Ontem, quando estava procurando fotos recentes de Machiko Satonaka, acabei tropeçando em uma matéria em duas partes sobre o risco da perda dos originais de mangá por falta de preservação. Sabe aquelas coisas que quem trabalha com museus e arquivos no Brasil vê todos os dias? Falta de apoio estatal, obras em arquivos particulares, desinteresse da iniciativa privada etc. O agravante, como aponta Machiko Satonaka, que tem participação na primeira parte da matéria, é o desprezo pela cultura popular. O governo japonês até tentou se mexer na época do Taro Aso, mas os velhos da Dieta barraram as iniciativas estatais acusando o primeiro-ministro de querer criar um mangá café estatal, quando, na verdade, o objetivo era criar um centro de preservação do patrimônio e de pesquisa. Enfim, a falta de visão das autoridades japonesas em relação à importância de sua cultura pop explica por que os coreanos estão anos-luz de distância nesse aspecto. Enfim, os artigos estavam originalmente em inglês. Para quem quiser ler os originais: Parte 1 - Parte 2. Como sempre, mantive a estrutura original das matérias.
Mangá japonês em crise pouco conhecida (1)
SEGUNDA-FEIRA, 8 DE SETEMBRO DE 2025
Em uma série de duas partes, a Jiji Press examina os riscos preocupantes que ameaçam uma nação celebrada como uma "superpotência global do mangá" e destaca os esforços em andamento para preservar seu patrimônio insubstituível de mangá.
DESTAQUE: Desenhos originais de mangá em risco de deterioração e perda
Os mangás, celebrados mundialmente por sua criatividade e influência, agora enfrentam um desafio urgente: os desenhos originais que dão vida a essas histórias correm o risco de se deteriorarem e desaparecerem.
Um dos principais fatores é a falta de espaço adequado para armazenamento, o que muitas vezes obriga os artistas de mangá a guardarem seus trabalhos originais por conta própria. Como resultado, esses valiosos desenhos às vezes são danificados durante o armazenamento ou, em casos lamentáveis, descartados após a morte do artista. Sem os devidos esforços de preservação, uma parte vital do patrimônio cultural do mangá pode se perder para sempre.
Armazenado principalmente em casa ou no local de trabalho.
Uma pesquisa realizada pela Agência de Assuntos Culturais entre outubro de 2022 e janeiro de 2023 perguntou a 540 artistas de mangá no Japão como eles armazenam seus desenhos originais. Cerca de 90% dos entrevistados disseram que guardam seus trabalhos em casa ou em seus locais de trabalho.
Tradicionalmente, as editoras devolvem aos artistas os originais em papel dos mangás publicados em revistas. Embora a produção digital, realizada em tablets e computadores, esteja se tornando cada vez mais comum, o enorme volume de obras produzidas ao longo das últimas décadas faz com que se estime a existência de mais de 50 milhões de originais em papel no Japão.
Embora alguns museus e outras instituições preservem desenhos originais de mangá, eles não têm capacidade para acomodar um número tão grande de obras.
Em 2009, o governo do então primeiro-ministro japonês Taro Aso, um ávido entusiasta de mangá, propôs a criação de um centro nacional para colecionar e exibir obras de arte originais de mangá. O plano, no entanto, acabou sendo abandonado após críticas de partidos de oposição, alguns dos quais descartaram a instalação proposta como um "café de mangá estatal".
Trabalhos antigos em risco de desaparecer
A renomada artista de mangá Machiko Satonaka, de 77 anos, expressou preocupação com o futuro de suas obras originais. "Gostaria de doar meus desenhos originais para algum lugar depois que eu partir, mas não tenho certeza se conseguirei encontrar um local para deixá-los", disse Satonaka, famosa por obras como "Tenjou no Niji" (Arco-Íris Celestial) e atualmente presidente da Associação de Cartunistas do Japão.
Atualmente, Satonaka guarda mais de 60.000 desenhos originais em uma sala com temperatura controlada dentro de sua própria empresa. "Dada a minha idade, preciso encontrar um lugar para confiá-los algum dia. Estou preocupada com o que acontecerá com esses desenhos originais no futuro", disse ela.
Satonaka explicou que muitos artistas de mangá guardam seus desenhos originais em casa ou em seus estúdios, onde ficam vulneráveis a danos causados por infiltrações de água da chuva ou podem até ser descartados por familiares após a morte do artista. "No caso de alguém tão famoso quanto Osamu Tezuka, uma empresa de produção pessoal continua a preservar os desenhos originais mesmo após o falecimento do artista, mas esses casos são raros", disse ela.
Se a deterioração e a perda dos desenhos originais continuarem sem controle, muitas obras antigas poderão eventualmente se tornar inacessíveis às gerações futuras.
"Muitas pessoas presumem que, enquanto existirem revistas ou mangás independentes, as obras antigas sempre estarão acessíveis", explicou Satonaka. "No entanto, a qualidade do papel e da impressão na época da publicação era frequentemente ruim. Com o passar dos anos, o amarelamento e a transferência da tinta tornaram muitas dessas cópias impróprias para leitura. Na verdade, elas tendem a se deteriorar ainda mais rápido do que a obra de arte original."
Satonaka observou que obras criadas antes de 2000, antes da ampla adoção da impressão digital, muitas vezes não possuem cópias digitais de segurança. Como resultado, há uma crescente preocupação de que esses títulos possam se tornar completamente ilegíveis no futuro, acrescentou ela.
"A cultura do mangá floresceu graças aos esforços incansáveis e à perseverança dos artistas nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial", disse ela. "Mas, a menos que tomemos medidas para preservar essas obras, corremos o risco de perder de vista as conquistas do passado."
Para evitar o destino de "Ukiyo-e"
O mangá está no cerne da cultura pop japonesa, e o Japão é frequentemente considerado uma "superpotência do mangá". Nos últimos anos, museus no Japão e no exterior têm apresentado uma série de exposições especiais dedicadas ao mangá japonês, destacando a importância cultural dos desenhos originais e o talento artístico singular dos criadores de mangá.
Dada essa importância, é surpreendente que existam tão poucas instalações dedicadas ao armazenamento e à preservação adequados das obras de arte originais de mangá.
Uma das razões para isso, enfatizou Satonaka, é que o mangá é considerado há muito tempo como "entretenimento popular". Ela disse: "O entretenimento popular costuma ser visto como descartável, então poucas pessoas sentiram a necessidade de protegê-lo."
O descaso com os desenhos originais de mangá é, por vezes, comparado ao destino histórico das "ukiyo-e", as tradicionais gravuras japonesas em madeira.
Atualmente, diversas obras-primas do ukiyo-e estão em museus no exterior, tendo deixado o Japão, acredita-se, numa época em que seu valor artístico não era amplamente reconhecido no país.
"Até mesmo as ukiyo-e já foram consideradas descartáveis", observou Satonaka. "Quando as pessoas perceberam seu verdadeiro valor, muitas já haviam sido dispersas ou perdidas no exterior. O mesmo destino agora ameaça os desenhos originais de mangá", acrescentou, com a voz carregada de preocupação.
Satonaka enfatizou a importância de "digitalizar obras de arte originais" para garantir a preservação a longo prazo de trabalhos criativos. Esse processo envolve a captura de imagens digitais de alta resolução das peças originais e o armazenamento seguro dos dados resultantes. Idealmente, a digitalização deve ser feita diretamente da obra de arte original, em vez de revistas impressas, pois estas podem perder detalhes finos ou sofrer problemas como manchas de tinta, explicou ela.
"Muitas obras de artistas consagrados que admirei na minha infância já são inacessíveis, o que é frustrante", disse Satonaka. "Espero que, por meio da tecnologia digital, possamos preservar as obras que ainda restam antes que se percam para sempre."
Por Riku Nagata
Mangá japonês em crise pouco conhecida (2)
SEGUNDA-FEIRA, 8 DE SETEMBRO DE 2025
Em uma série de duas partes, a Jiji Press examina os riscos preocupantes que ameaçam uma nação celebrada como uma "superpotência global do mangá" e destaca os esforços em andamento para preservar seu patrimônio insubstituível de mangá.
DESTAQUE: Iniciativas em andamento para preservar desenhos originais de mangá.
Com a crescente preocupação com a possível perda de desenhos originais de mangá no Japão, novas iniciativas estão sendo lançadas para preservar o aclamado patrimônio dos mangás, ressaltando um compromisso cada vez maior com a salvaguarda desses tesouros culturais para as futuras gerações.
No nordeste do Japão, um museu público tem se dedicado a preservar e digitalizar obras de arte originais de mangá. O governo japonês juntou-se recentemente aos esforços de preservação, embora mais tarde do que alguns esperavam, sinalizando o reconhecimento oficial da importância do mangá como um patrimônio cultural insubstituível.














































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