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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Pipoca & Nanquim lança manhwa sobre revolucionária coreana

Não conhecia Alexandra Kim (1885-1918), mas ela foi uma revolucionária bolchevique coreana nascida na Rússia.  Sim, o pai de Alexandra migrou para a Rússia e morava em uma vila coreana chamada Sinelnikovo, na Sibéria. Segundo a Wikipedia, porque eu tenho ZERO conhecimento sobre essa presença coreana na Rússia, essa região onde ficava a via era uma espécie de estufa de nacionalistas coreanos. Esse período da passagem do século XIX até 1910 é marcado pela disputa entre russos e japoneses pela influência sobre a Coreia e termina com a invasão japonesa da Península.   

Alexandra cresceu em um ambiente nacionalista, mudando-se com frequência, tornou-se professora e casou-se.  Como seu envolvimento político se tornou cada vez mais intenso, ela terminou se divorciando e abandonando o ensino.  Em 1916, Alexandra entrou para o Partido Bolchevique e, em 1917, Lenin a enviou de volta à Sibéria para mobilizar os coreanos contra as forças contrarrevolucionárias.  Na cidade de Khabarovsk, Alexandra era responsável pelos assuntos externos no Departamento do Extremo Oriente do Partido. Lá, ela se encontrou com outras lideranças ligadas à luta pela independência coreana. Juntos, eles fundaram o Partido Socialista Coreano em Khabarovsk em 28 de abril de 1918.   Kim foi capturada, juntamente com muitos outros comunistas coreanos, pelas forças brancas e tropas japonesas em 4 de setembro de 1918. Ela foi executada em 16 de setembro de 1918. Segundo relatos, suas últimas palavras foram "Liberdade e independência para a Coreia!"

Enfim, tudo isso é novidade para mim e o que importa é que o álbum Alexandra Kim: Filha da Sibéria está em pré-venda no Amazon.  Segundo o Amazon, o quadrinho foi adaptado da biografia escrita por Jung Cheol-Hoon e é o sexto manhwa da premiada Keum Suk Gendry-Kim (Meu Amigo Kim Jong-un, Grama) lançado no Brasil. Não sabia que tantos álbuns da autora tinham sido publicados no Brasil.  Tem resenha de Grama no blog.  Acredito que vou comprar esse álbum, é sempre importante conhecer mais mulheres que tiveram papel importante em momentos nos quais a gente é levado a acreditar que os grandes atores eram os homens. 

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Rússia bane o site MyAnimeList. Motivo? Difundir valores extremistas ligados a comunidade LGBTQ+

O MyAnimeList é um grande arquivo de informações (*bem básicas*) sobre animes e mangás.  O maior site do genero na internet e existe desde 2005.  Segundo o site The Moscow Times (*e via a notícia primeiro no ANN, graças à Jessica*), o site entrou no radar do governo russo.  Segundo a fonte, o MyAnimeList foi banido no país por causa do conteúdo LGBTQ+ considerado "extremista" desde 2023. A agência federal russa que supervisiona a mídia no país incluiu o MyAnimeList na lista negra nacional de sites, citando a "colocação sistemática de materiais que contêm informações que propagam relações sexuais e/ou preferências não tradicionais". Atualmente, o MyAnimeList exibe uma mensagem de erro na Rússia.

O governo russo vem perseguindo a comunidade LGBTQ+ e todas as expressões artísticas, culturais e de militância associada a ela desde muito tempo.  O argumento principal é a defesa dos valores tradicionais, seja lá o que isso signifique.  Regimes fascistas, e esse é o caso daquele que Putin comanda, precisam de um inimigo, ou mais de um, os LGBTQ+, as feministas são alvos comuns nesse tipo de ambiente.  Vide a perseguiçao às pessoas trans nos Estados Unidos atualmente.


quarta-feira, 30 de abril de 2025

Entrevista de Riyoko Ikeda para a revista YOI - Parte 3

Em outubro do ano passado, traduzi a primeira parte da entrevista de Riyoko Ikeda para a revista YOI, ontem, publiquei a segunda parte. Sim, deveria ter publicado tudo no ano passado, mas acabei deixando para lá.  Só que a Netflix adquiriu os direitos do filme e ele estreia amanhã, 30 de abril.  Decidi terminar de traduzir as entrevistas e colocá-las no blog.  Como devo ter feito minha segunda cirurgia de catarata hoje, deixei programado para entrar no dia da estreia do filme.  Nem devo ter condições de assisti-lo, porque é melhor não forçar as vistas.  Como sempre gosto de explicar, não sei japonês.  Uso o Google Translator, comparo traduções em português  e inglês, às vezes, em outras línguas, se necessário (*desta vez, não foi*).  Se houver algum problema na tradução, por favor, me ajudem a melhorar e deixem as correções nos comentários.  A entrevista original está AQUI.  Na medida do possível, sempre tento manter a estrutura da entrevista original, com as mesmas imagens e vídeos nos mesmos lugares.  


[Entrevista a partir daqui]

[Riyoko Ikeda] "Eu sempre tenho 500 ideias para desenhar" As sementes de uma história estão sempre na minha cabeça <Entrevista especial do 3º aniversário do yoi vol.4 Parte 2>

Desde sua estreia em 1967 com "Bara Yashiki no Shoujo", a artista de mangá Riyoko Ikeda publicou inúmeras obras, incluindo histórias épicas históricas como "A Rosa de Versalhes" e "Orpheus no Mado", bem como contos que abordam questões sociais. Ela ingressou no Departamento de Música Vocal da Faculdade de Música de Tóquio aos 47 anos e atualmente se apresenta no palco como cantora soprano e também dirige óperas. Na segunda parte, perguntamos a Ikeda-sensei, que continua envolvida em atividades criativas em muitos campos diferentes, sobre seus pensamentos sobre expressão. O próximo será Yamawaki Asao, um ex-editor e escritor de revista de mangá que também atua como professor de meio período no Curso de Mangá Nova Geração da Universidade Seika de Kyoto. <Entrevista especial do 3º aniversário do yoi vol.4 Parte 2>

Índice

  1. Não importa que tipo de trabalho criativo você crie, as palavras são importantes
  2. A baixa autoestima e a falta de habilidades sociais me levaram a seguir o caminho do mangá
  3. Eu ainda penso em ideias para histórias. Tenho sempre 500 ideias em estoque
  4. Se você viver sua vida ao máximo, eventualmente encontrará o que quer fazer.


Mangá-ka/cantora

Riyoko Ikeda: Nasceu em 1947. Estreou como artista de mangá em 1967. “A Rosa de Versalhes”, que começou a ser serializado na Margaret em 1972, tornou-se um sucesso sem precedentes. Outras obras representativas incluem "A Janela de Orfeu", "Oniisama E..." e "Eikou no Napoleon". Aos 45 anos, ela decidiu fazer o vestibular para uma faculdade de música e se matriculou no departamento de música vocal da Tokyo College of Music em 1995. Ele ainda está ativa como cantora. Ele também atua como poeta e lançou sua primeira coleção de poemas, “Sabishiki Hone” (Shueisha) em 2020.

Não importa que tipo de trabalho criativo você crie, as palavras são importantes

——Você tem atuado em vários campos criativos, começando com mangás, depois ensaios, tanka [1] e roteiros para teatro. Há alguma diferença na maneira como você se sente quando trabalha nesses projetos?

Ikeda-sensei: Não há nenhuma diferença específica. Há uma diferença entre expressar algo com palavras e expressá-lo com imagens, mas mesmo que você expresse isso com imagens, as palavras são importantes.

——Os versos que você escreve são tão lindos e realmente tocam o coração. Alguns que me vêm à mente são "Olhos com o Órion do inverno neles" ou "Eu lhe darei o mais lindo lírio do vale nesta primavera". As palavras são importantes para você como escritora?

Ikeda-sensei: Afinal, "as palavras são tudo".

——Isso, claro, é respaldado pela sua vasta experiência de leitura?

Ikeda-sensei: Isso mesmo. Quando eu estava no ensino fundamental, eu lia principalmente o que meus pais me davam, e foi somente quando eu estava no ensino fundamental que eu comprei "Sharin no Shita",[2] de Hermann Hesse, com o meu dinheiro de mesada. Depois li Gokuchuu-ki.[3] Esta é uma coleção de cartas que Oscar Wilde enviou ao seu amante quando foi preso por sodomia. Hoje em dia, seria impensável que alguém fosse preso por homossexualidade. Além disso, durante meus três anos no ensino fundamental, li as obras completas de Dostoiévski e me interessei por obras russas. As descrições da natureza eram tão bonitas que me peguei copiando as palavras no meu caderno.

A baixa autoestima e a falta de habilidades sociais me levaram a seguir o caminho do mangá

De "Orpheus no Mado", uma das obras ambientadas na Rússia. ©Ikeda Riyoko Productions

——Leu todas as obras de Dostoiévski quando era estudante do ensino fundamental... A propósito, que tipo de criança você era quando estava no ensino fundamental?

Ikeda-sensei: Eu tinha uma autoestima relativamente baixa. Cresci ouvindo que eu era feia.

——Fiquei surpreso quando vi essa história em uma entrevista sua no passado.

Ikeda-sensei: Não, não, sério. Acho que ter tempo para mergulhar no meu próprio mundo de fantasia foi o que me levou aos meus esforços criativos. Além disso, eu era ruim em interagir com as pessoas. Quando me formei no ensino médio e decidi ir para a faculdade, o trajeto era muito difícil. Percebi: "Se está tão difícil agora, se eu conseguir um emprego em uma empresa, terei que trocar de roupa todos os dias, usar maquiagem e trabalhar com pessoas de quem não gosto, e eu não suportaria esse tipo de vida", então pensei que precisava encontrar um emprego que pudesse fazer sozinha.

——Então, você começou a escrever mangás enquanto estava na universidade. É incrível que você consiga se olhar de uma perspectiva tão ampla aos 18 anos. Naquela idade, eu nem sabia quem eu era.

Ikeda-sensei: Eu não sabia quem eu era, mas sabia que havia coisas que eu não podia fazer. Eu tinha amigos, mas apenas um ou dois. Eu tocava trompete em uma banda de metais, mas mesmo lá não era tanto uma forma de socializar com as pessoas, era mais como se eu estivesse saindo com pessoas do mesmo clube. Também entrei para o clube de física e outros clubes que poucas pessoas frequentavam.

——Ouvi dizer que você frequentemente conversava sobre música com seu primeiro amor. Estava na coleção de poemas do professor, "Sabishiki Hone".

Ikeda-sensei: Quando se tratava de música, parecia que eu estava sendo ensinada de forma unilateral. Ele foi presidente do conselho estudantil na escola onde estudou e era considerado uma criança prodígio.

——Ouvi dizer que ele era bonito.

Ikeda-sensei: Eu não achava, mas ele disse que eu era bonita. Eu não sabia como responder quando ele falava comigo, então eu simplesmente o ignorava quando ele dizia alguma coisa. Aí ele disse que era isso que o atraía. Ele estava acostumado a ser disputado pela garotas, então aquela resposta provavelmente foi uma experiência nova para ele, mas eu pensei: "Tem tanta garota bonita por aí, por que ele está falando comigo?" Então, nunca tivemos uma conversa de verdade, fomos para escolas diferentes e nos separamos. Mesmo depois de entrarmos no ensino médio, ele olhou para o trem que eu estava pegando e entrou, e eu fiquei tipo: "Nossa, ele está aqui, o que eu devo fazer?", e não conversamos mais.

——Esse episódio já é um mangá shoujo. Fiquei impressionado com sua memória incrível, com o fato de você conseguir se lembrar do seu primeiro amor tão vividamente.

Eu ainda penso em ideias para histórias. Tenha sempre 500 ideias em estoque.

Há muitas obras criadas por Ikeda-sensei. (Parte da coleção de Kimura, editor da yoi)

——Gostaria também de perguntar sobre a inspiração por trás desta peça. Você costuma começar com um livro que lhe interessa?

Ikeda-sensei: Isso mesmo.

——Como você conheceu os livros?

Ikeda-sensei: Às vezes, encontro um livro por acaso e, às vezes, compro-o depois de ler uma resenha. Eu estava conversando com Kihara Toshie e Hagio Moto, e concordamos que artistas profissionais de mangá precisam ter um estoque de cerca de 500 ideias o tempo todo para durar décadas. Ao anotar ideias como essas, com o tempo algumas delas amadurecerão.

——500 ideias! Dentre as muitas ideias que você tem em estoque, você já teve que jogar uma fora, pensando: "Essa pode não ser possível"?

Ikeda-sensei: Sim, claro. Várias vezes.

——Você ainda está pensando nesse tipo de ideia?

Ikeda-sensei: Isso é algo em que penso o tempo todo. Quando tenho uma ideia, pergunto à minha família: "O que vocês acham dessa história?" Quando faço isso, eles sempre me perguntam: "Por que você não escreve?" Se fazer um mangá não é possível, faça um romance.

Se eu tivesse mais energia, escreveria mais, mas não tenho força física e minha saúde mental está enfraquecendo à medida que envelheço. Acho que há muitos artistas que, quando passam do ponto em que realmente querem desenhar, acabam não desenhando nada, mesmo tendo coisas que querem desenhar. Os humanos têm limitações.

——Quando você tem 500 ideias, coisas assim certamente surgirão. Eu adoraria ler um romance escrito por você.

Ikeda-sensei: Eu me pergunto. Aparentemente sou ruim em escrever romances. Certa vez me inscrevi para um prêmio, mas não deu certo.

——"Se inscreveu"? Se você falasse diretamente com o departamento editorial, eles provavelmente dirão: "Sem dúvida, publique conosco!"

Ikeda-sensei: Isso aconteceu antes da minha estreia. A menção honrosa foi o melhor que consegui, então pensei que talvez eu não tivesse talento algum. No entanto, gosto de poesia tanka e adoro escrever uma variedade delas.

——Entendi. Seus poemas tanka ressoam com palavras diretas. Lembro-me de um verso que me marcou muito, de "Sabishiki Hone", que foi: "Os homens também criam obras, eu só quero saber por que nasci mulher".

Ikeda-sensei: Essa música é uma reação às pessoas que dizem: “Você não precisa ter filhos”. É uma rebelião contra o fato de dizerem que seu trabalho não é um filho.[4]

Aparentemente, há muitas técnicas envolvidas na poesia tanka, então não é um poema tão simples.

——Acho que depende da individualidade de quem faz.

Ikeda-sensei: Eu também acho que está tudo bem, mas sou bastante criticada. Mas quando assisto às músicas de outras pessoas, acho que elas são muito boas.

——Você mencionou saúde mental antes, mas há algo que você faz para cuidar de si mesma quando se sente mal?

Ikeda-sensei: Hmm, se algo acontece, assisto a um filme e tiro uma soneca. Como não socializo e fico em casa, assisto cerca de três filmes por dia. Um filme que vi recentemente foi um filme coreano chamado "Milagre na Cela nº 7"[5], que achei muito bom.

Se você viver sua vida ao máximo, eventualmente encontrará o que quer fazer.


——Por fim, você poderia deixar uma mensagem para quem está lendo este artigo?

Ikeda-sensei: Houve um tempo em que eu não sabia o que queria fazer ou o que queria me tornar. No entanto, se você viver a vida ao máximo, você acabará encontrando, então espero que você não fuja. Fui forçada a começar a tocar piano quando tinha seis anos de idade e planejei me inscrever em uma faculdade de música para o ensino fundamental e médio, mas percebi que não tinha talento, então me matriculei no departamento de filosofia de uma universidade normal. No final, pensei em escrever "Orpheus no Mado" e sublimar meu desejo de ir para a faculdade de música, mas não consegui desistir e entrei na faculdade de música aos 47 anos, então, mesmo que eu não admita, sou bem persistente.

——Como resultado, você também se tornou muito ativa como cantora. Tenho certeza de que muitas pessoas se sentiram encorajadas pelo fato de você ter entrado na faculdade de música aos 47 anos. Isso me faz perceber que nunca é tarde para começar a fazer algo que você sempre quis fazer ou para mergulhar em um novo mundo.

Ikeda-sensei: Claro, existe um momento adequado para cada pessoa começar. Mas e se eu começasse a ginástica rítmica agora, certo? (risos)

——(risos). Parece que você se esforçou muito quando se candidatou à faculdade de música. Aparentemente, suas notas em alemão eram as melhores entre todos os participantes do teste.

Ikeda-sensei: Na verdade... não foi o melhor resultado na época, mas foi o melhor resultado desde que a escola foi fundada. (risos)

——Que legal…! Sou verdadeiramente grato por você continuar sendo objeto de minha admiração.

Fotografia: Eri Morikawa, Entrevista e Texto: Asao Yamawaki, Planejamento e Composição: Miki Kimura (yoi)

[1] "A palavra Tanka, na cultura japonesa, significa um poema curto, de 5 versos. De certa forma, é semelhante ao Hai Kai, composto de 3 versos. A origem deste tipo de poesia data do século VII."  Mais informações aqui.
[2] Em alemão, Unterm Rad, não achei a última edição desse livro, qual o título em português, mas ele já saiu em nosso país com o nome de O Menino Prodígio.  O link é para uma resenha no Instagram.
[3] Em português, há várias edições disponíveis como o nome de De Profundis.  Exemplo aqui.
[4] Aqui, o sentido não ficou claro para mim.  O que eu imagino, por ter lido outras entrevistas da Riyoko Ikeda, é que ela tenha superado a ideia de ter filhos e focado em sua obra, seus mangás e outros trabalhos seriam seus filhos.  Só que há quem lhe diga que não são, que ela, como mulher, tenha falhado em sua missão.
[5] O filme turco, que fez muito sucesso por aqui, é uma adaptação do filme coreano.

terça-feira, 28 de março de 2023

Versão ucraniana de Escrava Isaura estreia no Globoplay

Uma amiga me recomendou uma série ucraniana chamada Amarras do Amor (Krepostnaya) e que é, pasmem, uma adaptação de A Escrava Isaura (*resenha: 1 - 2*) para a realidade do Império Russo no século XIX.  Segundo a Wikipedia em Espanhol, que foi onde encontrei mais informações, a história começa em 1856, no estado de Chernígov, no Império Russo, e tem como protagonista Katerina Verbitskaya (Katerina Kovalchyk), uma jovem prendada, que fala várias línguas, toca piano, pinta, além de ser uma virtuosa donzela.  Tudo isso, graças à educação que lhe foi dada por sua madrinha, uma mulher nobre que a trata como filha.  A jovem não parece uma camponesa, mas é.  O marido de sua madrinha aceita a excentricidade da esposa, mas não tem simpatias por Katerina, que está apaixonada por um homem nobre Aleksey Kosach (Aleksey Yarovenko), com quem nunca poderá se casar.

Quando sua madrinha morre, a jovem Katerina fica à mercê do seu senhor.  Nada há no resumo sobre um filho devasso, que seria o Leôncio de Escrava Isaura.  Enfim, a servidão na Rússia só terminou em 1861.  Katerina decide fugir, ela precisa lutar por sua liberdade, defender sua castidade, ainda que, segundo o resumo, termine indo parar em um bordel de Kiev.  A série está no Globoplay. 

 

Não sei se eu irei assistir, mas não nego que fiquei curiosa, mas não sei o que pensar, nem o que sentir, o fato é que essa produção é mais uma evidência  da importância da novela Escrava Isaura para a cultura pop. Quando exibida no Leste Europeu, a novela fez um sucesso estrondoso e, segundo consta, até palavras novas foram criadas no idioma russo para dar conta de conceitos que apareciam na produção.  Pena que a Globo tenha explorado tão pouco as possibilidades de A Escrava Isaura, em outros países houve quadrinhos, versão em livro e por aí vai. Ao que parece, a produção ucraniana credita a inspiração no livro original de Bernardo Guimarães, que está em domínio público, e, não, a novela.  De qualquer forma, segundo a Wikipedia, parece que a série tomou várias críticas negativas na Ucrânia por ser falada em russo.  A série é de 2019 e, já naquela época, as tensões entre Ucrânia e Rússia estavam escalando.

domingo, 18 de abril de 2021

"Cinderelas" da vida real: casamentos desiguais que podem ter inspirado a autora de The Scarlet Pimpernel

Quem frequenta o Shoujo Café faz alguns anos sabe que sou fã de The Scarlet Pimpernel, série de livros escritos pela Baronesa Orczy.  Infelizmente, faz tempo que não aparece uma nova adaptação para o cinema, ou TV, e eu nunca consegui baixar o musical da Broadway para assistir (*se alguém tiver o link, aceito com prazer*) do Pimpernel.  Mas vamos ao post, uma página que eu sigo no Facebook, o Madame Gillotine, está publicando quadros de Élisabeth Vigée Le Brun (1755-1842), a famosa pintora que retratou Maria Antonieta mais de 30 vezes.  Um dos quadros postados foi o retrato de Hyacinthe-Gabrielle Roland (1766- 1816), atriz do Palais-Royal e que se casou com um nobre inglês.  A responsável pelo site levantou a teoria de que Roland teria servido de inspiração para Marguerite, a esposa de Sir Percy Blakeney, o Scarlet Pimpernel.  Nos livros, Sir Percy, o homem mais rico da Inglaterra, se apaixona e se casa com Marguerite, uma francesa, que também havia sido atriz em seu país natal e que é chamada no primeiro livro de "a mulher mais inteligente da Europa".  

Esse tipo de casamento era tudo, menos comum, na verdade, eram vistos como escândalo e exigiam muito sangue frio e cara de pau para que funcionassem.  Pode ser coincidência, mas acredito que realmente Roland possa ter servido de base para Marguerite, com duas diferenças físicas marcantes, porque a personagem fictícia era alta e loura.  Segundo a Wikipedia, Roland teve um casamento infeliz.  Começou como amante do futuro Marquês de Wellesley, irmão do Duque de Wellington, e já tinha com ele 5 filhos quando o nobre decide se casar com ela e legitimar as crianças.  O casamento foi considerado escandaloso pela alta nobreza britânica e Roland, que nunca aprendeu inglês, foi ostracizada pelos pares do marido, que terminou por traí-la e abandoná-la.  A infeliz Hyacinthe-Gabrielle Roland é tatataravó da rainha Elizabeth II através de uma de suas filhas.

Mas vendo esse caso e a teoria, me lembrei de outro casamento inadequado e escandaloso, mas que deu certo.  Elizabeth Armistead (1750-1842), esposa do famoso estadista e político  Charles James Fox, começou a vida não somente como atriz, mas era abertamente uma cortesã.  Armistead foi amante de vários homens importantes até que Fox, que era filho de uma das famosas irmãs Lennox, decidiu fazer dela mais do que sua amante.  Diferentemente do que ocorreu como Roland, Armistead conseguiu construir seu espaço boa sociedade de sua época sendo lembrada como uma mulher caridosa.  O casamento deu certo, portanto, e ambas as mulheres são contemporâneas.

Por qual motivo escrevi esse post?  Primeiro, pela curiosidade.  A ponte entre Roland e Marguerite valeria o texto por si mesmo.  Segundo, porque há quem considere que tais casamentos eram impossíveis.  Raríssimos, sem dúvida, escandalosos, com certeza, mas eles eventualmente aconteciam e, normalmente, era o homem que se casava com a mulher inadequada.  Exceção da exceção?  Citei as irmãs Lennox, e preciso terminar a série Aristocrats da BBC e resenhá-la.  A mãe de Charles James Fox, Lady Caroline Lennox, bisneta do rei Carlos II, filha de duque, fugiu de casa para se casar com o marido, um homem bem mais velho que ela e de uma nobreza bem abaixo da sua.  Ainda assim, nobre, que fique claro, mas fora do círculo que seus pais, considerados muito liberais para a época, tinham selecionado para que ela pudesse "escolher" um marido.  Terceiro, essas histórias de Cinderela não podem ser vistas como regra, mas também não podem ser motivo para apontar o dedo na cara de uma autora de romance (*normalmente são mulheres mesmo*), porque ela juntou seu duque ou príncipe fictício com uma mocinha não-nobre e que nem tinha um currículo tão complicado atrás dela, porque, sim, "cinderela" está entre aspas no título, porque nenhuma das duas do começo do texto o era, afinal, uma dos requisitos para ser uma "cinderela" é ser pura e virginal.  

Roland poderia ser virgem quando encontrou seu futuro marido, mas cairia naquele ditado muito machista, mas carregado de sabedoria política "À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".  E, sim, a esposa de César em questão, Pompeia, era honesta, foi provado que era, mas acabou sendo repudiada pelo marido, um grande general e estadista, que tinha fama de ser o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens, porque um de seus inimigos políticos urdiu um plano para destruir a sua reputação.  No original, César teria dito "minha esposa não deve estar nem sob suspeita", se estava, já era culpada, pois deveria ter dado margem para a armadilha que nem deu certo. Uma atriz era sempre vista com suspeitas, porque na mentalidade machista, e algumas dessas ideias ainda são presentes em nossos dias, uma artista e uma prostituta são a mesma coisa, uma atriz é sempre uma mulher de moral frouxa e por aí vai.  E não é correto, também, tentar comparar qualquer uma dessas mulheres a uma Princesa Diana, que era filha de conde, membro da nobreza, jovem e virginal ao se casar, mas é possível pensar em uma Camilla Parker-Bowles como algo mais próximo dessas "cinderelas" de passado complicado, de origem menos nobre, mas que acabou casando com seu príncipe por amor, porque foi por amor, sim.

De resto, nenhum casamento desigual se compara com o de Pedro, o Grande da Rússia com a CAMPONESA Marta Helena Skowrońska.  Juntos tiveram doze filhos e ela ainda assumiu o trono russo como czarina reinante com o nome de Catarina I.  Obviamente, eu não mexo com história da Rússia, nem quero mergulhar em mais leituras loucas, por isso mesmo, não tenho detalhes muito profundos do caso.  Agora, casamento mais absurdo que esse, não me lembro.  Um autocrata, a rigor, pode tudo, ainda assim, mesmo depois da morte de Pedro, Catarina não perdeu o seu poder.  Não imagino outras nobrezas da Europa engolindo algo assim, não.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Desenhista russa condenada à prisão por fazer arte feminista


A jovem artista Yulia Tsvetkova, de 27 anos, corre o risco de passar até seis anos na prisão por fazer arte feminista.  Ativista dos direitos LGBT, ela é acusada de distribuir pornografia por ter desenhado vaginas e postado nas redes sociais.  A jovem, segundo o The Moscow Times, ficou em prisão domiciliar entre novembro/2019 e março/2020 na cidade de Komsomolsk-on-Amur, no extremo leste da Rússia.  Ela não está mais em prisão domiciliar, mas não pode viajar para fora da cidade, ou da região, não entendi bem.

"Mulheres que estão vivas têm
gordura corporal e isso é normal".
Tsvetkova afirmou para a CNN, que seus problemas com a justiça começaram quando seu grupo de teatro amador encenou duas peças, uma questionando estereótipos de gênero, como meninas vestem rosa e meninos vestem azul, ela disse em entrevista, e outra sobre militarismo.

"Mulheres que estão vivas
têm pele imperfeita e isso é normal".
Mais tarde, ela foi acionada por causa dos desenhos que posta em sua página pessoal, chamada de Monólogos da Vagina, o nome de uma famosa peça de teatro, promovendo  body positivity, isto é, que as mulheres olhem para seus corpos com mais carinho, respeito e aceitação.  Trata-se de mais um daqueles casos escandalosos de desrespeito aos direitos humanos e das mulheres, em particular, na Rússia.

Um dos desenhos pornográficos
da artista, segundo o DW.
Acho que no mês passado, o Põe na Roda fez uma entrevista com um Youtuber gay famoso do país.  Ele defendeu o tempo inteiro que ser um homem gay na Rússia não é um grande problema, que tem uma boate gay na esquina da casa dele, desde que você não seja militante.  O moço se recusou a falar das mulheres, porque disse não estar inteirado da situação das lésbicas.  Foi sábio, porque ser mulher em um país que se esforça em reforçar estereótipos de gênero implica em se subordinar ao masculino, a aceitar limitações inventadas como naturais.  
Yulia está sendo acusada de fazer propaganda homossexual,
o que é contra a lei do país.  Nesse momento,
está em discussão uma reforma constitucional na
Rússia, um dos pontos é proibir a adoção por LGBTQ+.
E, bem, é por causa disso que  Yulia Tsvetkova está sendo perseguida.  Espero que Yulia Tsvetkova não seja condenada.  Mas que ninguém se engane, porque com o governo que temos, caminhamos para uma situação bem complicada.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

The Great deseja transformar a vida de Catarina II da Rússia em Comédia


Quando vi o primeiro trailer de The Great, nova série do serviço de streaming Hulu, que estreia no dia 15 de maio, eu fiquei sem saber o que pensar.  Na verdade, fiquei meio chocada mesmo e até conversei com um colega professor para saber que impressão ele tinha tido.  Não foi muito diferente.  Mas depois de ver a descrição da série que apareceu no Omelete, precisava escrever um pequeno post.  


Eis o resumo da primeira temporada:  "uma história fictícia, divertida e anacrônica de uma jovem idealista e romântica que chega à Rússia para um casamento arranjado com o Imperador Pedro. Esperando por amor, ela encontra um mundo perigoso e depravado que decide mudar. Tudo o que ela precisa fazer é matar o marido, derrubar a igreja, enganar os militares e conquistar a corte".


Lendo isso, penso em um filme da Disney com direito a uma princesa loura quando a Catarina original era morena.  Tenho um livro sobre Cinema e História que resenha o filme  A Imperatriz Vermelha (The Scarlet Empress/1934), que trazia igualmente uma Catarina loura quando essa cor de cabelo era signo de sedução.  Nesse clássico com  Marlene Dietrich, Catarina, que dizia querer ser filósofa quando jovem, aparece dançando graciosamente e dizendo que seu sonho era ser bailarina.  Estereótipos de feminilidade e, claro, a construção da imagem de Catarina como uma mulher que venceu, porque usou a principal arma de uma mulher.  Seu cérebro?  Não, seu corpo.  O vermelho do título é outro signo que, no século XX, estava menos associado à violência e muito mais vinculado à sedução.


Em Elle Fanning, a lourice será a da princesa de conto de fadas mesmo, significa inocência e juventude. Se Catarina, que chegou na Rússia aos 15 anos, não fosse forte, decidida, inteligente e capaz uma jogadora agressiva, ela teria sido eliminada.  Ela não era uma moça tola, poderia até não ter completa noção do terreno no qual ia pisar, mas ela não era uma Maria Antonieta e a fama da corte russa, com seus assassinatos e reviravoltas de deixar a gente de queixo caído, deveria ser conhecida por toda a Europa.  Se ela fosse uma pobre mocinha inocente, ela seria destruída.  Eu comentei sobre isso em um post que fiz sobre o filme sobre o anúncio de um filme sobre Catarina dirigido por Barbra Streisand.  Como foi em 2015, talvez esse filme nunca saia.


Se a representação de Catarina me parece complicada, sendo humor, ou não, a do marido dela, Pedro III, me parece ainda pior.  Nicholas Hoult parece um menino maluquinho no trailer.  E o ator é simpático, não me lembro dele em um filme fazendo uma personagem sequer de moral dúbia.  Pedro III é descrito como adepto das bebedeiras, alguém que não era amado na corte e tratava muito mal sua jovem esposa.  E Catarina ainda tinha que suportar a presença na sua vida da Imperatriz Elizabeth, tia de Pedro, e que era quem mandava de fato na Rússia quando Catarina chega à corte.


Claro, muito do que se escreveu sobre Pedro teve o dedo de Catarina, que provavelmente foi responsável pela sua morte, mas ela, uma estrangeira e mulher, é contada como um dos maiores czares da Rússia, ele, não.  Parece que em biografias mais recentes, alguns historiadores defendem que ele foi um imperador iluminista e que, por isso, acabou perdendo o apoio da conservadora nobreza russa.  Eu precisaria ler mais sobre ele, agora se Pedro III for apresentado como um fofo sonhador, como se poderá justificar o golpe de estado dado por Catarina?


A Wikipedia diz que o objetivo da série é brincar com a história de Catarina, a Grande, fazer humor e recorrer à história quando bem entenderem.  Enfim, a ficção é ficção e precisa ser tratada como tal, o que importa é a como será a execução, mas, claro, sempre me pergunto sobre certas escolhas.  De qualquer forma, ano passado tivemos série sobre Catarina, este ano, outra, quem sabe, no ano que vem, esse filme da Barbra Streisand se torne realidade e com um tratamento feminista da personagem e uma atriz morena e sem jeitinho de princesa da Disney.


The Great terá dez episódios ao todo, não sei como será a exibição no Brasil.  Não sei, também, se a intenção é filmar a vida inteira de Catarina.  Se for, terão que mudar de atriz protagonista em breve.  A página oficial da série é esta aqui.  O novo trailer deixa bem claro o tom da série e que Pedro será maluquinho, cruel, mas adorável.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

"A Guerra não tem Rosto de Mulher" virou mangá no Japão


Em março de 2017, fiz uma resenha para o blog sobre o livro "A Guerra não tem Rosto de Mulher", da bielorrussa  Svetlana Aleksiévitch.  O livro transita entre vários gêneros, mas, resumindo, ele revisita a memória das mulheres soviéticas sobre a sua participação na 2ª Guerra Mundial, quando mais de um milhão delas participou do esforço de guerra em todas as posições possíveis.  



Sim, virou moda falar das piloto, das atiradoras de elite, mas mulheres foram tanquistas, fuzileiras, sapadoras, guerrilheiras; elas foram maquinistas, tratoristas, além de fazer as funções de apoio que normalmente são associadas ao feminino, como enfermeiras, cozinheiras, lavadeiras etc.  A autora vai atrás das velhinhas que ainda vivem e entrevistou o máximo delas que pode.


O livro trata do esforço do governo stalinista do pós-guerra em esconder essas mulheres, apagá-las da História e da memória coletiva, assim como da vergonha e do preconceito que elas mesmas sofreram de seus compatriotas.  Não é uma leitura fácil, mas não se compara ao livro das memórias das crianças, porque esse eu lia um caso, às vezes, uma página, e parava para chorar.  Acabei interrompendo a leitura.  Não poderia imaginar que alguém transformaria a obra em um mangá, mas, no Japão, tudo é possível.



O Luiz me avisou ontem da existência da obra e a gente foi buscar as informações.  Tinha aparecido alguma coisa sobre o mangá no Comic Natalie em janeiro, quando o primeiro volume foi lançado, mas eu deixei passar.  Inclusive a recomendação do mangá no obi, a tirinha de papel que vem em torno do volume, foi escrita por Yoshiyuki Tomino, mais conhecido por Gundam (ガンダム).  Segundo o CN, são sete capítulos, sete histórias da guerra nesse volume.  Imagino que nesse ritmo, o mangá possa chegar aos cinco, até mais, volumes, com certeza.


A autora do mangá é Koume Keito.  No currículo dela tem muito mangá hentai, yuri, ecchi, alguma coisa seinen, mas ela é mais da área de mangás eróticos mesmo.  O traço dela é bom e, de repente, é com esse mangá que ela vai fazer a transição para o mainstream em grande estilo.  Parece que o mangá está sendo elogiado e isso é interessante, porque o material que ela está adaptando é bem complexo.

Qual seria a demografia?  Seinen, a série sai na Comic Walker, é publicado on line.  No Bakaupdates há a informação de que temos pelo menos um capítulo em scanlations.  Eu dei uma procurada e não achei.  


O nome do mangá em japonês é Sensou wa Onna no Kao o Shite Inai (戦争は女の顔をしていない), ele pode ser procurado pelo título em inglês, War's Unwomanly Face.  Só que a busca tende a levar a informações sobre o livro, que pode ser comprado em português e vale a pena.

sábado, 5 de outubro de 2019

Masha e o Urso faz homenagem ao Brasil usando estereótipos de 80 Anos Atrás


Em um dos episódios mais recentes de Masha e o Urso, desenho animado russo que começou na internet e faz muito sucesso em vários países, os protagonistas receberam uma visita do Brasil.  O nome do episódio, segundo o Estadão é "É hora de trabalhar, mas carnaval é uma vez por ano" e começa com a travessa Masha chegando com um telegrama.  Lá está escrito que Rosita, uma amiga brasileira, virá visitar.  A ursa que é apaixonada por Michka ouve por alto o conteúdo da mensagem, fica enciumada e vai embora.  

Maracas e Rosita... Tão brasileiro como um
 filme de Hollywood dos Anos 1930-40.
A fama das mulheres brasileiras, esse deve ter sido o motivo, aliás, o desenho trabalha com uma série de estereótipos sobre o nosso país, alguns deles, como meu marido pontuou, bem datados, com uns 80 anos de idade. 😄  Rosita trabalhou com Michka no circo e é uma ursa magrinha, se comparada com os outros ursos do seriado.  Não sei de qual espécie é, aliás, acredito que é uma ursa de óculosRecebida por uma banda de música, ela já chega sambando e muda a roupa de todo mundo.  Michka parece um dançarino dos filmes de Carmem Miranda e Masha a própria artista.  No fim das contas, Rosita faz com que todo mundo caia de cansaço, até Masha  já estava pedindo arrego.

Masha é a última a cair de cansada, mas cai.
Aparecem várias referências mais que batidas sobre nosso país, samba, futebol e o Maracanã, praia (Copacabana, surf) e os macaquinhos no centro do Rio de Janeiro. 😝 Já o barco que aparece descendo o Amazonas lembra mais os do rio Mississipi do que os que navegam nos rios da Amazônia.  Na mesma matéria, há a participação de uma estudante de pós-doutorado da USP que fala do diálogo da literatura infantil russa (soviética, na verdade) e brasileira, há um desenho animado russo de 1981 que faz referência ao Brasil e tudo mais.  Agora, como pontuei, se há diálogo e troca, ela não fica muito evidente nesse desenhinho de Masha e o Urso.  Eu adoro a série, ri com o desenho, mas o que eles nos ofereceram é uma pilha de estereótipos dos mais rasos, nada muito diferente, aliás, do que aparece nos desenhos americanos, enfim... O desenho está aí embaixo:

domingo, 1 de setembro de 2019

As mulheres invisíveis da Corrida Espacial: o caso das Tecelãs dos Primeiros Computadores das Naves Norte-Americanas


Agora, pela manhã, meu marido, que é aficionado pela corrida Espacial, veio me contar que havia assistido a um vídeo sobre os computadores da Saturno V  e que falava que as mulheres tiveram uma participação fundamental no processo.  Os computadores usados na época eram imensos, usavam diversos painéis de memória com anéis minúsculos que giravam, esses anéis de metal, que deveriam chegar aos milhões em uma nave, eram tecidos com todo cuidado e máxima precisão. Quem fazia esse trabalho minucioso e repetitivo?  Mulheres.  


Quando encontrei um vídeo mostrando o processo, não surpreende que assim como as mulheres computadores que faziam cálculos complexos antes das máquinas, as que foram mostradas no filme Estrelas Além do Tempo, eram negras.  Imagino que seus salários como funcionárias de fábricas de tecelagem emprestadas, ou contratadas, pelo programa espacial, fosse irrisório.  Sem elas, não haveria computadores, da mesma forma que outras mulheres, como as que contavam estrelas ajudaram a mapear o universo, elas viraram nota de rodapé de livros, ou uma anedota contada em algum vídeo sobre os computadores da Saturno V.  Uma curiosidade, porque, bem, o trabalho das mulheres nunca é tão importante quanto o dos homens, e se forem mulheres negras, ou latinas, ou de outra minoria qualquer, é menos importante ainda, se for preciso colocar uma mulher na foto, que ela seja branca.  

Tecendo os computadores do programa espacial.
Não estou fazendo pouco caso dessas mulheres, porque elas não estavam lá por motivo algum, elas lutaram para chegar onde estavam, mas estou evidenciando as hierarquias, todas as mulheres tem seu trabalho subestimado, mas se preciso elogiar uma exceção, que seja uma mulher branca. E, se possível, bonita e jovem, a não ser, claro, que ser velha e ter uma aparência mais séria seja fundamental para o argumento.

Galina Galishova trabalhando.
Mas eis que foi minha vez de surpreender meu marido, porque ele não sabia que a arquiteta da corrida espacial soviética, e sobre ela há muita coisa na internet, era uma mulher.  Galina Balashova, arquiteta e designer de interiores, foi contratada aos 26 anos para participar do programa espacial soviético.  Ela desenhava os interiores das naves, de forma que elas fossem funcionais, confortáveis e, sim, bonitas.  Desenhava exteriores, também, participava dos projetos.  Ela, que está viva, foi a designer dos interiores da Mir, a estação espacial da URSS.  Enfim, meu marido assistiu um docudrama super detalhado sobre a corrida espacial soviética tempos atrás e não havia uma notinha de rodapé para Balashova.  

É fácil encontrar os projetos de Balashova na internet.
É fácil esconder o trabalho das mulheres, especialmente, quando homens contam a História.  Por essas e outras, o nosso papel na História da Ciência parece tão pequeno, quando, na verdade, muitos processos, descobertas, e outras partes da pesquisa e da produção científica foram feitos por mulheres de todas as idades, nacionalidades e cores d epele.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Saiu o trailer de Catarina, a Grande da HBO


“Há pessoas inescrupulosas na Rússia – felizmente, eu sou uma delas", declara em certo momento do trailer Helen Mirren na pela da formidável Catarina, a princesa alemã nascida em condições modestas e que se tornou uma das maiores estadistas do século XVIII, contra todas as expectativas.  Em abril, fiz um post sobre a série sobre Catarina, a Grande, Imperatriz da Rússia, com Helen Mirren como protagonista.  As fotos estavam deslumbrantes, agora, saiu o trailer.  Confesso que a música não me agradou muito, mas sei que á para chamar a atenção de uma fatia da audiência que curte essas coisas.  De resto, Dame Helen Mirren merece ser vista sempre.  É aguardar o lançamento e torcer para que valha a pena.  O lançamento será na nossa primavera.  De repente, isso anima alguma editora a lançar a biografia de Catarina feita pela Riyoko Ikeda. 😊

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Ícones da Igreja Ortodoxa em estilo anime causam indignação em religiosos russos


Hoje, apareceu na minha TL do Twitter uma matéria do Moscow Times em inglês (*não leio russo, vocês sabem*) comentando que uma conta de uma rede social russa chamada Vkontakte estava publicando ilustrações em estilo anime de ícones religiosos.  A maioria é simplesmente a colagem de um rosto, como o Viktor de Yuri!!! on ICE (ユーリ!!! on ICE), por exemplo, em um ícone pré-existente, por isso mesmo, eu amei essa Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, lindíssima.  Daí, a gente sabe que não é obra de um artista só.

Quero fazer uma camisa com essa ilustração.
Diferente do que ocorre na Igreja Católica Apostólica Romana, na qual é possível que qualquer artista faça uma imagem de santo, que ao ser abençoada, pode ser utilizada em cerimônias religiosas, na Igreja Ortodoxa a coisa é tratada de forma muito mais burocrática e regrada.  Por isso mesmo, há uma padronização muito maior da representação dos  santos.  Só pessoas autorizadas, que passaram por certos cursos de formação teológica, teriam o direito de fazê-los.  Estabelecido isso, uma rede de TV de uma região central da Rússia fez uma matéria (*que me cheira à sensacionalismo barato*) comentando os ícones, que estão circulando no Vkontakte desde 2014, e entrevistando religiosos, alguns deles indignados com o que consideravam um desrespeito.  

Ombreiras ainda estão na moda na Rússia, ao que parece.

Enfim, desde o fim da URSS, a região vem passando por um ressurgimento religioso com um nível de fanatização bem complicado.  Um rapaz, por exemplo, foi preso e condenado por estar caçando pokemons em uma igreja.  Um filme falando de um caso amoroso de juventude do último Czar da Rússia foi recebido com protestos por ser considerado um desrespeito, porque o monarca foi canonizado.  Não me surpreenderia se derrubassem essa conta da rede social e fossem caçar os responsáveis por ela.

Isso é simplesmente uma colagem.
Mas por qual motivo postei isso?  Primeiro, porque é interessante, mas por achar essa Virgem e o Menino linda e desejar descobrir quem é o artista responsável por ela.  Na matéria de TV aparece uma outra arte que parece ser da mesma pessoa, mas é rápido e eu não consegui achar na internet.