Estamos nos últimos dias do ano e eu não resenhei o melhor filme que eu vi este ano, Homem com H, a cinebiografia de Ney Matogrosso. Sim, não houve filme que eu considerasse mais bem construído e que me engajasse tanto. Homem com H consegue fazer duas coisas que cinebiografias não conseguem, a primeira é articular perfeitamente as canções e a história que se está contando, a segunda é a forma sincera com que conta a vida de Ney Matogrosso sem falsos moralismos. Até por conta disso, não é um filme para todo mundo, porque há muito sexo e nudez e tudo, absolutamente tudo, tem função na história. Enfim, vamos ao resumo:
Homem com H acompanha as diferentes fases da vida do cantor Ney Matogrosso, desde sua infância, passando pela adolescência até a vida adulta. É uma jornada através do tempo que mostra um jovem de origem humilde que enfrenta preconceitos e se torna um dos artistas mais influentes da música brasileira. O longa acompanha as diversas fases de sua carreira, começando com sua passagem pelo grupo Secos & Molhados, no qual ganhou projeção nacional, e seguindo pela sua carreira solo. O filme destaca a conturbada relação de Ney Matogrosso com o pai militar e como ambos conseguem redimensionar a sua relação. Como pano de fundo, temos a censura da Ditadura Civil Militar, a revolução sexual plenamente vivida por Ney Matogrosso nos anos 1970 e a epidemia de HIV nos anos 1980-90, que teve grande impacto sobre a vida pessoal do artista.
Já deveria ter feito esta resenha há muito tempo, agora, com poucas horas para o início de 2026, ela vai sair. Precisa sair, afinal, comentei esse filme em vários Shoujocasts e nada de texto. Queria assistir Homem com H nos cinemas, a estreia foi em 1º de maio, mas o filme ficou pouco tempo em cartaz, perdi a oportunidade. Esse pouco tempo de exibição foi a única reclamação de Ney Matogrosso, porque o filme ainda estava atraindo bastante público e, ainda assim, foi levado para o streaming. Assisti logo que ele ficou disponível. Como muita gente não cansa de pontuar, a Netflix não tem compromisso com o cinema, é uma empresa de streaming e é isso que importa.
Homem com H, filme dirigido por Esmir Filho, é baseado principalmente na biografia escrita por Julio Maria. A película começa na infância de Ney, que era um entre vários irmãos e irmãs, filho de um militar da aeronáutica e que, como filho de militar, mudou-se várias vezes conforme o chefe da família era transferido. E a ideia de chefe cabe aqui, porque o pai do artista é apresentado como homem rígido, dominador e que percebe a sensibilidade do filho como um problema a ser corrigido. Ney criança é interpretado pelo menino Davi Malizia. O garotinho transmite os sentimentos muito bem com o olhar, há tristeza, mas também assombro diante da beleza da natureza e da arte, além da firmeza e teimosia diante dos abusos do pai. A transição, que dá entrada ao excelente Jesuíta Barbosa é feita em uma sequência de castigo, algo que se repetia e que mostra o menino se tornando homem.
A partir daí, Ney se recusa a continuar suportando os abusos do pai e ao longo do filme de qualquer um. Em seus vários enlaces amorosos, sexuais ou profissionais, Ney é apresentado como alguém ciente do seu valor e que se recusa a aceitar a humilhação, o sofrimento ou a subordinação como algo natural. Passagem pelas Forças Armadas, pela Força Aérea, parece ser mostrada como um ajuste de contas com o pai; ele é tão homem quanto qualquer um e, ao mesmo tempo, ele é livre para exercer sua masculinidade como bem quiser. É nas Forças Armadas, ambiente retratado com toda a sua carga de tensão homoerótica, que Ney parece ter passado pelo seu primeiro amor que não se concretiza e se torna uma amizade, que era o máximo que ele poderia ter. O objeto do afeto de Ney é o soldado Cato, interpretado por Augusto Trainotti, que faz o militar que diz para Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui que não concordava com o que estava acontecendo.
Terminado o serviço militar, Ney vem para Brasília trabalhar, começa a cantar em um coral e conhece pessoas. Ali, ele acaba se envolvendo em uma relação abusiva com um homem mais velho, muito culto e de posses. O sujeito parece adorar Ney, o compara sua voz à dos castrati, meninos que entre os séculos XVI e XVIII eram castrados para permanecerem com uma voz "feminina" mesmo tendo uma capacidade pulmonar masculina. Esse sujeito é possessivo, ciumento e castrador. A situação rapidamente se torna insuportável e Ney rompe o ciclo de violência e temos outras passagens de tempo, com o artista indo para o Rio e se estabelecendo em São Paulo. As cenas são em sua maioria costuradas com músicas que dialogam com o que está acontecendo com os sentimentos de Ney Matogrosso. Em São Paulo, tentando carreira artística que não parece acontecer nunca, Ney recebe a visita do pai, que ainda tem a esperança de consertar o filho. Ney não aceita tutela, não se vê como fracasso e não destrata o pai, mas é firme. É nessa parte do filme que temos uma das grandes cenas da película, um ponto de virada na relação pai e filho: o beijo.
Ney beija o pai, um gesto de afeto banal para a maioria de nós, mas que, e basta sondar com homens que tenham mais de 60 anos, pode não ter feito parte do cotidiano de muitas famílias. Havia pais que nunca beijavam ou abraçavam os filhos, dizer que amavam, então, era impensável. Era algo incompatível com o seu modelo de masculinidade. E veja, não estou dizendo que esses pais não amassem, mas que eles foram adestrados para não demonstrar seus afetos, especialmente para com outros homens. E meninos são homens em formação. Quem beija, quem abraça, quem diz que ama são as mulheres, as mães. E isso, claro, faz com que as pessoas tenham um vazio imenso no peito. Ao beijar o pai, deixando-o congelado no meio da rua, Ney redimensiona a relação dos dois. E ele disse em entrevista que ele passou a ser o único filho que beijava e abraçava o pai até a sua morte e que o patriarca passou a retribuir o gesto.
A partir daí, somos apresentados aos afetos vividos durante a passagem dos anos 1960 para os anos 1970, o envolvimento de Ney Matogrosso com a cultura hippie culminando com a formação do grupo Secos & Molhados. Ney é convidado para ser o vocalista e inova com sua pintura de rosto. As sequências gravadas para o filme se sobrepostas à apresentação original na TV são assustadoramente parecidas e, ao mesmo tempo, muito vivas. Não se trata de mera reconstituição. Daqui saiu o nome internacional do filme, Latin Blood: The Ballad of Ney Matogrosso (Sangue Latino: A Balada de Ney Matogrosso), porque a música apresentada é Sangue Latino. Também seria muito complicado usar Homem com H, porque funciona em português, mas em inglês...
O sucesso dos Secos & Molhados com Ney já na casa dos trinta anos o transforma finalmente em estrela, mas detona uma série de conflitos. A criatividade de Ney Matogrosso precisava estar submetida ao interesse coletivo. Há a censura, os interesses comerciais, a homofobia. Isso termina levando à ruptura e Ney inicia sua carreira solo. Há uma fase experimental e não muito bem-sucedida, levando-se em conta o sucesso na época dos Secos & Molhados e os ajustes necessários que levam ao sucesso. Ney continua extremamente subversivo, sensual, provocador ao extremo e alvo da censura. Sua vida afetivo-sexual é ajitada e ele reencontra seu amigo da época do quartel, levando o agora homem casado a repensar sua vida, que se tornou a mais convencional possível, principalmente em contraste com a de Ney.
E temos a música Homem com H (1981) e a resistência de Ney a se enveredar por um novo gênero musical. Mas a insistência do autor da música, Antônio Barros, de que somente um artista como Ney Matogrosso poderia gravar a canção. E é um dos grandes momentos do filme, porque o que está em discussão é o quanto Ney Matogrosso é livre e corajoso, não cabendo dentro de uma caixinha ou de letrinhas de uma sigla, ele está além delas. A música ajuda a redimensionar a carreira de Ney e é nessa fase de sua vida que ele conhece Cazuza (Jullio Reis) e aquele que se tornou seu companheiro, o médico Marco de Maria (Bruno Montaleone).
A relação com Cazuza é conturbada. O jovem é apresentado como sedutor, criativo, mas mimado e impulsivo. Ney quer ajudá-lo, já um homem maduro, mas não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Ainda assim, a amizade entre os dois persiste e esta parte do filme é marcada pelo drama da epidemia do HIV, que vitimou Cazuza e outros tantos amigos e amigas de Ney, além de seu companheiro. E estou usando "companheiro", porque não sei se Ney o considerava marido, porque a relação dos dois ocorreu bem antes da resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que garantiu o casamento civil igualitário no Brasil, que é de 2013.
Esta fase do filme faz contraste com a dos anos 1970. A liberdade sexual cedendo espaço para o medo da morte causada por uma doença nova e, pelo menos naquele momento, aparentemente invencível. E Ney no filme parece se culpar, não pelas experiências e amores, mas por não ter adoecido, porque a maioria das pessoas com quem se relacionou contraíram o vírus e ele não. Acompanhamos então a doença de Marco de Maria e como Ney permanece com ele até o fim. Aqui, não sei se eu entendi errado, mas parece que eles já estavam separados, ou se se parando, e Ney o acolhe e decide ficar com ele até o fim, sendo o maior amigo que ele poderia ter.
E todos esses momentos, os alegres, os tristes, os sensuais, são costurados com música e os versos ajudam a contar a história. Jesuíta Barbosa em sua atuação se torna Ney Matogrosso e não é fácil ser Ney Matogrosso. Além disso, atravessa todas as fases da vida do artista de forma bem convincente, desde a adolescência até mais de 50 anos. A entrega do ator, que é considerado um dos mais talentosos de sua geração, foi total. E, bem, não houve por parte do filme nenhum esforço em higienizar a figura de Ney Matogrosso, algo muito comum em cinebiografias que omitem qualquer coisa que possa parecer um problema para as audiências do nosso tempo, especialmente quando se trata de sexo e drogas. Um exemplo? Peguem Bohemian Rhapsody.
Homem com H é um filme muito corajoso e não uma mera homenagem a Ney Matogrosso. Em um momento tão reacionário e moralista quanto o nosso, ele ganha uma dimensão ainda maior e tem uma preocupação histórica em representar o trauma que se abateu sobre uma geração que viveu a epidemia do HIV. Diante do desespero e do desejo de instrumentaização da tragédia por parte de políticos e teligiosos, associaram-se à doença uma série de sentidos, havia o estigma do sangue, de castigo divino aos homens gays, tudo aparecia naturalizado nos discursos. Só que, na verdade, se tratava de uma emergência de saúde pública e as vítimas mais visíveis não eram de forma alguma as únicas vítimas. E as perdas foram enormes; artistas brilhantes e pessoas comuns tiveram suas vidas interrompidas. Cazuza, uma das personagens do filme, foi morrendo diante dos nossos olhos. E ele não foi o único, mas foi um dos mais corajosos.
E terminou. Eu realmente gostei muito de Homem com H. Foi o melhor filme a que eu assisti este ano. O segundo foi Conclave. E o fato de considerar Homem com H o melhor filme não significa que eu esteja dizendo que ele deveria ser o escolhido do Brasil para a corrida do Oscar, nem sempre o melhor filme é a escolha adequada e teria chance de ganhar a corrida. Ney Matogrosso teria que ser muito mais famoso mundialmente e, claro, o filme teria que ser mais contido e se assim fosse, não seria tão sincero e coerente com a trajetória de um gigante como Ney Matogrosso. Meu marido e eu temos uma brincadeira de muito tempo que é dizer que algumas coisas só o Ney Matogrosso pode e um filme como esse é uma digna homenagem.


























































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