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sábado, 19 de agosto de 2023

Também na "Rosa de Versalhes" e em "Glass Mask"... Como é excêntrico o comportamento de meninos com amor não correspondido!? (recomendação de texto)

Não leio japonês, vocês sabem, mas achei esse texto tão curioso e engraçado que eu precisava recomendar.  Vai que você consegue ler, não é mesmo?  O título original do artigo do site Futaman é “Berusaiyu no Bara” ya “Garasu no Kamen” ni mo… kataomoi danshi no kikō! ? Omowazu tsukkomitaku naru 70-nendai shōjo manga de egaka reta “koisuru otoko”-tachi (『ベルサイユのばら』や『ガラスの仮面』にも…片思い男子の奇行!? 思わずツッコミたくなる70年代少女漫画で描かれた“恋する男”たち).  

É um texto em que o autor, ou autora, comenta cenas icônicas e a forma como os homens de três mangás, Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), Glass Mask (ガラスの仮面) e Haikara-san ga Tooru (はいからさんが通る), explicitavam os seus sentimentos não correspondidos, ou que não poderiam ser expressos, acredito que no caso do Masumi é mais por aí.

Enfim, mesmo usando somente o Google Translator, a compreensão do texto é tranquila, porque eu conheço o contexto.  "Quadrinhos românticos são sempre populares. Em particular, o comportamento comovente de um homem bonito em relação a sua paixão não correspondida faz meu coração bater mais forte. No entanto, no auge dos shoujo mangás brilhantes nos anos 70, havia muitos comportamentos excêntricos de homens que me faziam pensar: "Normalmente, as pessoas fazem essas coisas!?"  A ideia é mostrar o quanto eram (*e eram mesmo*) os dramas amorosos e como as personagens expressavam seus sentimentos nos shoujo mangá nos anos 1970.

A autora começa por André e como ele expressa seu sentimento por Oscar, um amor que não pode ser correspondido por causa das diferenças de status, ele é plebeu, ela é nobre, e, também, porque por boa parte da história, a protagonsita julga amar outro homem, o Conde Fersen.   Ela descreve a dramática cena o quase estupro, que é muito impactante tanto no mangá, quanto no anime, mas, na animação, a forma como Oscar, a protagonista, é atingida é bem diversa.  E a cena em que um André frustrado, por saber que Oscar iria se casar com outro, se joga no chão e chega a comer grama.  Sabe que eu não me lembro claramente desta cena?  Imaginei que a pessoa fosse descrever a sequência do veneno.

Depois, o texto segue para Glass Mask e a relação entre Masumi e Maya.  Um dos pontos que a autora levanta é do quanto poderia ser impróprio um amor como o ele, afinal, ele era 11 anos mais velho (*Eu sempre pensei 10, ela começa a história com 13 e ele tem 23.  Será que estou errada?*).  Eu diria que, no começo, ele não sabia que estava apaixonado e, antes que alguém comece a estrebuchar, absolutamente nada acontece entre os dois até que ela cresce e, ainda assim, nada continua acontecendo de verdade (*sim, eu tenho raiva disso.*).  

A relação entre Masumi e Maya é um misto de Orgulho & Preconceito, porque ele se comporta como um Mr. Darcy que é assumidamente tsundere e Papai Pernilongo.  Uma das minhas cenas favoritas, que não é dessas de sofrimento amoroso escolhidas pela autora, que é quando Maya está treinamento para ser Helen Keller, que era surda e cega, e ele vai ver como ela está, a menina reconhece seu benfeitor, mesmo sem que ele fale nada e o abraça.  Eu acho essa cena uma das mais lindas e intensas de toda a história.  E ele está sofrendo, claro.

Durante uma boa parte do mangá (*e o texto descreve várias dessas cenas, como a de Maya ensaiando o papel de menina lobo*), Masumi trata Maya com frieza e até com desdém em público, mas, em segredo, ele a protege e envia rosas púrpura (*Ela a chama de "murasaki no bara no hito".*) mostrando como aprecia o seu crescimento como atriz e termina pagando os estudos da garota.  Mesmo quando a confronta, às vezes, o objetivo é provocá-la para que ela coloque para fora o melhor que ela pode oferecer em uma atuação.  

Eu não irei perdoar a autora se, depois de tanto sofrimento, eles não ficarem juntos.  Masumi teve um relacionamento muito complicado com o pai e tem uma noiva arranjada e acredita que precisa cumprir o compromisso assumido pelo patriarca.  Você pode não conhecer Glass Mask, mas trata-se de um mangá que é publicado desde o ano do meu nascimento, 1976, e ainda não encerrado.  Eu até consigo suportar certa sofrência, mas tudo tem limites!

Por fim, o texto fala de Tousei, o chefe de Benio em Haikara-san ga Tooru e de como ele expressa seu sofrimento de forma muito esquisita.  Ele é dono de um jornal, ele contrata Benio como repórter, porque ela é insistente e é a única mulher que não desperta a sua alergia.  Ele a pede em casamento, ela aceita, porque ele é um bom homem, mas, também, por ele ser dono da promissória da casa de seu antigo noivo, Shinobu, que ela crê estar morto.  Mas eis que, no dia do casamento dos dois, Shinobu recuperou a memória e aparece.  Há um grande terremoto, que aconteceu de verdade e arrasou Tokyo, Tousei salva Ranmaru, melhor amigo a amaa, enquanto Benio o larga no altar sem piscar duas vezes. 

Daí, a autora comenta que Tousei dá a promissória da casa de presente de casamento para Benio.  "Só eu que acho que como o noivado foi rompido no dia do casamento, seria bom receber uma mansão como prêmio de consolação?"  Depois, o artigo ainda comenta o gaiden, no qual um magoado Tousei está viajando pela Europa e conhece um adolescente que lhe lembra Benio e se apaixona por ele.  Sim, temos um BL no final de Haikara-san ga Tooru.

"Nos shoujo mangá dos anos 70, há muitas cenas de um homem apaixonado que foi um pouco longe demais. Frustrado, ele bate no chão e diz falas grosseiras com grama na boca... No entanto, tais excentricidades exageradas são memoráveis, pois estão em cenas cenas impressionantes. E mais do que qualquer outra coisa, acho que o bom dos mangás shoujo antigos é que você pode genuinamente curtir cenas muito ridículas como essas."  Como eu amo o drama, o exagero sentimental do shoujo clássico, eu não reclamo.  Sim, as coisas às vezes parecem ir longe demais, só que a história era tão bem amarradinha que a gente esquece e a combinação as imagens e do texto termina até me comovendo.

Concluindo, a autora (*acho que é autora*) assina como Dekai pengin (Penguin grande) e parece ter uma coluna sobre mangá.  Os últimos três textos são sobre shoujo mangá, o atual, um sobre Patalliro (パタリロ!) e outro sobre Yuukan Club (有閑倶楽部), mas na bio, a pessoa diz que cresceu lendo Shounen Jump, mas sua mangá-ka favorita, Aemin Okada, só fazia shoujo.  Enfim, acredito que seja alguém que tenha mais ou menos a minha idade.  

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Girl's World: Sugestão de artigo


Estava procurando (*e não achei*) um artigo em particular da Rachel Matt Thorn, antropóloga norte-americana especializada em shoujo mangá, além de editora e tradutora, e achei essa matéria sobre a Geração de 1948 (*porque a maioria das autoras nasceu neste ano*),  o  Nijūyo-nen Gumi, Fabuoso Grupo do Ano 24 (*da Era Showa*).  Dentre as autoras do Grupo de 1948, as mais importantes são: Moto Hagio, Yumiko Ooshima, Keiko Takemiya, Toshie Kihara, Ryoko Yamagishi, Minori Kimura, Riyoko Ikeda, Nanae Sasaya e Mineko Yamada.  Enfim, para ver o artigo, clique aqui.

terça-feira, 22 de março de 2016

Dominação que faz mal


O Jornal Correio Braziliense de domingo trouxe uma matéria interessante discutindo cultura pop e a questão da dominação, especialmente, aquela que está ligada a questões de gênero, isto é, os papéis femininos e masculinos em uma dada sociedade.  Dominação está ligada à opressão, à violência contra as mulheres, que pode ser física, ou não.  Gaslighting, por exemplo, é um termo que foi forjado a partir do cinema, um filme com a Ingrid Bergman, e significa fazer com que a pessoa comece a duvidar de sua própria sanidade.  É uma forma de abuso comum. 

Interessante é como a cultura pop - e aqui entra shoujo mangá, também, ainda que a matéria não fale - vem abordando a questão, seja de forma crítica, ou com um afastamento que causa incômodo em alguns casos. Aliás, está aí em cima uma imagem de Hot Gimmick (ホットギミック), série de abuso por excelência. Enfim, segue a matéria, ela está na versão completa para assinantes.


Dominação que faz mal

Tratados sem a devida importância, relacionamentos abusivos ganham destaque em produções da cultura pop e provocam reflexões sobre o tema


Killgrave e Jessica Jones: pressão psicológica para dominar o objeto do desejo
Alexandre de Paula
Especial para o Correio

Killgrave, da série Jessica Jones, não é um vilão comum. Ele tem, sim, um poder, mas não é o de levantar carros, voar pelos céus ou soltar chamas de fogo pelas mãos. Seu grande triunfo é controlar mentes. E usa isso para que todas as pessoas ajam de acordo com as vontades dele. Jessica Jones, protagonista da série, é uma das vítimas do personagem. Dominada por ele e, seguindo suas ordens, matou, foi estuprada, entre outras ações que não desejava.

No mundo real, não é possível controlar mentes como faz Killgrave, mas o domínio exercido por esse vilão revela um típico caso de relacionamento abusivo. Muitas vezes ignorado, esse tipo de relação está presente em várias produções do mundo pop. Filmes, novelas e livros abordam situações em que o desejo de uma pessoa é superado pelo controle de outra.

A importância dessas representações varia de acordo com a forma com que os personagens são representados, acredita a professora e cineasta Rosa Berardo, especialista nas relações entre produção audiovisual e questões de gênero. “Construir personagens enquadrados num sistema opressor, seja qual ele for, serve para alertar sobre comportamentos de submissão ou de opressão”, afirma. Reconhece que apresentam os temas de uma maneira diferente têm o poder de incomodar o público e colocar em cheque valores antigos e prejudiciais, ou seja, faz com que as pessoas reflitam e identifiquem o maléfico controle.

A professora, doutora em cinema pela Sorbonne e pós-doutora pela Université du Québec à Montreal, cita a própria série Jessica Jones e algumas novelas como exemplo que, certamente, tiveram impacto positivo. No caso das telenovelas, ela acredita que personagens que conseguem denunciar os abusadores e se livrar do domínio influenciam reações positivas do público. “Isso certamente deve ter inspirado espectadoras que passavam por situação semelhante a questionar seu papel como mulher e a almejar uma mudança”, destaca.

Cinquenta tons de cinza, Game of thrones, Crepúsculo são exemplos de outras produções culturais de grande sucesso que apresentam relacionamentos abusivos, embora nelas, muitas vezes, o questionamento ao comportamento nocivo não apareça.

A exposição do tema é importante para mostrar para as pessoas que esse tipo de relacionamento existe e é grave, acredita o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos. “Muita gente mal se dá conta de que sofre abuso, às vezes, pelos próprios companheiros. É importante que isso seja denunciado”, completa.

Autor do livro Ciúme — O lado amargo do amor (ed. Ágora), o psiquiatra ressalta que esse tipo de relação não se resume a casos conjugais e pode ocorrer em qualquer relação em que alguém se coloque em posição superior ao outro e use isso para controlá-lo. “É uma situação em que existe uma pessoa exercendo sobre outra um efeito de destruição psicológica, que a faz renunciar aos próprios desejos e vontades”, explica.

Na maioria dos casos de relacionamento abusivos representados nas produções culturais, a vítima é mulher. No dia-a-dia, o panorama não é diferente, elas são as principais atingidas pelo problema. “Isso tem a ver com o nosso machismo. Há mudanças acontecendo, as mulheres estão mais ativas, mas na nossa cultura em qualquer relação ela já parte de uma posição supostamente inferior ao homem”, explica.

Apesar de a relevância de temas como esse ter aumentado nas produções da cultura pop, a professora Rosa Berardo acredita que ainda . há muito o que se conquistar em termos de representação nas narrativas midiáticas.

No mundo real

A estudante de antropologia Olga Morais, 21 anos, foi vítima de um relacionamento abusivo. Assim como Jessica Jones, ela se sentia dominada por um amigo que a controlava sem precisar usar força física ou gritar. Mesmo sem terem um relacionamento amoroso, o “amigo” se indignava quando ela saía ou mesmo se envolvia com outras pessoas. “Pode parecer bobagem, mas esses caras sabem exatamente o que dizer para te deixar mal”, explica Olga.

No começo, era sutil. Depois vieram as ordens diretas, que ela obedecia. “Sempre que eu resistia, ele se fazia de vítima. Todas as minhas conquistas eram piadas para ele e tudo o que dava errado era porque não segui as ordens dele”, lembra. O amigo a fez acreditar que apenas ele enxergava qualidades nela e que todos, exceto ele, a desprezavam.

Submissão, dependência, depressão foram consequências desse abuso. A culpa que Olga sentia fez se afastar de todos e até largar a faculdade. A força para perceber que se tratava de um relacionamento abusivo veio com tudo se tornando cada vez mais sério.

Como Jessica Jones, ela buscou refúgio na bebida para se esquecer dos transtornos que a relação causava. Foi difícil se livrar do domínio, ela conta. “Não tive ajuda, até porque não falava muito sobre isso e muitas pessoas não acreditavam ou não davam importância.” Ver a série da Netflix trouxe sofrimento por fazê-la se lembrar do que viveu, mas também a sensação de ser compreendida. “Chorei de emoção na cena em que o Killgrave não consegue controlá-la mais. Eu me senti acolhida pela série.”

Paula Alquist (Ingrid Bergman) sofre abuso do marido.
Desde o passado

A representação de relacionamentos abusivos em produções culturais não é exatamente novidade. Embora esse tipo de temática tenha ganhado força nos últimos tempos (até pela influência de parte do público), é possível citar exemplos bem anteriores. Com direção de George Cukor, o filme Gaslight, de 1944, retrata um caso em que o marido faz a mulher parecer louca e assim lhe tomar a fortuna. Para isso, ele provoca situações supostamente sobrenaturais e, sempre que ela pergunta, afirma que tudo não passou de delírio dela. O próprio filme deu origem a uma expressão famosa no estudo das relações abusivas: “gaslighting”. A expressão nomeia a forma de abuso psicológico em que informações são omitidas ou inventadas para fazer a vítima duvidar da própria sanidade.


Danos amenizados

Em algumas produções, os relacionamentos abusivos são tratados de maneira romântica, sem expor os prejuízos provocados por esse tipo de comportamento:



Crepúsculo: Em passagens da saga, Edward ameaça matar Bella e se suicidar caso ela coloque um fim na relação entre eles. Bella é representada com autoestima baixa e Edward como seguro e confiante.



Cinquenta tons de cinza: Em diversos momentos da história, Anastasia é agredida ou ameaçada pelo parceiro Christian. Ele tem também personalidade controladora e obsessiva.


Diário de uma paixão: Apesar de, no fim do filme, tudo acabar bem, o relacionamento entre os protagonistas Allie e Noah começa baseado em uma chantagem. Quando mal se conheciam, Noah ameaça se suicidar caso ela não aceite sair com ele.

quinta-feira, 6 de março de 2014

As Personagens Femininas e Masculinas Tipo dos Shoujo Mangá: Uma Atualização



Já fazia algum tempo que eu pensava em atualizar aqueles posts das personagens femininas e masculinas tipo de shoujo mangá. Os posts são de 2012 e realmente acho que são dos melhores que fiz para o Shoujo Café.  Colocarei aqui a atualização, como se fosse um novo post, e vou acrescentar no texto original depois.  Assim, quem, por acaso, cair neles terá tudo completo, quem pegar esse post, terá o que estava faltando.  Vamos lá!

- Garoto Pigmaleão – a dupla oriunda da mitologia grega, Pigmaleão e Galatea, foi reinterpretada e é recorrente na literatura, no cinema e noutras mídias.  No original, Pigmaleão é um escultor que, por não achar a mulher que lhe parecesse perfeita e sem mácula, dedica-se a fazer estátuas e colocar nelas suas noções de beleza e graça.  Um dia, porém, por obra de Afrodite, a deusa do amor, a mais perfeita de suas obras ganha vida e ele se casa com ela.  É este mito que inspira toda uma série de filmes nos quais uma garota comum, sem graça ou excessivamente tímida ou vulgar é ajudada por um homem que pode, ou não, ter interesse romântico por ela, a se tornar “uma dama”.  Dois exemplos desse tipo de trama são os filmes My Fair Lady e Uma Linda Mulher.  Essencialmente, a mesma história está lá, só que no primeiro, o professor se apaixona pela sua obra, no segundo, não.  Daí, temos a personagem tipo do garoto perfeito ou o crossdresser que reforma a menina esquisita.  A segunda variante, ao que me parece, é mais comum que o primeiro, e somente vi os dois juntos em cena em um mangá recente, Mairunovich (マイルノビッチ). 


Uma das coisas que constatei é que se existe o garoto Pigmaleão, a menina Galatea é muito mais um lugar que uma protagonista feminina pode ocupar em algum momento da história, daí a relação pode ser somente um ponto de passagem, como em Koukou Debut (高校デビュー).  Nessa série, a tomboy, Haruna, pede ajuda a um dos garotos mais populares da escola, Yoh Komiyama, para que ele a treine – ela usa jargão do esporte – para se tornar uma garota popular.  Os dois se apaixonam (*claro*), e terminam se acertando rapidamente.  A trama Pigmaleão e Galatea morre já no volume quatro, se não me engano, e eu nem consideraria Yoh como o garoto Pigmaleão modelo.  Já em Mairunovich, é o garoto mais popular da escola que, com pena da menina, se oferece para ajudá-la.  Nesses dois casos, o garoto poderia, também, ser enquadrado em outra personagem tipo, como o Bom Moço ou mesmo o Playboy.  Lembrem que não existe personagem pura.  Em Mairunovich, é a relação Pigmaleão e Galatea é o que move boa parte da série.


A forma mais popular do garoto Pigmaleão é o crossdresser.  Normalmente, ele não é homossexual, às vezes, quando surge, é até uma personagem meio assexuada.  Veste-se “de mulher” por vontade própria, mas as autoras gostam, também, de acrescentar alguns toques dramáticos como traumas, problemas de família e outros como motivadores para que o moço goste de "parecer" uma mulher.  Eles são sempre lindos, inteligentes, sedutores e, claro, são garotas muito mais interessantes e articuladas que a protagonista.  Daí, o crossdresser normalmente aparece em situações de humor. Surgem na história meio que como a fada madrinha que vai transformar a Gata Borralheira em Princesa de conto de fadas, mas terminam se apaixonando por ela.  O caso de crossdresser mais conhecido é o Kuranosuke de KurageHime.  Outro muito lembrado, ainda que não exerça o papel de Pigmaleão, é Noriko de Fushigi Yuugi.

Para muita gente é difícil separar a orientação sexual da personagem, que é hetero, dos seus comportamentos de gênero tipicamente femininos, no entanto, é assim que a coisa funciona.  Vários anos atrás, li um artigo acadêmico na internet que ressaltava o quanto o cinema, os doramas, mangás e outras mídias japonesas vendem para as mulheres japonesas que o melhor namorado, o mais perfeito do mundo, é um homem gay, pois ele entenderia de tudo aquilo que é considerado como “universo feminino”, seria gentil e atencioso e (*surpresa*), obviamente, não seria gay... Quer dizer, trata-se de uma idealização e, como tal, afasta-se muito da realidade social.  Resultado disso?  Frustração para quem busca seu príncipe encantado com esse tipo de roupagem, e materiais que são até divertidos de assistir e/ou ler.  Mas o fato é que há rapazes crossdresser que são muito próximos dessa idealização dos mangás.  Um exemplo pode ser encontrado neste post aqui.


- Garota Sem Graça ou Nerd – a Galatea por excelência nos shoujo e, acredito, nos josei, também, é um tipo de garota que não pode ser enquadrada como comum, aquela protagonista básica com a qual a leitora possa se identificar.  A garota sem graça, ou nerd, é incomum e destaca-se negativamente.  Pela sua fragilidade emocional, ela não pode ser enquadrada no tipo antissocial, se ela se esconde, por exemplo, é para se proteger em um ambiente hostil.  Em mangás mais recentes, esse tipo de protagonista de shoujo sempre é alvo de bullying.    Esse tipo de protagonista tem baixa auto-estima, pode ter fobia social, se considera feia ou desinteressante e sofre com o desprezo das pessoas (*ditas*) normais.  Voltando para a mitologia, a estátua Galatea já é perfeita, só não sabe que é, porque surge como um objeto inanimado.  


Nas suas reinterpretações literárias, Galatea é ingênua demais ao ganhar vida, no cinema, normalmente, a Galatea é vulgar, inapropriada e para se tornar uma dama irá precisar da ajuda de um mentor.  Coloquei no masculino, porque quase sempre é um homem, mas há exceções, claro, só que não estou falando delas.  A garota Galatea dos shoujo e josei é a menina tímida e desengonçada.  Ela é bonita, sim, mas não raro nem o rapaz Pigmaleão sabe disso até que ele consiga poli-la.  Daí, o susto, quando ele se dá conta.  A garota Galatea vai, ao longo da história, tomar consciência de sua beleza e capacidades, podendo ganhar certa independência.  Algumas mudam totalmente, outras, se empoderam ao longo do processo e mantém algumas de suas características originais.  Três Galatea que me vem logo a mente são as protagonistas de Mairunovich, Real Clothes (リアルクローズ) e KurageHime (海月姫).   


- O cara mais velho – depois de refletir um pouco, vi que essa personagem tipo está presente em vários shoujo mangá, nos clássicos e em alguns steamy shoujo, também.  Ele pode reunir características do Playboy ou do Oresama Guy, mas o que marca essa personagem é o fato de ser mais velho que a heroína.  Pode ser o interesse romântico (*mais freqüente*), o mentor, ou mesmo o sujeito que compra a protagonista, sim, é um tipo bem recorrente em shoujo/josei com conteúdo sexual mais evidente.  Acredito que o cara mais velho mais conhecido e amado é o Masumi de Glass Mask (ガラスの仮面).  Diante de todos, ele e a heroína se estranham, mas, em segredo, ele patrocina os estudos da moça e acompanha sua carreira.  Ele se culpa por amá-la e se esquiva dos seus sentimentos, assumindo um noivado arranjado por seu pai.  Na altura em que a história está, acredito que ambos tenham tomado consciência de que se amam.  Outra personagem clássica que se enquadra nesse tipo é Jin Munakata, o oni couch de Ace Wo Nerae (エースをねらえ!).  Neste caso, não é a protagonista que se apaixona por ele, mas a Ojousama da série, Ochōfujin (Reika Ryūzaki).  A tragédia, entretanto, faz com que os dois não fiquem juntos.  


Quando saímos dos clássicos, não consigo me lembrar de cara mais velho que não seja abusivo, com direito a mocinha comprada, estupro consentido, ou não, e coisas do gênero.  Colocaria no mesmo saco, ainda que o grau de violência seja diferente, First Girl  (ファースト・ガール), de Chiho Saito, cuja mocinha é comprada por um ricaço e levada para a América Central ou do Sul (*não lembro mais*); Toriko - Aigan Shoujo (囚 愛玩少女) e da série Kindan  (禁断), de Osakabe Mashin, que são lolicon com direito a estupro e tudo mais.  Mas há os caras mais velhos “do bem” no shoujo contemporâneo, exemplo disso é Kazuma Ojiro, o professor de Kisu yori mo Hayaku (キスよりも早く).

É isso.  Será que esqueci de alguma personagem tipo?  Realmente, não sei.

domingo, 11 de novembro de 2012

As Personagens Masculinas Tipo dos Shoujo Mangá: (Mais) Um Esboço



Mês passado fiz um texto sobre as personagens tipo femininas dos shoujo mangá e algumas das observações que fiz por lá valem aqui, claro. Bem, hoje, parei para tentar esboçar algo semelhante, mas pensando nas personagens masculinas. Cheguei à conclusão que é um exercício mais complicado, porque percebo que no caso dos garotos de shoujo alguns tipos se misturam com muito mais freqüência do que com as meninas que normalmente são as protagonistas das histórias, afinal, é para elas que as autoras escrevem. É preciso lembrar que os meninos de shoujo mangá são uma idealização, em alguns casos tão perfeita que é quase irreal. Por exemplo, não lembro de garoto interesse romântico da protagonista que não seja bonito. É pré-requisito básico.

Dito isso, rascunhei alguns tipos gerais e vou tentar defini-los e citar exemplos. Se alguém tiver contribuição, correção, ou sugestão, pode usar os comentários. Mais exemplos, também são bem-vindos. Nada aqui é definitivo ou irretocável. Vamos lá:



- Bom Moço – atencioso, responsável, bom aluno, estudioso e equilibrado. A protagonista pode gostar dele em segredo, mas, não raro, ele se declara e tenta começar um relacionamento com uma mocinha às vezes problemática. Pode vir na variante rico ou atleta, ou os dois, mas o bom moço pode ser também o garoto de classe média, vizinho da heroína, ou que se mudou para vizinhança. Fora do shoujo escolar, pode ser o príncipe ou um guerreiro poderoso disposto a dar a sua vida pela heroína. Exemplo desse tipo de personagem é o Yamato de Suki-tte Ii na yo。(好きっていいなよ。). Mesmo o bom moço pode ter seus segredos e traumas. Ao longo da série pode passar por alguma crise, mas vai voltar a se equilibrar antes que o mangá termine. Outro exemplo de bom moço é o Arima de Kare Kano (彼氏彼女の事情, Kareshi Kanojo no Jijō).



- Protetor  – alguém pode perguntar se não seria uma variante do "bom moço", talvez seja, mas o fato é que desde pelo menos A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), temos um tipo de personagem masculino de shoujo que é basicamente a sombra da heroína.  Poderia chamá-lo de "André-like" que não seria problema algum... Ele a ama, faz de tudo para protegê-la sem ser notado, é socialmente inferior a ela ou está impedido por algum motivo de amá-la.  Em alguns casos, a heroína também o ama, em outros, ela passa boa parte da série desejando outra pessoa para a angústia do protetor.  Pode terminar com a heroína ou ajudá-la a ficar com seu verdadeiro amor, mas, não raro, acaba dando sua vida por ela.  É o tipo menos egoísta possível, ainda que possa em algum momento ter uma reação explosiva.  Exemplo mor já foi citado, mas há outros, como o Yurios de Paros no Ken (パロスの剣) e o Seiran de Saiunkoku Monogatari (彩雲国物語).



- Imaturo – é o sujeito com problemas para se encaixar e/ou se aceitar, podendo ser o tipo antissocial ou o bom selvagem. Emocionalmente ou sexualmente imaturo, em alguns casos ele é o melhor amigo que se torna interesse romântico da protagonista. O imaturo pode parecer agressivo ou arrogante ou desastrado, às vezes, mas normalmente não sabe como interagir com outras pessoas, especialmente mulheres. Pode ser um fardo na vida da heroína, mas, via de regra, amadurece e se torna um sujeito mais ajustado. Exemplo de imaturo antissocial é o Rui de Hana Yori Dango (花より男子); do complexado é o Ootani de Love☆Com (ラブ☆コン); de bom selvagem é o Haru de Tonari no Kaibutsu-kun (となりの怪物くん); de desastrado temos o Imperador Ryuuki de Saiunkoku Monogatari(彩雲国物語), que tem fama de playboy preguiçoso, mas não é.



- Oresama Guy – Inteligente e talentoso, sempre rico (*milionário até*) se comparado com a heroína, é arrogante e se acha superior a todo mundo ou a maioria das pessoas. Pode ser o garoto mimado, ou alguém pressionado pela família, normalmente, seus pai, mãe, ou ambos, irão aparecer na história.  Sua relação com a heroína é sempre atribulada, não raro por falsos julgamentos de parte a parte, bem no estilo Orgulho & Preconceito. O caso mais notório é o Domyouji de Hana Yori Dango (花より男子). Mas temos, também, Walts wa Shiroi Dress de (円舞曲は白いドレスで) que tem um oresama guy dos mais interessantes, Masaomi Kidoin. É o tipo de interesse romântico que se a heroína não se impõe, vai tratá-la feito lixo, ainda que supostamente a ame. O oresama guy mais antigo que me lembro, Irie de Itazura na Kiss (イタズラなKiss), é desse tipo. Mais recentemente, um oresama guy de muito sucesso foi o Chiaki de Nodame Cantabile (のだめカンタービレ), neste caso, o caráter imprevisível, obsessivo e brilhante da protagonista, mudaram a vida do rapaz... que quase enlouqueceu no processo. Não é raro o oresama guy ser muito popular entre as garotas, mas tão virgem quanto a protagonista.


- Bad Boy – pode ser mocinho, ou mesmo o vilão. Sujeito que parece ou é violento, sem limites, insensível e não raro tem péssima fama entre os colegas (*em caso de shoujo escolar*), companheiros e inimigos (*em outros tipos de história*). Pode ser um solitário, ter uma gangue de seguidores, ou alguns poucos amigos fiéis. Ao contrário dos outros tipos, o bad boy normalmente é sexualmente experiente e pode ser agressivo e possessivo em relação à heroína. Shinju Mayu tem uma galeria desses tipos... Pode, também, ser injustiçado pelo “sistema” e caberá à heroína perceber que tem um bom coração em uma pequena atitude do moço, como cuidar de um animal ferido ou ajudar um desconhecido em dificuldades. Exemplos de bad boys com bom coração ainda que com problemas internos a resolver são os irmãos Kyo e Sho de Black Bird (ブラックバード); de injustiçado pelo sistema temos Rei Kashino de Mars (マース); e de possessivo e sexualmente agressivo podemos citar Uon Hakuron de Haou Airen (覇王•愛人).



- Playboy – rico, boa gente, galante e cercado de mulheres. Já teve muitas namoradas, mas nunca se apaixonou de verdade por nenhuma. Pode ser um galinha desmiolado ou alguém que mantém uma fachada por proteção ou rebeldia. Não raro é inteligente, ainda que não muito aplicado, ou grande atleta ou um guerreiro poderoso. Pode se fingir ou ser preguiçoso, cabendo à heroína colocá-lo nos trilhos.  Não confundir com o bad boy ou com o oresama guy, pois o playboy normalmente é querido e estimado pela maioria das personagens. Ao conhecer a heroína, normalmente tenta avançar o sinal e tratá-la como as outras moças. Ou apanha, ou se mete em uma grande encrenca por causa disso. Exemplo de playboy é o Príncipe Kail de (天は赤い河のほとり Sora wa Akai Kawa no Hotori).



- Os caras da Kayono – pegue qualquer mangá dessa autora e você terá o sujeito lindo, elegante, vestido na última moda, inteligente, não raro prendado (*cozinha, lava, passa, costura, etc.), atleta de primeira linha, praticante de artes marciais, poliglota e sexualmente experiente. É tudo tão superlativo que, obviamente, só pode ser comédia. ^___^



- E há em algumas histórias os meninos que orbitam em torno da heroína ou do seu interesse romântico. Daí, temos o amigo otaku ou nerd, de bom coração, mas desastrado. Normalmente, será o único garoto em shoujo mangá que pode ser desenhado gordinho ou com óculos engraçados. Pode ser apaixonado pela heroína ou terminar com a melhor amiga dela ou com sua irmã menor. Exemplo desse tipo de personagem é Subaru Yagi de Hot Gimmick (ホットギミック) e o Kelvin (Gurio Umino) de Sailor Moon (美少女戦士セーラームーン). E há o amigo piadista ou galinha do amado da protagonista e que pode se tornar seu amigo, também. Exemplo nesse caso é o Hideaki Asaba de Kare Kano (彼氏彼女の事情).

Esqueci de algum tipo? Vocês têm alguma sugestão?

domingo, 14 de outubro de 2012

As Personagens Femininas Tipo dos Shoujo Mangá: Um Esboço



Faz tempo que eu estava querendo escrever um post tentando criar uma tipologia das personagens femininas – protagonistas e nem tanto – que aparecem nos shoujo mangá. Quando tive a idéia, o objetivo era fazer uma comparação entre protagonistas como a Misao, de Black Bird, e a Shurei, de Saiunkoku Monogatari. Ontem, gravei um podcast sobre Sakamichi no Apollon e senti que precisava pensar antes sobre os “tipos ideais” e tentar defini-los em linhas gerais. Lembrando de três coisas:

1. Personagens tipos como a “amiga de infância yamato nadeshiko” [1] e a tsundere podem aparecer nos shoujo contemporâneos, mas eles vieram dos shounen mangá ou de outros materiais para o público masculino. A Juliana no guestpost sobre Tonari no Kaibutsu-kun escreveu que a Shizuru é uma tsundere. Talvez seja, talvez, não, mas eu não rotularia tão rápido. As tsundere [2] são presença quase obrigatória em material moe feito para o público otaku, mas nos shoujo... Já a amiga de infância perfeita, cujo modelo melhor acabado é a Minami de Touch, clássico de Mitsuru Adachi, teve uma encarnação muito marcante em Sakamichi no Apollon. Ritsuko é exatamente este tipo de personagem: simpática, amorosa, prendada, sempre pronta a servir... Dado o sucesso de personagens assim no Japão, elas parecem povoar os sonhos de muitos japoneses.


2. Nenhum tipo é puro.[3] Seguindo a idéia de Max Weber, eles são meros instrumentos de análise. O que isso quer dizer? Que efetivamente, as coisas podem se misturar, especialmente conforme uma personagem vai involuindo ou evoluindo. 3. Não vou falar diretamente de josei. Não tive acesso a tantos mangás josei e imagino que existam personagens tipo mais específicas, já que em material para mulheres adultas temos muito mais forte o mundo do trabalho, o casamento, a maternidade, etc. O post é sobre shoujo mesmo, especialmente os contemporâneos e com personagens adolescentes, mesmo que eu cite um josei aqui ou ali.

As Personagens Femininas Tipo dos Shoujo Mangá:

- A Garota Comum – Normalmente desenhada com cabelos escuros, é a garota que não é particularmente inteligente, ou bonita, mas, normalmente, imbuída de grande força de vontade e persistência. É assim que é apresentada a Maya de Glass Mask. Essa força de vontade normalmente é aplicada a duas coisas, que não necessariamente se excluem, conseguir ficar com garoto que ama ou atingir um objetivo escolar/profissional. Algumas dessas protagonistas estão passando pelo “inferno dos exames”, ou seja, as provas de entrada no colegial. Como elas não são muito brilhantes, mas geralmente não são burras, como os animes as pintam, elas precisam estudar muito. Exemplo disso é a Miaka de Fushigi Yuugi. Ela poderia entrar para outra escola qualquer, mas a mãe quer que ela vá para uma escola de elite, daí todo o drama da personagem. Esse é o tipo de personagem possível, que serve de modelo para meninas da mesma idade. Normalmente, compartilha vários dos dramas, desejos, ansiedades e inseguranças das adolescentes japonesas típicas. Em vários casos recentes, como o esforço da protagonista é para ficar com o garoto que ama, isso pode ser confundido com subserviência e aceitação de várias humilhações, se se trata de um mangá com forte conteúdo sexual, temos a garota comum virando a protagonista refém e até escrava sexual. Vide a Hatsumi de Hot Gimmick. Nesse mesmo tipo de mangá, como a garota comum normalmente é inocente e virgem, ela pode ser facilmente ludibriada, seduzida e mesmo constrangida pelo garoto que é seu interesse romântico.


- Tomboy – Antes que alguém pergunte se aqui não entraria a garota-príncipe, e eu digo que não. A menina tomboy é aquela que não se comporta segundo os papéis de gênero esperados das meninas, ela normalmente não é elegante, não é bonitinha, e tem dificuldades no trato social. E sofrem por isso. Dois exemplos excelentes são a Haruna de Koukou Debut e a Risa de Love★Com. Outro exemplo, só que de não protagonista, é a Sailor Júpiter de Sailor Moon. Brigonas, altas demais, atléticas demais, desastradas com as prendas domésticas... Uma das tomboy mais clássicas é a Benio de Haikara-san ga Tōru, que não quer casar, que não se comporta segundo os padrões e, claro, como se trata de uma comédia, acaba se metendo em muitas encrencas. Normalmente, ao tentar se encaixar, esse tipo de personagem, ás vezes, nega o que é para conseguir fazer parte do grupo e arranjar o tão sonhado namorado. Quando a história caminha bem (*ou segue o que acho justo*), elas acabam aceitas como são, não raro descobrem um hobby ou objetivo que canalize suas potencialidades, e acabam conseguindo o carinha legal que tanto (*acham*) precisam. Em josei, é possível ver esse tipo de personagem tipo na protagonista de Walking Butterfly. Moça alta demais, ela acaba se descobrindo como modelo, passando de lagarta à borboleta. É também comum em mangás de esporte, vide a Nobara de Crimson Hero, e a Ranko de Ace Wo Nerae. Esse tipo de personagem também tem uma função social importante, porque acaba conseguindo falar para aquelas meninas (*e meninos*) que acreditam que não há lugar no mundo para eles.


- A Garota Independente e/ou Ambiciosa e/ou Antissocial – Ela normalmente é a garota comum, só que com algum objetivo acima dos interesses amorosos. Ser a melhor aluna da turma, enriquecer, escolher seu próprio destino (*típico em mangás de época*), a personagem acaba tendo um ou vários caras no seu pé. Pode ser uma personagem com pavio curto, desbocada, ou até violenta. Caso da Kotobuki Ran de Super Gals. Daí, alguns confundem a personagem com a tradicional tsundere. É o tipo de personagem que pode ser dissimulada e mentirosa. Vide a protagonista de Switch Girl!! Não raro, são inteligentes e estudiosas. Normalmente, sua evolução ou involução como personagem fica muito evidente ao longo da obra. Um caso que se encaixa aqui é o da Miyazawa de Karekano: ela queria ser a melhor em tudo, ir para a faculdade mais disputada, ter uma profissão, enriquecer, não tinha amigas, e mentia muito para manter as aparências. Ao longo da série, os objetivos desse tipo d epersonagem podem mudar, especialmente por causa de algum interesse amoroso, e podem se tornar vulneráveis e até submissas. Se a Garota Comum e a Tomboy erram por inocência ou por serem desastradas, as Garotas Independentes muitas vezes agem de forma egoísta, magoando ou colocando em risco outras personagens, e mesmo traindo os valores tradicionais da sociedade japonesa. Eu realmente acho que é aqui que se enquadra a Tsuru de Tonari no Kaibutsu-kun. É também aqui que eu coloco a Koto de Waltz in a White Dress, cuja vida estava toda planejada pelo pai e pelo futuro sogro, e luta para poder ter uma profissão e escolher com qual homem ela deseja, ou não, ficar.


- Bishoujo – Normalmente coadjuvante, lembro de poucas protagonistas que se encaixem aqui, é aquela menina extremamente bonita, no sentido mais moe da palavra, que ao chegar todo mundo para para exclamar “Bishoujo!”, é lindinha ao extremo e parece inofensiva e carente de proteção, só que pode ter um gênio horroroso, ser a antagonista, ou mesmo uma tomboy disfarçada. Caso da Shibahime de Karekano. Ou seja, talvez a Bishoujo seja o tipo que mais peça uma combinação com outros na linha “ela é linda, mas...”.


- Ojousama – Termo honorífico que se remete ao tratamento dado a filha de alguém muito importante, é nos mangás shoujo aquela personagem linda (*sem ser bishoujo*), educadíssima, prendada e rica, claro. É a dama do anime, que normalmente desperta o akogare (*extrema admiração e devoção*) de outras personagens femininas da série e sem querer (*na maioria das vezes*) faz com que a protagonista, a garota comum, se sinta inferiorizada. A Yurika de Sakamichi no Apollon é uma ojousama típica que rompe com tudo e abandona a sua vida de princesa. No entanto, a maioria das ojousama que me vem a cabeça são de séries clássicas: Miya-sama de Oniisama E..., Ochōfujin (Reika Ryūzaki) de Ace Wo Nerae, Ayumi Himekawa de Glass Mask. Apesar de bonitas e aparentemente delicadas, as Ojousama não raro tem gênio forte, são inteligentes e, por serem aristocratas, estão acostumadas a mandar. Algumas são cruéis, como Miya-sama, mas a maioria é gentil e bondosa, ainda que orgulhosa, usando sua influência a favor dos mais fracos. A única ojousama que eu conheço que ocupa uma posição de quase protagonista é a Ayumi de Glass Mask. 


- Garota-Príncipe – Personagem andrógina que reúne em si características masculinas e femininas. Normalmente, é extremamente bonita e atraente tanto para homens quanto para mulheres e, quando em mangá escolar, desperta intenso akogare. Exemplos são muitos: Oscar da Rosa de Versalhes, Utena de Shoujo Kakumei Utena, Sarasa de Basara, Saint-Just (Rei) e Kaoru de Oniisama E..., Haruka de Sailor Moon, etc. A inspiração para a garota-príncipe vem da literatura tradicional japonesa, do mito da donzela guerreira [4] e das otokoyaku [5] do Teatro Takarazuka. A garota-príncipe pode ter que esconder que é uma mulher, escudando-se em comportamentos de gênero tidos como masculinos, caso de Safiri, da Princesa e o Cavaleiro, e Sarasa de Basara. Pode ser uma mulher educada como homem e que quer ocupar um lugar no mundo (*dito*) masculino, como Oscar da Rosa de Versalhes. Há as que são heterossexuais, a maioria das que eu conheço, na verdade, e as que são assumidamente homossexuais (*ou talvez até transexuais*), como Erminia de Paros no Ken e Haruka de Sailor Moon. Nos mangás (pseudo)históricos e de fantasia, é mais comum que as garotas-príncipe sejam protagonistas, nos mangás mais contemporâneos, elas tendem a ser coadjuvantes ou até o interesse romântico da protagonista.


- A Rival – Bem, ela pode ser qualquer um desses tipos acima, menos a Garota Comum, acredito. Agora, o mais importante é que a tendência no final do mangá é que a rival se redima, torne-se ou amiga da protagonista, ou faça uma retirada honrosa reconhecendo seus erros e/ou derrota. Muitas vezes, ela não se torna boazinha, continua cheia de defeitos, mas se transforma em uma pessoa melhor, por assim dizer. É o caso da Sae de Peach Girl e da Manami de Life. Uma antagonista pode exercer esse papel somente em parte da série.  Isso aconteceu em Anatolia Story com Ursula que se tornou aliada da protagonista e deu sua vida por ela.  Em Karekano, Miyazawa transforma Maho, a rival invejosa e que ensaia praticar bullying contra a protagonista, em sua amiga.  Ou seja, uma rival não precisa continuar sempre assim por toda a série entre rival/antagonista e vilã há uma grande diferença. 


- A Melhor Amiga – Aqui, temos de novo um tipo flutuante. A melhor amiga da protagonista, quando ela existe, serve para fazer contraste com ela. Se a heroína é, por exemplo, preguiçosa, desastrada, a melhor amiga tende a ser uma excelente dona de casa muito ciosa da sua apresentação pessoal. Se a protagonista é a garota comum com dificuldades na escola, a melhor amiga tende a ser a menina muito inteligente. Se a protagonista não tem bom senso, a melhor amiga tende a puxar a heroína de volta para a realidade.  Se a protagonista não é vista como bonita, a melhor amiga pode ser a bishoujo ou mesmo a ojousama. Se a protagonista for a garota-príncipe, a melhor amiga pdoe ser a admiradora ciumenta ou a criatura que sempre precisa ser salva.  As combinações são muitas... O importante é que em muitos mangás essa melhor amiga existe, ela tem bom coração e ajuda a heroína quando esta precisa dela.  Em Oniisama E..., Tomoko, melhor amiga da protagonista (Nanako), é a única personagem normal da série.  No mangá, uma fofoca separa as amigas, no anime, ela é o ponto de equilíbrio da frágil protagonista.


Será que eu cobri tudo? Esqueci de algum tipo? Se tiver alguma sugestão e/ou correção, use os comentários. Se lembrar de outras personagens tipo, acrescento depois.

[1] A “Yamato nadeshiko” é a personificação da mulher ideal para os japoneses.
[2] Tsundere é a menina bonitinha e agressiva que no final vai se derramar de amor pelo protagonista masculino... ou não. Uma das mais famosas é a Asuka de Evangelion, outra muito conhecida é a Taiga de Todadora!
[3] Segundo o dicionário on line de Sociologia, “(...) as construções de tipo ideal fazem parte do método tipológico criado por Max Weber que, até certo ponto, se assemelha ao método comparativo. Ao comparar fenómenos sociais complexos o pesquisador cria tipos ou modelos ideais, construídos a partir de aspectos essenciais dos fenómenos. A característica principal do tipo ideal é não existir na realidade, mas servir de modelo para a análise de casos concretos, realmente existentes.”
[4] Walnice Nogueira Galvão, em seu artigo O Ciclo da Donzela Guerreira, define da seguinte maneira a donzela guerreira: “Filha única ou mais velha, raramente a mais nova de pai sem filhos homens, sem concurso de mãe, corta os cabelos, enverga trajes masculinos, abdica das fraquezas femininas – faceirice, esquivança, medo –, aperta os seios e as ancas, trata ferimentos em segredo, assim como se banha escondida. Costuma ser descoberta quando, ferida, o corpo é desvendado; e guerreira; e morre.”
[5] Atriz do teatro feminino Takarazuka especializada em papéis masculinos.

domingo, 20 de maio de 2012

Tudo que você sempre quis saber sobre os livros de Jane Austen e tinha medo de perguntar...



Hoje me deparei com uma matéria do The Guardian chamada “Ten questions on Jane Austen” ou “Dez perguntas sobre Jane Austen”. Trata-se de mais que uma resenha, mas de um resumo muito interessante de dez das 20 perguntas que o autor John Mullan se propõe a responder em seu livro What Matters in Jane Austen?: Twenty Crucial Puzzles Solved (O que importa em Jane Austen: 20 Quebra-Cabeças Crucias Resolvidos). Fui até o Amazon e o resumo do livro é o seguinte:
Há algum sexo em Austen? Como os personagens se tratam e por que? Qual é a forma certa e errada de propor casamento? Quais personagens importantes de Austen nunca falam? Em What Matters in Austen, John Mullan mostra que você pode apreciar melhor o brilhantismo de Jane Austen prestando atenção às peculiaridades intrigantes e complexidades da sua ficção – perguntando e respondendo algumas perguntas muito específicas sobre o que acontece em seus romances, ele mostra a sua diabólica genialidade.
O legal é que o autor trabalha em cima do texto, das entrelinhas e sugestões que a autora faz para responder 20 questões curiosas. O The Guardian selecionou dez delas: Quem casou com um homem mais jovem?, Quem disse “Eu detesto dinheiro”?, Qual o nome de batismo da Sr.ª Bennet?, Por que o Sr. Perry está comprando uma carruagem?, Quem está vestindo luto?, Onde Wickham e Georgiana Darcy tiveram um encontro amoroso?, Quem casou por sexo?, Qual a ocupação do Capitão Benwick em Persuasão?, Quem teve a corte mais curta e bem sucedida?, Qual romance tem seu enredo dependente do clima?.


A matéria do The Guardian é longa, eu queria ter tempo e paciência para traduzir tudo, mas já incluí o livro de John Mullan na minha lista futura de compras (*deixa o dólar cair*). É fantástico perceber só pela leitura do artigo do jornal o quanto Austen fala sobre sexo, por exemplo, mar (*Ramsgate é onde Wikham tenta seduzir Georgiana*) conjura perigos (*Austen perdeu um irmão no mar*) e o abandono aos prazeres sexuais. Isso pode ser par ao mal, como no caso da irmã de Darcy, salva na última hora, ou para o bem, como no caso de Emma, que nunca tinha visto o mar e vai passar sua lua de mel no litoral. Há também toda a discussão sobre casar por sexo, sugerida nas entrelinhas. Quem casou por sexo? Sr. Bennet, claro, e paga caro por isso, mas, também, Robert Ferrars e Sr. Palmer (Razão e Sensibilidade), além de Sr. Elton que é descrito como “um homem jovem vivendo sozinho e não gostando disso”. Segundo o artigo, tal colocação já conjurava vários sentidos perfeitamente compreensíveis pelos leitores, especialmente os homens solteiros. Mas Austen deixava a dica: todas as suas personagens que casam por sexo e são mostradas na maturidade, carregam uma cota de amargura e arrependimento, só que casamento é para toda a vida...

Há outros aspectos interessantes do artigo, como apontar que o clima é fundamental à trama de Emma ou que em Northanger Abbey todos parecem ter pressa. Quem casa com um homem mais jovem é Charlotte Lucas, que desesperada aos 27 anos, agarra o Sr. Collins. A questão do primeiro nome é particularmente deliciosa, pois pela reação das personagens de Austen, era mostra de excesso de intimidade e de falta de educação. Mr. Elton trata a esposa por seu nome, “Augusta”, e isso o torna motivo de riso e reprovação silenciosa, porque tudo é feito com falsa naturalidade. Já o Almirante Croft, em Persuasão, chama excepcionalmente a esposa pelo nome (*Sophy*), mas o faz de forma tão sincera e amorosa que causa invela “boa” nas mulheres ao redor. E, claro, a pobre Elinor acredita que Willoughby e Marianne estão noivos, porque o ouve chamando sua irmã pelo nome de batismo. Nós nunca saberemos, por exemplo, o nome da Sr.ª Bennet...

Enfim, poucas vezes um artigo me vendeu tão bem um livro. Se a versão digital já estivesse disponível (*o amazona UK, só vende versão Kindle para o Reino Unido*), eu iria pedir o livro imediatamente, mas tudo ao seu tempo. Na verdade, está em pré-venda ainda. Quando sair na versão Kindle para os Estados Unidos, e se o dólar se segurar, eu peço. Quem souber inglês, não deixe de ler o artigo que é muito, muito bom, e vai encantar todas as fãs de Austen.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Especial "As Raízes do Shoujo Mangá" no Pro Shoujo Spain



Não deixem de visitar se você é interessado em shoujo mangá ou em história do mangá, o texto de hoje é do Matt Thorn. O link para o artigo é este aqui. Lembrem-se que é uma série. É bom ter o Pro Shoujo Spain de volta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Visitem: Un género por descubrir ~Los josei de Ichijinsha~



Este artigo muito interessante está no blog espanhol Paradise Library. Eu recomendo a visita, porque o artigo está em espanhol (*e a maioria pode ler sem grande sproblemas*) e fala dos josei da editora Ichinja que tem um recorte diferente (*aventura, fantasia*) daquilo que a maioria considera josei e mesmo shoujo. Vi a recomendação do @shoujospain no Twitter e, para quem interessar, elas estão falando do sunjeong manhwa de Sherlock Holmes. Eu não sou muito fã de quadrinhos coreanos, mas este eu gostaria de olhar, sim. :) A imagem aí embaixo é dele.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Uma História de Horrível e Inofensiva Violência



O site Comixology publicou um interessante artigo chamado “Uma História de Horrível e Inofensiva Violência” (A History of Horrible, Harmless Violence) e que trata da violência nos shounen mangá. Asseverando que as séries japonesas permitem um nível de violência jamais encontrado nos comics americano ou na animação, e que nos seinen a coisa ainda é mais explícita.

Logo no começo, eles citam uma fala de Nobuhiro Watsuki, autor de Rurouni Kenshin. Segundo este mangá-ka “O básico do shounen mangá são sorrisos e finais felizes”, ao que o autor do artigo acrescenta “e terrível sofrimento”. O autor também cita uma fã que teria dito para ele em um desses Comicons da vida que o que atrai nos mangás são as lutas, porque é na batalha que as personagens mostram o quanto se preocupam/gostam uma das outras.

Como meu blog não é sobre shounen, e como vocês devem ter percebido estou bem atrasada nos posts, não vou traduzir tudo, só a parte das regras da violência no shounen. O artigo original, em inglês, está aqui. Seguem as regras que o autor formulou para os shounen e shoujo mangás com mais ação, ele cita Shoujo Kakumei Utena e as séries de Yuu Watase. Não deve estar familiarizado com coisas como Basara ou Anatolia Story. Nem vou entrar no material clássico, porque aí é pegar no pé. Enfim, lá vão elas (*tradução livre e difícil em alguns momentos*):
(1) O corpo humano contém um suprimento infinito de sangue. (*Essa é básica*)
(2) Vomitar/tossir/cuspir sangue é como espirrar.
(3) Os órgãos internos vão desviar dos golpes que podem causar dano.
(4) Heróis são também imunes aos esmagamentos.
(5) Se há um pequeno pedaço de carne presa, ela não está amputada.
(6) Se ferir o vilão não é a solução, ferir a si mesmo é.
(7) Se tudo falhar, sempre haverá a possibilidade de regeneração.
Acrescentaria a ressurreição, pois em muitos shounen – e alguns shoujo – morrer e voltar é coisa banal. Faltou também a regra da “zona de ferimento do herói”, só que agora não achei o texto, mas é o seguinte, se um herói é ferido (*não morto, que fique claro*) ele normalmente receberá um ferimento em alguma zona não mortal, como pernas, braços, alguma área do rosto. Se for um romance Harlequin, ou shoujo mangá mais “clássico”, é suportável que o herói tenha cicatrizes charmosas (*um tapa olho, uma cicatriz no rosto, essas coisas*), ou manque de uma perna. Mais que isso, é arriscado...

Na série americana Norte & Sul, o personagem do livro perde o braço na altura do ombro. Isso seria muito complicado de colocar em tela, além de ser um bruta desrespeito à regra da zona de ferimento do herói, mas o John Jakes parece não funcionar bem da cachola às vezes... Como na versão para a TV o personagem era o Patrick Swayze transformaram o ferimento terrível em um charmoso mancar da perna... E ainda assim o maluco entra em depressão profunda... enfim... Se bem que eu tinha uma amiga que dizia preferir os homens carregados de cicatrizes... Por isso, até hoje eu dou risada quando um dos “anões” de Branca de Neve na Floresta Negra tira a camisa... Mas melhor deixar essas discussões freaks para outro post...

Você acrescentaria ou tiraria alguma regra? Use os comentários de quiser. Eu não tinha como traduzir tudo, infelizmente. Ele cita exemplos que dão embasamento aos argumentos, por isso, dê uma olhada no original.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Reeditando Textos Antigos: Amigo é coisa pra se guardar...



Ontem foi o Dia da Amizade (*para mim foi um dia de estresse na Secretaria de Educação do Rio, mas esbarrei com um dos meus melhores amigos por acaso. Acho que isso salvou o dia.*) e eu não postei nada sobre isso. Enfim, fui vasculhar o site do Anime-Pró e busquei o texto a minha coluna 47. Acho que deve ser lá de 2003 ou 2004... Eu realmente não sei. Texto muito antigo, mas acho que está valendo ainda. :)
Amigo é coisa pra se guardar...


Hoje, 20 de julho, é Dia da Amizade. A data que não foi ainda descoberta pelo mercado (imagina como pode se tornar lucrativa) só tem gerado, na sua maioria, troca de cartões, envio de e-mails e telefonemas para aquelas pessoas que nos são queridas. Eu particularmente gosto muito de fazer isso, embora não tenha condições de contemplar a todas as pessoas a quem eu chamo de amigas, nos mais diferentes graus. ^_^ Enfim, foi essa data e o e-mail de um leitor (Diego Moura), que sempre me escreve, embora eu demore muito a responder.

Lendo um dos e-mails dele antes de viajar (Estou no Rio de Janeiro agora), eu tive a idéia da coluna, que por coincidência vai ao ar exatamente no dia 20 de julho, á que o sentimento de amizade é algo muito presente em animes e mangas. Nas histórias japonesas que mais circulam os laços de solidariedade entre as pessoas são muito explorados e levados, às vezes, até as últimas conseqüências.

É possível dar mais atenção às intermináveis seqüências de lutas e aos torneios que se arrastam porque eles chamam a atenção, sendo o prato principal na concepção de muitos. Entretanto, para quem quiser ver, Yu Yu Hakushô, Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, oferecem também bons exemplos de como amizades são construídas apesar das adversidades e que amizades verdadeiras podem mesmo nascer de uma péssima impressão inicial (Ikki tentou matar Seya e Cia, não foi?). Nada que não possa acontecer na vida real. Quem nunca virou de ponta a cabeça aquele ditado “a primeira impressão é a que fica”? Eu já, para bem ou para mal.
^_^

Verdade que os animes mais antigos podiam carregar bem mais no drama quando queriam. Acho que ninguém que tenha assistido Pirata do Espaço é capaz de esquecer da morte do velhinho (Sabu ou Baku) que se lamentava por não ter conseguido morrer como kamikaze mas depois conclui que valeria mais a pena dar a vida pelos amigos e, por isso, talvez tenha sobrevivido à Guerra. Ele joga seu aviãozinho na frente do Pirata do Espaço e impede que os gailarianos seqüestrem a nave com Joe, Rita e os outros dentro. Hoje, talvez, com essa onda de limpar as “situações de conflito moral” e “violência” dos desenhos animados, não tivéssemos visto tamanha prova de amizade e honra.

Hiei e Kurama são ótimos para ilustrar a questão, e apesar de alimentarem a imaginação dos autores e autoras de yaoi, ninguém que acompanhe a série pode dizer que a relação dos dois não é uma das mais belas amizades de anime que já aportaram aqui no Brasil. Outros exemplos, de ontem e de hoje poderiam ser citados. Afinal, o que os japoneses mais sabem mostrar em suas histórias é como a união faz a força, como os sacrifícios individuais podem reverter em benefício coletivo, e de que vale, sim, tentar transformar inimigos em amigos do peito. Aliás, tentar vender animes como programas que estimulam o trabalho de grupo e a amizade talvez desse menos dor de cabeça aos licenciadores do que enfatizar a venda de bugigangas, a violência e a ação.

Obviamente, já vi gente dizendo que amizade de verdade só mesmo em shounen anime e manga, já que no material feito para o público feminino, as personagens só estariam preocupadas em passar uma a perna na outra para agarrarem um namorado e a partir daí em dedicarem sua vida a manter o cara bem amarrado à seus pés... ou a protagonista aos pés do sujeito, sei lá (Lembram do clipe de abertura do filme “O Casamento do Meu Melhor Amigo”?).

Enfim, nada mais preconceituoso e injusto. E primeiro lugar, porque mostra o quão pouco de shoujo manga e anime, quem fez o comentário conhece. Em segundo lugar, porque repete uma mentira (que por ter sido repetida milhões de vezes em benefício masculino...) que é a de que as mulheres não conseguem serem amigas umas das outras, porque são falsas, invejosas e traidoras. Resumindo: como só tem significado do lado de um homem, é atrás deste homem que elas devem correr, porque é somente o que importa na vida. Nada de dar mole para uma competidora, certo? Tenho pena de quem acredita nisso, mais ainda se for mulher.

Sem entrar na discussão sobre a possibilidade, ou não, da amizade real entre mulheres (que não é assunto da coluna), é possível encontrá-la muito bem ilustrada dentro dos animes e mangás. Um dos melhores exemplos, sem dúvida, seria Karekano, manga ou anime. Para quem não lembra ou conhece essa história muito legal, faço um resumo: Miyzawa Yukino é uma garota perfeita, filha exemplar, aluna nota dez, sempre cordial, mas tudo isso é uma máscara que esconde um monstro de vaidade e competitividade, além, claro, de uma menina solitária e sem amigos. Miyazawa conhece Souchiro Arima, menino rico, lindo, excelente aluno, melhor do que a protagonista, talvez, o que faz com que ela morra de inveja, apesar de manter a face cordial. Só que Arima também usa máscara. Rapidamente, as máscaras caem, a competição se acirra, os dois se apaixonam e em um volume de manga ou 5 episódios de anime, o romance está instalado. Seria uma história de amor muito bem costuradinha se terminasse ali, mas o que mais me agrada em Karekano, para além do romance central é como as relações entre as personagens crescem e se consolidam.

Ora, se Miyazawa só tivesse o namorado, ela continuaria sem amigos, ou no máximo, com um só amigo. Só que a escola é muito maior que Arima, e nossas necessidades afetivas não podem ser satisfeitas por uma só pessoa (ou, pelo menos, não deveriam). Por isso mesmo, os amigos de Arima, após uma primeira rejeição, acabam se aproximando de Miyazawa, uma inimiga e competidora (Maho) acaba sendo transformada em amiga, e, aí, não temos mais duas pessoas se amando, mas um grupo sólido de amigos que se ajuda, apóia, estuda junto, vai para festas, divide experiências. É maravilhosa a seqüência na qual as três antigas colegas de escola de Arima, se tornam amigas de Miyazawa, passam a chamá-la pelo nome – e não Yukino-san – e tratá-la com grande intimidade. A alegria da menina, que sempre fora só é imensa, e a nossa também.

Eu, particularmente, que fui durante muito tempo uma pessoa extremamente tímida e travada para amizades, não deixei de me reconhecer na situação. E melhor de tudo é que o manga (que continua até hoje) não decepciona e mostra o quanto amigos são importante, que mulheres podem ser solidárias entre si, que quem namora não precisa esquecer que existem outras pessoas no mundo. E mais, que meninos e meninas podem sim ser amigos de verdade, sem que se estabeleça o que se vê muito em alguns seriados americanos (com atores) nos quais todo mundo acaba namorando todo mundo... ou quase isso... num interminável rodízio.

Outro bom exemplo de amizades bem construídas em shoujo manga/anime é Hana Yori Dango (algo como “Prefiro Garotos às Flores”). Nesta história, que rendeu 35 volumes de manga e 51 episódios de anime, temos uma protagonista também solitária, mas não sem amigos, pois o problema de Tsukushi Makino é que sua mãe a obrigou a freqüentar uma escola de elite – mesmo que eles sejam muito pobres – e ela teve que ficar longe de seus amigos e amigas de ginásio.

Não passei por uma situação assim, mas chegar nova em uma escola – ou cidade, como é meu caso agora – sem amigos ou amigas, quando se tinha tantos antes é uma barra. Se a escola é muito diferente da sua antiga, então, nem se fala... Só mesmo se você for aquele garoto ou garota bem descolada, ou for escolhid@ como amig@ por alguém muito popular a passagem vai ser tranqüila. Logo, a situação da protagonista, não é de todo absurda.

Makino não se encaixa no novo colégio, não consegue se dar bem em um mundo de aparências e ostentação, fora isso, ainda acaba desagradando o badboy-mor da escola, Doumiouji, que passa a persegui-la. Ora, depois de um bom jogo de gato e rato (onde o rato não se deixa apanhar), os dois se apaixonam, o que é dizer o óbvio, mas para além do romance principal cheio de vindas e idas, Makino faz amigos onde menos espera, consegue ver que riqueza e pobreza não são barreiras intransponíveis quando as pessoas se respeitam e admiram, que as aparências enganam (afinal, ela odiava mais do que todos Doumiouji e seus amigos) e que inimigos podem, sim, se tornar amigos se a gente for um pouco flexível e não esconder quem realmente somos.

Hana Yori Dango oferece bons momentos quando o assunto é amizade e o quanto vale se sacrificar pelas pessoas que tornam nossas vidas tão interessantes. Apesar do título que pode sugerir que a protagonista seja volúvel, não é nada disso, ela consegue é ficar amiga dos quatro rapazes mais cobiçados da escola, sendo que um deles (somente e sem grandes dúvidas da parte de ambos), se torna seu namorado.

Atualmente, uma das séries que desenvolve com mais delicadeza a amizade entre mulheres é Maria-sama Ga Miteru (agora com a sua continuação Haru/Primavera). E não pensem que eu estou insinuando qualquer coisa, já que a série é uma das campeãs em fanarts com conteúdo shoujo-ai e yuri (romances entre mulheres com menor ou maior conteúdo sexual) porque caiu no gosto tanto de homens quanto mulheres. Maria-sama ga Miteru (A Virgem Maria nos Observa) celebra a adolescência, o período que antecede as responsabilidades da vida adulta, e mostra o dia-a-dia de um punhado de meninas que freqüentam um tradicional colégio de freiras.

Com folhas de ginko – e não de sakura – sempre as acompanhando, vamos sendo apresentadas as personagens, os laços que as ligam (amizade, parentesco, admiração) e como as formalidades e hierarquias japonesas (tratar alguém por “–san” ou “–sama”, por exemplo) vão sendo vencidas e elas se tornam cada vez mais unidas. A presença masculina é rara e sua falta parece não ser sentida.

A série não dá muito espaço para competições ou discórdias ou mesmo, até o momento, romance, afinal, o ambiente é de paz e solidariedade muito mais sonhada do que real. Mesmo sabendo que amig@s se desentendem às vezes, eu adoraria viver amizades tão belas e tranqüilas como as de Maria-sama Ga Miteru, obviamente, desejaria que elas durassem pela vida toda, também, e não somente até o fim do colégio.

Para contrapor a isso tudo, temos um dos exemplos mais negativos de “amigas” de shoujo manga sendo publicado aqui no Brasil: a Sae de Peach Girl. Quem gostaria de ter essa figura por perto? Quem ousaria chamar essa cobra de amiga? Mas mesmo assim, a convivência com a Sae é um bom exercício para a Momo, afinal, ela tem pode aprender a ser previdente e, ao mesmo tempo, exercitar boas virtudes. Afinal, a sua atitude em relação à Sae pode muito bem ajudar a viborazinha a repensar os seus próprios atos... Só não posso comentar mais, porque posso soltar algum “spoiler”...

De qualquer forma, animes e mangas estão cheios de inimigos e competidores que conseguem mudar de lado graças à heróis e heroínas que se dispõem a tentar de novo, tendo atitudes firmes, honestas e cheias de bondade, sem necessariamente “dar a outra face” no sentido piegas que muita gente associa ao Cristianismo. Afinal, quem poderia esperar que Maho e Miyazawa se tornassem amigas tão próximas e ligadas? Geralmente, as produções ocidentais (nossas novelas inclusas) não são capazes de mostrar transformações tão humanamente possíveis, mas somente punições maniqueístas e ex-antagonistas que mais parecem que mudaram não de vida, mas de personalidade.

Voltando ao ponto principal: Desejo um feliz dia da amizade para todos os leitores e leitoras. Desejo que vocês nunca estejam sozinh@s na sua caminhada, porque não existe nada mais recompensador do que poder dividir os bons e os maus momentos com pessoas que nos amam e respeitam. Aproveite para fazer uma visita, uma ligação rápida, mandar um cartão, afinal, esse tipo de investimento costuma sempre gerar bons frutos. E que os animes e mangas possam servir de inspiração também nessas horas, pois eles geralmente celebram a amizade, a solidariedade, o respeito pelo próximo, e um posicionamento menos egoísta diante da vida.