Quando mostrei no Facebook a foto de um dos volumes da edição norte-americana da Rosa de Versalhes, algumas pessoas me pediram um vídeo sobre ele. Esperei um pouquinho, porque fui vencida pela tentação e acabei comprando a coleção inteira, porque ela era bonita demais para não ter. Enfim, não sou boa nesse tipo de vídeo, mas decidi pegar todas as edições da Rosa de Versalhes que eu tenho e gravar um vídeo com todas elas. Espero que tenha ficado minimamente interessante.
Segundo o ANN, a editora japonesa Kadokawa anunciou na última segunda-feira um acordo para a compra da editora italiana de mangás e light novels Edizioni BD S.r.l (também conhecida como J-Pop Manga). A gigante japonesa comprou 70% das ações da editora italiana e a irá torná-la sua subsidiária. Se o negócio for confirmado, o presidente e CEO da Edizioni BD, Marco Schiavone, deteria 20% das ações, e a distribuidora Messaggerie Libri, 10%. E cito direto do ANN:
"Com a aquisição da Edizioni BD, sediada em Milão, Itália, a Kadokawa pretende traduzir e publicar mangás, light novels e títulos relacionados. A empresa planeja expandir sua presença por toda a Europa com suas colaborações internacionais. A estratégia de negócios da Kadokawa é promover uma "Mistura Global de Mídia com Tecnologia". A Edizioni BD (Mangá J-Pop) publica cerca de 500 mangás e light novels em italiano. A empresa introduziu novos designs de livros no país, com capas e sobrecapas envolventes semelhantes às dos volumes compilados do Japão."
A matéria comenta a seguir de vários movimentos da Kadokawa rumo a expansão de seus negócios no Japão e em outros países através de compras de outras empresas e parcerias. Espero que, no caso da editora italiana, a parceria seja benéfica. A Itália é um dos maiores mercados de mangá fora do Japão.
Ontem, foi um dia complicado para mim, postei sobre a morte do Papa Chico no Instagram, mas não coloquei nada aqui no blog, mas preciso. Até explicando minha ausência por aqui, se nada acontecer de estranho, opero catarata amanhã e precisava colocar minha vida em ordem, isto é, corrigir todos os trabalhos dos meus alunos, fechar notas e tudo mais que estiver pendente. Enfim, admirava muito o primeiro papa jesuíta, que muita gente imagina que era franciscano por abraçar o nome Francisco em homenagem ao santo de Assis. Quem conhece o blog de muito tempo, e este ano esqueci de comemorar os 20 anos do Shoujo Café em 23 de março, sabe que trabalhei na graduação, mestrado e doutorado com a Ordem Franciscana nos seus primórdios, o século XIII. Considerava Francisco um estadista, o maior do século XXI até o momento, alguém que mostrou empatia pelos fracos, pelos pobres, pelos que sofrem, pelos que não tem voz e já o fazia na sua Argentina natal, onde se preocupou em criar um apostolado junto aos moradores das favelas de Buenos Aires.
Francisco, antes Jorge Mario Bergoglio, era um homem controverso em seu próprio país e eu comentei sobre isso na minha resenha do filme Dois Papas, mas, pelo menos nos últimos anos, seus inimigos, seus detratores, eram pessoas que não estão do mesmo lado que eu estou no espectro político. Mas eu já estava esperando a partida do Papa Chico, em um dos meus Shoujocast, eu comentei sobre isso. Agora, é o Conclave e eu preciso fazer a resenha do filme, que eu assisti imaginando que ele tinha algo de premonitório, desenhando muito bem as facções em disputa pelo Vaticano. além de ser excelente. Enfim, espero que não seja o fim de uma Era e que o próximo papa seja pelo menos um moderado que conserve os avanços do pontificado de Francisco. E deixo, agora, o que escrevi no Instagram, porque o texto de lá ficou bom e deve ser preservado aqui:
"Em sua última aparição pública, em sua mensagem de Páscoa, Papa Chico fez um último pedido, pediu pela paz em Gaza, pelo fim do genocídio.
Não sou católica, sequer fui batizada, nasci em um lar protestante, mas tenho profunda admiração por Francisco pelo que fez e pelo que não conseguiu fazer. Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a História da Igreja Católica sabe que a instituição sobreviveu porque soube se adaptar ao longo de séculos. Por outro lado, é preciso ter a percepção de que a igreja não se vê somente como algo terreno, mas uma instituição com uma dimensão espiritual, fora do tempo e, portanto, com toda a eternidade para repensar e mudar questões que, para os seres humanos, são urgentes.
Francisco tentou apressar algumas dessas questões que poderiam ser empurradas para a eternidade, era um homem limitado, como todos são, papas não podem fazer tudo, nunca puderam, a igreja tem uma estrutura que é pesada demais, mas ele buscou acolher, consolar, trazer a instituição para o século XXI, deixando para trás a tentativa de seu antecessor de arrastá-la para o século XIX.
Enfim, ele era um estadista em um tempo em que eles estão em falta. Espero que as forças dentro do Conclave se equilibrem para eleger pelo menos alguém que mantenha o seu legado, mas algo me sugere que, talvez, vejamos ser eleito o primeiro papa africano e, portanto, ultraortodoxo, ou um reacionário europeu ou norte-americano."
E termino com Ilze Scamparini, correspondente da Rede Globo na Itália, falando sobre os últimos momentos de Papa Francisco.
Não tenho dúvidas de que papa Chico sabia que estava partindo e não de ontem, no entanto, como um agente político que sabia o tamanho que tinha, se esforçou por esse último ato, não somente o "Urbi et Orbi", o que liturgicamente é importante, mas de mandar uma mensagem de paz e da necessidade de tomada de posição para o mundo. E o mundo, neste caso, não se resume aos católicos, mas todos os que têm boa vontade.
Fuyumi Souryo é uma das mangá-kas que eu mais amo por causa de uma obra em particular, Mars (マース). É uma obra tão querida, que eu coloco sua autora no panteão por causa dela. Agora, me dá cansaço toda vez que eu leio alguma coisa sobre esse mangá histórico engessado que ela parece acreditar que é sua obra-prima. CESARE Il Creatore che ha distrutto ou Cesare: Hakai no Souzousha (チェーザレ 破壊の創造者) começou a ser publicado em 2006 e tem 13 volumes. Agora, segundo o Comic Natalie, a autora lançará um gaiden da série, o segundo, aliás, intitulado Canzoniere Cesare Bangai-hen (カンツォニエーレ チェーザレ番外編) cobrindo o primeiro e o último amor do famoso filho do Papa Alexxandre VI. Vai sair na plataforma Comic Days. Eu não pretendo olhar.
Estou fazendo um trabalho sobre os idosos nos mangás e acabei tropeçando nesse artigo escrito pela jornalista e professora universitária italiana Laura Imai Messina. Ela trabalha no Japão e o texto fala de como os idosos são empurrados para a morte, por deixarem de ser úteis à sociedade, na literatura, folclore, cinema e mangás. Isso tudo agravado pelo pensamento capitalista que vê os velhos, cada vez mais presentes na população japonesa, são um peso.
Sabe quando o discurso neoliberal no Brasil conseguiu fazer a troca da palavra aposentado, algo que se remetia à ideia de que você contribuiu para a sociedade e, agora, pode descansar, por inativo, algo que tem o sentido de peso morto? Pois é, parece que no Japão, a coisa está indo nesse caminho, também, o que joga por terra aquela coisa do idoso como venerável. Agora, o importante no texto é que Messina mostra que isso vem de longe. Ela cita dois mangás no texto, nenhum deles estava no meu radar até tropeçar nesse artigo. O original está aqui. Mantive a estrutura do artigo e só acrescentei links para maiores informações sobre os mangás citados no texto e o autor das Baladas de Narayama.
Problemas demográficos no imaginário de um país Para que servem os idosos? A obsessão do Japão com a idade
Laura Imai Messina
Filmes, novelas e mangás: em toda obra que trata do envelhecimento há homens e mulheres complacentes e tristes. A maioria deles foi convencida pela retórica de que deixar de viver é patriótico, altruísta, generoso, justo.
Num dos momentos mais críticos da história moderna do país, o antropólogo Yanagita Kunio (1875-1962), considerado o pai do folclore japonês, procurou uma resposta à pergunta “O que é um japonês?”. Ele fez isso explorando contos populares, lendas, a vida nas montanhas, contos de fadas. Ele demonstrou como aquele Japão que, no seu encontro com o Ocidente, se lançava com uma leveza imprudente e um entusiasmo superficial numa transformação que mais parecia uma autodestruição, precisava do folclore, do conhecimento das tradições antigas. Em suma, para se manter firme no futuro do país, era necessária a história do seu passado.
Os clássicos
Lendo o clássico da literatura japonesa As Baladas de Narayama [1] de Fukazawa Shichirō, publicado pela primeira vez em sua terra natal em 1956, e que gira em torno do costume de levar pais idosos para morrer na montanha para fazer frente à escassez de recursos e a fome, lembrei-me do ensaio de Yanagita Kunio dedicado justamente ao tema do ubasute 姥捨て (literalmente “jogar fora os idosos”)[2], escrito originalmente em 1945 para atender à curiosidade de meninas da quinta e sexta séries que tiveram que se mudar para o campo por causa da guerra.
Foi um teste: será que a necessidade, a fome teriam vencido a moralidade, a gratidão que os filhos deviam aos pais? Entre as muitas declinações da história, em parte autóctones, em parte vindas da Índia e da China, a minha preferida é sem dúvida aquela que mostra a mãe idosa quebrando galhos enquanto o filho sobe a montanha onde a abandonará para morrer; quando questionada por que fez isso, a mulher responde que é para criar pistas para que seu filho encontre facilmente o caminho de volta para casa.
A bela história de Fukazawa, como bem escreve Giorgio Amitrano que a traduziu pela primeira vez para o italiano para Adelphi, "ocupa um espaço surpreendentemente vasto em relação à brevidade do texto", de modo que apesar das poucas páginas, a "força narrativa, o a riqueza dos temas e a gama de sentimentos neles descritos têm... o sopro de um grande romance." É um clássico de referência da literatura japonesa, cuja importância é demonstrada pelas inúmeras adaptações e referências mais ou menos diretas em obras culturais e literárias posteriores.
A questão demográfica
O grave problema demográfico e social que o Japão enfrenta há mais de cinquenta anos está há muito tempo no centro de um debate político e cultural, tema de talk shows, documentários, romances, mangá e filmes. Sempre fui animada pela ideia de que o folclore não está muito distante da ficção científica, com a única diferença de que o olhar não está voltado para frente, mas para trás, apesar de apresentar variações da realidade que (ainda) não foram concretizadas. Ambos são excelentes exercícios de imaginação.
Assim, já em 1973, Fujiko F. Fujio, pai de Doraemon e Superkid, assinou um mangá one-shot intitulado Food Retirement (Teinen-taishoku)[3] que falava de um futuro próximo em que o país, lutando contra uma escassez excepcional de recursos naturais e abastecimento de alimentos, estabeleceu um rígido sistema de racionamento, especialmente em detrimento dos idosos. Semelhante em tema, mas muito mais sombrio e com atmosfera mais apocalíptica, é a história em quadrinhos TEMPEST (2018) de Asano Inio, que prevê uma sociedade devotada ao princípio de "Keep Young", que por um lado fornece incentivos extraordinários para a taxa de natalidade, por o outro pressiona pela eliminação forçada dos idosos.
Com um toque hiper-realista, traça a ideologia anti-idoso que inicialmente se espalhou pela Internet, mas que, aos poucos, foi contagiando os meios de comunicação de massa até que todos os meios de informação se envolveram no movimento de discriminação ("O sistema previdenciário foi um engano criado pelas gerações anteriores com o único propósito de se protegerem!"). Agora apenas viver, sem um propósito útil e concreto para a sociedade, não é mais aceitável.
O limite
Plano 75, estreia na direção de Chie Hayakawa (2022), filme que traça uma sociedade para lidar com o envelhecimento da população e a queda nas taxas de natalidade, incentiva os maiores de setenta e cinco anos à eutanásia em massa, também abre com a notícia de uma onda de violência contra os idosos e com indícios de um sofrimento partilhado por todas as gerações.
A idade a partir da qual não é mais permitido viver flutua: se em As Baladas de Narayama os filhos têm que levar os pais para morrer na montanha aos 70 anos, no mangá de Fujiko F. Fujio o limiar além do qual os direitos são 75 anos (renováveis apenas através de uma loteria utópica); no TEMPEST aos 85 anos você pode aceitar a eutanásia ou tentar um exame de certificação muito difícil (um único erro ao responder às 500 questões exigidas é suficiente para perder o mero direito de existir).
A descrição de uma idade
Qualquer que seja o período histórico ou a forma artística, em todas as obras que abordam a temática do envelhecimento da população face a um mundo cada vez menos rico em recursos e com uma crise demográfica sem precedentes, os idosos são majoritariamente descritos como complacentes, derrotados; sentem-se inúteis, tolos e sobretudo muito tristes, razão pela qual a maioria deles escolhe a solução final sem protestar, convencidos por uma retórica que faz do suicídio assistido ou da morte voluntária uma "prática patriótica, altruísta para com as novas gerações, generosa e justa."
Em todas as histórias, de As Baladas de Narayama ao mangá de Fujiko F. Fujio e Asano Inio, de Plano 75 a outros filmes no estilo de Logan's Run (1976), as vantagens racionais de suprimir os idosos são evidentes e somam-se a benefícios convidativos como fim de vida sem dor, refeições gratuitas, quantias de dinheiro para gastar com o quiser antes do dia X, isenção fiscal completa para que você possa entregar todos os seus bens aos seus herdeiros. Em suma, do ponto de vista econômico, promete-se que a morte será enfrentada com alívio.
Contudo, toda narrativa é assombrada pela constante questão do que é um ser humano, do significado da dignidade de uma existência. Na verdade, basta que um filho se lembre do amor que recebeu de uma mãe ao escalar a montanha Narayama ou que um sobrinho imagine concretamente a eliminação do cadáver de seu tio antes de concluir o programa Plano 75 no qual se inscreveu por tristeza, em que a regra geral se torna particular, esse sentimento e raciocínio pessoal se manifestam e, portanto, o monstruoso absurdo do assassinato fica claro.
Mas então para que servem os idosos? A questão está justamente no verbo servir. Não é por acaso que uma das versões tradicionais do conto de fadas com tema ubasute recolhido por Yanagita Kunio terminou com o regresso da velha mãe a casa depois de, refletindo em voz alta, o filho da mulher, acompanhado do sobrinho, ter afirmado que o cesto em que a velha que transportava teve que ser trazida para casa, pois ainda poderia ser útil.
Aquela frase, em que o verbo “usar/servir” fazia o objeto conquistar a pessoa, despertou a consciência do homem que finalmente se arrependeu de sua crueldade.
A resposta à pergunta "Para que servem os idosos?" antes, encontrei-o na troca entre um homem e uma enfermeira, num dos romances de ficção científica do escritor Kilgore Trout (nascido, por sua vez, da imaginação de Kurt Vonnegut). Os dois se encontram em uma das Salas do Suicídio Ético onde, por meio de quatorze métodos indolores, as pessoas vão morrer com calma.
O homem, pronto para ir para o outro mundo, "perguntou a uma anfitriã da morte se ele iria para o céu, e ela respondeu que ele certamente iria. Ele perguntou se ele veria Deus, e ela disse: “Claro, querido”. E ele disse: “Espero que sim. Quero perguntar-lhe algo que nunca consegui descobrir aqui." "O que?" ela disse, amarrando-o na cadeira. “Para que diabos servem as pessoas?”
Aqui, a pergunta, se feita com verdadeira convicção, não pode mais ser “Para que servem os idosos”, mas sim “Para que servem as pessoas?” De uma perspectiva orientada para o lucro, nada mais serve realmente a qualquer propósito.
1: Não achei nenhuma edição em português das Baladas de Narayama, o que é bem absurdo, só as versões cinematográficas, e são muitas, aparecem no Amazon.
2: O ubasute das Baladas de Narayama aparece em um dos volumes de Ōoku (大奥). Se a função dos homens é procriar e ele não consegue mais cumprir essa função por causa da idade, ele é somente um peso para a sociedade.
3: Não achei o mangá listado no Mangaupdates e fiquei com preguiça de passar o pente fino na Wikipedia Japones.
Os italianos amam Lady Oscar, o mangá foi publicado várias vezes no país, e o anime foi um marco na TV do país. Pois bem, vi primeiro no Pro Shojo Spain que a Yamato Video, que lançou o anime na Itália, e o WOW Spazio Fumetto, no Museo del Fumetto, em Milão farão uma exposição em homenagem ao 45º aniversário da animação. Ela estará aberta entre os dias 25/05 e 15/09.
O Anime Click informa que a Yamato lançará uma nova edição em Blu-ray da série no dia 14 de julho e que a exposição trará estão produtos originais, edições raras, figurinos, informações históricas e tudo o que contribuiu para a criação do culto em torno da série de Riyoko Ikeda.
O Rafael Macedo perguntou se eu já tinha visto este vídeo do The Voice Senior Itália no qual uma brasileira de nascimento, Clara Serina, canta Garota de Ipanema e é esnobada pelos jurados/mentores. Um deles chega a dizer "Ela não tem voz.". Quando as cadeiras se viram, um deles diz que falta muita coisa para a senhora de 72 anos possa cantar. Daí, a apresentadora conta um segredinho para eles e pede que a orquestra toque o primeiro tema italiano do anime da Rosa de Versalhes (*e que eu odeio, prefiro o segundo, que também não é essas coisas*) e todos eles se espantam e começam a vibrar e cantar, porque Clara Serina é uma das componentes do conjunto I Cavalieri del Re responsável por várias aberturas de animações produzidas na Itália. Dispensaram uma lenda das aberturas de anime do país. 😄 Se ela tivesse começado cantando a abertura de Lady Oscar teria passado. O vídeo está abaixo:
Agora, está escrito que a Clara Serina era a voz de Lady Oscar, que eu saiba, e é o que está na Wikipedia em italiano, a dubladora original era a Cinzia De Carolis, aliás, eu só fui confirmar, porque eu já sabia. Mais tarde, em 1990, houve uma nova abertura para a animação chamada Una spada per Lady Oscar cantada primeiro por Enzo Draghi e, mais tarde, por Cristina D'Avena. De qualquer forma, a primeira versão, a dos anos 1980, é a mais amada pelos italianos e lembrada ate hoje.
Uma amiga postou no grupo do Facebook do Shoujo Café uma foto da homenagem aos 50 anos da Rosa de Versalhes na estação Duomo do metrô de Milão e eu fui procurar mais informações sobre isso e achei, além de várias fotos. Trata-se de uma das muitas evidências do amor que os italianos têm pela série de Riyoko Ikeda, quer dizer, mais pelo anime do que pelo mangá, mas a protagonista é, sim, muito querida.
Muito bem, segundo os sites Variety, Fanpage e Cool in Milan, além de celebrar os cinquenta anos do mangá, ainda que somente com imagens do anime, a escolha de montar a homenagem no mês de junho tem a ver com o mês do Orgulho. Ambos os sites destacam que Oscar foi a primeira personagem andrógina a aparecer nas TVs italianas e é uma pioneira na luta dos direitos dos homossexuais. Todos os sites parecem confundir papéis de gênero e, sim, Oscar rompe com as expectativas sociais a respeito de como as mulheres deveriam se comportar, com sexualidade e identidade de gênero.
É importante separar, porque ainda que tenhamos todo um clima romântico entre Oscar e algumas personagens femininas e ela chegue a beijar uma mulher (*para chocar a sociedade a afastar um noivo indesejado*), Oscar é heterossexual. Quanto à identidade de gênero, ela nunca se mostrou insatisfeita com o fato de ser mulher. Ainda assim, ela pode ter servido de exemplo e inspiração para pessoas LGBTQUIA+ se entenderem e certamente a série foi precursora de outras que realmente discutiram questões de gênero e sexualidade, como Shoujo Kakumei Utena. O vídeo abaixo veio do grupo do Facebook Otaku - Pazzi per le sigle.
Anteontem, recebi e li o volume Orgulho e Preconceito da coleção Graphic Disney da Panini. Trata-se de uma edição de luxo de uma adaptação feita pela Disney Itália do clássico de Jane Austen, que tem o mesmo nome e foi lançado em 1813. A autoria do material é do casal (*eles são casados mesmo*) Stefano Turconi (arte) e Teresa Radice (roteiro). O volume, que na Itália faz parte da coleção Disney De Luxe e se chama Orgoglio e Pregiudizio, saiu no ano passado, ou seja, a Panini do Brasil trouxe rapidinho. Sendo Jane Austen e Disney, a atenção está garantida.
Na página da Panini temos um resumo do volume "Elizabeth Pennet (Margarida) vive com as irmãs, a avó e uma tia numa fazenda alugada no interior da Inglaterra no início do século 19. Nesse ambiente, ela conhece Donald Duckcy, um aristocrata requintado com quem terá um turbulento relacionamento à base de desencontros a atritos -- mas o amor prevalecerá."Como fã de Jane Austen, fiquei curiosa e conhecendo um pouquinho do currículo de Turconi e Radice, decidi arriscar. Vamos aos pontos fortes e fracos do volume.
Primeira coisa, o roteiro colocou a própria Jane Austen como personagem e adiantando o seu livro, que ainda estava sendo escrito, para Martha Lloyd, a melhor amiga da autora depois de sua irmã Cassandra. Sentadas e tomando um bom chá, Austen comenta que sua obra terá três volumes e que pensou em colocar o título de First Impressions (Primeiras Impressões), mas mudou de ideia. Outra invenção de Teresa Radice foi modificar a família Bennet. O pai da meninas é substituído por Elvira (???), que eu acho que é a vovó Donalda, e Lalá, Lelé e Lili (April, May e June) se transformaram em Mary, Kitty e Lydia. Sendo elas crianças, a trama da sedução de Lydia está fora da história por princípio. O papel de Mrs. Bennet é de tia Bridget, não sei quem é a personagem no universo da Disney, mas ela cumpriu muito bem a função.
Outra mudança que funcionou muito bem foi colocar Maga Patalógica como Miss Bingley, ou Miss Bingpat, e o Professor Ludovico ficou excelente como Mr. Collins. O primo Ludovinis é um intelectual obcecado por livros e por procurar tesouros para Lord De Bourgh, que é o Tio Patinhas, claro. Voltando, a parte de Ludovinis pedindo a mão de Elizabeth foi uma das melhores coisas do volume. E ele é apresentado como um velho, afinal, Ludovico é velho, e quando ele se ajoelha, quase não consegue levantar e temos o som de nozes sendo quebradas. Outro ponto alto é a dinâmica entre os protagonistas, Donald e Margarida funcionaram muito bem como Darcy e Elizabeth.
E a parte de Rosings foi divertida, porque a mansão de Lady Catherine de Bourgh foi mesclada com a de Tio Patinhas e a própria moedinha nº1 foi muito bem costurada na história. Qual o interesse de Miss Bingpat por Darcy? Roubar a moedinha do tio dele, claro! E conseguiram manter uma fala de Mr. Collins sobre Lady Catherine apreciar a diferença entre as classes perfeitamente na boca de Ludovinis. Mesmo que a interação entre o tio de Darcy e Elizabeth tenha deixado a desejar, falo disso daqui a pouco, foi interessante essa parte da história.
Outro ponto a se elogiar é a arte do quadrinho. Stefano Turconi que tem um traço que é ao mesmo tempo bonito e dinâmico. E o uso das cores é excelente, também. Os extras do volume são exatamente os estudos de cores e da capa. O desenhista coloca os esboços das capas e temos um artigo explicando a pesquisa histórica em quadros de época para que fosse criada uma identidade visual adequada. Entre uma capa interna, ou externa, prevaleceu a que mostrava o campo e um Darcy-Donald um tanto desconfiado. Aliás, falando em Darcy-Donald, a opção foi em pintar a personagem como tímida. Influência direta da interpretação do filme de 2005.
Falamos dos prós, vamos aos contras, porque houve bastante coisa que eu não gostei, ou que acredito que poderia ser melhor. Primeira coisa, se você não conhece o original, talvez não consiga se divertir tanto com o volume. Segundo, perderam uma chance de ouro ao não colocar Mickey e Minnie como Bingley e Jane. Eles eram perfeitos para isso. Aliás, achei a caracterização de Jane ruim. A mais bonita e elegante das irmãs me pareceu descabelada e meio caipira. Mas quando ela monta a cavalo está atravessada na sela, ganhou uns pontos aqui. Peninha como Bingley é o alívio cômico permanente.
Tivemos pouco de Tio Patinhas. Em Rosings não colocaram nenhuma das cenas do livro em que a tia, porque no livro é uma mulher, de Darcy confrontando Elizabeth. Quando o velho aparece na casa da mocinha, a sequência também não consegue ser forte o suficiente. A cena da carta de Darcy depois da primeira declaração e ela mesma, não foram lá tão impactantes, também. Gastão é Wickham na adaptação e não é um sedutor, mas um ladrão. Não vou escrever o que ele rouba de Lydia, mas, enfim, é muito diferente do original.
Enfim, mas o problema com a irmã de Darcy é exatamente por causa de um roubo. O problema é que Georgiana não aparece em momento algum. E ela é importante. Não incluíram, por exemplo, a fala célebre de Darcy descrevendo o que seria uma mulher ideal para ele. Tanto que o passeio pela sala de Miss Bingpat e Elizabeth parece incompleto. Ela deveria aparecer. Outro ponto ruim é a mudança na personalidade de Charlotte Lucas, ou, no caso da adaptação, Clarotte. No original, ela se casa com Mr. Collins, ou Mr. Ludovinis, nesse caso, por cálculo, por não ter perspectivas de um matrimônio e não querer ficar solteirona. Na adaptação, ela parece fascinada pelo sujeito. Enfim, e quando Bridget cita que o jardim das Pennet é maior que o dos Lucas, não faz sentido, porque somente Clarotte aparece. E é Elizabeth que se convida para ir visitá-la depois de casada, como se não houvesse certo constrangimento com Ludovinis.
Concluindo, daria um 7,0 de 10 para o volume e a nota se deve mais à arte do que ao roteiro. Gostei muito da arte, de Elizabeth, da troca do pai pela tia Elvira, mesmo o Darcy de Donald funciona e algumas passagens ficaram ótimas, mas falta alguma coisa. Pode ser excesso de exigência da minha parte? Sem dúvida. Eu não costumo ler material Disney e, talvez, esperasse demais. Recomendo a leitura para quem é fã de Disney e de Orgulho & Preconceito, caso tenha curiosidade por mais esta adaptação, mas eu mesma talvez não tivesse adquirido o material caso tivesse lido antes. Espero que a Júlia queira dar uma olhadinha, mas, como escrevi, é preciso conhecer o original para aproveitar integralmente o volume.
Outra coisa, a qualidade do volume em si, a parte gráfica e encadernação são excelentes. É bonito e vale o que estão cobrando. O preço no Amazon, e o link está lá no começo do texto, é menor que o da Panini. Eu comprei na página da editora. Para quem coleciona Disney, ou coisas relacionadas à Jane Austen é material obrigatório e não vai fazer feio na sua coleção.
O Pro-Shoujo Spain fez um post sobre a nova edição de Mars (マース) na Itália. Para quem viu meu vídeo especial do Dia Internacional das Mulheres, sabe que coloquei Mars lá como uma série que deveria aparecer no Brasil, mas ainda não veio. Enfim, a série foi publicada entre o ano de 1996 e 2000 e conta com 15 volumes. A nova edição italiana começará a sair em abril e irá custar 8€, o que daria mais ou menos, uns 54 reais sem o frete, que é muito caro. Na Wikipedia, achei a informação que o mangá teve uma edição italiana pela Star Comics entre 1999 e 2003. A nova edição é da mesma editora e o vol. 1 sai no dia 21 de abril e está em pré-venda. Para quem quiser ler sobre o mangá, tenho um texto comemorativo aqui.
A editora Newpop fez um anuncio realmente importante para fãs de mangás femininos japoneses, um sele BL chamado Pride (Orgulho), além disso, estabeleceu uma parceria com a revista digital chamada Mimosa da editora Leed e que, segundo o site da própria revista, foca em romances felizes. Estou usando como fonte o Blyme e convido vocês a darem uma olhada na matéria super detalhada sobre os anúncios BL da Newpop.
É realmente algo notável que a Newpop, que foi pioneira na publicação de mangás BL no Brasil, crie um selo próprio. Eu desejo muita sorte e que as fãs do gênero (*talvez, já uma demografia*) se sintam muito felizes. Talvez, eu acabe comprando alguma coisa.
Agora, o que me chamou atenção mesmo da Newpop foi o anúncio de um mangá de Go Nagai, na verdade, uma belíssima adaptação da Divina Comédia de Dante Alighieri para mangá. Eu tenho a edição italiana e ela é muito bonita. Não sei qual será a opção da Newpop se seguirá os três volumes originais. O nome do mangá em japonês é Dante Shinkyoku (ダンテ 神曲) e foi lançado no ano de 1994, ou seja, não se trata de magterial clássico do autor como outros que foram anunciados, também.
A Divina Comédia foi escrita por Dante Alighieri provavelmente entre os anos de 1307 e 1321. Em italiano, não em latim, e é uma obra fundamental dessa língua. O livro conta a história do poeta que visita o Inferno e o Purgatório guiado por Virgílio, o poeta romano, e, por fim, o Paraíso, onde é guiado por sua musa, Beatriz, a mulher que ele amava e havia falecido. Toda a Divina Comédia é baseada no número três e seus múltiplos. Trata-se de uma obra com forte teor político, já que Dante coloca vários desafetos no inferno, por exemplo. Há um bom artigo sobre A Divina Comédia neste site.
Hoje, apareceu para mim esse artigo sobre o lançamento da nova edição do mangá da Rosa de Versalhes na Itália, vindo do Corriere delLa Sera, um dos principais jornais do país. Eu falei dessa edição, que parece ser belíssima, em um post anterior. Apesar de alguns pontos que eu vou discutir em notas, o artigo é bem interessante, especialmente, para quem não tem noção do impacto que o anime "Lady Oscar" teve sobre gerações de italianos. Enfim, segue o texto traduzido e minhas notas estão no final.
O retorno do mangá que inspirou Lady Oscar, uma heroína revolucionária (também na TV)de Chiara Severgnini
O mangá "Le Rose di Versailles" de Riyoko Ikeda retorna publicado pela J-Pop. Considerada um marco, fala das mulheres da corte francesa do final do século XVIII. [1] Incluindo Oscar, uma heroína inesquecível que o público italiano descobriu graças a um desenho animado que foi como uma "carga de dinamite".
Algumas notas da música de abertura são suficientes para trazer Lady Oscar à mente de quase todos os italianos, pelo menos para aqueles que cresceram na frente de uma TV. Décadas após a primeira exibição do cartoon dedicado a ela, a espadachim mais habilidosa e elegante da França permanece inesquecível. Mas também incompreendida, como costuma acontecer com os personagens de quadrinhos japoneses que o público italiano descobriu por meio de episódios de animação (no jargão, anime). Se quase todo mundo a conhece, e alguém também lhe deve boa parte de suas noções sobre a Revolução Francesa, poucos leram "Le Rose di Versailles" de Riyoko Ikeda, o mangá que lhe deu corpo, voz, vida. Uma intensa história em camadas dedicada não apenas a Oscar, mas a muitas outras mulheres - as “rosas”, na verdade - da corte francesa do final do século XVIII.
Considerado um marco pela crítica e reverenciado como um cult pelos fãs de mangá, "Le Rose di Versailles" foi serializado no Japão de 1972 a 1973. Na Itália, teve uma história editorial conturbada, mas a partir de 9 de dezembro está de volta em uma nova edição - completo e fiel ao original - em cinco volumes, editado por J-POP Manga.[2] Uma oportunidade para o grande público que acompanhou as aventuras de Lady Oscar na TV ao longo dos anos ir além do desenho animado. E descobrir que há muito mais por trás dele. "A animação, embora extraordinária, ainda é uma redução do trabalho original", explica Georgia Cocchi Pontalti, editor da nova edição italiana do mangá e gerente de vendas de marketing da J-POP Manga e Edizioni BD, ao Corriere. As diferenças entre cortes e censuras são muitas: "O manga", resume a curadora, "é mais detalhado e tem mais níveis de leitura. Ele também mantém o humor típico de Riyoko Ikeda, que foi deixado de lado no cartoon para favorecer um tom mais trágico". E, se a série animada continua em sua opinião "lendária", o mangá é histórico, assim como sua autora. Pouco conhecida na Itália,[3] no Japão Riyoko Ikeda é considerada - junto com Moto Hagio e Keiko Takemiya do coletivo “Gruppo 24” - uma das maiores inovadoras do gênero shojo, voltada principalmente para o público feminino. “Nos anos 70 as histórias em quadrinhos para meninas eram principalmente roteirizadas por homens e tratavam principalmente de temas frívolos e estereotipados”, explica Cocchi Pontalti, “as autoras do “Grupo 24”, por outro lado, introduziram um maior realismo e trataram também de questões relacionadas com gênero ou sexualidade". Riyoko Ikeda não se dedicou apenas à Revolução Francesa, mas também à história da Rússia e da Primeira Guerra Mundial (em La Finestra di Orfeo), bem como às biografias de Catarina II e Napoleão. Com uma constante: "Sempre criou personagens femininas inesquecíveis, graças à sua capacidade de fazer jus às múltiplas facetas da sua personagem".
Quase meio século após sua primeira edição, As Rosas de Versalhes ainda é, segundo Cocchi Pontalti, "uma obra atemporal". E Lady Oscar continua revolucionária, mesmo em 2020. Afinal, ela é uma personagem tão disruptiva que nem mesmo os filtros, censuras e cortes impostos pelas redes italianas em sua versão animada conseguiram descaracterizá-la. Matteo Grilli, romancista (Crocevia di punti morti, Effequ) e ensaísta apaixonado pela cultura pop japonesa, atribui-lhe uma "carga de dinamite libertadora", difícil de decifrar para os espectadores-crianças que a viram na TV à tarde dos anos 90, mas destinada a deixar uma marca em suas vidas.[4] No ensaio A libertação dos Otaku (pode ser lido na coleção Nerdopoli, publicada pela Effequ), Grilli reflete sobre a "revolução passada pelas almas" explicando como "a personalidade de uma geração inteira se desenvolveu naquelas áreas cinzentas que a censura ele esperava mitigar". Isso também se aplica a Lady Oscar? “As cenas com caráter sexual explícito foram eliminadas e muitos cortes foram feitos em relação ao mangá”, explica o autor ao Corriere, “mas tudo isso não foi suficiente para evitar que o anime quebrasse tabus de qualquer maneira, pela ambiguidade foi transmitido através do não dito".
Nascido em 1988 e, portanto, criado no que chama de "a era da onipresença da TV comercial", Grilli lembra todas as características que fizeram de Lady Oscar uma "alienígena" e, portanto, um produto televisivo magnético. “Tinha um forte componente dramático, personagens fortemente caracterizados e todo o charme de uma história de aventura”, explica ele, “contava uma série de emoções humanas contraditórias. Em vez de achatar e simplificar, como a maioria dos desenhos animados ocidentais, ele jogou complexidade, beleza e tragédia em nosso rosto”. Além disso, alguns dos personagens que a série apresentou realmente existiram e você poderia conhecê-los nos livros de história, o que causou uma espécie de curto-circuito entre a realidade e a imaginação. À complexidade narrativa, o desenho animado de Lady Oscar acrescentou uma estética anômala: se comparado a outros desenhos animados tinha uma animação desatualizada, compensada com sugestivas pinturas de imagens estáticas e inserções de música clássica hoje quase inconcebíveis no contexto do entretenimento vespertino (entre outros, havia o Bolero de Ravel).
Segundo Grilli, com Lady Oscar, a TV comercial, sem saber, deu às crianças italianas um dispositivo que as ajudaria a desconstruir aquela "visão binária" da identidade que, nas décadas de 1980 e 1990, era predominante, pelo menos nos materiais destinados às crianças . "No cinema e na música já havia algo acontecendo", explica, "mas não para nós. Para nós havia a escolha entre os brinquedos Polly Pocket ou Mighty Max, sapatos Lelly Kelly ou Bull Boys: os passatempos, as roupas e os desenhos animados eram divididos, de um lado os para meninos e de outro os para meninas, com poucas exceções. Mas Lady Oscar não era binário." Isso significa? “Foi transversal. Havia amor envolvido, então poderia ser rotulado como "para meninas"; mas também mostrava duelos e lutas, considerados "para meninos". E depois havia a protagonista que era um modelo icônico de transversalidade”. A própria Lady Oscar François de Jarjayes, é claro. “O bom pai queria um menino, mas infelizmente você nasceu”, [5] cantava a música-tema [**italiana**]. Diante dos olhos das crianças italianas, a espadachim loira se movia no espaço entre o masculino e o feminino, em equilíbrio entre as expectativas da sociedade e sua natureza indomável. Forte demais para ser dobrada, mas também frágil e humana, Oscar sofreu, lutou, amou. Ela se apropriou de suas contradições. E ela encantou a todos. "O seu carácter magnético", explica Grilli, "fez com que ambos os homens e mulheres ficassem fascinados pelo seu encanto, dos dois lados da tela. E a androginia a colocava muito longe do padrão de feminilidade ocidental. Claro, trouxe consigo ambiguidades que eram difíceis de decifrar. Mas, ao mesmo tempo, ela os apresentou com uma naturalidade que faltava em outros lugares. Lady Oscar era a desconhecida, e o que poderia ser mais bonito e atraente para uma criança?”.
[1] O texto faz questão de deixar claro que o mangá se chama "As Rosas de Versalhes". Apesar do destaque que Oscar conseguiu, a própria Ikeda explicou que a ideia é de plural mesmo, que cada uma das mulheres da série (Antonieta, Oscar, Rosalie, Polignac, Jeanne etc.) são rosas de Versalhes. [2] O formato em 5 volumes não é o original. A Rosa de Versalhes teve 10 volumes ao todo e terminou de ser publicado em 1974 com um gaiden que ocupa boa parte do último volume. Antes da edição da J-Pop, a obra já tinha saído completa na Itália várias vezes, ainda que em outros formatos. Eu tenho uma delas. [3] Eu discordo desse "pouco conhecida", porque vários mangás da autora saíram na Itália, praticamente tudo, aliás. E Ikeda já visitou o país muitas vezes, participou de eventos. Ela pode não ser tão conhecida das novas gerações, mas a afirmativa é bem questionável. [4] Só para constar, Grilli deve ter assistido uma segunda, ou até terceira, exibição da Rosa de Versalhes nas TVs italianas. A primeira exibição italiana foi em 1982. Noa anos 1990, o mangá já estava em uma terceira publicação no país, se eu não estou enganada. [5] Esse verso é da primeira abertura italiana, cantada pelo grupo I Cavalieri del Re. Nos anos 1990, a abertura era outra e cantada por Cristina D'Avena. Parece que a maioria dos italianos mais velhos preferem a primeira abertura utilizada no país.
Eu já perdia a conta de quantas edições de A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) de Riyoko Ikeda foram lançadas na Itália, segundo esta página aqui, esta nova é a sétima. Sim, isso mesmo. E todas por editoras distintas. Enfim, a atual, que será lançada em dezembro, é da J-POP Manga e vem em uma caixinha muito bonita e com uma bonequinha de Oscar. Comparem com as coisas que saem aqui. Com a desvalorização do Real, é impossível para mim sonhar em comprar esse material. Eu tenho a quarta edição italiana, a primeira que não foi espelhada. Acho que a única com os gaiden dos anos 1980, se estiver errada, por favor, alguém me corrija. Fiz um vídeo sobre ela anos atrás.
O Pro Shojo Spain postou o cartaz da exposição "Sailor Moon: 25 anni in Italia'. A tradução é desnecessária, eu acredito. Na Itália, Sailor Moon ( (美少女戦士セーラームーン) caiu no gosto dos fãs de anime, mangá, ou de meninas com super poderes tanto quanto em qualquer lugar do mundo. Só que, na Itália, mesmo em ano de pandemia, alguns animes recebem uma atenção especial, por conta disso, uma exposição será aberta no dia 19 de setembro em Turin com 300 peças contando não somente a história da série japonesa, mas a sua influência na cultura italiana. Sim, a influência cultural de Sailor Moon na Itália. A exposição ficará aberta até o dia 10 de janeiro. A página da exposição é esta aqui.
A partir do Tweet, fui atrás de informações sobre a exposição e tropecei em um artigo do La Stampa, um dos principais jornais do país comentando a exposição e a importância de Sailor Moon. Tinha que traduzir, ele está logo abaixo:
Sailor Moon completa 25 anos: uma exposição para a precursora de Girl Power
TURIN. Duas adolescentes com grandes poderes enfrentam perigos imensos e uma história de amor nasce entre elas. São Rahne Sinclair, uma mutante com o poder de se transformar em lobisomem, e Danielle Moonstar, também mutante (os mutantes nascem com superpoderes que desenvolvem na adolescência) com a capacidade de visualizar os medos das pessoas, protagonistas de "The New Mutants" [1], o novo filme da Marvel nos cinemas a partir de 2 de setembro. Em nossos dias é bastante comum ver meninas com superpoderes que não são inferiores aos masculinos, aliás, às vezes até gays, mas em 1995, quando o anime "Sailor Moon" chegou à Itália, foi verdadeiramente revolucionário.
Os desenhos animados japoneses, que chegaram às nossas redes de televisão na segunda metade dos anos 70, já haviam quebrado muitos tabus nas séries infantis: da morte (onipresente em séries de robôs como "Grendizer"), ao sexo (bombas sexuais como Fujiko di "Lupin III"), mas finalmente vimos meninas heroicas, e sem disfarces como um homem como Lady Oscar.
A série, criada por Naoko Takeuchi em 1991, é centrada em Usagi Tsukino (Coelhinha na versão italiana), uma menina preguiçosa e descuidada de 14 anos que, graças ao encontro com a gata falante Luna, descobre que ela é Sailor Moon, a guerreira de amor e justiça, e mais tarde encontra seus companheiros de aventura: Sailor Mercury, Sailor Mars, Sailor Jupiter, Sailor Venus, Sailor Uranus, Sailor Netuno, entre outros, todos com uma fantasia de marinheiro inspirada nos uniformes de estudantes japoneses.
Criada por Naoko Takeuchi em 1991, a série chega à Itália em 21 de fevereiro de 1995. E agora o Mufant, o Museu do Fantástico e da Ficção Científica da via Reiss Romoli comemora na exposição "Sailor Moon: 25 anos na Itália", que estreia dia 19 de setembro no festival "Loving the Alien" (de 18 a 20), três dias dedicados a imagens fantásticas. O Mufant também dedicou uma estátua de três metros à Sailor Moon no parque.
A exposição tem curadoria de Silvia Casolari e Davide Monopoli do museu Mufant com a editora Nino Giordano, que trabalhou no relançamento italiano de Sailor Moon em 2010-2011, e a apaixonada curadora Leone Locatelli do heroica.it, um site dedicado a figuras femininas na cultura pop. E, na verdade, as Sailors foram as precursores do chamado Girl Power, que logo se espalharia para o Ocidente com heroínas de ação corajosas como Xena, a princesa guerreira, e Buffy, a caçadora de vampiros.
“O fenômeno das marinheiras guerreiras está ligado ao chamado feminismo da terceira onda, que defende que uma mulher pode ser poderosa e ter sucesso mantendo sua própria feminilidade, suas próprias contradições, ela não precisa necessariamente assumir características masculinas", [2] diz Locatelli. "As sailors são todas diferentes e multifacetadas, até contraditórias, e o feminismo da terceira onda também realça essa característica".
Além disso, Sailor Moon se tornou um ícone gay: “A comunidade LGBT sempre foi fascinada por personagens femininas fortes: Sailor Moon na vida cotidiana é indecisa e preguiçosa, mas quando ela luta, se transforma, ela nunca desiste. Além disso, a série tratou de temas LGBT com bastante antecedência, basta pensar na história de amor entre Sailor Urano e Sailor Netuno".
Na exposição estão também muitos brinquedos Sailor Moon, produzidos na Itália pela Giochi Preziosi, muito importantes para Locatelli: “A minha paixão por Sailor Moon nasceu quando vi a imagem de uma das guerreiras, Sailor Jupiter, numa caixa de brinquedos. Era 1995, eu ainda estava no jardim de infância, me apaixonei imediatamente pela personagem e fui para casa assistir o desenho animado. Eu era pequena e via as guerreiras da lua como se fossem irmãs mais velhas, que antes de mais nada me ensinaram a importância da amizade".
[1] Não sabia que o filme "maldito" da Marvel, Novos Mutantes, tinha estreado finalmente. [2] Eu diria que a Terceira Onda questiona a própria existência de papéis femininos e masculinos como algo fixo, natural. Tratando gênero como uma espécie de performance social, conforme a Judith Butler. Não é a ideia de que você pode agarrar a sua feminilidade e ser feliz com ela, como se houvesse o tal feminino imutável a ser alcançado e há toda uma associação do feminino que foi questionada e precisava ser rompida, também.
Ontem, acordei me sentindo mal, nada a ver com a suspeita de COVID-19, eu estou aguardando resultado do exame, mas com estresse e ansiedade. Por conta disso, cismei de assistir um filme que fosse leve, divertido e que tivesse algum apelo especial, vamos lá, outro filme com Colin Firth. Como já fazia alguns dias que eu olhava para uma das prateleiras de DVDs e estava lá A Última Legião (The Last Legion) olhando para mim, foi a minha escolha. Inclusive, em 2017, eu fiz um post sobre os filmes que precisava rever, A Última Legião está nessa lista. Mas sobre o que é A Última Legião?
O filme, que é adaptado de um livro de mesmo nome de autoria de Valerio Massimo Manfredi, conta a história do fim do Império Romano do Ocidente, a queda de Roma, enfim, e tenta fazer uma ligação entre este acontecimento e a Lenda do Rei Arthur. Como era moda na época, o filme é de 2007, mistura a IX Legião nesse bolo todo. Temos Colin Firth como um improvável comandante romano, Aishwarya Rai como uma guerreira invencível e Ben Kingsley soltando bolas de fogo pelas mãos. Vou parar de debochar e escrever um resumo decente e solene.
Roma, 460 d.C., Romulus Augustulus (Thomas Brodie-Sangster) está prestes a ser coroado imperador. Seu pai, Orestes (Iain Glen), tomara o poder com o apoio do Senado, mas preferira colocar o filho no trono como imperador fantoche. Bárbaros aliados dos romanos mandam uma comitiva em nome de Odroaco (Peter Mullan), exigindo que Orestes cumpra sua promessa e lhes dê 1/3 da Itália. O representante do senado, Nestor (John Hannah), fica surpreso que tal oferta tivesse sido feita. Nesse momento, a Itália era basicamente o que tinha sobrado do Império do Ocidente. Orestes recusa, e Wulfila (Kevin McKidd), o líder da comitiva, diz que ele se arrependerá.
Para proteger o jovem imperador, é convocada a "Nova Invicta", a última legião que havia servido na África (*onde, não se explica, porque os territórios tinham sido perdidos fazia tempo*). Seu comandante, Aurelius (Colin Firth), não se sente muito confortável com a missão, ele detesta políticos e filósofos. Logo de cara, ele encontra o jovem imperador sem saber que se tratava do novo César, ele também conhece Ambrosinus (Ben Kingsley), o professor do menino, e ele lhe parece um filósofo, logo, alguém pouco confiável. Ambrosinus é de Bretanha e está procurando a lendária espada que Júlio César teria levado para a Itália e que deveria ser empunhada por um rei justo que lideraria o povo da sua terra natal. Ele desconfia que esse rei é Romulus Augustulus, mas é demitido por Orestes por causa da sua impertinência.
Os godos atacam Roma, os pais do jovem imperador são mortos, a cidade é conquistada, a Nova Invicta é massacrada. Odroaco fica na dúvida entre matar Romulus, e Wulfilas queria fazer isso com suas próprias mãos, ou poupar a vida do menino. Graças à intervenção de Ambrosinus, ele decide enviar o garoto e o professor para a ilha de Capri, o antigo palácio fortaleza de Tibério (42 a.C.-37 d.C.), e que faria as vezes de prisão. Aurelius, que tinha sido dado como morto, vai até a casa do senador Nestor, um amigo de longa data e fica a par dos planos para salvar Romulus.
O imperador do Oriente (*Bizâncio*) oferecia asilo para o menino e pretendia apoiar a retomada do poder, segundo seu embaixador (Alexander Siddig). Aurelius iria resgatar o que sobrara de seus homens e contaria com o apoio de um dos soldados bizantinos (Aishwarya Rai), que ele não sabia ser uma mulher ainda, e partiria para Capri. Na ilha, Ambrosinus descobre o esconderijo da espada lendária, que é resgatada por Romulus. O plano de resgate dá certo, porém, o Senado e os bizantinos tinham retirado o apoio ao jovem imperador. O menino deveria morrer. Não resta alternativa salvo partir para a Bretanha em busca da IX Legião e tentar recuperar Roma e o trono para Romulus Augustulus. Já Ambrosinus acredita que com a espada será possível derrotar o tirano local, Vortgyn (Harry Van Gorkum).
Assim, por esse resumo, quem conhece alguma coisa da História do final do Império Romano do Ocidente já sabe o quão zuado esse filme é. A data, 460, é uma das primeiras coisas que aparecem na tela. Para começo de conversa, Roma caiu em 476. Mas, talvez, seja importante dizer que o Império Romano estava partido em dois (*pelo menos*) desde 395. Normalmente, quando a gente dá aula desse conteúdo na escola, sinalizamos que, para salvar o Oriente, o Ocidente foi sacrificado. Os imperadores do oriente chegavam a subornar líderes desses povos germânicos para que eles não pilhassem seus territórios e seguissem para a Europa.
A parte rica do Império, que estava recuperada da crise do século III, tinha capital em Constantinopla, antiga Bizâncio. Já a parte a parte Ocidental sofria com instabilidade política, revoltas militares, não tinha condições de conter as migrações e/ou invasões de povos germânicos e alguns não-germânicos, como os hunos. Por isso, para evitar o mal pior, negociavam-se acordos que tornavam os bárbaros federados, com os romanos lhes cedendo terras. Muitos generais dos últimos anos do Império do Ocidente eram de origem germânica.
Roma foi saqueada em 410 pelos visigodos (*falei disso em uma resenha de livro-mangá no ano passado*) e em 455 pelos vândalos (*que levaram a imperatriz e suas duas filhas cativas*), antes de ser conquistada pelos hérulos em 476. Só que desde 402, os imperadores passavam boa parte de seu tempo em Ravena, uma cidade mais segura, fortificada e menos insalubre do que tinha se tornado Roma, a capital oficial. O pai de Romulus Augustulus, o usurpador Orestes, foi morto em Ravena, não em Roma. E quem era a maior autoridade residindo na capital oficial? O bispo. Por exemplo, quem foi parlamentar com Átila, rei dos hunos, e pedir que ele poupasse Roma e a Itália não foi o imperador, mas o papa Leão I.
De todos os problemas históricos que eu vejo em A Última Legião, o único que me incomoda de verdade, é que não há menção qualquer ao cristianismo, nem à Igreja Católica, nem à heresia ariana, pois praticamente todos os povos germânicos que invadiram o Império eram cristãos, só que não seguiam a ortodoxia. Parece que era todo mundo pagão e, bem, isso está muito errado. Voltando aos invasores, os bárbaros que tomam a cidade são chamados de "godos" no filme, mas eram uma mistura de vários povos, liderados pelos hérulos. Os godos, neste caso, os ostrogodos, só irão conquistar Roma mais tarde, quando Teodorico mata Odroaco com a autorização do Imperador do Oriente.
Aqui, vamos esclarecer outra coisa que o filme coloca errado. Eram dois impérios, verdade, mas os seus governantes mantinham ainda relações próximas de parentesco e/ou casamento. O menino Romulus fala para o pai, e há medo em seus olhos, que os últimos cinco imperadores foram assassinados. Não era bem verdade. Os imperadores do Oriente (*havia dois co-governando naquele momento*) não reconheciam Romulus Augustulus como imperador, para Constantinopla, Júlio Nepos era o legítimo governante e tinha sido derrubado por Orestes. Odroaco e seus homens tomam Roma com o consentimento dos imperadores do Oriente. A cena com Wulfila pisando a coroa imperial tem efeito dramático, mas o que os bárbaros fizeram foi literalmente enviar a coroa para o Oriente, afinal, não existia mais imperador em Roma.
O que o cinema normalmente não entende, e A Última Legião é uma fantasia, não podemos perder isso de vista, é que muitos desses povos germânicos tinham uma relação de amor e ódio com os romanos. Consideravam-se melhores guerreiros, em alguns casos, houve conflito religioso com os católicos, mas pela convivência longa com os romanos, germânicos começaram a ser formalmente admitidos no exército romano no século III, eles admiravam sua cultura, suas leis, e, não raro, consideravam-se vassalos (*não pensem em sentido feudal, por favor*) dos imperadores do Oriente. Então, nunca houve esse apoio dos orientais ao imperador deposto, porque eles não consideravam Romulus imperador. E, vejam só, o menino, que era mais velho do que o do filme foi poupado.
Romulus Augustulus não foi executado, nem trancafiado em uma prisão inexpugnável. Ele não foi visto como ameaça, não existia essa história de que ele tinha sangue dos césares, e há evidências de que viveu até a idade adulta sem se envolver com política. Quem terminou sendo assassinado em 480 foi o imperador considerado legítimo, Júlio Nepos, mas não vou falar dele, não. O fato é que o domínio de Odroaco durou até 493, quando ele foi morto por Teodorico, rei dos ostrogodos, enviado de Constantinopla para se livrar desse antigo aliado que começara a achar que podia ser mais do que era. Resumindo, o Império do Oriente mantinha relações com esses bárbaros que implicava no reconhecimento de sua autoridade e que eles governavam, porque Constantinopla assim permitia. Dos povos germânicos mais importantes desse período, o único que não se submetia era os vândalos, mas o filme não é sobre eles e eu já estou m esticando aqui.
Vamos falar dos clichês, porque são muitos, o tempo inteiro e para todos os gostos. O primeiro, que me saltou aos olhos desde a primeira cena de Alexander Siddig, é a representação do bizantino. Antes um esclarecimento, os habitantes do Império do Oriente chamavam-se a si mesmos de romanos até a queda de Constantinopla; já os ocidentais, os chamavam de gregos e, mais tarde, de bizantinos, termo que usamos até hoje. Lembro da minha orientadora de graduação e mestrado, Prof.ª Andréia Frazão, discutindo isso em O Incrível Exército de Brancaleone, os bizantinos pouco aparecem no cinema ocidental, mas quando estão lá é para marcar que não se deve confiar neles em nenhum momento.
Era essa a visão que os medievais tinham dos orientais, "não se deve confiar nos gregos", e voltando mais atrás ainda, a expressão "presente de grego" ainda é usada em nossos dias para lembrar do Cavalo de Troia. O termo bizantino também entrou na nossa língua em sentido pejorativo. A terceira definição do Houaiss é "que tem caráter de bizantinismo ('tendência', 'ato'); frívolo, inútil, pretensioso". Estudamos muito pouco e mal os bizantinos e me disseram que sumiu do BNCC (Base Nacional Comum Curricular) do 6º ano como sequência didática independente. Abaixo, um mapa dos dois Impérios em 476.
Enfim, Alexander Siddig, o Dr. Bashir de Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, sempre é escalado para fazer papel de alguma minoria, ou ele é o árabe gente boa, ou é o árabe malvado, ou é latino, já foi Aníbal em um docudrama sobre essa personagem e neste filme é o bizantino genérico. Ele entra em cena e você já sabe que não deve confiar nele, há uma aura escura em torno do sujeito que se chama Theodorus Andronikos. Ele se veste com roupas escuras, tem aquele olhar dúbio, fala macia, olheiras, meio que kit completo de vilão pé de chinelo, só faltava alguma cicatriz sinistra.
Outros dois em papel clichê são Iain Glen e John Hannah. Este último, salvo por Quatro Casamentos e um Funeral, não me vem a cabeça em nenhum papel que não seja o do sujeito covarde, ou de caráter duvidoso. Ambos se aplicam nesse filme. JáIain Glen, que eu acho super charmoso, sempre, quase nunca falha (*exceção My Cousin Rachel*), é o cara rancoroso, chantagista (*vide Wives and Daughters e Downton Abbey*), cheio das más intenções, ou capaz de fazer tudo pelo poder. Bingo! Ele entra em cena e já se sabe para quê. Trata o filho como objeto, destrata Ambrosinus, e fez promessas para os bárbaros que não pretende cumprir. Morre de espada em punho, não como um covarde. Pelo menos isso.
Vamos falar de Ambrosinus. Eu realmente acredito que muita gente embarcou nesse filme por dinheiro, por amizade, ou por diversão, só pode. Esse deve ver o caso de Ben Kingsley. Ele sempre parece estar se divertindo no papel, as cenas dele com o menino-césar, e o Thomas Brodie-Sangster, era um garotinho bem fofinho nessa época, são sempre muito legais. Mas quem é esse sujeito? Sabemos, desde o início, que ele é um druida. Lá, bem no fim do filme, seu nome celta é revelado: Merlim.
Merlinus Ambrosius é o nome latino da personagem que aparece em várias lendas medievais ligadas, principalmente ao Rei Arthur, mas, também, a Uther Pendragon e a uma personagem que normalmente não é tão conhecida, mas se chama Ambrosius Aurelianus, um dos últimos líderes na Inglaterra que se considerava romano. Acho que a primeira vez que ouvi falar dele foi em As Brumas de Avalon. Mas quem é essa pessoa no filme? A personagem de Colin Firth, que é chamado na película de Aurelianus Caius Antonius, ou, Aurelius, como ele é chamado no filme.
A personagem de Ben Kingsley é uma espécie de versão do mestre Yoda, parece muito calmo e inofensivo, mas, se precisar, entra em um modo porradeiro. E ele tem um passado que o une ao vilão, Vortgyn, que é mais uma dessas personagens que navega entre História e lenda. Não se sabe se existiu, se ele era um rei, se ele era um chefete local com má fama. o fato é que Ambrosinus foge da Inglaterra, porque Vortgyn que matá-lo e quer a espada, já o Merlim precisa da Excalibur para destituir o vilão. Durante todo o filme, Ambrosinus não faz grandes atos de magia, só pequenos truques de salão. Mas, na batalha final, ele sobre na Muralha de Adriano (*tem que ser ela*) e começa a atirar umas bolas de fogo feitas com efeitos especiais muito grosseiros MESMO.
Se ele é capaz de atirar umas bolas de fogo, por qual motivo ele não tinha feito isso antes? Ele tinha quase morrido nas mãos de Wulfila e não usou esse poder, ou algo semelhante? Lembrei de Kail em Anatolia Story que é descrito como um mago super poderoso e blá-blá-blá, mas que em 28 volumes de mangá usou seu poder umas três vezes e só. Mesmo na batalha, ele usa em uma cena e não mais, porque ele sai atrás do vilão e deixa todo mundo para trás em uma situação bem complicada. Claro, há uma lógica nisso, morto o chefe, o exército se desfaria, isso é uma lógica daquele período, os laços eram de fidelidade pessoal. De qualquer forma, poderiam justificar o arroubou pirotécnico dizendo que nosso Merlim ficava mais forte quando perto das pedras de Stonehenge, ou outra bobagem do tipo.
A esperança das personagens era encontrar a tal IX Legião Hispânica. OK, mas existiu essa tal IX Legião? Sim, ela existiu, mas seu símbolo não era um dragão, como está no filme, é porque a legião que aparecia no livro original era outra e o dragão se prestava melhor para a película. A Nona participou da conquista da Bretanha, mas seus registros na Inglaterra cessaram por volta do ano 108. Daí, a lenda de que ela teria desaparecido no norte da Inglaterra e que aparece no filme O Centurião. Porém, mais recentemente, se descobriram traços da IX Legião em documentos sobre a região de Nijmegen (Holanda), em 120. A Nona pode ter sido mandada para outra missão e como muitos registros se perderam, ou não foram recuperados, a gente não tem como mapear.
O fato é que ela não aparece em duas listas de legiões romanas feitas no governo de Septímio Severo (193-211). E não há nada de errado nisso, legiões poderiam ser desmobilizadas, desmembradas, massacradas, o que seja. Pois bem, eles encontram a Nona, mas não era bem aquilo que eles esperavam. Rompido o contato com Roma, perdidos no extremo norte do que seria o território do Império, seus soldados dispersaram, ou se acomodaram. A Nona tem importância para o desfecho do filme e, acredito, que a batalha final seja uma referência à Batalha de Monte Badon, uma das últimas vitórias dos britânicos que se achavam romanos contra anglos, saxões e outros invasores.
Falando em representatividade nesse filme, A Última Legião tem mais de dez anos, mas os romanos negros não eram novidade para os estudiosos nessa época. em um texto recente que eu escrevi, Havia negros na Inglaterra de Jane Austen, mas eles parecem invisíveis, falei de túmulos de mulheres romanas indiscutivelmente negras na Inglaterra. Há uma personagem negra no filme, uma só, Batiatus (Nonso Anozie), um dos legionários de Aurelius, e que tem boas cenas no filme, mas todos os membros da Nona são homens brancos, louros em sua maioria. Há diversidade no filme, mas a ideia de um Império Romano branco permanece visualmente forte na película.
Vamos falar de Aishwarya Rai, que é chamada por Merlim no final de "donzela guerreira", já falei do mito várias vezes. Enfim, eu adoro essa atriz, ela é muito competente e, claro, belíssima. Eu não consegui encontrar meu livro, mas no original a guerreira vinda da Índia não existe. O que temos é uma jovem romana chamada Lívia, que se disfarça de rapaz (*se minha memória de mais de dez anos não falha*) para tentar evitar um estupro e termina salvando Aurelius e o acompanha na aventura. Eu nunca conclui a leitura de A Última Legião e, ontem, depois de terminar o filme, fui procurar na estante onde o vira da última vez. Não achei. OK.
A personagem de Aishwarya Rai, Mira, aparece pela primeira vez com o corpo totalmente coberto e como um dos guarda-costas do embaixador bizantino. Todos a tomam por um homem e o primeiro a descobrir o segredo, que, a partir daí, ela não faz questão de esconder é Aurelius. Eu não lembrava que tinha sido tão cedo no filme, mas foi bem no comecinho. A descoberta se faz em uma cena que é referência direta à Orgulho & Preconceito (1995). Mira sai da água vestindo somente uma camisa molhada e Aurelius fica sem palavras, Colin Firth faz a cara de pastel que ele constantemente faz em seus filmes, vira as costas e vai embora. Mais tarde, ela explica que é praticante de Kalaripayattu, considerada a mais antiga arte marcial do mundo. Há um vídeo aqui, para quem quiser ter uma ideia.
Quem é o guerreiro mais competente do grupo? Mira. Ela não obedece as ordens para ficar esperando no barco e derruba sozinha uns trinta inimigos enquanto os machos (*menos Aurelius, que estava fazendo outra coisa*), especialmente, Demetrius (Rupert Friend), ficam parados olhando sem acreditar e sem mexer uma palha para ajudar. Essa parte do resgate na fortaleza é a que reúne a maioria das cenas cômicas pensadas para serem assim, passou dessa parte, o humor é involuntário.
Mira não obedece ninguém, não que Aurelius seja mostrado como um sujeito que quer se impor a ela, mas se ele disser para que ela faça alguma coisa, ela vai fazer exatamente o contrário e vai dar certo, ou ele não teria chegado vivo no fim do filme. Só que assim como Batiatus, o legionário negro, Mira é única. Nenhuma outra mulher tem destaque no filme, que não cumpre a Bechdel Rule, a mãe de Romulus (Beata Ben Ammar) teve algumas falas, a menina Igraine (Alexandra Thomas-Davies) também, mas a única mulher com destaque é Mira. Então, seu caráter de exceção não se presta a discutir gênero de verdade.
É um caso que poderia ser incluído no Princípio de Smurfette, isto é, "(...) é a prática da mídia, como cinema e televisão, de incluir apenas uma mulher em um conjunto inteiramente masculino. Estabelece uma narrativa dominada por homens, onde a mulher é a exceção e existe apenas em referência aos homens." Mira é muito legal, mas não sabemos como ela saiu da Índia, ela diz que é de Kerala, ou como chegou no Império do Oriente, como entrou para uma guarda de elite etc. E ela está no filme para ser uma atração nas cenas de combate, assumir uma função materna em relação ao jovem Romulus, algo que ela abraça de imediato, diferentemente de Aurelius, que demora a se comportar como um pai substituto do menino, e, sim, para ser o par romântico de Colin Firth.
Falando em romance, a partir do momento em que Aurelius descobre que Mira é uma mulher, a moça parece disposta a conquistá-lo. Ela joga verde para colher Colin Firth, por assim dizer, o tempo inteiro. Ele se esquiva, ela insiste. Por fim, na cena que é a mais sensual do filme, ela o desafia para um treinamento e, a meu ver, se deixa derrotar de propósito, porque algo que fica muito evidente na história é que Aurelius deveria se aposentar. Não que ele fosse um mau soldado, mas porque ele tinha pelo menos uns trinta anos de batalhas constantes. O fato é que os dois se acertam, tem algumas cenas ternas, mas talvez para atender ao mercado indiano, não sei, não há beijo entre os dois. A não ser que esteja em alguma cena cortada que eu não assisti. De qualquer forma, um dos motivos para reassistir A Última Legião foi para ver o casal Colin Firth e Aishwarya Rai juntos. A graça é que ele foi Mr. Darcy em 1995 e ela fez a Elizabeth Bennet de Bride and Prejudice (2004).
Falando de Colin Firth, eu gosto de vê-lo atuando sempre, mas não sei se ele foi a melhor escolha para o papel do comandante romano endurecido por uma vida na frente de combate. Talvez, eu esteja errada e o tom fosse aquele mesmo, o do sujeito que está de saco cheio de politicagem e violência e que, ainda que não admita, precisa se aposentar. A cena, que tem tom humorístico, em que Mira desobedece e volta para ajudá-lo é bem ilustrativa, ele tinha lutado tanto, com tanta gente e, de repente, aparecem mais uns quinze sujeitos. A cara de desânimo, cansaço e, bem, Mira o salvou. Aliás, a sequência é engraçada por vários motivos, um deles é o "de onde veio tanta gente"? Para guardar um moleque em uma fortaleza inexpugnável, bastava uma meia dúzia de sujeitos, não precisava ser um exército.
Enfim, Mira e o jovem Romulus dão as condições para que Aurelius se aposente, não mais na Itália natal, mas na Bretanha. Quer dizer, se ele é o Ambrosius Aurelianus da lenda, se aposentou, não. No filme, seu último desafio foi enfrentar Wulfila que vai atrás de Romulus e da espada, como se o fato do menino estar vivo na Inglaterra fizesse alguma diferença para o poder de Odroaco. O fato é que o vilão, porque Wulfila é o vilão mais importante e tem a cicatriz feia no rosto para provar, odeia o menino e passa a odiar Aurelius, também. Era um sujeito insistente e burro, deveria ter sido aniquilado pelo Ambrosinus no início do filme, mas o Marlin só usa seus poderes quando convém.
Falando das locações e figurino agora. Gostei de terem colocado uma Roma suja e meio decadente. Acredito que esse deveria ser o tom da cidade na segunda metade do século V mesmo. Agora, quando mostram o castelo de Vortgyn... Tsc... Tsc... Tsc... Até queria saber qual castelo era aquele, porque é uma construção dos últimos séculos da Idade Média. Um imenso castelo com muralha e várias torres que em nada se pareceria com as fortalezas e castelos do século V. Algo bem clichê, também, é a história de ir à pé para a Gália atravessando os Alpes. Não fui pesquisar, mas acredito que seria mais seguro e até rápido ir de barco para a Inglaterra. Mas e o efeito dramático de atravessar montanhas geladas, não é mesmo? E eles tinham que desembarcar em Dover, porque o canal se cruza de barco, para que aparecessem as escarpas branquinhas. É cartão postal obrigatório.
O figurino é aquilo, a impressão que eu tenho é que foi coisa alugada de várias produções. Temos roupas que parecem romanas, e eu adoro homens usando toga, mas isso dura pouco. A maioria das roupas dos protagonistas é uma mistura genérica de couro e peles. Entre os antigos membros da Nona Legião, colocam até um sujeito usando tartan. Muito sem noção mesmo. Os extras do exército de Odroaco e, mais tarde, Vortgyn, juntam roupas de vários momentos históricos. Temos sujeitos com rosto pintado na Bretanha. E me colocaram um godo genérico com aquele capacete viking com chifres que ninguém nunca usou.
Isso ficou grande demais, mas preciso terminar. Uma das chaves para se entender essa salada deliciosa, porque o filme é divertidíssimo, é olhar o currículo do seu diretor. Doug Lefler é criador de storyboard, roteirista e diretor de séries e filmes. Antes de A Última Legião, acredito que o trabalho de maior destaque dele como diretor foram episódios das séries Hércules e Xena. Quem conhece esse material, reconhecerá a grife do diretor em A Última Legião. Entenderam esse descompromisso com a história, esse mone de clichês e a garantia de diversão? Pois é. Um dos roteiristas, Jez Butterworth, depois seria o principal escritor da série Britannia, sobre a qual já li coisas boas e ruins, e fala, claro, da Inglaterra debaixo do domínio romano.
Acho que é isso. Não comentei que o Rupert Friend está mais bonitinho nesse filme do que em Orgulho & Preconceito (2005), mas ainda não tanto quanto estará em A Jovem Rainha Vitória. Devo ter esquecido de comentar uma ou outra coisa. Foi divertido escrever, mas deu mais trabalho do que eu gostaria. Por favor, nunca passem A Última Legião para uma turma na escola como filme histórico, não o recomendem para ninguém como tal, mas podem ir sem medo se o objetivo é se divertir por quase duas horas. É um filme simpático, não se vende como épico, nem nada assim, só uma boa diversão mesmo. E a Última Legião recebe o máximo de estrelinhas na minha cartela do "É ruim, mas eu gosto."