Enfim, fazia mais de década, acho, que não relia nenhum trecho de As Brumas de Avalon, mas reler os pedacinhos me fez ter de novo aquela sensação de que as personagens são tão vivas, tão humanas, tão poderosas.  E Morgana, com suas contradições e seus vais e vens ao longo da trama, continua sendo uma criatura magnífica.  Eu li duas passagens especificamente, a quando Morgana reencontra Lancelot em Avalon e conhece Gwenhwyfar (*é como Guinevere é chamada nos livros*).  

É um momento chave do livro, porque Morgana se apaixona por Lancelot, estaria disposta a se entregar a ele se fosse o caso, traindo seus juramentos.   E, depois de uma tarde idílica com ele, o vê cair de amores pela futura esposa de Arthur, uma criatura de beleza perfeita, "branca, loura e rosada", enquanto a heroína era "pequena, morena e feia" como o povo das fadas. é uma ferida que ela não conseguirá curar jamais. Para se impôr, Morgana mostra o seu poder para se envolver com a capa da deusa e parecer maior e majestosa.  Eu adoro quando as sacerdotisas de Avalon usam desse expediente. Mas o Lancelot do livro, pelo menos nesse momento, parece é um sujeito extremamente volúvel e inseguro.  Aliás, Bradley não é gentil na construção das suas personagens masculinas, poucas escapam.

 Depois, eu pulei para o terceiro livro (*são quatro, publicados juntos*) caí na parte em que Morgana reencontra com Kevin, o bardo, o futuro Merlin (*porque é um título, não uma pessoa*), depois de se perder no país das fadas tentando voltar para Avalon.  Eu gosto muito do Kevin, acho que é a minha personagem masculina favorita das Brumas de Avalon e exatamente por causa desse encontro, eles se tornam amantes e ele passa a ver em Morgana a face da própria deusa.  Eu lembro na minha leitura original, como fiquei triste com o destino de Kevin no último livro, não somente dele, porque Morgana sofre e a filha de Lancelot, Nimue, mais ainda.  Mas eu li os livros aos 15 anos, foi a minha única leitura completa e precisaria reler para ver se minhas impressões e sensações são outras.

Enfim, eu realmente acho lamentável que As Brumas de Avalon não seja adaptada para uma série monumental com pelo menos quatro temporadas.  Sei que ia ter muito macho se rasgando de dentro para fora com essa versão das lendas arturianas, não que eu me importe, claro. Lembro de uns amiguinhos que adoravam colocar defeitos em As Brumas de Avalon, como se a autora apontando os problemas históricos em uma obra de ficção e comparando com o Bernard Cornwell, porque ele, sim, tinah feito uma releitura das lendas arturianas de respeito.  Eu tomei ranço do autor por causa desses sujeitos, mas, de qualquer forma, o livro de Bradley não é livro de história, os do Cornwell igualmente, e o problema dos sujeitos é o feminismo militante de As Brumas de Avalon.

Eu sei que há um telefilme, na verdade, uma minissérie em duas partes, com um elenco respeitável, eu assisti, talvez seja a hora de rever, mas, na época, ele me pareceu muito aquém do que As Brumas merecia.  Recontar o livro em míseros 183 minutos é receita para um fracasso.  Mas você deve estar me perguntando por qual motivo não acredito em uma nova adaptação de As Brumas de Avalon.  Bem, o nome de Bradeley está manchado para sempre por acusações de pedofilia e abusos diversos feitos pelos próprios filhos.  E, sim, há evidência da veracidade dos relatos.

Mas eu sou fã de As Brumas de Avalon, eu tentei ler outras obras da autora, peguei O Incêndio de Troia e fiquei muito decepcionada.  Parecia que eu estava lendo, e tenho certeza que a ideia era essa, uma vida passada das personagens de As Brumas de Avalon.  Kassandra/Morgana, Hécuba/Igraine, Enéias/Lancelot.  OK, eu consigo lidar com essas coisas até certo ponto, PORÉM a autora decidiu pegar Heitor, minha personagem favorita da Ilíada e da literatura (*se eu tivesse um filho seria um nome que eu cogitaria em colocar nele*) e transformou no misógino mais imprestável do livro.  Só não digo quem ele era nas Brumas, porque teria que dar um spoiler muito grande. Eu li tudo, mas rangendo dentes e não li mais nada da autora, mas As Brumas de Avalon eu recomendo muito.

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2 pessoas comentaram:

Eu nunca peguei As Brumas para ler, infelizmente ela não chegou até mim na minha adolescência e então, na época que comecei a procurar para ler, eram naquelas quatro edições e estava esgotada. Fiquei muito empolgada com essa nova edição, mas o valor do livro físico tá proibitivo pra mim no momento. Aliás Valéria, você viu essa coletânea?

Aqui: https://www.amazon.com.br/Colet%C3%A2nea-As-brumas-Avalon-Acreditamos/dp/6555350466/ref=pd_vtp_14_1/140-8761310-7078422?_encoding=UTF8&pd_rd_i=6555350466&pd_rd_r=4582250d-e8ff-412d-8ec6-6d81b03d26bd&pd_rd_w=aLe7I&pd_rd_wg=BNmqe&pf_rd_p=68b3e1e9-c112-41ff-80ea-8062fce942e4&pf_rd_r=6WS1N8X1JCBFANTRF24Z&psc=1&refRID=6WS1N8X1JCBFANTRF24Z


Será que os machos teriam a audácia de fazer campanha contra uma produção dessas hoje? (Por mais que seja difícil por causa dessas denúncias lamentáveis.)

Nessa atual "cultura do cancelamento", acho difícil qualquer coisa ligada à Marion Zimmer Bradley ser feita.
Confesso que diante do que eu li a respeito dos abusos cometidos por ela, não sei bem o que pensar. Me sinto incomodado até para reler os livros de que tanto gosto.

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