terça-feira, 15 de setembro de 2020

Comentando o Capítulo 2 de Orgulho e Preconceito (BBC/1995): Mr. Collins quer uma esposa e Lizzie mostra que não é lá tão esperta.


Para quem não viu o post de ontem, minha proposta é fazer uma resenha curta de cada um dos capítulos da série Orgulho e Preconceito da BBC, que completa 25 anos em 2020.  Outro motivo para os textos são os sessenta anos de Colin Firth, o Mr. Darcy dessa minissérie e, para mim, o ator que melhor interpretou o papel.  A resenha do capítulo 1 está aqui, se você quiser ler.  O destaque do capítulo 2, mais do que Wickham (Adrian Lukis), é Mr. Collins (David Bamber).

Antes que eu atropele tudo, o capítulo começa com Mr. Bennett anunciando que a família terá uma visita.  A esposa fica excitadíssima e imagina que Mr. Bingley virá jantar, mas é o primo que vai herdar a propriedade quando seu marido morrer.  Mrs. Bennett está disposta a odiá-lo até que ficam claras as intenções do sujeito, casar com uma das primas, afinal, todas são bonitas e prendadas, um pastor precisa de uma esposa e seria, também, uma forma de caridade para com elas.  Fora isso, sua patrona, Lady Catherine de Bourgh, exige que ele se case.

David Bamber está totalmente fora da idade e aparência da personagem, mas um dos problemas de praticamente todas as adaptações de Orgulho e Preconceito é que colocam um sujeito bem mais velho e de aparência cômica no papel.  O Collins do livro tem 25 anos e quando leio a descrição no livro sempre o imagino como aqueles adolescentes que cresceram demais e rápido e que são desengonçados por não terem ainda controle do seu novo corpo.  Por isso mesmo, o meu Mr. Collins perfeito é o Matt Smith em Orgulho e Preconceito e Zumbis.  Mas, voltemos!

Mr. Collins é totalmente insensível e sem tato para a maioria dos assuntos, ainda que  tente se esmerar na arte da adulação.  A cena do jantar logo na chegada dele é um quadro perfeito disso, ele subestima as mulheres, ele conversa com Mr. Bennett ignorando a presença delas apesar delas serem o assunto, e o pai das moças dando corda e debochando dele, com a filha Lizzie se segurando para não rir.  Mesmo Jane, quase não consegue se conter.  E, bem, esquecidas essas questões de idade e aparência, David Bamber se sai muito bem na tarefa, ele é um Mr. Collins muito divertido.

Quando ele vai escolher a prima para seus afetos, seu olhar cai direto em Jane, mas Mrs. Bennett logo o desvia, porque a jovem estaria comprometida.  OK, a câmera age como se fosse o olhar de Collins e passa por Kitty e Lydia para cair em Lizzie.  A partir daí, ele passa a circular a moça de atenções que ela rejeita.  Elizabeth sabe o que está acontecendo, mas espera que a coisa não se materialize em um pedido de casamento, que é o que acontece, obviamente.

Antes disso, no entanto, temos a chegada de Wickham.  Como escrevi no texto sobre o capítulo 1, a gente conhece a história, então é difícil avaliar de forma mais neutra, porque eu sei que ele é um vagabundo.  Mas, enfim, como alguém acredita em um sujeito tão falso?  Tão rápido em abrir seu coração?  O fato é que na interação com Wickham, Elizabeth mostra o quão ingênua ela é, enquanto isso, Jane parece muito mais equilibrada, tentando fazer com que a irmã não abrace como verdade a palavra de um estranho.  E um sujeito que não tem muitos pudores em "falar mal" de Darcy e mesmo da irmã dele, Georgiana.

Mas Elizabeth, apesar do seu bom senso, está disposta a acreditar em tudo.  E Wickham é um perito sedutor, ele tem um olho em Lizzie e outro em Lydia, talvez imaginando o quanto seria fácil enganar a garota de 15 anos, também.  Já vi gente reclamando que Adrian Lukis não é bonito o suficiente para ser Wickham, só que a personagem não precisa ser bonita, ele é o sujeito que leva todo mundo na conversa, que faz festa com o dinheiro alheio e é popular.  O ator conseguiu mostrar bem isso.  E o olhar de desprezo de Darcy quando percebe que é ele...  Ah, é de gelar a alma, mas Wickham retruca com um meio sorriso.

Aliás, os olhares do Colin Firth nesse episódio foram todos bem assustadores, de raiva e desprezo, salvo em dois momentos, quando ele quase sorri ao ver Elizabeth sendo torturada por Mr. Collins na pista de dança.  É bem rapidinho.  Depois, temos outro olhar mais terno quando ele vai convidá-la para dançar.  De resto... E quando Mrs. Bennett começa a fazer vergonha no baile, me deu nervoso, o rosto da Jennifer Ehle fica transtornado vendo a mãe falando atrocidades e as irmãs dando vexame.  

Mary correndo para o piano é engraçadíssimo, mas o resto da sequência é tensa.  E enquanto ela canta (mal), a cena muda para o lado de fora onde estão as carruagens.  Os cavalos relincham e os cachorros uivam, eu nunca atentei para isso.  E Mr. Collins vem se apresentar para Darcy e ele levanta e vai se juntar às irmãs de Bingley.  O rosto de Colin Firth fica sombrio até.  Se ele não voltasse a ver Elizabeth, acho que ele não teria uma recaída e apagaria a moça da memória, porque a família dela é uma carga pesada demais.  

O final do capítulo é o pedido de casamento de Mr. Collins.  O que poderia ser visto como uma salvação para a mãe e as irmãs é um peso grande demais para Elizabeth.  Em condições normais, provavelmente, uma moça daquela época seria obrigada a aceitar o sujeito que está só esperando que o pai dela morra e que diz aceitá-la apesar de seu dote quase inexistente, mas Jane Austen nos permite acreditar que poderia ser diferente.  E o pai de Lizzie, tão relapso em tantas coisas, não entregaria sua filha favorita para Mr. Collins.  A cena em que ele diz para a filha que ela terá que fazer uma escolha difícil entre o pai e a mãe, porque ele não falaria mais com ela se a moça aceitasse Mr. Collins e com Mrs. Bennett seria o inverso, é excelente.

E Mr. Collins quer ir embora imediatamente por causa da humilhação.  E quem está chegando?  Charlotte Lucas.  E quando ela sabe que Lizzie recusou o primo, a câmera vai direto no rosto dela.  O olhar da atriz diz tudo "É minha chance.".  Se Elizabeth não consegue ser pragmática, e Charlotte já a havia advertido sobre essas questões quando ela quase recusa dançar com Mr. Darcy, a amiga nãos e faz de rogada.  Aliás, Mr. Collins é um safado, porque se ele só queria uma esposa, Mary está ali lançando os olhares para ele o tempo inteiro.  Ela diria "sim", com certeza.

Como o ator que faz Mr. Collins é bem mais velho que Lucy Scott, que faz Charlotte Lucas, anula-se (*como em todas as outras adaptações*), um fato interessante.  Charlotte era mais velha que Mr. Collins, ela de uma certa forma consegue enredá-lo, provavelmente, porque ele acha que sabe mais do que sabe e é absolutamente inexperiente quando o assunto são as mulheres.  Falando em Charlotte, o pai dela, Sir William (Christopher Benjamin), também cometeu uma gafe bem pesada interrompendo Darcy e Elizabeth enquanto eles estavam dançando.  Sir William não é muito diferente de Mrs. Bennett, ele também tinha aprontado no primeiro capítulo tanto com Darcy, quanto com as irmãs de Bingley.

E o capítulo termina com Mrs. Bennett chorando copiosamente depois que Mr. Collins vai embora.  É como se lhe arrancassem a esperança de um futuro tranquilo.  Enfim, outro ótimo capítulo.  Temos menos Darcy, mas Mr. Collins preenche bem a lacuna.  Os figurinos do baile em Netherfield são muito bonitos e as locações desse episódio, a ponte, em especial, foram de encher os olhos.

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