Mostrando postagens com marcador Ōoku. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ōoku. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Comentando os primeiros episódios de Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei/淡島百景): uma série sensível, mas complicada de se assistir.

Consegui colocar em dia Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei/淡島百景). Foram cinco episódios até o momento porque essa animação foi uma das últimas a estrear nesta temporada.  Trata-se de um anime difícil, denso e poético. Não me causou surpresa, porque conheço a obra de Takako Shimura, tudo ali está de acordo com o que ela oferece em seus mangás, mas como não li a obra e a tomar pelas resenhas curtas antes da estreia da animação, esperava algo um tanto diferente. Awajima é uma escola de teatro musical, na verdade, trata-se do Takarazuka com outro nome. O Takarazuka Revue é um teatro musical feminino criado em 1913.  Ele mistura a tradição japonesa e o teatro de revista ocidental.

No Takarazuka, todos  os papéis são desempenhados por mulheres.  As atrizes que fazem os papéis masculinos são chamadas de otokoyaku (homem + papel), já as que fazem os papéis femininos são as musumeyaku (filha + papel).  Na cidade de Takarazuka há uma escola que anualmente seleciona jovens entre 15 e 18 anos para um curso de dois anos.  Trata-se de um concurso muito disputado, o curso exige enorme disciplina e, após esse período, as formandas estreiam.  No episódio #4 de Awajima, a produção saiu do óbvio que era referenciar a Rosa de Versalhes ou Romeu e Julieta, pegou logo Elisabeth -Rondo of Love and Death- e colocou a mãe da protagonista fascinada pela Morte (Der Tod).  Já no episódio #5, houve menção a Me and My Girl.

Awajima tem uma narrativa fragmentada e não linear. Vamos ao passado e ao presente, às vezes com uma velocidade tal, que me senti perdida. O terceiro episódio, o meu favorito até agora, e o anterior foram os mais complicados nesse sentido.  Lendo o verbete da Wikipedia do mangá, sei que a  protagonista, Wakana Tabata, não está em nossos dias, os celulares parecem antigos, ainda que as TVs sejam de tela plana e bem fininhas. Mas sem olhar a Wikipedia, não conseguiria ter certeza, so tinha indícios mesmo, pois não se falou de internet ainda ou aplicativos de celular.  Também pela Wikipedia, sei que haverá um "nos dias atuais", mas ela ainda não foi mostrado.

O fato é que temos algumas personagens fixas, Wakana Tabata é a protagonista, porque aparece mais vezes que outras, mas isso não quer dizer que tenha mais tempo de tela. Cada episódio se foca em duas ou mais personagens e vamos ao passado e ao presente e de novo ao passado. Década de 1940, 1950, 1960, 1970, 1980... são várias gerações de meninas passando por Awajima, cada qual com seus sonhos, esperanças, medos, amores e amizades. Umas se tornam estrelas, outras desistem, inclusive da vida, há as que brilham por um tempo e se retiram ou retornam, como no caso de Katsurako Ibuki, que se tornou professora e lamenta certos atos do passado.  Não darei spoilers.

No episódio #4, discutiram até as masculinidades divergentes. Takuto, um jovem que ama Awajima por influência da avó, tem dificuldades em se conectar com o resto de sua família e gente de sua idade.  Somente os dois são apaixonados pelo teatro musical e a avó compra dois ingressos para u espetáculo, mas sofre um acidente e insiste que o neto vá.  Takuto parte em busca de uma companhia e convida uma pessoa com quem conversa online, Sayaka-san.  Ele imagina como Sayaka é, porque os dois conversam sobre Awajima e essa pessoa gosta de coisas fofas. Gostar de Awajima não é coisa de homem e a sequência dele no teatro lotado de mulheres é uma mostra disso. Takuto é um rapaz extremamente organizado e com mania de limpeza e, a julgar pelo anime, não parece ser coisa de adolescentes do sexo masculino, afinal, o rapaz é inquirido pelos colegas sobre o motivo de lavar as mãos depois de ir ao banheiro. Os japoneses não fazem isso, não?  Achei estranho.  As partes com Takuto, houve uma historinha extra no final do episódio. Foi bem fofinha.

Já a primeira parte do episódio #5, centrada em uma jovem da geração de Wakaba, que tem problemas em dividir o banho com outras moças, foi a mais chata.  A garota cresceu em uma família que pertence a uma seita, que  não é nomeada, e odeia tudo o que se relaciona a ela, mesmo que seus pais não a tenham obrigado a congregar com eles.  Ela está quase odiando os próprios pais por causa disso.  Não consegui ter empatia.  Já os episódios #2 e #3 se relacionam a Katsurako Ibuki.  Ela é filha e neta de atrizes de Awajima.  Sua avó foi uma beldade  em sua época e amou loucamente o marido.  Pelo que entendi, ela parou a carreira ao se casar e era azucrinada pela sogra, que morava com o casal, para que esquecesse do seu passado.  Ao ter uma filha, ela não consegue amar a menina, porque ela é a cara da avó paterna.  A rejeição da mãe em relação à menina "feia" piora quando ela perde o marido com poucos anos de casamento.  Pela aparência dele, acredito que morreu de tuberculose.

A mãe de Katsurako cresce mimada pela avó paterna, mas desejando a atenção da mãe e sentindo-se feia e inadequada.  Ainda assim, ela passa na seleção para Awajima, mas suas colegas acabam acreditando que ela só passou por ser filha de uma grande atriz.  Apesar de talentosa, a jovem vivia sob a sombra da mãe.  Aé que ela conhece um jornalista, que a vê como ela é.  Os dois terminam se casando e a jovem abandona a carreira.  Katsurako cresceu vendo a avó humilhando sua mãe e dizendo que não gostava do pai, um jornalista, e uma das poucas pessoas que fala com a agora velha dama do teatro sem demonstrar qualquer tipo de assombro.  Ela diz que não gosta do genro por não confiar em homens com olhos de raposa e Katsurako herda os olhos do pai.  Quando a avó está morrendo, Katsurako diz para ela o quanto a odeia e que nao sentirá a sua partida.  Só que a garota  lamenta ter em si muito da avó que ela despreza.  Consigo ter mais empatia pela avó de Katsurako com todos os seus defeitos, pelo que sofreu nas mãos da sogra, do que pela menina da seita

Enfim, imagino que em algum momento irão mostrar as meninas nas aulas, sei que haverá um episódio com o festival culural, mas o tom é muito diferente de Kageki Shojo!! (かげきしょうじょ!!), por exemplo, porque o centro da narrativa é Awajima, a escola, centro de tantas e tantas histórias de gerações de meninas. Curiosamente, quando as meninas são mostrada em aula ou as atrizes no palco, não temos som.  Awajima me lembra um pouco a ideia de Ōoku, que não é sobre pessoas, mas sobre o harém de homens. Sei que Awajima não é para todo mundo, mas espero que continuem as scanlations do mangá, porque elas estão paradas faz quatro anos e o mangá é bem curtinho.  Falando do mangá, ele só tem 5 volumes e foi pubicado entre 2011 e 2024.  De 2011 até 2016, ele saia na revista PokoPoko tendo passado postriormente para a revista Ohta Web Comic.

domingo, 22 de setembro de 2024

Problemas demográficos no imaginário de um país. Para que servem os idosos? A obsessão do Japão com a idade. (Artigo Traduzido)

Estou fazendo um trabalho sobre os idosos nos mangás e acabei tropeçando nesse artigo escrito pela jornalista e professora universitária italiana Laura Imai Messina.  Ela trabalha no Japão e o texto fala de como os idosos são empurrados para a morte, por deixarem de ser úteis à sociedade, na literatura, folclore, cinema e mangás.  Isso tudo agravado pelo pensamento capitalista que vê os velhos, cada vez mais presentes na população japonesa, são um peso.  

Sabe quando o discurso neoliberal no Brasil conseguiu fazer a troca da palavra aposentado, algo que se remetia à ideia de que você contribuiu para a sociedade e, agora, pode descansar, por inativo, algo que tem o sentido de peso morto?  Pois é, parece que no Japão, a coisa está indo nesse caminho, também, o que joga por terra aquela coisa do idoso como venerável.  Agora, o importante no texto é que Messina mostra que isso vem de longe.  Ela cita dois mangás no texto, nenhum deles estava no meu radar até tropeçar nesse artigo.  O original está aqui.  Mantive a estrutura do artigo e só acrescentei links para maiores informações sobre os mangás citados no texto e o autor das Baladas de Narayama.  

Problemas demográficos no imaginário de um país
Para que servem os idosos? A obsessão do Japão com a idade

Laura Imai Messina

Filmes, novelas e mangás: em toda obra que trata do envelhecimento há homens e mulheres complacentes e tristes. A maioria deles foi convencida pela retórica de que deixar de viver é patriótico, altruísta, generoso, justo.

Num dos momentos mais críticos da história moderna do país, o antropólogo Yanagita Kunio (1875-1962), considerado o pai do folclore japonês, procurou uma resposta à pergunta “O que é um japonês?”. Ele fez isso explorando contos populares, lendas, a vida nas montanhas, contos de fadas. Ele demonstrou como aquele Japão que, no seu encontro com o Ocidente, se lançava com uma leveza imprudente e um entusiasmo superficial numa transformação que mais parecia uma autodestruição, precisava do folclore, do conhecimento das tradições antigas. Em suma, para se manter firme no futuro do país, era necessária a história do seu passado.

Os clássicos

Lendo o clássico da literatura japonesa As Baladas de Narayama [1] de Fukazawa Shichirō, publicado pela primeira vez em sua terra natal em 1956, e que gira em torno do costume de levar pais idosos para morrer na montanha para fazer frente à escassez de recursos e a fome, lembrei-me do ensaio de Yanagita Kunio dedicado justamente ao tema do ubasute 姥捨て (literalmente “jogar fora os idosos”)[2], escrito originalmente em 1945 para atender à curiosidade de meninas da quinta e sexta séries que tiveram que se mudar para o campo por causa da guerra.

Foi um teste: será que a necessidade, a fome teriam vencido a moralidade, a gratidão que os filhos deviam aos pais? Entre as muitas declinações da história, em parte autóctones, em parte vindas da Índia e da China, a minha preferida é sem dúvida aquela que mostra a mãe idosa quebrando galhos enquanto o filho sobe a montanha onde a abandonará para morrer; quando questionada por que fez isso, a mulher responde que é para criar pistas para que seu filho encontre facilmente o caminho de volta para casa.

A bela história de Fukazawa, como bem escreve Giorgio Amitrano que a traduziu pela primeira vez para o italiano para Adelphi, "ocupa um espaço surpreendentemente vasto em relação à brevidade do texto", de modo que apesar das poucas páginas, a "força narrativa, o a riqueza dos temas e a gama de sentimentos neles descritos têm... o sopro de um grande romance." É um clássico de referência da literatura japonesa, cuja importância é demonstrada pelas inúmeras adaptações e referências mais ou menos diretas em obras culturais e literárias posteriores.

A questão demográfica

O grave problema demográfico e social que o Japão enfrenta há mais de cinquenta anos está há muito tempo no centro de um debate político e cultural, tema de talk shows, documentários, romances, mangá e filmes. Sempre fui animada pela ideia de que o folclore não está muito distante da ficção científica, com a única diferença de que o olhar não está voltado para frente, mas para trás, apesar de apresentar variações da realidade que (ainda) não foram concretizadas.  Ambos são excelentes exercícios de imaginação.

Assim, já em 1973, Fujiko F. Fujio, pai de Doraemon e Superkid, assinou um mangá one-shot intitulado Food Retirement (Teinen-taishoku)[3] que falava de um futuro próximo em que o país, lutando contra uma escassez excepcional de recursos naturais e abastecimento de alimentos, estabeleceu um rígido sistema de racionamento, especialmente em detrimento dos idosos. Semelhante em tema, mas muito mais sombrio e com atmosfera mais apocalíptica, é a história em quadrinhos TEMPEST (2018) de Asano Inio, que prevê uma sociedade devotada ao princípio de "Keep Young", que por um lado fornece incentivos extraordinários para a taxa de natalidade, por o outro pressiona pela eliminação forçada dos idosos.

Com um toque hiper-realista, traça a ideologia anti-idoso que inicialmente se espalhou pela Internet, mas que, aos poucos, foi contagiando os meios de comunicação de massa até que todos os meios de informação se envolveram no movimento de discriminação ("O sistema previdenciário foi um engano criado pelas gerações anteriores com o único propósito de se protegerem!"). Agora apenas viver, sem um propósito útil e concreto para a sociedade, não é mais aceitável.

O limite

Plano 75, estreia na direção de Chie Hayakawa (2022), filme que traça uma sociedade para lidar com o envelhecimento da população e a queda nas taxas de natalidade, incentiva os maiores de setenta e cinco anos à eutanásia em massa, também abre com a notícia de uma onda de violência contra os idosos e com indícios de um sofrimento partilhado por todas as gerações.

A idade a partir da qual não é mais permitido viver flutua: se em As Baladas de Narayama os filhos têm que levar os pais para morrer na montanha aos 70 anos, no mangá de Fujiko F. Fujio o limiar além do qual os direitos são 75 anos (renováveis ​​apenas através de uma loteria utópica); no TEMPEST aos 85 anos você pode aceitar a eutanásia ou tentar um exame de certificação muito difícil (um único erro ao responder às 500 questões exigidas é suficiente para perder o mero direito de existir).

A descrição de uma idade

Qualquer que seja o período histórico ou a forma artística, em todas as obras que abordam a temática do envelhecimento da população face a um mundo cada vez menos rico em recursos e com uma crise demográfica sem precedentes, os idosos são majoritariamente descritos como complacentes, derrotados; sentem-se inúteis, tolos e sobretudo muito tristes, razão pela qual a maioria deles escolhe a solução final sem protestar, convencidos por uma retórica que faz do suicídio assistido ou da morte voluntária uma "prática patriótica, altruísta para com as novas gerações, generosa e justa."

Em todas as histórias, de As Baladas de Narayama ao mangá de Fujiko F. Fujio e Asano Inio, de Plano 75 a outros filmes no estilo de Logan's Run (1976), as vantagens racionais de suprimir os idosos são evidentes e somam-se a benefícios convidativos como fim de vida sem dor, refeições gratuitas, quantias de dinheiro para gastar com o quiser antes do dia X, isenção fiscal completa para que você possa entregar todos os seus bens aos seus herdeiros. Em suma, do ponto de vista econômico, promete-se que a morte será enfrentada com alívio.

Contudo, toda narrativa é assombrada pela constante questão do que é um ser humano, do significado da dignidade de uma existência. Na verdade, basta que um filho se lembre do amor que recebeu de uma mãe ao escalar a montanha Narayama ou que um sobrinho imagine concretamente a eliminação do cadáver de seu tio antes de concluir o programa Plano 75 no qual se inscreveu por tristeza, em que a regra geral se torna particular, esse sentimento e raciocínio pessoal se manifestam e, portanto, o monstruoso absurdo do assassinato fica claro.

Mas então para que servem os idosos? A questão está justamente no verbo servir. Não é por acaso que uma das versões tradicionais do conto de fadas com tema ubasute recolhido por Yanagita Kunio terminou com o regresso da velha mãe a casa depois de, refletindo em voz alta, o filho da mulher, acompanhado do sobrinho, ter afirmado que o cesto em que a velha que transportava teve que ser trazida para casa, pois ainda poderia ser útil.

Aquela frase, em que o verbo “usar/servir” fazia o objeto conquistar a pessoa, despertou a consciência do homem que finalmente se arrependeu de sua crueldade.

A resposta à pergunta "Para que servem os idosos?" antes, encontrei-o na troca entre um homem e uma enfermeira, num dos romances de ficção científica do escritor Kilgore Trout (nascido, por sua vez, da imaginação de Kurt Vonnegut). Os dois se encontram em uma das Salas do Suicídio Ético onde, por meio de quatorze métodos indolores, as pessoas vão morrer com calma.

O homem, pronto para ir para o outro mundo, "perguntou a uma anfitriã da morte se ele iria para o céu, e ela respondeu que ele certamente iria. Ele perguntou se ele veria Deus, e ela disse: “Claro, querido”. E ele disse: “Espero que sim. Quero perguntar-lhe algo que nunca consegui descobrir aqui." "O que?" ela disse, amarrando-o na cadeira. “Para que diabos servem as pessoas?”

Aqui, a pergunta, se feita com verdadeira convicção, não pode mais ser “Para que servem os idosos”, mas sim “Para que servem as pessoas?” De uma perspectiva orientada para o lucro, nada mais serve realmente a qualquer propósito.


1: Não achei nenhuma edição em português das Baladas de Narayama, o que é bem absurdo, só as versões cinematográficas, e são muitas, aparecem no Amazon.
2: O ubasute das Baladas de Narayama aparece em um dos volumes de Ōoku (大奥). Se a função dos homens é procriar e ele não consegue mais cumprir essa função por causa da idade, ele é somente um peso para a sociedade.
3: Não achei o mangá listado no Mangaupdates e fiquei com preguiça de passar o pente fino na Wikipedia Japones.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Comentando Yoshiwara Boys to Moral Girl!: mocinha morre e reencarna em um passado com papéis de gênero invertidos.

Não conhecia Yoshiwara Boys to Moral Girl! (吉原ボーイズとモラルガール!), de Tsuru Yumika, mas um post do Pro Shojo Spain me chamou a atenção e eu acabei encontrando scanlations dos quatro primeiros capítulos em inglês e raw até o capítulo 9.  Achei curiosa a descrição "Rinko nunca teve sorte com homens e, após seu último rompimento, sofre um acidente e acorda em um horário diferente com os papéis de gênero invertidos.".  Quando vi, já estava fisgada por este isekai reencarnacionista, um dos gêneros de mangá do qual geralmente mantenho distância.  Mas vamos lá comentar os quatro primeiros capítulos.

Rinko tem 27 anos e é professora.  Não fica claro de qual matéria, mas, não sei por qual motivo, acredito que de História.  Ela já teve vários namorados, mas nunca teve um orgasmo.  Ela gosta de sexo, mas seus namorados acham que ela é frígida.  Rinko lê manuais tentando aprender como chegar ao êxtase, mas nada funciona.  E ela termina rompendo com o último namorado e fica muito mal.  Rinko quer alguém que a entenda e que a faça se sentir especial.  Na cabeça da protagonista, ela nunca chega ao orgasmo, porque os homens são muito egoístas na cama.

Muito arrasada com seu último rompimento, Rinko se distrai e é atropelada por um caminhão.  Sim, caminhão (*CLICHÊ*).  Tudo se apaga e ela acorda no passado.  E leva muito na boa esse fato.  Acha que viajou no tempo, nem passa pela cabeça dela que pode ser um sonho, enfim.  Ela está no distrito do prazer de Edo (Tokyo), chamado de Yoshiwara.  Como a protagonista reconhece prontamente a época e o lugar, continuo acreditando que ela seja professora de História. E, se eu estiver certa, ela entra na minha listinha de historiadores sem noção da ficção.  Que São Yang Wen-li  me proteja! Só que há algo diferente, muito diferente...  As mulheres são as clientes e os homens os prostitutos!!!!  Estamos em um mundo tipo Ōoku (大奥), de Fumi Yoshinaga.

Meio atordoada, Rinko acaba sendo aliciada por Yoshino, um adolescente responsável por levar clientes para o estabelecimento onde trabalha.  Yoshino é pupilo do oiran deslumbrante que Rinko viu desfilar pela rua.  Enfim, ela bebe, se sente nas nuvens cercada por um monte de rapazes e acaba sendo levada para a cama por Yoshino, até que chega uma mulher enlouquecida armada com uma faca.  Takao, o oiran, intervém, depois que Rinko consegue desarmar a mulher.  Apesar de mostrar desprezo por Rinko e dizer que ela fede a cachorro, Takao escolhe Rinko para passar a noite com ele, mas ela desfalece e, ao acordar, descobre que está devendo muito dinheiro e que terá que trabalhar no estabelecimento por TRÊS ANOS para pagar sua dívida.

Sério que nossa mocinha vai ficar no passado como criada de um bordel? E sendo pisada pelo oiran que ficou muito ofendido pelo fato dela ter dormido antes que eles fizessem sexo?  É essa a história?  Sim e não.  Rinko passa uns perrengues e sofre com o assédio debochado dos rapazes.  Eles acham engraçado como ela fica sem graça com a falta de pudor dos sujeitos, que são todos bishounen lindos, mas, ainda no segundo capítulo, ela ajuda Yoshino a se tornar competente em arregimentar clientes, porque todos debochavam dele por não conseguir trazer mulheres (*bem, ele trouxe Rinko*), nem entretê-las de forma adequada.

Vendo como Yoshino conversa e alegra uma jovem triste, Rinko começa a acreditar que é possível para as mulheres encontrarem alguma felicidade no distrito do prazer.  Rinko também passa a observar Takao e como ele é capaz de ser gentil e responsável, apesar de parecer vaidoso e insensível.  Rinko descobre que ele criou o bordel do nada e fica chocada ao saber que ele é somente um adolescente de 18 anos.  Rinko fica meio atordoada e começa a alucinar e vê-lo de uniforme escolar, assim como os outros rapazes. Takao poderia ser um dos seus alunos! E, o pior, ela sente desejo por ele e culpa, também.  

Descobrindo que todos os rapazes, especialmente Takao, trabalham demais, ela decide criar um cronograma de trabalho, introduzindo a ideia de folga. Como Takao e a contadora percebem o quanto Rinko é competente, eles deixam que ela organize uma escala de trabalho.  Já Rinko usa sua experiência criando as escalas de limpeza dos alunos no colégio e seus conhecimentos sobre modernos host clubs para reformar o bordel.  Como Yoshino se torna competente como prostituto, graças aos conselhos de Rinko, Takao transforma a moça em sua assistente e ela passa a acompanhá-lo.  Na verdade, o rapaz está se apaixonando por ela e Rinko também gosta do oiran.  E, no fim das contas, Rinko está sendo promovida.

Mas só tenho quatro capítulos traduzidos e o último termina em um gancho muito bom.  Ran, a principal cliente de Takao, irá se casar.  Ela quer passar sua última noite com o moço e termina se aproximando de Rinko.  Ran parece querer fazer amizade com Rinko, mas, na verdade, ela sente ciúmes da protagonista e tem um plano maligno.  Eu vi o capítulo 5, mas não entendo o que está escrito. Ran tem um passado com Takao, talvez seja sua amiga de infância, e ela tenta se livrar da protagonista.  Tenta, porque Rinko vira a mesa em cima dela.

Yoshiwara Boys to Moral Girl! é publicado na revista Be Love e teve seu terceiro volume lançado no Japão.  O traço da autora é bom, nada exuberante, mas funciona bem, inclusive fazendo cenários bem detalhados.  E, algo que ela faz muito bem, é misturar a indumentária típica das oiran (prostitutas de luxo) e das prostitutas com roupas masculinas.  Não sei se a história vai sair de Yoshiwara, ou vai ficar somente lá.  Em um capítulo futuro e sem tradução, aparece um moço bonito de óculos, ele não é prostituto e tem alguma ligação com Takao.  Quem seria ele?

De qualquer forma, não temos grandes discussões de gênero (*papéis masculinos e femininos em uma dada sociedade*) até o momento, mas a questão do prazer (sexual) e da felicidade feminina são centrais na história, que não é um mangá erótico, é mainstream mesmo. Agora, me incomoda um tanto o fato da mocinha estar muito tranquila nessa nova vida no passado e não mostrar curiosidade em saber mais sobre esse mundo invertido.  Espero que a coisa evolua nesse sentido.  enfim, meu veredito?  A série merece ser lida, espero que tenhamos logo mais scanlations.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Segunda temporada de Ōoku estreia no mês que vem

No dia 3 de outubro, a segunda temporada do dorama de Ōoku (大奥), baseado no mangá de Fumi Yoshinaga, estreia na NHK.   Ōoku é uma série de história alternativa, que começa no início do século XVI, quando uma terrível doença, a varíola vermelha, dizima a população masculina, em especial, os jovens.  Este evento serve de ponto de divergência, algo importante no gênero história alternativa (ucronia),  entre a nossa linha temporal e a da série.  A carência de homens foi fator determinante no fechamento do Japão ao contato com o exterior (Sakoku).  No início, havia a esperança de que a doença fosse embora e houve o esforço para a manutenção da estrutura patriarcal da sociedade japonesa, porém, conforme o tempo passava, as mulheres terminaram assumindo o poder.  Só que a doença começa a recuar ao longo das décadas e o Shogunato das Mulheres não irá sobreviver e será apagado da história.

Serão cobertos o arco da vacina e o final do mangá e há uma foto mostrando as personagens do arco da vacina caracterizadas, nela aparecem Tanuma Okitsugu (Matsushita Nao),  a única que tem seu nome no Drama Wiki, mas consegui os nomes em outro siteAonuma (Tatsugo Murasame), o louro;  Hiraga Gennai (Anne Suzuki), o mais baixo, não sei se o outro homem é o Kuroki, mas ele será interpretado por Reo Tamaoki, mas ele parece velho demais, já a mulher deve ser a única vilã indiscutível da série, Tokugawa Harusada (Yukie Nakama).  

O fato é que a primeira temporada, que eu preciso terminar de resenhar, cortou muita coisa e chegou a mostrar as filhas de YoshimuneDe qualquer forma, saiu uma foto com algumas das personagens do último arco da história: Abe Masahiro (Takiuchi Kumi), a última ministra de destaque  durante o shogunato das mulheres (*a atriz deveria ser gordinha, mas acho que não é*); Takiyama (Furukawa Yuta), o último camareiro-chefe do  Ōoku; Tokugawa Iesada (Manaki Reika); Tanshoin (Fukushi); Tokugawa Iemochi (Shida Sara) e "o Príncipe" Kazu (Kishii Yukino).  

Para quem quiser saber mais da série, Ōoku, bast clicar na tag.  Há posts sobre todos os volumes do mangá, informações da série, as primeiras adaptações live action (2010/2012), o anime da Netflix (}2023) o novo dorama (2023).  Para quem quiser, há três shoujocast sobre a série, basta dar um pulinho no Youtube.  Coloquei o último vídeo feito aí embaixo.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

#Shoujocast no Ar! Disse que ia comentar o resto da série #Ōoku da #Netflix, o vídeo está aqui.


Tinha dito que poderia fazer outro vídeo sobre o anime de Ōoku  (大奥), baseado no mangá de mesmo nome de Fumi Yoshinaga. Terminei a série ontem e preciso comentar algumas coisas. Bom de estar de férias sem poder sair de casa é que a gente pode fazer mais vídeos para o canal. Espero que vocês gostem, preferi gravar a escrever um texto.  Para quem quiser ver o primeiro vídeo, clique aqui.


Links do Episódio:

domingo, 2 de julho de 2023

Comentando o primeiro capítulo de Ōoku (Netflix/2023): uma animação surpreendentemente fiel e carregada de emoção.

No dia 29 de junho, estreou mundialmente na Netflix a adaptação de Ōoku  (大奥), série animada baseada no mangá de mesmo nome de Fumi Yoshinaga.  A série cobre, em seus 10 episódios, os primeiros volumes do mangá  publicado entre 2005 e 2020 na revista shoujo Melody, que é para um público mais velho.  A série foi muito premiada e já foi adaptada para live action inúmeras vezes, a última adaptação estreou este ano na NHK e terá uma segunda temporada.  

Pois bem, Ōoku é uma série de história alternativa, que começa no início do século XVI, quando uma terrível doença, a varíola vermelha, dizima a população masculina, em especial, os jovens.  Este evento serve de ponto de divergência, algo importante no gênero história alternativa (ucronia),  entre a nossa linha temporal e a da série.  A carência de homens foi fator determinante no fechamento do Japão ao contato com o exterior (Sakoku).  No início, havia a esperança de que a doença fosse embora e houve o esforço para a manutenção da estrutura patriarcal da sociedade japonesa, porém, conforme o tempo passava, as mulheres terminaram assumindo o poder, porém, resquícios desse mundo dominado pelos homens continuaram lá e intrigavam a 8ª shogun, Yoshimune.

A série começa com a ida do jovem Yunoshin Mizuno para o Ōoku.  Ele faz parte de uma família samurai empobrecida, ele ama uma mulher rica da casta dos comerciantes chamada O-Nobu e não pode se casar com ela.  Ao ir para o Ōoku, ele conseguirá recursos financeiros para a sua família, permitindo que sua irmã possa se casar, porque conseguir um marido para si era muito caro, e obrigaria O-Nobu a esquecer dele e aceitar um pretendente adequado.  No Ōoku, Mizuno acaba descobrindo um ambiente corrompido, marcado por intrigas e violências, inclusive de caráter sexual.  O fato de tantos homens jovens e saudáveis estarem ali confinados é uma demonstração do poder da shogun e um desperdício na opinião do jovem.

Guiado por Sugishita, um experiente funcionário do Ōoku, ele começa a se adaptar, mas atrai a atenção do Camareiro-Chefe do harém que decide tirá-lo da condição de serviçal e colocá-lo no grupo que pode ser digno da atenção da nova shogun e esta é Yoshimune, que chega da distante província de Kii para assumir o poder.  Fujinami, o Camareiro-Chefe, acredita que Mizuno vá atrair a atenção da soberana, o que de fato acontece, mas o que nem o rapaz, nem Yoshimune sabe, é que a a tradição do Ōoku obriga o primeiro homem que se deitar com a shogun a morrer, porque sendo ela uma virgem, ele lhe roubaria a pureza e derramaria seu sangue.  Assim, o alto oficial salvaria seu próprio amante, Matsushima, o homem mais qualificado a se tornar concubino da shogun, de uma possível seleção inicial.

Quando me deparei com o primeiro capítulo de Ōoku com 79 minutos, eu me assustei.  É o tamanho de um modesto longa metragem.  A escolha foi ousada e acabou sendo certeira.  Todo o primeiro volume do mangá coube dentro desse tempo, deixando de fora muito pouca coisa que está no original.  Para quem nunca leu nada do que escrevi sobre essa série, ou a desconhece, o primeiro volume pode ser lido como uma obra fechada, somente o seu último capítulo se presta a fazer a ponte com o que vem depois, porque mostra Yoshimune procurando entender por qual motivo as mulheres são obrigadas a usar títulos e nomes masculinos, é essa descoberta que leva a um flashback que começa no volume #2 e irá ocupar o restante da série.  Eu imagino que Yoshinaga começou a lançar Ōoku calculando que, caso o mangá não desse certo, ele poderia parar nesse primeiro volume.

Eu pensei que a Netflix iria fazer uma lambança com Ōoku, mas o primeiro capítulo, mesmo com uma animação abaixo da média, porque ela é mais estática do que dinâmica, e se afastando em alguns momentos do traço da Fumi Yoshinaga, conseguiu oferecer um espetáculo muito digno.  A própria animação mais parada pode ter contribuído para reforçar que se trata de uma atmosfera opressiva e cheia de regras, ou seja, ela ajudou a marcar muito bem o que é o Ōoku, além disso, a música, o uso da câmera foram muito competentes.  Os créditos finais tem algo de épico e, ao mesmo tempo, intimista.  Enfim, foi emocionante mesmo, porque eu nunca imaginei ver esse mangá transformado em anime.  NUNCA!  

E eu quase chorei pela forma respeitosa como o primeiro volume foi adaptado, como conseguiu igualar o filme de 2010, como não diminuíram o papel de Sugishita mostrando inclusive como ele se tornará próximo de Yoshimune, eu já fico imaginando o impacto quando Arikoto estiver em cena. Aliás, esse primeiro capítulo deixou o do dorama de 2023 no chinelo.  Sem chance de comparação.  A adaptação da NHK colocou o primeiro volume em uma hora de episódio e cortou todas as tramas paralelas que tanto sabor dão para a história.  O anime nos deu o duelo, permitiu aprofundar a personalidade de Sugishita, mostrou bem o caráter de Yosimune e não eliminou o menino costureiro.

Pena que sempre adaptem a mesma parte do mangá.  Eu iria ficar realmente atordoada se a Netflix anunciasse uma adaptação integral de Ōoku, uma segunda temporada, ou, pelo menos, o arco da vacina e o arco final, como será no dorama. Algo mais fantástico seria poder ver o arco de Yoshimune, quando termina o flashback, e entender quem é Manabe e o papel de Hisamichi, o braço direito e melhor amiga da shogun.  O anime cobriu muito pouco, pois pegou somente do volume 1 até o início do volume 4.  


Em português, a série tem como subtítulo "Por Dentro do Castelo", uma tentativa de aproximar do título em inglês "The Inner Castle", só que a ideia na língua inglesa tenta capturar o sentido na língua japonesa.  Ōoku quer dizer "grande interior", não é a parte de dentro do castelo, mas uma área dentro do castelo do shogun, em Edo, atual Tokyo.  Era a residência da esposa e das concubinas do chefe militar e governante de fato do Japão entre  1603 e 1867, além de toda uma multidão de serviçais.  Por isso, talvez ficasse melhor, "a parte de dentro do Castelo", ou algo próximo.

É isso, vou continuar assistindo e devo fazer mais resenhas, aviso que a série tem muita violência de vários tipos, não é material para crianças, a classificação indicativa é 16 anos.  Quinta-feira mesmo, vi que tinham lançado, também, mais capítulos legendados do dorama.  Ver Ōoku em evidência é algo realmente fantástico, fora que é um reconhecimento do trabalho de Fumi Yoshinaga.  Resta saber se essa atenção toda vai fazer com que algum dos seus mangás chegue no Brasil.  Se quiserem ler as resenhas dos volumes da série e outros textos que fiz sobre Ōoku, basta clicar na tag.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Ōoku: Data de estreia e trailer

Ontem, saiu o cartaz do anime de Ōoku (大奥), série da Netflix baseada no mangá homônimo de Fumi Yoshinaga, com a data de estreia, 29 de junho.  Ōoku conta uma história alternativa do Japão (ucronia), na qual uma epidemia de varíola vermelha  dizimou a população masculina, e as posições de poder e no mundo do trabalho foram ocupadas pelas mulheres, primeiro emergencialmente, depois definitivamente e o passado foi esquecido.  Há indícios de que as coisas um dia foram diferentes, mas o segredo é guardado.  Neste Japão alternativo, a shogun, líder político-militar do país tem o privilégio de ter um harém, o Ōoku, cheio de homens jovens e lindos a seu dispor, enquanto a maioria das mulheres sequer têm condições de ter um marido para chamar de seu.  Há resenhas de todos os volumes de Ōoku no blog, é só clicar na tag. Eu ia fazer um post, não fiz, ficou para hoje e eis que saiu o trailer.  Ele está abaixo.

O trailer mostra o que será abordado na série animada, e que é a mesma parte do mangá que já virou filme para o cinema (2010), série de dorama (2012) e dorama este ano, e que terá segunda temporada.  Teremos Yoshimune, a sétima shogun, ou seja, a história do primeiro volume e o primeiro arco da série, a história de Arikoto e Iemitsu.  Estou curiosa?  Estou, mas eu queria mais que isso, OK.  

sábado, 25 de março de 2023

Netflix anuncia o anime de Ōoku e minhas considerações sobre isso

Olha, foi uma surpresa ver o anúncio ontem, mas já era quase meia noite e eu não tinha ânimo para postar, mas é isso, entre os anúncios feitos pela Netflix no evento chamado Anime Japan, a plataforma de streaming anunciou que Ōoku (大奥), série de ficção científica (História Alternativa) de Fumi Yoshinaga vai virar anime.  Eu fiquei entre soltar rojões e virar os olhos, porque até onde sei, a maioria dos animes da Netflix tem uma produção abaixo da média, vide Seven Seeds, e Ōoku tem 19 volumes.

Vamos ao resumo, porque sei que há quem não conheça a história.  Estamos no início do século XVII e uma terrível doença se abate sobre o Japão.  4/5 masculina do país, especialmente, os jovens, morre da horrível varíola vermelha. Para evitar que o país seja invadido, o Japão se fecha para o contato com os estrangeiros, para que ninguém saiba da situação. Com a falta de homens, as mulheres assumem suas funções e mesmo o shogun é uma mulher.  Como forma de distinção, a shogun tem um harém, o Ōoku, onde ela tem somente para si uma quantidade obscena de homens, seja para dividirem a sua cama, ou fazerem outros serviços.  Mas, com o tempo, a doença começa a recuar, até ser extinta definitivamente, e o balanço de poder entre homens e mulheres será revertido.

Pelos frames no Comic Natalie, a adaptação, ou, pelo menos, as amostras que eles ofereceram, vai focar no início do mangá (*Vol. 1-3*).  Essa parte, aliás, foi adaptada em um filme de 2010, um dorama em 2012, e na adaptação live action que estreou neste janeiro na TV Tokyo.  Eu fiz resenha do primeiro capítulo da nova versão (*ainda estou aguardando que legendem o resto da primeira temporada, porque haverá uma segunda*) e ainda que considere o resultado bom, para que o primeiro volume caiba em uma hora, e no filme ele foi adaptado no dobro de tempo, sacrificaram muita coisa, as subtramas, o que Yoshinaga coloca de humor.  Vejam bem, se essas adaptações levarem as pessoas ao mangá, eu comemoro, mas o sacrifício que está sendo feito nessa conversão atual para dorama me deixou bem decepcionada.  Será que o anime irá fazer diferente?  

Sobre a informação, o que temos é o seguinte, o diretor será Abe Noriyuki, o Estúdio será o Deen, que fez muita coisa boa.  O roteiro será de Takasugi Rika e o character design de Sato Yoko.  Pelos frames a arte está muito diferente da série original, está meio morta, sem a beleza do original, genérica até.  Fumi Yoshinaga merecia uma série que, pelo menos, preservasse o seu traço, ou o espírito dele.  Pelas frames, vejam bem, pelo pouco que liberaram até o momento, não será assim, não.  Ainda não há data de estreia.  

Outra coisa, no anúncio, houve a dúvida de se a série é shoujo, ou josei.  Bem, sai na revista Melody.  Na wikipedia em inglês, está escrito que a revista era shoujo e, agora (*DESDE QUANDO? Nas notas do artigo, há links externos, não da Hakusensha, do mesmo ano, 2021, chamando a Melody de josei e shoujo*), é josei.  No entanto, Na Wikipedia japonesa continua como shoujo, eu fui checar para ver se tinha mudado.  Considerarei como válida a informação da página em japonês, até porque, a Melody, a Cookie, mesmo a Cheese, são aquelas revistas shoujo limítrofes, isto é, elas almejam um público mais velho e oferecem mangás que são mais sérios, mais dramáticos, o que, claro, não representa o todo da revista.  No fim das contas, as japonesas querem é ler bons  mangás e, às vezes, se apegam a uma revista, ou autora e, neste caso, a seguem para onde ela for.  De resto, para fechar o caixão, na conta do Twitter da revista, está que ela é shoujo.

Fora, claro, que virou quase moda entre alguns fãs de mangá tentarem tirar material shoujo da sua demografia original para mostrar que são pessoas maduras e que não leem material juvenil, isto é, shoujo, quando está cheio de shoujo muito mais complexo do que muita série que tem como alvo o público adulto mesmo. Eu até relevo esse tipo de atitude, quando ela é fruto da imaturidade, tipo o/a adolescente que quer mostrar que cresceu, agora, quando é coisa de gente supostamente bem informada, não.  É a mesma coisa que empurrar material shounen e seinen com romance como shoujo, ou josei, porque, bem, macho não gosta dessas coisas, então, tem que ser para menininha. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Dorama de Ōoku terá uma segunda temporada (❗❗❗)

Ontem, o Comic Natalie (*e eu vi primeiro no ANN*) que teremos uma segunda temporada do dorama de Ōoku (大奥), que é baseado no mangá de Fumi Yoshinaga.  Ela irá ao ar no outono japonês, a nossa primavera.  Pelo que entendi, e posso estar enganada, eles empurraram o final do mangá para a segunda temporadaO CN chama esse arco de queda sem sangue de Edo, OK, o ANN chama de arco do Bakumatsu (1853-1868), que é o nome do período final do Shogunato Tokugawa.   

O que eu torço é que nesta temporada eles retornem com Yoshimune no último capítulo pelo menos, para fazer a ponte com o que virá depois, afinal, a shogun mais impressionantes do mangá teve um único capítulo para si. E quem não viu, há resenha aqui.  Esta primeira temporada me parecia muito corrida e achava impossível cobrirem quatro arcos em 10 episódios. 

Agora, o ANN falou em dois arcos, o outro seria o "da cura", já o CN pontuou que a segunda temporada irá cobrir os governos de Ieharu, Ienari (arco da cura), Iesada e Iemochi (arco do Bakumatsu).  Resumindo, tentarão cobrir quase todo o mangá.  O arco da cura é um dos mais dramáticos e trágicos com a vantagem de ter uma vilã que merece o nome, o do Bakumatsu, um dos mais melancólicos.  Fiquei feliz com a notícia.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Comentando o episódio #1 de Ōoku (NHK/2023): Uma adaptação econômica, mas bem atraente.

Anteontem, assisti ao primeiro episódio do dorama de Ōoku (大奥), que estreou na NHK no dia 10 de janeiro.  Trata-se de mais uma adaptação do mangá de mesmo nome de Fumi Yoshinaga, publicado entre 2004 e 2020 na revista Melody.  O Ōoku original era o harém o shogun Tokugawa, instituído em 1607 e que permaneceu em funcionamento até o colapso do Shogunato em 1867.  A série de TV tem previsão de dez episódios, o que eu considero muito pouco para a proposta de cobrir quatro arcos da série, três que já foram adaptados anteriormente, e o fechamento da história do mangá.  

Ōoku é uma série de história alternativa que conta a história do shogunato das mulheres, estabelecido depois que uma doença, a varíola vermelha, dizima 4/5 da população masculina do país, especialmente, os mais jovens.  Como resultado, as mulheres terminam por ocupar todos os espaços do trabalho braçal ao comando do estado.  No primeiro volume, que pode ser lido como uma obra fechada, estamos 80 anos depois do início da doença, e a velha ordem foi esquecida (*como historiadora, afirmo que é a parte mais absurda da série*) e a 7ª shogun, que é uma criança está morrendo.

Do lado de fora, o jovem Mizuno Yuunoshin (Yuuto Nakajima) não tem grandes perspectivas de futuro.  Ele pertence a uma família samurai empobrecida e tem uma mãe e uma irmã caçula, que se esforçam muito para sustentar a casa, com que se preocupar.  Além disso, ama a amiga e infância, O-Nobu (Shiraishi Sei), mas não pode se casar com ela, porque a jovem é de uma casta diferente, ela pertence a uma família de mercadores, muito rica, aliás.  Sabendo que a vizinha retribui o seu afeto e que não se casará a não ser com ele e que sua mãe e irmã passam necessidade, Mizuno decide entrar para o Ōoku, conseguindo, assim, sustentar sua família e matar qualquer esperança que O-Nobu possa ter em relação a ele.

Em um momento no qual os homens são escassos, ter um harém é uma demonstração de poder e os boatos diziam que três mil homens habitavam o Ōoku.  Quando Mizuno é admitido, lhe é informado que não é tanto assim, que são SOMENTE 800.  Tokugawa Yoshimune (Ai Tominaga) assume como 8ª shogun quando da morte de Ietsugu.  Vinda de uma província distante de Edo (Tokyo), ela é vista como uma "caipira" pelo refinado grande camareiro do Ōoku, Fujinami (Kataoka Ainosuke VI).  Yoshimune questiona o excesso de gastos do palácio do shogun e considera boa parte dos costumes vigentes uma bobagem.  Ela quer fazer reformas que levem ao progresso do país e melhorem a condição do povo e ignora o mais que pode  a existência do Ōoku.

Fujinami confronta Hisamichi (Kanjiya Shihori), o braço direito da shogun, que termina por marcar uma visita ao Ōoku.  Fujinami se sente satisfeito e eleva Mizuno, a quem considera igualmente grosseiro, da condição de pajem, e portanto indigno do olhar da shogun, a um dos candidatos a serem escolhidos pela soberana em sua visita ao harém.  E o rapaz realmente atrai a atenção de Yoshimune, seja por seu incomum e sóbrio kimono preto (*em oposição ao colorido exuberante dos outros rapazes*), seja por ter quebrado a etiqueta (*não darei spoiler*).  Agora, o que nem a shogun, nem o rapaz sabem, é que uma antiga tradição ordena que o primeiro homem a passar a noite com uma soberana solteira (*e supostamente virgem*) deveria ser morto.

Eu me surpreendi ao assistir o primeiro episódio, porque ele resume todo o volume #1, isso comprimiu consideravelmente as tramas paralelas, que foram quase que completamente eliminadas para focar somente em Mizuno e Yoshimune.  Temos algum espaço para Hisamichi, claro, ela é o principal apoio da shogun, além as mesquinharias de Fujinami e o fato dele favorecer seu amante, o belo Kashiwagi (Inoue Yuki).  O amor de Mizuno por Onobu também é valorizado e temos um vislumbre da amizade que o rapaz desenvolve com Sugishita (Kazama Shunsuke), mas este sequer conhece a shogun, algo que é importante no mangá.

Apesar dos cortes, inseriram algumas cenas novas, em especial a shogun.  Quano Yoshimune recebe a notícia de que deverá seguir para Edo e assumir o poder, ela está cavalgando.  Há uma cena de Yoshimune incógnita visitando a cidade, assim como conversas entre ela e Hisamichi.  Há conversas que foram criadas entre O-Nobu e Mizuno, assim como entre o protagonista e Sugishita, de resto, tudo mais integralmente, ou e forma resumida, veio direto do mangá.

Gostei bastante da atuação de Yuuto Nakajima, ele me pareceu mais convincente como Mizuno do que o ator do filme de 2010Kazunari Ninomiya.  Kataoka Ainosuke VI entregou um excelente Fujinami e Kanjiya Shihori está muito bem como Hisamichi, o único problema é que ela é gordinha no mangá, Fumi Yoshinaga desenha umas mulheres gordas e sorridentes que são bem características.  E Hisamichi é uma criatura bem perigosa, ainda que absolutamente fiel à Yoshimune.  Quando Fujinami a pega pela gola do quimono, ele não sabe com quem está mexendo.  Agora, Ai Tominaga não me pareceu melhor que Ko Shibasaki, eu a prefiro como Yoshimune.

Ainda assim, o efeito geral foi muito bom e para quem não leu o mangá, ou assistiu ao longa metragem e 2010, a nova adaptação consegue entregar o espírito da obra original com uma única crítica relevante e, bem, se você continuar a ler a partir daqui, terei que comparar mangá e adaptações a comentar em detalhes a parte que realmente me incomodou, porque foge do espírito original da obra de Fumi Yoshinaga.  E eu fui retomar o volume #1, porque já não o lia fazia muito tempo.

Entre as mudanças significativas neste primeiro episódio, temos O-Nobu sendo apresentada como alguém que recusou vários noivos, porque ama Mizuno e não pode casar com ele.  A moça chega a dizer que preferiria se tornar uma freira (budista) a se casar com outro.  No mangá, onde Mizuno é quem coloca claramente sua frustração por não poder se casar com a mulher que ama.  Ele é de uma família samurai empobrecida, ela de uma rica família de mercadores, há a barreira econômica, mas, também, o impeditivo de casta.

No mangá é Mizuno quem recusa uma noiva vantajosa conseguida por sua mãe e prefere entrar para o Ōoku.  No dorama, a mãe o rapaz é uma mulher gentil e não uma matriarca tradicional e cheia de autoridade como no mangá, já a irmã do protagonista na TV é uma criança e, não, uma mulher de vinte e quatro anos e que precisa de um dote para se casar.  Tanto para O-Nobu, quanto para a irmã de Mizuno, era absurdo tomar um homem somente para reproduzir, seria humilhante demais.  Mizuno faz esse tipo de favor para mulheres pobres e chega a cutucar O-Nobu dizendo que poderia fazer o mesmo favor para ela.  

A moça reage indignada, e isso está no dorama, também, mas não a acusação e que essa sua bondade seria desculpa para dar vasão para a sua luxúria.  Aliás, Mizuno agradece a mãe por não tê-lo vendido como reprodutor, como outras famílias que passam por necessidade.  Isso não está no dorama.  Outra alteração é que Mizuno entra do Ōoku graças a uma tia, quando, no mangá, é seu tio que lhe  consegue a vaga.

O duelo de Mizuno com Tsuruoka é cortado do dorama. No filme de 2010, foto acima, o duelo tem grane destaque e o rapaz se mata depois de ser derrotado por Mizuno. Só deixam a parte em que o supremo camareiro, Fujinami, fala com Mizuno, mas o rapaz não é mostrado o dojo, que seria a cena imediatamente depois.  A conversa entre Kashiwagi e o supremo camareiro sobre as maquinações para colocar Yoshimune no trono é suprimida.  O que sobra da conversa é entre Mizuno e Sugishita.  

Toda a parte do costureiro apaixonado por Mizuno, que é importante dentro desse volume #1, é cortada, assim como o beijo que o protagonista lhe dá se desculpando com O-Nobu em seus pensamentos por beijar o rapaz.  Inclusive a menção que ele faz à Arikoto (O-Man), protagonista do segundo arco da história, quando lhe recomenda o padrão da água corrente para decorar o seu kimono é retirada, ainda que a sugestão do desenho, feita por um costureiro, esteja no dorama.

Uma inversão importante no dorama é que Fujinami informa Hisamichi que o primeiro com quem a shogun dormir deve morrer antes dela passar a noite com Mizuno.  Isso altera toda a sequência da história, inclusive a forma como ambos se comportam na noite em que fazem sexo.  No mangá, quando se espalha que Mizuno deve morrer, todos comentam e quem questiona a tradição é o menino costureiro e lhe é explicado que a última shogun era a uma criança e as duas anteriores mulheres casadas, então, não se aplicaria.  Revendo o volume #1, percebi que ele está conversando com um cozinheiro gay que só aparecerá de novo em um volume muito avançado.  

Também temos a primeira, e temporalmente última, aparição, de Manabe Akifusa, que terá papel importante nos volumes #6 e #7 na história.  A cena é muito boa e a ministra mais influente nos reinados de Ienobu e Ietsugu é escorraçada por Yoshimune por desejar que a nova soberana se vista e forma luxuosa em um momento e crise econômica.  Manabe não queria Yoshimune como shogun, mas, infelizmente, suas conspirações não estarão no novo dorama.  Não consegui encontrar o nome da atriz que interpreta Manabe e as legendas em inglês transliteraram errado o seu nome, é Manabe Akifusa, não Kanbe Akifusa.

Há outro diálogo entre Kashiwagi e Fujinami é alterado também, no mangá, fica evidente que o supremo camareiro colocou Mizuno entre os que podiam ser escolhidos para se livrar dele, e que seguiria o costume de qualquer jeito, e que sendo a família do rapaz tão sem importância, ele não teria que explicar a sua morte.  Já os outros jovens tinham parentes poderosos e não iria ser fácil convencê-los da morte por doença de seus filhos.  No dorama, Fujinami fala que não invocaria a tradição se fosse outro o escolhido, afinal, ela tinha caído no esquecimento.  Sugishita se indigna e chora por Mizuno, mas são os dois juntos, não diante do supremo camareiro.

No mangá, quando Mizuno está com a shogun, é ela quem começa a conversa, se desculpa por causar a morte do rapaz, ela está no comando, ela conduz a cena.  O mangá faz toda a apresentação de quem seria testemunha do ato sexual nas salas adjacentes, no dorama, fica subentendido a presença das testemunhas e é Mizuno quem puxa a conversa com ela, que se comporta de uma forma quase tímida, lhe perguntando sobre seu gosto por artes marciais e outras coisas.  Além da inversão dos papéis de gênero, há uma grande perda nesta cena, o pedido de Mizuno, que a Shogun concede, de chamá-la de O-Nobu, que era o nome da própria Yoshimune.  No dorama, ela pergunta o nome do rapaz e lhe diz o seu, Nobu, e ele se espanta.

Quando Yoshimune dispensa boa parte o  Ōoku no dorama, ela dispensa os homens mais jovens para que possam se casar, só permanecem os maiores de 35 anos.  No mangá, ela manda embora os bonitos.  A idade não viria ao caso, porque qualquer um maior de 35 anos não poderia ir para a cama com a shogun.  Como o episódio termina aí, fica de fora o capítulo no qual a shogun encontra Sugishita, o acha bonito, se interessa (*sexualmente*) por ele e o pajem lhe informa que é velho demais, porque tem 35 anos, para estar diante da shogun a forma que ela deseja.  Ela muda as regras.  

O dorama até coloca Yoshimune dizendo para Mizuno que não se interessa por cosméticos, nem roupas luxuosas, mas que gosta e homens, mas nem de longe retrata o quanto Yoshimune gostava de sexo e preferia uns homens que jamais apareceriam diante dos olhos da shogun, como trabalhadores braçais, embora não seja este o caso de Sugishita, que é um sujeito muito bem apessoado, ainda que o ator do dorama não lembre a personagem do mangá.

Como o dorama termina sem este último capítulo, Yoshimune só descobre que houve .  O capítulo final do volume #1 dá início ao flashback que explica a peste e o motivo para que as mulheres estejam no poder.  Pelo que vi do planejamento do dorama, Yoshimune não irá voltar para a história, porque seu outro arco não será adaptado e isso é uma pena.  A julgar por este primeiro episódio, a série é muito bem feita, apesar de menos grandiosa que aa adaptações anteriores, mas será corrida, especialmente, em comparação com as adaptações anteriores.  Ōoku merecia mais.  Abaixo, o trailer do primeiro arco da série.