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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Premiada autora Yu Miri foi assediada na internet após criticar o racismo dos políticos japoneses.

O Unseen Japan trouxe uma matéria falando dos ataques xenofóbicos sofridos pela romancista Yu Miri, filha de imigrantes coreanos e descendente de um grupo chamado de Zainichi (在日), isto é, residentes estrangeiros no Japão.  Seu pai veio para o Japão quando criança, na época em que a Coreia estava ocupada pelos japoneses.  Sua mãe migrou na época da Guerra da Coreia.  Yu Miri, nascida em 1968, viu seus pais se separarem por causa da violência doméstica, sofreu racismo e bullying, tentando tirar sua vida mais de uma vez.  Seu refúgio e salvação foi a literatura e ela é uma das mais premiadas romancistas do país, que não deixa de falar das minorias, dos estrangeiros e de questões que sempre estiveram presentes em sua vida.  Por conta disso, mesmo antes dela criticar o atual governo japonês, eventos de lançamento de seus livros foram cancelados por ameaças de ataques com bomba.  Seu romance mais importante se chama Tokyo Ueno Station (上野駅公園口/Ueno-Eki Kōenguchi).  Tem em inglês e em várias outras línguas no Amazon.

Voltando para a matéria do Unseen Japan, a autora criticou os discursos da extrema direita japonesa, inclusive o partido mais radical, o Sanseito, e seu slogan "Japoneses em Primeiro Lugar" e "(...) criticou a recente retórica política anti-estrangeiros no Japão, alertando para a crescente normalização de atitudes excludentes. Suas postagens rapidamente atraíram uma onda de abusos discriminatórios, (...)".  Os haters da internet começaram a atacar a autora argumentando que ela não era japonesa e não deveria opinar sobre a política do país no qual nasceu, cresceu e sempre residiu.

Segundo a matéria, "A reação negativa logo se tornou tão severa que seu editor na revista Weekly Gendai, Hatori Ryō, saiu publicamente em sua defesa, condenando os ataques .  “Não posso fechar os olhos à discriminação”, escreveu ele.  Ele argumentou que estrangeiros e minorias étnicas que vivem no Japão têm todo o direito de expressar opiniões sobre a sociedade em que vivem.".  O racismo, acirrado pelos discursos contra os imigrantes, parece estar crescendo no Japão em um país que nunca foi muito acolhedor com os diferentes, inclusive quando se trata de japoneses étnicos.

Ainda segundo a matéria, o país tem uma Lei de Eliminação do Discurso de Ódio, que é de 2016, mas "(...) a retórica discriminatória persiste, tendo grande parte dela migrado das ruas para as redes sociais. Em 2020, por exemplo, o presidente de uma grande empresa de cosméticos utilizou retórica anti-coreana ao atacar seus concorrentes.".  Ou seja, há mais questões envolvidas nessa onda contra os imigrantes e seus descendentes do que sentimentos racistas, ainda que eles estejam lá.  De qualquer forma, o caso tem atraído grande atenção e provocado uma onda de apoio à autora, só não acho que o governo atual irá se comprometer em integrar pessoas, acredito mesmo que irá insistir em excluir.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Campanha do Casamento Igualitário tem um revés no Japão, mas a luta continua

Vou começar reproduzindo um parágrafo do meu post de março deste ano, quando o tribunal superior de Osaka reconheceu que a não existência do casamento igualitário vai contra a constituição japonesa: "No Japão, não há reconhecimento por parte do governo federal do casamento igualitário.  Como o ordenamento jurídico lá é diferente do nosso, as prefeituras e governos regionais podem conceder direitos e mesmo reconhecer os casamentos de pessoas do mesmo sexo, mas a constituição não reconhece.  Dito isso, a coisa pode ser judicializada e ir parar em uma corte federal e o cônjuge não ter seus direitos respeitados.  Uma das críticas da Anistia Internacional  é que esses acordos não asseguram oferecendo alguns direitos, mas estes não dão direitos como herança, visitas hospitalares ou reconhecimento parental."

Esses reconhecimentos municipais ou regionais, no entanto, não são suficientes, pois, como explica o Unseen Japan: "(...) os sistemas de união estável não podem garantir direitos abrangidos pelo governo nacional, como direitos de herança. Eles também estão vinculados ao município de residência atual, o que significa que os casais podem perder o reconhecimento da união se precisarem se mudar (por exemplo, por motivo de transferência de emprego)."

Muito bem, o movimento Marriage For All vem conseguindo avançar no Japão utilizando-se da seguinte estratégia, conseguir que as cortes supremas das províncias reconheçam que todos são iguais diante da lei e que, por isso, negar aos LGBTQIAPN+ o direito de se casar e gozar dos mesmos direitos das pessoas cis hetero seria inconstitucional.  Sendo assim, onze cortes supremas regionais reconheceram total ou parcialmente este princípio.

Depois de uma série de vitórias,  no entanto, no dia 28 de novembro, o Supremo Tribunal de Tokyo reconheceu que a identidade de gênero e a orientação sexual como características pessoais importantes que devem ser levadas em consideração em questões legais, porém, não apontou inconstitucionalidade na negativa do governo federal em reconhecer os casamentos de pessoas LGBTQIAPN+, bastando, na visão do tribunal, que se conceda a união estável, algo que já existe em Tokyo.  Os militantes e advogados demonstraram sua insatisfação, pois a decisão do tribunal negaria um princípio de igualdade que está na constituição do país.  

Shinya Yamagata, ao centro, um dos autores de uma ação judicial que contesta a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Japão, e seus advogados realizam uma coletiva de imprensa em Tóquio, em 11 de dezembro de 2025, após apresentarem um recurso ao Supremo Tribunal. (Kyodo)

Pela decisão do Tribunal Superior de Tokyo: "(...) o sistema de casamento atual é útil para preparar um ambiente para a criação dos filhos e que é razoável interpretar "marido e mulher" como um homem e uma mulher.  O tribunal também afirmou que a liberdade de casamento garantida pelo Artigo 24 da Constituição não se aplica a casais do mesmo sexo."  Esse trecho veio da matéria do Mainichi Shinbum relatando que o grupo entrou com um recurso no tribunal com o objetivo de reverter a decisão de 28 de novembro, a primeira derrota da campanha em um tribunal superior até o momento.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Comentando Zootopia 2 (EUA/2025): o retorno de Judy e Nick não decepciona!

Semana passada, assisti Zootopia 2 com a Júlia.  Foi no sábado da semana de estreia.  Comecei a resenha e ela está atrasada.  Tenho sido bem negligente com as minhas resenhas e fica  parecendo que eu assisti menos coisas ainda, porque vi quase nada este ano.  Enfim, sendo bem direta, gostei mais deste segundo filme do que do primeiro.  Ele me surpreendeu ao trazer a discussão da gentrificação (*explico o que é isso daqui a pouco*), uma crítica ao capitalismo desregrado bem direta e mostrar como funciona o chamado Efeito Matilda, curiosamente omitido de TODAS as críticas que eu li ou assisti.  Mas vamos ao resumo do filme.

"Após desvendarem o maior caso da história de Zootopia, Judy e Nick são surpreendidos por uma ordem do Chefe Bogo: os dois detetives precisarão frequentar o programa de aconselhamento Parceiros em Crise. A união da dupla é colocada à prova quando surge um mistério ligado a um recém-chegado à cidade: o misterioso e venenoso réptil Gary De’Snake. Para encontrar as soluções para o caso envolvendo a víbora, Judy e Nick devem desvendar novas partes da cidade, sendo testados o tempo todo."

Eu não fiz resenha do primeiro Zootopia, filme lançado em 2017.  O filme era simpático, colorido, teve alguns momentos divertidos, mas achei um tanto forçado nas suas discussões sobre estereótipos e preconceitos.  A celebração da diversidade é importante, volta  e meia discuto isso no blog, mas Zootopia me pareceu um tanto superficial. O que eu lembro com muito carinho do primeiro filme foi a participação do falecido jornalista Ricardo Boechat, pois Zootopia teve várias versões com jornalistas importantes convidados para participações especiais. Desta vez, não repetiram essa brincadeira, infelizmente.

Já o segundo Zootopia tem uma vantagem clara sobre o primeiro, sem a necessidade de apresentar as personagens principais, conseguiu fazer uma expansão do universo, que meio que se resume à cidade do título, que está completando cem anos, e  seus arredores.  Fora isso, o filme levantou algumas discussões importantes que colocam em xeque a visão idealizada da cidade.  Por exemplo, por qual motivo ela só abriga mamíferos?  Como Zootopia foi criada com suas várias zonas que reproduzem climas e vegetações tão diversos?  Quem inventou tudo isso?  No centenário da cidade, há a celebração do criador do sistema que arante tudo isso.  E, claro, uma das questões do filme é discutir se ele, que pertencia a uma riquíssima família de linces, realmente criou aquilo que lhe foi atribuído.

Se no primeiro filme a trama girou em torno da (suposta) incompatibilidade entre carnívoros e herbívoros, da discriminação de animais menores e (supostamente) mais fracos, o segundo filme fala de exclusão social por um novo prisma.  Onde foram parar os répteis?  E os mamíferos aquáticos?  E descobrimos que há favela em Zootopia, que ela fica fora das zonas climáticas higienizadas que vimos no primeiro filme e que os linces querem avançar a tundra sobre essas regiões já marginalizadas da cidade.  Há uma idealização dessa região fora dos limites, claro, aquela ideia de que os pobres é  que sabem se divertir de verdade, mas isso não atenta contra a qualidade do filme.

A expansão da tundra sobre a favela e feira do rolo de Zootopia faz parte do processo que eu chamei de gentrificação, um termo utilizado para indicar a transformação de um bairro, geralmente comumente associado a áreas antes consideradas de baixo valor, habitado por gente pobre, em um lugar valorizado economicamente e/ou culturalmente.  Por exemplo, o Bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, antes associado à boêmia popular, malandragem, com um ar decadente, graças à bolha imobiliária gerada pelos grandes eventos (Copa e Olimpíada), passou a ser um bairro valorizado por ficar perto do Centro e passou a receber parte da elite, que não consegue morar em bairros super caros, além das classes média média e alta.  Temos a revitalização de casarões decadentes, transformados em casas de show, cafés, restaurantes mais refinados ou academias.  A área passa a ser vista como turística e um tipo de boêmia chique substitui o perfil anterior.  Os aluguéis dispararam e gente que sempre morou na Lapa não tem mais condição de ficar lá.  Uma maior presença do poder público não ajuda a população tradicional do bairro, mas os que estão chegando, ajuda a expulsá-los.

No caso de Zootopia, a gentrificação começou com a anexação do bairro dos répteis, na sua expulsão da cidade, de forma que a maioria dos moradores nem tem a informação de que eles já foram parte da metrópole, que antes não era somente dos mamíferos.  Dentre os répteis, os mais estigmatizados são as cobras, as serpentes.  Vistas como seres traiçoeiros.  Essa representação da cobra como animal pouco confiável e mau não é endossada pelo filme, mas tem profundas raízes no imaginário cristão, no mito do Éden.  Não há serpentes em Zootopia e quando Judy e Nick tentam provar que elas estão dentro da cidade, ninguém acredita neles.  Uma coelha não deveria ser policial, mesmo que ela tenha salvo a cidade, e raposas continuam sendo vistas como pouco confiáveis, ainda que não tanto quanto as serpentes, claro.  Aqui, podemos levantar facilmente discussões sobre racismo e sexismo, afinal, Judy, Nick, Gary são discriminados por serem o que são, sem que suas qualidades sejam rreconhecidas

Falando nos protagonistas, nessa nova história, Judy e Nick são oficialmente parceiros e suas personalidades foram preservadas.  Judy vive para seu trabalho e é capaz de fazer qualquer coisa para cumprir uma missão.  Já Nick é pragmático e muito cínico ao observar a realidade ao seu redor.  Ambos continuam sendo tratados como oficiais de segunda classe pelos colegas de delegacia, todos grandes herbívoros e carnívoros.  Essa desconfiança acaba colocando os dois em choque com seus superiores, quando Judy decide investigar a existência de uma serpente em Zootopia.  Ninguém acredita nela, mas ela está certa.  Já Nick prefere não se envolver, mas acaba não conseguindo.

Acredito que faltou um pouco de coragem em relação ao desenvolvimento da relação entre Nick e Judy.  Eles são parceiros de trabalho, eles são amigos, mas, pelo menos para mim, eles são um casal.  Acredito que eles se amem mesmo, romanticamente, eu digo.  Como Zootopia celebra a diversidade, por qual motivo não investir nisso?  Por que evitar dar esse passo a mais?  E não estou pedindo que eles se casassem no final do filme ou que houvesse grandes demonstrações românticas, mas que  a coisa virasse  cânon, porque para os fãs  isso já é realidade.

Comentei de Efeito Matilda, a minimização das invenções e descobertas de mulheres cientistas, com os homens não raro se apropriando de seus feitos e levando a fama, ele está no filme quando é mostrada a invenção das barreiras de isolamento climático (*elas têm um nome específico, mas eu esqueci*).  Não foi um lince, macho, rico e carnívoro (*lembrem do primeiro filme*), quem inventou a estrutura que garantiu o desenvolvimento de Zootopia, mas uma serpente, fêmea, idosa e pobre.  Aqui, mais uma vez, há o sexismo, mas há o racismo e o classismo, também.  Essa discussão é bem feita dentro de Zootopia 2.  Não vou falar de outros detalhes da trama, porque teria que dar grandes spoilers, mas, como já expliquei, saí bem satisfeita da sala de cinema.  E temos uma cena pós-crédito, mas é preciso esperar muito.  E recomendo a entrevista com os diretores do filme publicada no G1.  Eles explicam por qual motivo o novo filme demorou tanto a ser feito.

O segundo filme trouxe personagens do filme anterior, praticamente todo mundo da delegacia, a preguiça Flecha, os pais de Judy etc., mas temos várias personagens novas.  Gary De’Snake (Gary A'Cobra) é o mais importante.  Ele quer provar que as cobras foram injustiçadas e consegue a ajuda de Judy e de Nick, muito a contragosto.  Temos a castora Nibbles, uma influencer que divulga teorias da conspiração e que conhece o submundo de Zootopia.  E há o prefeito Cavalgante, um galã de cinema de ação que foi eleito com o apoio dos linces.  Imagino que boa parte das personagens retornem no próximo filme.

De resto, a animação é de altíssima qualidade, como no anterior.  A dublagem nacional, como é material Disney, é muito competente.  Os  temas mais complexos, como gentrificação, estão bem acessíveis para todos os públicos e a associação entre capitalismo e exclusão, também.  A questão do sexismo, no entanto, escapou para todos os críticos que eu li, ou assisti comentando o filme, mas é importante em Zootopia 2 e como feminista, eu não deixaria passar mesmo. E é isso.  Zootopia 2 é muito bom, recomendo.  Deve ser indicado ao Oscar, claro, mas não é o favorito.

domingo, 23 de novembro de 2025

Shoujocast no Ar! Animes polêmicos, Perna Cabeluda no Oscar e Consciência Negra!

Depois de muito tempo, mais um Shoujocast. Estavam com saudades? Espero que sim. Hoje (deveria ter sido no dia 20), temos minhas impressões sobre dois dos animes da temporada, o anime da mocinha p*******a, Scarlet,  e o romance furry que a gente queria odiar,  as não consegue (e se odeia por causa disso), os candidatos do Brasil no Oscar (1 - 2) e minhas considerações sobre o dia da Consciência Negra. Eu tive problemas técnicos,  por isso, o som não está uniforme, desde já peço desculpas. E Beastards tem uma autora, não,  autor, como eu disse mais de uma vez. Os outros links do programa estão no Youtube.

Eu deveria ter feito um post sobre o Dia da Consciência Negra.  Não consegui.  Falei da data no Shoujocast.  Não considero o suficiente.  De qualquer forma, vou deixar abaixo o programa incorporado na minutagem certinha de quando eu falo da data.  E queria historicizar a data.  O texto era a introdução do post que eu não consegui terminar.  A primeira vez em que o dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, foi proposto como data alternativa para o 13 de maio, foi em 1971, em Porto Alegre, pelo Grupo Palmares.  Em plena Ditadura Civil Militar, se organizar politicamente, falar em diversidade, inclusão e racismo poderia ser motivo de perseguição.  1971 faz parte do momento mais atroz da Ditadura.  OK, temos um feriado, a maioria de nós gosta de feriados, mas é preciso lembrar que a data deve ser utilizada para lembrar das muitas  lutas e do quanto ainda precisa ser alcançado.  

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Rússia bane o site MyAnimeList. Motivo? Difundir valores extremistas ligados a comunidade LGBTQ+

O MyAnimeList é um grande arquivo de informações (*bem básicas*) sobre animes e mangás.  O maior site do genero na internet e existe desde 2005.  Segundo o site The Moscow Times (*e via a notícia primeiro no ANN, graças à Jessica*), o site entrou no radar do governo russo.  Segundo a fonte, o MyAnimeList foi banido no país por causa do conteúdo LGBTQ+ considerado "extremista" desde 2023. A agência federal russa que supervisiona a mídia no país incluiu o MyAnimeList na lista negra nacional de sites, citando a "colocação sistemática de materiais que contêm informações que propagam relações sexuais e/ou preferências não tradicionais". Atualmente, o MyAnimeList exibe uma mensagem de erro na Rússia.

O governo russo vem perseguindo a comunidade LGBTQ+ e todas as expressões artísticas, culturais e de militância associada a ela desde muito tempo.  O argumento principal é a defesa dos valores tradicionais, seja lá o que isso signifique.  Regimes fascistas, e esse é o caso daquele que Putin comanda, precisam de um inimigo, ou mais de um, os LGBTQ+, as feministas são alvos comuns nesse tipo de ambiente.  Vide a perseguiçao às pessoas trans nos Estados Unidos atualmente.


terça-feira, 29 de abril de 2025

Entrevista de Riyoko Ikeda para a revista YOI - Parte 2

Em outubro do ano passado, traduzi a primeira parte da entrevista de Riyoko Ikeda para a revista YOI.  São três partes e eu fui empurrando com a barriga, traduzindo até outra entrevista da autora, tudo na antecipação da estreia do filme animado comemorativo da Rosa de Versalhes nos cinemas japoneses, em 31 de janeiro.  Só que a Netflix adquiriu os direitos do filme e ele estreia amanhã, 30 de abril.  Decidi terminar de traduzir as entrevistas e colocá-las no blog.  Como faço minha segunda cirurgia amanhã, não devo publicar nada no Shoujo Café, nem devo ter condições de assistir ao filme animado, é melhor descansar.  As entrevista é o que eu deixarei para marcar a data.  Espero que seja útil, mas há gente que já traduziu antes de mim.

Como sempre gosto de explicar, não sei japonês.  Uso o Google Translator, comparo traduções em português  e inglês, às vezes, em outras línguas, se necessário (*desta vez, não foi*).  Se houver algum problema na tradução, por favor, me ajudem a melhorar e deixem as correções nos comentários.  a entrevista original está AQUI.  Na medida do possível, sempre tento manter a estrutura da entrevista original, com as mesmas imagens e vídeos nos mesmos lugares.  Há resenha de Claudine...! no blog, o mangá foi lançado nos Estados Unidos.


[Entrevista a partir daqui]

[Ikeda Riyoko] "Claudine...!", uma mulher transgênero retratada na década de 1970. "Como isso foi criado? Informações sobre a peça mais recente, "Joou Himiko", também estão incluídas! <Entrevista Especial de 3º Aniversário da Yoi, vol. 4, Parte 2>

Ao escrever romances épicos históricos como "A Rosa de Versalhes" e "A Janela de Orfeu", Riyoko Ikeda também publicou muitos contos que abordam questões sociais e deixam os leitores com uma profunda impressão. Na parte central da entrevista, perguntamos o que ela pensa sobre suas histórias curtas e a peça "Rainha Himiko", que será apresentada em junho do ano que vem e da qual ela é responsável pelo roteiro, direção e figurino. O próximo será Yamawaki Asao, um ex-editor e escritor de revista de mangá que também atua como professor de meio período no Curso de Mangá Nova Geração da Universidade Seika de Kyoto. <Entrevista especial do 3º aniversário do yoi vol.4 Parte 2>

Índice 

  1. Uma história curta de Riyoko Ikeda que saiu "cedo demais"
  2. O que mais me interessa agora são as questões ambientais. Mudando seu pseudônimo e escrevendo uma obra no estilo Attack on Titan?!
  3. Após 20 anos, a adaptação para o palco de "Rainha Himiko" se tornou realidade


Mangá-ka/cantora

Riyoko Ikeda: Nasceu em 1947. Estreou como artista de mangá em 1967. “A Rosa de Versalhes”, que começou a ser serializado na Margaret em 1972, tornou-se um sucesso sem precedentes. Outras obras representativas incluem "A Janela de Orfeu", "Oniisama E..." e "Eikou no Napoleon". Aos 45 anos, ela decidiu fazer o vestibular para uma faculdade de música e se matriculou no departamento de música vocal da Tokyo College of Music em 1995. Ele ainda está ativa como cantora. Ele também atua como poeta e lançou sua primeira coleção de poemas, “Sabishiki Hone” (Shueisha) em 2020.

Uma história curta de Riyoko Ikeda que saiu "cedo demais"

--Você fez várias séries longas, mas antes de "A Rosa de Versalhes", você também fez vários trabalhos que tratam de questões sociais como "Mariko", que mostra da doença da bomba atômica, e "Iki Tete Yokatta!", que retratava o abuso infantil. Desta vez, gostaria de perguntar sobre esses tipos de obras também.

Ikeda-sensei: Gosto desse tipo de trabalho, mas ele não recebe muita atenção. É uma pena que só exista "A Rosa de Versalhes".

--Entendo. Você estreou em 1967, mas na década de 1980 quis desenhar para revistas com um público mais velho, então expandiu seu escopo de trabalho para publicar mangás nas revistas lady's comics que  estavam sendo lançadas por várias editoras na época. Fiquei surpreso com a alta resolução da representação psicológica masculina em sua história curta "Aki no Hana".

História de "Aki no Hana"
Osaki Yasuhiko, o jovem dono de uma loja de souvenirs em uma área turística, recebe uma mensagem de Yoko, uma mulher mais velha por quem ele teve uma queda no passado, que diz que quer vê-lo depois de muito tempo e que estará esperando por ele no Cape Hotel. No momento em que Yasuhiko estava hesitante, ele recebeu um pedido de souvenirs do Misaki Hotel, então ele vaai até o hotel. No entanto, ao ver Yoko sentada no balcão do bar, ele sentiu o tempo passar e foi embora sem chamá-la.

Ikeda-sensei: Acredito que esta é um mangá que desenhei quando "YOU" foi lançado. Preveja como será seu futuro (risos).

--Sim. É a primeira questão, certo? Também fiquei impressionado com "Wedding Dress", que retrata a tristeza e a nobreza das mulheres retratadas na revista. A personagem principal é uma mulher na faixa dos 30 anos que trabalha no ramo de confecção de vestidos de noiva. Embora se sinta sozinha por não conseguir realizar o casamento dos seus sonhos, ela é salva pela carreira que cultivou e recupera sua confiança. Acredito que ainda há muitos leitores que podem se identificar com essa história.

Ikeda-sensei: Eu também gosto bastante desse tipo de história. Quando de repente quis lê-lo, não o tinha em mãos, então pedi ao meu editor que me enviasse um exemplar.

--Claudine...!, que apresenta um protagonista trans. Tenho a impressão de que esta foi uma das primeiras obras a abordar questões LGBTQ+. Gostaria também de perguntar o que inspirou você a criar este mangá.


História de "Claudine...!"
Uma jovem chamada Claudine de Montese é levada por sua mãe a um psiquiatra em Paris e lhe conta que é um homem. Quando Claudine completa 15 anos, ela se apaixona pela primeira vez por uma empregada chamada Maura. Mas nenhum dos adultos admitiria isso. Ao longo de sua bela vida, Claudine se encontra muitas vezes à mercê do sexo e do amor "imperfeitos". Um conto sobre pessoas trans que você deveria ler agora.

Ikeda-sensei: Encontrei essa descrição em um livro publicado por um médico francês. Um paciente que nasceu menina, mas pensava ser menino, veio consultá-lo acompanhado de sua mãe. O médico a acha interessante e continua sendo seu conselheiro por muito tempo. Fiquei tão intrigada com aquele episódio que decidi transformá-lo em uma obra.

No final, ela é traída pela pessoa que ama. Gosto desse conto. É um assunto que vem sendo cada vez mais abordado ultimamente, mas talvez tenha sido um pouco cedo demais.

O que mais me interessa agora são as questões ambientais. Mudando seu pseudônimo e escrevendo uma obra no estilo Attack on Titan?!


--De fato, acho que essa foi a primeira vez que vi a palavra "transexual". A propósito, quando você estava matriculado no Departamento de Filosofia da Universidade de Educação de Tóquio (hoje Universidade de Tsukuba), o ativismo estudantil era ativo e era comum os alunos conversarem sobre política e sociedade entre si. Qual é a questão social que lhe interessa agora?

Ikeda-sensei: Acho que é uma questão ambiental. Acredito que haja um limite para o número de pessoas que a Terra pode suportar, mas às vezes sinto que a população humana pode ter aumentado um pouco além disso. Quando você olha para as crianças na África, você vê muitas delas sofrendo de desnutrição e morrendo de fome devido à escassez de alimentos. A falta de educação sexual e os homens que não estão dispostos a cooperar com a contracepção também são problemas.

Além disso, quando pensamos nisso em nível nacional, todo mundo só pensa na economia. No entanto, quando penso nisso em escala global, minha principal preocupação é se devemos continuar assim.

--De fato, a questão das mudanças climáticas tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos.

Ikeda-sensei: Isso mesmo. Se eu fosse criar um trabalho sobre esse tema...seria interessante se eu mudasse meu nome e desenhasse um mangá como "Attack on Titan"? Acho que é esse o caso. Eu não li, mas quando perguntei à minha família "Que tipo de mangá é Attack on Titan?", eles me disseram que é um mangá que aborda temas como "É uma coisa boa que a população humana aumente muito?"

--Uma obra do tipo Attack on Titan desenhada por Riyoko Ikeda...! Eu adoraria ler. Falando em questões sociais, em sua coletânea de poemas, Sabishiki Hone, publicada em 2020, você escreveu sobre sua viagem ao Camboja em 1996. Certa vez, você disse: "A história às vezes produz monstros horripilantes como governantes. Não posso deixar de me perguntar sobre a verdadeira identidade daqueles que os criam." Você sempre se interessou pelo que se esconde nas profundezas dos seres humanos?

Ikeda-sensei: Naquela época, meu principal objetivo era visitar as ruínas de Angkor Wat, mas fiquei mais impressionado com as cicatrizes deixadas pelo genocídio sistemático da classe intelectual realizado pelo regime de Pol Pot entre 1975 e 1979. Mesmo que 16 anos tivessem se passado desde o fim do genocídio, ainda havia pilhas de crânios...

Parece que quando temos poder, ele tem um fascínio que nem conseguimos imaginar. De qualquer forma, não quero deixar isso passar. E embora a morte chegue um dia enquanto estivermos vivos, começamos até a buscar a imortalidade. Estou preocupada porque são sempre as pessoas que se tornam vítimas dessas pessoas.

Após 20 anos, a adaptação para o palco de "Joou Himiko" se tornou realidade


--A ópera "Joou Himiko", para a qual você escreveu o roteiro, está programada para ser apresentada em junho de 2025. Gostaria de lhe perguntar sobre isso também. Além de escrever o roteiro, você também é responsável pela direção e pelo figurino.

Ikeda-sensei: Sim. Quanto ao figurino, na verdade é minha secretária quem faz.

--Isso mesmo! A propósito, conte-nos como você escolheu Himiko como tema.

Ikeda-sensei: Quando o ator de Kabuki Nakamura Fukusuke [1] ainda era um jovem ator, ele interpretou Oscar de A Rosa de Versalhes no Festival de Atores. Dizem que foi um Oscar lindo. Nos tornamos amigos próximos a partir daí, e um dia ele me ligou e disse: "Riyoko, você poderia escrever o roteiro de Himiko?" Ele disse que queria fazer uma peça na qual interpretaria Himiko e um cantor de ópera cantaria a letra.

Isso foi há 20 anos, e eu escrevi o roteiro de uma vez, mas infelizmente houve problemas orçamentários e ele nunca foi adaptado para o palco. Como eu tinha o roteiro, pensei em adaptá-lo de alguma forma para o palco antes de morrer, e então a história foi decidida.

--Eu vejo. É por isso que o folheto diz: "Inventado por Nakamura Fukusuke". Houve algum momento em particular que de repente fez o roteiro que você escreveu 20 anos atrás começar a andar para frente?

Ikeda-sensei: Há um compositor maravilhoso chamado Shoichi Yabuta que ganhou competições internacionais. No entanto, como eu nunca tinha trabalhado em uma ópera antes, quando me perguntaram: "Você tem algum bom roteiro de ópera?" Eu respondi: "Sim, tenho.", e entreguei-lhe Himiko.

--Você disse que leu muitos livros diferentes quando estava escrevendo o roteiro, mas quando se tratou de Himiko, deve ter sido difícil reunir apenas os livros de referência?

Ikeda-sensei: Foi bem difícil. Depois de ler vários livros, cheguei à conclusão de que personagens que aparecem em mitos, como Amaterasu Omikami e seu irmão mais novo Susanoo, na verdade tiveram modelos criados posteriormente. Acho que Himiko foi o modelo para Amaterasu Omikami, e que seu irmão mais novo foi Susanoo.

--Essa é uma teoria interessante.

Ikeda-sensei: Ainda não está claro onde Yamataikoku estava localizado. Quando Matsumoto Seicho ainda estava vivo, tive a oportunidade de aparecer em um programa da NHK com ele, e conversamos sobre várias coisas, como onde Yamataikoku realmente ficava. O professor apoiou a teoria de Kyushu. Muitas pessoas na região de Kansai acreditam que ele estava localizado na região de Kinai, e mesmo dentro dessa teoria, vários locais são considerados Yamataikoku. Então escrevi o roteiro de forma que ele pudesse ser aplicado a qualquer área.

Pensei que se essa produção desse certo, eu poderia receber consultas de várias áreas onde Yamataikoku supostamente fica (risos).

--Muito legal. Você pode me dizer do que se trata, na medida em que você consiga revelar?

Ikeda-sensei: Himiko de Yamataikoku foi forçada a trabalhar como sacerdotisa desde os 13 anos e não tinha permissão para que nenhum homem se aproximasse dela. Entretanto, ela conheceu o príncipe rival de Ada (atual província de Kagoshima), apaixonou-se por ela e teve um filho com ele. Para encobrir isso, seu irmão mais novo, Susanoo, agiu deliberadamente com violência, chamando a atenção para si mesmo como uma pessoa sem esperança e fazendo com que as pessoas adorassem Himiko.

--Oh! Há também uma história de amor sobre Himiko!

Ikeda-sensei: No final, Himiko perdeu a capacidade de ouvir a voz de Deus depois de dar à luz uma criança e foi morta. Há uma passagem no Wei Zhi Waijinden que diz que após a morte de Himiko, um rei homem foi nomeado, mas o país caiu no caos novamente, então o país foi posto em ordem quando sua filha de 13 anos, Toyo, foi feita rainha. Por isso, a filha de Himiko foi chamada de Taiyo.

--Agora que penso nisso, houve um tempo em que as mulheres governavam e a paz era mantida.

Ikeda-sensei: Isso mesmo. Acredito que deve ter sido uma época maravilhosa, quando não havia conflito e o país era muito próspero. Se você estiver interessado, venha assistir à peça.

Fotografia: Eri Morikawa, Entrevista e Texto: Asao Yamawaki, Planejamento e Composição: Miki Kimura (yoi)
[1]Acredito que seja o 12º ator de Kabuki a usar o nome Nakamura Fukusuke.

domingo, 30 de março de 2025

RIP Richard Chamberlain: um ator que "parecia ter sido esculpido por um deus amoroso a partir de manteiga, mel e graça"

Esta frase brega (*"parecia ter sido esculpido por um deus amoroso a partir de manteiga, mel e graça"*) apareceu no jornal The Guardian como um elogio ao então jovem ator Richard Chamberlain (1934-20025), estrela da série de TV Doutor Kildare.  Achei boa o suficiente para colocá-la no título e não poderia deixar de falar de um dos atores que eu mais amava na passagem da minha infância para a adolescência.  Richard Chamberlain morreu ontem, a notícia foi divulgada hoje, e ele faria aniversário amanhã.  Quase 91 anos é uma longa vida.

Chamberlain era ator e cantor.  Começou no teatro, mas explodiu como estrela ídolo das adolescentes no seriado Doutor Kildare, quando já tinha 27 anos.  Antes de poder se dedicar à carreira, serviu na Guerra da Coreia e se formou em História (*descobri agora que ele era historiador*) e Artes.  Fez muitos papéis na TV, e quem trabalhava na televisão até o início do século XXI não era bem visto como hoje, era o destino de quem não conseguira brilhar no cinema ou estava em fim de carreira mesmo.  Chamberlain, para ser respeitado como ator, dedicou-se ao teatro por vários anos, foi para a Inglaterra, mas terminou retornando para a TV, sendo aclamado por papéis marcantes.  O Padre Ralph de Bricassart de Pássaros Feridos (1983) pode não ter sido o seu melhor papel, mas o transformou em ídolo mundial.  Na época em que o SBT exibiu com grande alarde a série, eu era criança e não pude assistir, só pude ver mesmo quando adulta.   Na casa dos meus pais era obrigatório que a televisão estivesse na Globo na hora do Jornal Nacional e das novelas.  Não havia discussão.  Graças à série, li o livro, que é muito bom, mas, como sempre acontece comigo quando assisto a um filme ou série antes, as personagens têm a voz e o rosto da adaptação, salvo raras exceções.

Em  2003, ele publicou a sua autobiografia chamada "Shattered Love: A Memoir" e confessou que ea homossexual.  Quem acompanhou essa saída do armário e as falas do ator (*o G1 reproduziu algumas, hoje*), sabe o quanto foi difícil para ele, aliás, ele escondeu um casamento por mais de duas décadas.  Em 2014, ele disse em uma entrevista: "Quando você cresce nos anos 1930, 1940 e 1950 sendo gay, não é apenas difícil, é simplesmente impossível".  Em 2010, ele deu outra entrevista na qual aconselhava atores gays a não saírem do armário pelo bem da sua carreira.  Lembro que quando ele se assumiu, eu fazia parte de um grupo sobre romances de época no Orkut e criou-se uma confusão enorme, muitas das mulheres da comunidade dizendo que era um absurdo, que não assistiriam mais a Pássaros Feridos, foi um festival de horrores.  

Ainda é possível encontrar vídeos de Pássaros Feridos no Youtube, coisa antiga, com esses comentários repulsivos.  Lembro de um que dizia que agora entendia por qual motivo ele parecia ter nojo nas cenas de beijo e intimidades na série.  Não havia nada disso, simplesmente, os avanços e recuos do Padre Ralph estavam ligados diretamente ao seu drama mais íntimo.  Ele não podia ter nada com a Maggie, ele era padre (*depois, bispo, arcebispo, cardeal*).  

Enfim, é por isso que acho tão espetacular que o Jonathan Bailey consiga estar no lugar em que está, fazendo vários tipos de personagens, inclusive o galã hétero, sem sofrer o rechaço ou ser humilhado.  Pelo menos em nossos dias, parece, e espero não estar sendo otimista demais, que as pessoas estão conseguindo separar melhor a orientação sexual de um ator ou atriz da personagem que a pessoa está interpretando.  Em décadas passadas, e nem faz tanto tempo assim, vide o Leonardo Vieira (*da Renascer original*), era armário e a obrigação de manter relacionamentos públicos de fachada, casar até, para conseguir se manter como galã, seja em Hollywood, ou em qualquer outro lugar.

Enfim, vocês já sabem que eu gosto muito do ator.  Richard Chamberlain era uma figurinha fácil na Sessão da Tarde ou na programação de filmes do SBT.  Ele foi Aramis nos Três Mosqueteiros (*foi aí que caí de amores por ele*), foi Filipe e Luís no Homem da Máscara de Ferro, foi Allan Quatermain (*que é uma personagem literária*) em dois filmes (*As Minas do Rei Salomão e A Cidade do Ouro Perdida*).  Ele foi, também, o Conde de Monte Cristo (*devo ter assistido, mas não lembro detalhes*), estrelou Shogun (*mas eu não vi a minissérie*), foi Casanova (*que minha mãe não me deixou assistir por causa do horário, mas o ângulo da minha cama era quase perfeito para ver a televisão e eu assisti vários fragmentos*).   A última vez que o vi atuando foi no episódio Steams Like Old Times da série Will & Grace, no qual ele fingia que era um homem gay.  

Mas por qual motivo comecei a pensar em Richard Chamberlain ontem?  Eu estava me lembrando da resenha que fiz de The Slipper and The Rose, uma versão de Cinderela na qual Chamberlain é o príncipe solteirão que quer se casar por amor.  É um musical, é bonitinho, e tem a melhor fada madrinha de qualquer adaptação live action de Cinderela.  Eu recomendo.  A resenha está aqui.  

NASA cancela dois quadrinhos sobre mulheres astronautas para atender a política do Governo Trump

Tenho escrito quase nada sobre o governo Trump aqui, mas tenho postado bastante  coisa no Instagram e no Facebook.  Enfim, a nova administração decidiu combater qualquer coisa que parecesse política de DEI (Diversidade, Equidade, inclusão) e isso tem implicado em absurdos como apagar fotos históricas de sites governamentais, caçar palavras que possam sugerir essas políticas, cancelar programas educacionais para crianças com deficiência ou imposição de censura à universidades e centros de pesquisa mediante ameaça de cortes de incentivos estatais.  Mesmo as empresas  privadas estão aderindo a esse projeto e provocado a perseguição às pessoas trans e mulheres que não se enquadrem nos modelos aceitáveis de "feminilidade".  É uma tragédia em todos os sentidos.

Muito bem, a NASA tinha publicado dois quadrinhos sobre mulheres astronautas First Woman: NASA’s Promise for Humanity e First Woman: Expanding Our Universe.  Os quadrinhos contam a história de Callie Rodriguez, a primeira mulher a ir à Lua, e dos outros astronautas ativos no programa Artemis, que em 2026 deveria realmente levar a primeira mulher, a primeira pessoa negra e a primeira pessoa não americana ao satélite. Escritos por Brad Gann e Steven List com arte de Brent Donoho e Kaitlin Reid para a agência Bully! entretenimento, foram projetados para leitores mais jovens e faziam parte de uma experiência interativa composta por jogos e atividades educativas disponíveis no site da agência.  Esses planos mudaram recentemente por ordem da administração Trump.

Os dois quadrinhos foram publicados no site da NASA em 2021 e 2023, respectivamente, e estavam disponíveis gratuitamente desde então. Agora, foram retirados.  Segundo o site Fumettologia, "As reações foram imediatas: os dois quadrinhos foram disponibilizados na Wikimedia para qualquer pessoa ler (você pode encontrá-los aqui e aqui), e a agência espacial islandesa anunciou que, além de publicar as duas obras em seu site, elas serão traduzidas para o islandês o mais rápido possível.".  Enfim, a pior ou mais insana notícia do governo Trump sempre será a próxima.


terça-feira, 25 de março de 2025

No Dia Nacional do Orgulho Gay, Globo separa Guto e Vinícius em Garota do Momento

Eu só assisto uma novela atualmente, Garota do Momento.  É uma novela das seis de nosso tempo, com todas as limitações que a teledramaturgia atual tem, agravada pelas limitações impostas ao horário.  Infelizmente, no caso da Rede Globo, quem comanda a área de teledramaturgia é Amauri Soares que, em entrevista recente, disse que  não quer agradar todo mundo.  Não sei bem que ele quer agradar e/ou adular, só sei que a audiência patina, ainda que a liderança permaneça e a qualidade das novelas da emissora despencaram, inclusive com redução de investimento financeiro cada vez mais evidente.  

Muito bem, Amauri Soares negou em sua entrevista qualquer censura da cúpula da emissora à tramas que envolvessem personagens LGBTQIAPN+.  Quem acompanhava a novela Vai na Fé, e fiz vários posts sobre a trama, sabe que em pleno Mês do Orgulho, houve ordem para  cortar beijos do casal Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman).  Mesmo com a novela indo bem na audiência, houve ordem para que os cortes acontecessem com o intuito de não irritar uma (*suposta*) audiência conservadora evangélica.  Escrevo suposta, porque acredito que essa fatia que eles querem agradar, largou as novelas da emissora faz tempo.  Sei que posso estar me baseando em evidências anedóticas (*minha família*), mas eles são representativos da forma como os evangélicos médios veem a Globo.  No caso dos meus pais e irmão, eles continuam assistindo os telejornais, ou seja, eles não são estão no espectro mais radical do grupo, mas conheço exemplares dessa parcela, também.  Esses nem os noticiários consomem.

Ainda que sempre lembrem do casal de mulheres, o que está acontecendo em Garota do Momento parece ser uma repetição da separação de outro casal de Vai na Fé.  Yuri (Jean Paulo Campos) e Vini (Guthierry Sotero), foram separados  de uma forma muito semelhante ao que estão fazendo com Vinícius (Elvis Vittorio) e Guto (Pedro Goifman).  Aliás, olha a coincidência de nomes, porque Vini é apelido de Vinicius, imagino.  Em Vai na Fé, Vini recebeu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e deixou Yuri para trás.  Yuri, que tinha superado várias travas para entender seu desejo por alguém do mesmo sexo, acabou se envolvendo e casando com a personagem interpretada por Mel Maya.  Yuri era bissexual, ou se tratou de uma "conversão"?  Não houve discussão sobre isso.  O rapaz perdeu relevância na novela.

Vinicius de Garota do Momento também foi para os Estados Unidos.  A família Tijucana do rapaz, que o tinha colocado fora de casa ao descobrir sua orientação sexual, afinal, estamos em 1958, decidiu acolhê-lo.  Inventou-se que o pai estava com câncer e iria se tratar nos Estados Unidos.  O pai, que nunca tinha aceitado a paixão do rapaz pela dança, aceitou pagar um curso para ele.  Ir para os Estados Unidos seria a chance para que a família fosse restaurada.  Sem querer me desviar, imagino quão caro seria para alguém ir se tratar nos Estados Unidos nos anos 1950.  A Tijuca era e continua sendo um bairro de classe média, não é lugar de gente rica, ainda que as pessoas possam ter níveis socioeconômico médio acima do de outros bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro.  Mas em uma novela na qual todo mundo tem telefone, isso não deve ser um problema.  

O fato é que ao retirarem Vinicius da novela, temos a interrupção da história de amor dos rapazes e joga fora todo o percurso que Guto tinha feito até se compreender.  Eles vão continuar namorando por carta.  Vinicus retornará à trama?  Guto terá um novo amor?  O adolescente, que está concluindo o colegial, vai se interessar por uma garota como Yuri? Eu não duvidaria. O fato é que Amauri Soares jogou toda a responsabilidade por qualquer censura para os autores das telenovelas.  Se você quiser comprar, bem, é com você.   E, claro, os pobres dos atores estão tendo que defender os rumos tomados pela trama.

A cena de despedida  dos dois foi ao ar hoje.  Ainda não assisti ao capítulo, mas achei de um grande mau gosto terem colocado a separação no ar logo no Dia Nacional do Orgulho Gay.  Parece um replay das várias pequenas censuras em Vai na Fé ocorridas exatamente no Mês do Orgulho LGBTQIAPN+.  O fato é que vivemos um momento de backlash (retrocesso), no qual os direitos das minorias estão sob ataque e, agora impulsionados pelo governo Trump, empresas se sentem cada vez mais estimuladas a ignorá-las ou mesmo excluí-las.  Na Globo, o processo começou bem antes, quando Amauri Soares assumiu o comando das novelas da emissora.   

Hoje, Luccino e Otávio de Orgulho & Paixão, um dos meus casais favoritos das telenovelas, não existiriam.  E deixo link para uma thread sobre os últimos vinte anos de casais do mesmo sexo em novelas da Globo.  A pessoa diz que nada mudou.  Eu, historiadora feminista, afirmo que mudou, sim.  Tivemos avanços e retrocessos.  A gente não pode acreditar que direitos ganhos não podem ser tomados, eles podem, são e estão sendo.  Peguem fotos do Afeganistão ou do Irã nos anos 1970 e comparem com os nossos dias.  Sim, a maioria das mulheres não usava minissaia, praticava esportes ou estava envolvida em atividades divertidas com o sexo oposto, mas, HOJE, nenhuma delas pode fazer isso.  Não há escolha.  Direitos não caem do céu, eles são fruto de muita luta e de negociações, mas eles podem ser perdidos rapidinho e sob os mais diferentes argumentos.

segunda-feira, 17 de março de 2025

Kadokawa lança os primeiros volumes do selo CandleA, que celebra a diversidade

Não vi o anúncio do selo CandleA no ano passado, mas os primeiros títulos vinculados a ele começaram a sair este ano.  Não se trata necessariamente de obras novas, mas de agrupar sob o selo títulos que, segundo a editora, "retratam entidades, relacionamentos e emoções que são social ou culturalmente considerados 'inexistentes'".  o carro-chefe do selo parece ser a série josei Tsukuritai Onna to Tabetai Onna (作りたい女と食べたい女), que retrata a amizade romântica entre duas mulheres, uma que gosta de cozinhar e outra que gosta muito de comer.  A autora da série, Yuzaki Sakaomi, é uma ativa militante da causa LGBTQIAPN+ no Japão e posta muita coisa nesse sentido em seu Twitter.  O Comic Natalie trouxe uma entrevista com o/a editor/a do selo.  Não vou traduzir, mas está aqui, para quem quiser.

Mas quais seriam os outros quatro títulos do selo lançados em fevereiro?  Temos Wicked Spot (ウィキッドスポット), de Sal Jiang;  Nijiiro Campus Life (にじいろキャンパスライフ), de Tsutsui Tetsu (roteiro) e Shiori (arte); Hime Miko Ko to Hime Kishi (姫巫子と姫騎士), de Shin-kun; e Kurayami Girls Talk (くらやみガールズトーク), de Uramoto Yuuko (arte) e Akeno Kaeruko (roteiro).  Wicked Spot é josei, os outros três devem ser seinen.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Quais são os melhores doramas baseados em mangá de 2024? Os japoneses respondem.

O Pro Shojo Spain comentou uma pesquisa do Gooranking sobre quais doramas inspirados em mangá foram os melhores de 2024.  Há um mangá josei importante, Tsukuritai Onna to Tabetai Onna, publicado na Espanha no top 10.  Fui olhar e vi que havia bastante mangá josei e shoujo na lista, mas, como os votos, espantosos 6.495, o Gooranking normalmente trabalha com muito menos, estavam concentrados nos quatro primeiros colocados, traduzi o top 10 e os mangás femininos que aparecem entre o 11º e 20º lugar.  Coloquei links para as páginas em sites de dorama, porque pode ter um nome em inglês, um título alternativo em português e, assim, quem se interessar, vai atrás.  Depois da lista, comentarei algumas coisas.  Segue o ranking.


1. Chaser Game W2: Utsukushiki Tennyotachi (Matsuyama Hiroshi e Matsushima Yukitaro) - 2,141 votos (shounen/yuri)


2. Chaser Game W: Power Harassment Joshi wa Watashi no Moto Kano (Matsuyama Hiroshi e Matsushima Yukitaro) - 1906 votos (shounen/yuri)


3. Ayaka-chan wa Hiroko-senpai ni Koishiteru (Sal Jiang) - 1600 votos (seinen/yuri)


4. Houkago Karte (Mayu Hinase) - 394 votos (josei/drama médico)


5. Tsukuritai Onna to Tabetai Onna 2 (Yuzaki Sakaomi) - 81 votos (josei/yuri)


6. Saionji-san wa Kaji wo Shinai (Satoru Hiura) - 49 votos  (josei/romance)


7. Unmet - Aru Nougekai no Nikki (Kojika Yuzuru e Ootsuki Kanto) - 35 votos (seinen/drama médico)


8. Business Kon ~Suki ni Nattara Rikon shimasu~ (Ruka Kirato e JAMTOON Studio) - 32 votos (josei/TL?)


9. Karakai Jozu no Takagi-san (Yamamoto Souichirou) - 20 votos (shounen/romance escolar)


10. Shoujiki Fudousan 2 (Mizuno Mitsuhiro/Natsuhara Takeshi e Ootani Akira) - 18 votos (seinen)


11. Usotoki Rhetoric (Miyako Ritsu) - 17 votos (shoujo)


12. Yuzuki-san Chi no Yon Kyoudai。(Fuijisawa Suzuki) - 15 votos (shoujo)


14. BLUE MOMENT (Ozawa Kana) - 12 votos (josei)


17. Shosen Hitogoto desu kara ~Toaru Bengoshi no Honne no Shigoto~ (Satou Masamichi e Fujiya Katsuhito) - 11 votos (josei/drama de advogado)


18. Aoshima-kun wa Ijiwaru (Yoshii Yuu) - 7 votos (josei)

18. Hidamari ga Kikoeru (Fumino Yuki) - 7 votos (BL)

Dos dez títulos no top 10, quatro são yuri, ou GL (girls love), termo que está sendo cada vez mais usado.  O primeiro e o segundo lugar são derivadas de um mangá shounen que já teve dorama, também.  Temos dois dramas médicos, um josei e um seinen, aliás, o derivado de mangá feminino melhor colocado é um deles.  Só há um romance escolar no top 10 e é shounen.  Business Kon ~Suki ni Nattara Rikon shimasu~ está como "smut".  Será que é TL?  Achei cinco capítulos no Bato.to em uma língua que eu não domino, não vi sexo.  NADA nem passando perto.  Só uma tensão entre os protagonistas, que estão em um casamento de conveniência com uma única cláusula inegociável, eles não podem se apaixonar.


Tsukuritai Onna to Tabetai Onna, que já vai na segunda temporada, tem ótimas discussões sobre diversidade sexual, em especial, a assexualidade.  A autora, inclusive, milita na causa mesmo.  Basta olhar o Twitter dela.  Já Shoujiki Fudousan sobre um corretor imobiliário que, por causa de uma maldição, não pode mentir.  E temos os que estão entre o 11º e o 20º.  Yuzuki-san Chi no Yon Kyoudai。teve anime em 2023 e é uma graça.  Usotoki Rhetoric parece ser muito legal.  BLUE MOMENT, eu não conhecia.  É sobre um pessoal que trabalha com previsão de desastres meteorológicos e defesa civil.  E há só um BL solitário.  

Yuri atraia o público masculino, será que é isso?  E, claro, são mulheres bonitas, isto é, dentro do padrão, por isso, o sujeito pode fantasiar que é uma terceira parte nessa relação?  Será que é isso?  No BL, não dá para fazer isso e em Tsukuritai Onna to Tabetai Onna, com mulheres fora do padrão, talvez não dê, também.  Isso renderia outro post, que já está escrito no blog em alguma discussão sobre telenovela, claro.