terça-feira, 28 de dezembro de 2004

Meninas alimentam explosão do mangá nos EUA


Matéria do New York Times disponível na página da UOL somente para assinantes.

Meninas alimentam explosão do mangá nos EUA - HQs japonesas viram mania com tramas voltadas para as mulheres
George Gene Gustines
Em Nova York


Naum Kazhdan/The New York Times

Os desenhos japoneses exploram o universo feminino e fazem sucesso

As vendas de histórias em quadrinho japonesas --mais conhecidas como mangá-- estão explodindo nos EUA. Grande parte da expansão se deve aos esforços dos editores em estender seu alcance para muito além dos rapazes.

"Os produtores de mangá nos EUA conseguiram um novo público para as histórias em quadrinho --o consumidor do sexo feminino", disse Milton Griepp, que fundou a ICv2, publicação online que cobre a cultura pop para os lojistas.

Nas livrarias, as coloridas coleções de mangá em geral ficam ao lado das prateleiras de personagens consagrados como Batman e Homem Aranha.

O mangá muitas vezes celebra personagens femininos fortes em contos de aventura ou histórias que se concentram em amor e relacionamentos. Os títulos algumas vezes são até divididos entre temas para meninas (shojo manga) ou para meninos (shonen manga).

Parte do apelo do mangá, sugeriu Griepp, também pode ser atribuído à aceitação da cultura pop japonesa pelos EUA, personificada pela anima em videogames e filmes. Ele disse que as vendas do mangá foram de US$ 50 milhões a US$ 60 milhões (entre R$ 150 milhões e R$ 180 milhões) em 2002 e aumentaram para US$ 90 milhões a US$ 110 milhões (entre R$ 270 milhões e R$ 330 milhões) em 2003. Este ano apresentou "um crescimento forte de dois dígitos", disse ele.

Os pioneiros americanos do mangá foram a Viz e a Tokyopop, mas a expansão nas vendas atraiu uma nova onda de editores, incluindo a Del Rey, Hyperion Books for Children e Penguin Group USA.

A Dark House, que já está no setor de quadrinhos, publica mangá, e a DC Comics acaba de entrar no setor. "Haverá em torno de 1.000 volumes sendo lançados neste ano", disse Griepp.

A Penguin Group USA formou uma parceria de três anos com a Digital Manga, de Los Angeles, e planeja publicar entre oito e 10 títulos na primavera. Doug Whiteman, o presidente da Penguin Young Readers Group disse que foi fácil fazer a decisão de publicar mangá.

"Nós editores estamos sempre procurando formas de crescer", disse Whiteman. "Quando encontramos algo que agrada uma ampla faixa de jovens de hoje, sentimo-nos compelidos a levar nossas publicações nessa direção."

Whiteman disse que 75% dos títulos iniciais seriam voltados para meninas.

Desde o final dos anos 50 que não há histórias em quadrinho americanas populares para meninas, disse Trina Robbins, autora de "From Girls to Grrlz: A History of Women's Comics" (Chronicle Books, 1999). Antes, as meninas podiam escolher títulos como "Millie the Model", "Patsy Walker" e "Betty & Veronica".

"O mangá está trazendo de volta os mesmos assuntos, mas com uma modificação, a sensibilidade japonesa do século 21", disse ela. "As meninas são bonitinhas, educadas e nunca são peitudas", disse Robbins, referindo-se às jovens excessivamente dotadas das histórias de super-heróis.

Robbins conhece bem o mangá e vai criar o diálogo para quatro títulos shojo publicados pela Viz. Fundada em 1986 e distribuída por Simon & Schuster, a Viz publica mangá para meninos como "Dragon Ball Z" e "Yu-Gi-Oh!" (ambos também são cartas, brinquedos e desenhos animados) e uma enorme quantidade de títulos com estrelas femininas, inclusive "Boys Over Flowers", sobre a vida de uma academia de prestígio, e "Imadoki", sobre os perigos da amizade, do namoro e da escola.

O sucesso da Tokyopop, fundada em 1996 por Stuart Levy, começou com "Sailor Moone", uma série de mangá e um desenho animado sobre uma menina de 14 anos com poderes mágicos.

Apesar de o mangá ser produzido no Japão há mais de 50 anos, Levy disse que a Tokyopop geralmente publica material dos últimos cinco. A empresa recentemente publicou "Pincess Ai", uma nova série criada em parte pela estrela de rock Courtney Love, inspirada em sua vida.

Em maio, Del Rey, uma subsidiária da Random House, começou sua linha de mangá com quatro séries. Outras duas foram acrescentadas em outubro e sete começarão no ano que vem. A linha inclui "The Wallflower", sobre dois meninos que fazem amizade com uma menina tímida. As séries da Del Rey ainda são produzidas no Japão pela Kodanshar, uma das maiores editoras de histórias em quadrinhos do país.

Hyperion Books for Children, divisão da Disney Publishing Worldwide, publicará seu primeiro mangá original no ano que vem. A história está sendo escrita e desenhada por Misako Takashima, artista japonês que mora nos EUA.

As empresas que publicam quadrinhos nos EUA não poderiam estar mais felizes com a popularidade do mangá. Ajuda as pessoas a se interessarem pelo gênero em geral.

"É muito animador porque ajudou a criar um público e uma rede de distribuição", disse Dan Buckley, editor da Marvel Comics. Buckley disse que era interessante o apelo do mangá para as meninas "porque significa que a ficção gráfica é algo que elas querem."

A Marvel já tentou atrair as mulheres, inclusive publicando coleções em tamanho de mangá das séries de "Emma Frost" e "Mary Jane", que têm personagens femininas fortes.

Até a DC Comics, lar de Batman e Superman, criou uma editora separada para sua linha de mangá, a CMX, inaugurada em outubro.

John Nee, vice-presidente de desenvolvimento de empresas da DC, disse que "o maior desafio é crescer cuidadosamente". Com esse fim, a CMX programou seus lançamentos espaçados. Três títulos começaram em outubro, dois no mês passado e a próxima série só sairá em fevereiro. Diferentemente da Tokyopop, a CMX planeja mergulhar fundo no passado.

"O mangá é publicado há tanto tempo no Japão, mas só fez sucesso nos EUA nos últimos cinco anos", disse Nee. "Nem tocamos na ponta do iceberg em termos do material disponível."

"Swan", uma história de 1979 sobre uma bailarina que atingindo a maturidade, é um dos títulos que Nee aprecia. A série foi tão popular no Japão que provocou um aumento nas inscrições em escolas de balé. "Ficamos impressionados com a resposta das jovens a esse título", disse ele. "Elas estão achando tão atual quanto era quando foi introduzido no Japão."

"Acho que o melhor é que há décadas que os quadrinhos não são um meio significativo para o sexo feminino", acrescentou Nee. "Estamos alcançando leitores que não atingimos com nossas revistas regulares, e isso é ótimo."

Tradução: Deborah Weinberg

domingo, 26 de dezembro de 2004

Capítulo 1: Ecos do Passado (parte 5)

Você deve ter lido a parte anterior deste capítulo. Ele foi cortado para facilitar a leitura, e tem quatro partes até agora. Agora, você está quinta metade. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior.


XXX

— É tão difícil escolher quando se tem tantos vestidos... Qual devo usar hoje? — Um batalhão de criadas, tentando dissimular o tédio, exibia dezenas de vestidos diante de uma adolescente que demorava horas para decidir qualquer coisa. — Certamente eu preciso ser o centro da festa, afinal, sou a princesa, e não deve haver mulher mais bela do que eu hoje!

— Se me permite fazer uma sugestão, Alteza. — Uma das mulheres falou. — O púrpura lhe cairia muito bem, combina com seus lindos olhos. Veja! — Levando-se em conta o quanto a menina era vaidosa, um elogio era mais que fundamental.

— Realmente, me cai muito bem... Uma boa sugestão, Ernestine. — Todas respiraram aliviadas diante desta última frase de aquiescência. Seu ar indeciso era o que mais odiavam nestas horas. — Mas talvez o...

Nesse momento ouviram-se três batidas na porta e um criado anunciou a Rainha. A porta se abriu e todos se curvaram, diante de uma mulher belíssima, alta e morena vestida de negro. Era a Rainha que ainda guardava luto fechado pela morte do marido que ocorrera dois anos antes. Com um sinal de mãos quase imperceptível ordenou que as mulheres se retirassem. Um criado, vestido com as cores do Reino, a seguia com um pequeno cofre nas mãos.

— Vejo que está empolgada com as festividades. Isso é um bom sinal, todos sofremos muito com a morte de seu pai, já é hora de continuarmos a viver. — Sentou-se em uma cadeira e Marina fez o mesmo. — Continuamos procurando por seu irmão, mas creio que os inimigos de seu pai... Esqueçamos disso agora. — Fez uma pausa ensaiada. — Minha querida, eu tenho um presente, para que use na festa de amanhã.

— Presente?! — A menina deu um salto na cadeira. — Eu adoro presentes!

— Eu sei disso, mas abra, é seu. — Marina abriu o cofre e seus olhos brilharam, era um colar belíssimo, com pedras que ela não conhecia. Sua madrasta realmente tinha um gosto extraordinário para jóias.

— Eu nunca vi algo tão perfeito! — Disse tocando a jóia com seus dedos delicados.

— Foi feito especialmente para você. Por que não retira este colar que está usando e experimenta o que ganhou?

Marina tocou a jóia que estava em seu pescoço, um colar que havia sido de sua mãe, presente de casamento da Rainha das fadas. Antes de morrer sua mãe a fizera jurar que jamais o retiraria. Apesar de fútil e vaidosa não poderia quebrar esta promessa.

— Eu creio que não poderei usar esta jóia. — Fez pausa. — Espero que não se ofenda, Senhora. — E entregou a caixa ao servo.

— Ora, que tolice! Se teme pela jóia, eu a guardo para você. — Fingiu avaliar o colar que a menina usava. — É um colar tão velho e fora de moda. Não se compara com este que estou lhe dando! — Ela estendeu a mão para tocar o colar e Marina se ergueu da cadeira e recuou.

— Ele não é velho! Foi de minha mãe e eu jamais hei de tirá-lo! Jamais! Por jóia nenhuma neste mundo ou qualquer outro! — Os olhos de Dominique faiscaram, mas ela respirou fundo, deveria ter contado com esse ataque repentino, afinal a enteada podia ser extremamente teimosa. Fez cara de ofendida e depois falou:

— Perdoe-me, eu só queria vê-la feliz. — Mudou de assunto. — Espero que me acompanhe no jantar alguns convidados chegarão ainda hoje. Recorda-se de sua prima Alda ela estará aqui. Tem mais ou menos sua idade e dizem que é extremamente culta.

— Me desculpe, eu fui rude. Eu adorei seu presente, não pense que não. Às vezes, me comporto como uma criança! — Desculpou-se Marina segurando a mão de Dominique e a beijando. A outra não disse nada, só acariciou sua cabeça loura e saiu. “Tenho total controle sobre ela, é uma questão de tempo!”

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Capítulo 1: Ecos do Passado (parte 3)

Você deve ter lido a parte anterior deste capítulo. Ele foi cortado para facilitar a leitura, e tem três partes ao todo. Agora, você está na terceira metade. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte 1, se deseja ler a parte dois, basta clicar.

XXX

— De Mülle, faz muito tempo, não é? — “Sim, desde a morte de...” De Sayers tentou saudá-lo a mesma naturalidade dos tempos de adolescente só que havia profunda ironia em sua voz, pois sabia e sentia que aquilo tudo era parte de um passado inalcançável, pois seus dois grandes amigos, Marc De Voleuil e Estevão De Brier, não estavam mais a seu lado. — Creio que se recorda de seu sobrinho, Alan. — O olhar do rapaz era tão terrível que seu tio teve que desviar os seus.

— Bom revê-lo, De Sayers. — Fez pausa e apertou a mão do outro, beijando-o na face. Alan, no entanto, recuou para evitar seu toque, tal qual faria com um animal repulsivo. — Sim, eu me lembro de meu sobrinho. — “Como esquecer de alguém que é a viva imagem de meu pai, aqui acusando minha covardia.” Porque Alan era muito parecido com o avô, os olhos, a forma do rosto e mesmo algumas expressões e o andar. — Vejo que fez dele um homem. Eu me congratulo com você. — Afastou-se um pouco. — Esta é minha filha, Alda. — Fez sinal para a moça que se aproximou. — Filha cumprimente o Conde e seu primo.

Alda cumprimentou o Conde sorrindo e com um meneio de cabeça, quando ia cumprimentar Alan, ele virou-lhe o rosto. Alda prontamente lhe dirigiu a palavra:

— Creio que não lhe fiz nada meu primo para que me virasse o rosto, pois não? — De Mülle e o Conde se entreolharam e o mal estar se instaurou. — Creio, Senhor Conde, que a descortesia de meu primo é, também, uma ofensa à sua pessoa. — O Conde viu que teria de dizer algo, mas foi Flora quem interrompeu.

— Peço que o desculpe, Senhora. É que Alan é muito tímido, creio que interpretou mal o seu ato. — “Pois, sim! Primeiro virou o rosto para meu pai, depois para mim! Por que?” Alda pensou irritada, mas o olhar de seu pai foi um sinal claro de que não deveria prosseguir com a discussão.

— Realmente, o descortês fui eu. Esta é minha sobrinha Flora. — “Sobrinha!? Mas como se De Sayers é filho único?”, De Mülle pensou surpreendido. O Conde fez uma pausa e virando-se para o Marquês. — Creio que podemos cavalgar juntos até o palácio, não é De Mülle.

— Sim... Pelos velhos tempos. — Fez pausa. — Alda junte-se a seu primo e à sobrinha do Conde. — Ordenou. — Será bom ter alguém de sua idade e posição para conversar.
Alda obedeceu a contragosto, afinal não gostara de seu primo nem um pouco. Lembrava-se vagamente de Estevão, irmão de Alan, mas ele era gentil e delicado com ela e seu pai. Flora se colocou entre um e outro e nenhum dos dois falou coisa alguma até que ela decidiu que deveria começar.

— Gosta de cavalos, Senhora Alda?

— Chame-me de Alda, por favor. — Ela estava decidida a ser gentil, já que a outra parecia sincera e tinha um ar modesto e franco. — Sim, temos muitos cavalos em casa, mas este é meu favorito.

— Ele é muito bonito, mas parece mais um cavalo de batalha. É muito incomum ver uma dama montando algo assim. — Na verdade, Flora via muito poucas damas e não tinha como julgar mas sentia-se na necessidade de entabular uma conversa sobre qualquer tópico.

— Não gosto de montar egüinhas dóceis ou cavalos castrados. Este aqui foi domado por mim, com a grande ajuda de Erik, meu amigo e escudeiro. — O rapaz assentiu com a cabeça, sempre em silêncio e um pouco afastado do grupo. — Seu cavalo é muito bonito, também... — Fez pausa. — Tive um como esses quando era criança. — Flora não se importou com o comentário, não era dada a valentias, assim, pouco importava se seu cavalo fosse o mais manso e dócil possível.

— Alan também domou seu próprio cavalo e ele monta muito bem. — Disse olhando para o rapaz e tentando estimulá-lo para que falasse.

— Mesmo!? Se montar tão bem quanto fala, está perdido. — Comentou com aparente desdém para fazer com que o outro dissesse alguma coisa.

— Para mim, “prima”, quem domou este cavalo que está montando foi esse seu escudeiro. Aliás, não acredito que seja capaz de domar um reles cachorrinho. — Falou olhando bem nos olhos da outra e ela se sentiu plenamente satisfeita. “Ele tem uma língua afiada, então?” — Deveria parar de contar bravatas e conversar sobre bordados ou outro tema feminino qualquer.

— Bordados?! Bem, para seu governo, bordo tão bem quanto monto. Acredito que seus talentos são bem mais limitados que os meus, obviamente. — Alfinetou, olhando bem nos olhos do outro.

— Quem você acha que é? — Alterou a voz e o Conde e o Marquês viraram-se para ver o que ocorria. — Com certeza, não seria capaz de me derrotar em uma corrida. — “Fala como um homem, mas duvido que seja capaz de agir como um.”, pensou irritado.

— Correr, aqui!? — Ela olhou em volta. — Estamos dentro do perímetro da cidade!? É uma loucura!

— Está com medo de perder, prima? — Debochou. — Temos pista livre pela frente, covarde!

Alda respirou fundo, sabia que era inadequado e que poderiam provocar um acidente, porém tinha certeza que poderia vencer aquele mal-educado e mostrar-lhe seu devido lugar, assim sendo... Como estava sentada atravessada na cela, como uma dama devia fazer, virou-se para que pudesse sentar-se a cavaleiro, com as pernas abertas, posição mais confortável, nessa manobra acabou descobrindo as pernas até a altura dos joelhos.

— Quando estiver pronto, “primo”! —Falou, imitando a entonação debochada do outro.

— Alan, não faça isso! Por favor! — Flora suplicou, mas o rapaz não deu ouvido.

Olhou para o escudeiro de Alda, mas o rapaz permanecia indiferente, como se nada de errado estivesse acontecendo.

— Agora!

— Alda, não... — O grito do Marquês foi inútil, pois saíram em tamanha carreira que ninguém poderia alcançá-los. — Erik, faça com que pare! — O pedido não tinha sentido pois o rapaz nada podia fazer e nem queria. Desejava ver Alda derrotar o insolente.

— Meu Deus! O que estes dois acham que estão fazendo? — O Conde preocupou-se.

Os dois avançavam emparelhados, subindo a alameda que ia dar no castelo, quem chegasse primeiro... No entanto, havia alguém subindo, também. Um cavaleiro vestido de negro, montado em um belíssimo cavalo, igualmente negro e semi-escondido pela névoa. Tão distraídos estavam os dois adolescentes e o cavaleiro, que Alan deu-lhe um violento encontrão e os dois caíram do cavalo, pondo fim à correria.

— Diabos! Quem... — O cavaleiro retirou o elmo exibindo seu rosto perfeito, o mais belo que Alda já vira e o mais aterrorizador, também. Seus olhos de um azul quase transparente mostravam uma frieza extrema. Ao ver o rapaz, o cavaleiro interrompeu a frase e ficou olhando para seu rosto por um instante. “É o filho de Elizabeth!” Respirou fundo e continuou, levantando-se e espanando o pó das roupas com altivez e vagar, como se nada mais lhe importasse. — Sabe quem sou eu, rapaz?

Alan estava absolutamente embaraçado e Alda desmontou e se aproximou, tentando parecer o mais segura possível, apesar da constrangedora situação em que estavam.

— Senhor, eu peço mil perdões. Eu... — Alan gaguejou de olhos baixos. Sentia-se um idiota. Deveria ter ouvido Flora.

— Eu vou providenciar para que seja punido como merece, imbecil! — A ameaça era preocupante.

— Senhor, perdoe-nos! Não foi intenção de meu primo atingi-lo. — Alda começou. — Na verdade, ele só estava correndo porque eu pedi que testássemos nossos cavalos. Como um cavalheiro, — Pigarreou. — ele não poderia negar-me este favor. A culpa foi toda minha. — Falou com sua voz mais doce. E Alan sentiu-se grato e, ao mesmo tempo, humilhado.

— Quem é você que fica promovendo corridas nas estradas reais? — Perguntou examinando Alda de alto a baixo notando, que apesar de estar totalmente descomposta, empoeirada e descabelada, suas belas roupas e seu porte altivo indicavam que se tratava de uma dama, embora não se comportasse como tal.

— Sou Alda, filha do Marquês De Mülle, Senhor. E o Senhor, quem é? — Alda perguntou, sabendo que salvo pela Casa Real, ninguém tinha origem mais nobre que a sua. Alan continuava lá plantado absolutamente rubro, desejando ser tragado pela terra. “Imprudência! Ainda vou morrer por causa disso!”

— Meus inimigos me chamam de Evilblood, Sir Richard Evilblood. Este é meu nome. — Disse lentamente, saboreando o efeito que seu nome iria causar no rapaz. Ao ouvir aquele nome, pronunciado com tanto orgulho, Alan ergueu a cabeça e seus olhares se encontraram finalmente. “Isso mesmo, De Brier, olhe bem nos olhos da morte, pois não terá uma segunda chance para fazê-lo de novo!” De rubro, Alan ficou lívido. — Quem é você, rapaz, para merecer tão extremada defesa? — Perguntou com ar debochado.

— Eu... Eu sou... — Os lábios do jovem estavam exangues e tremiam, o suor frio lhe descia pela testa. Alda espantou-se de vê-lo gaguejar de repente, contradizendo tudo o que vira dele até então. Só que não era de medo que gaguejava, era de raiva, pura e concentrada. Se ao menos tivesse uma espada! Antes que algo pior acontecesse, De Sayers e De Mülle chegaram esbaforidos.

— Sir Richard, ele é meu pupilo. Seu nome não importa, pagarei por qualquer ofensa que tenha praticado. — Falou De Sayers antes que Alan dissesse qualquer coisa.
— Algumas coisas, só o sangue pode pagar, caro Conde. Sabe muito bem. — Richard falou irônico e Alda lançou um olhar suplicante para seu pai.

— Evilblood, ele é pouco mais que uma criança. Compreendo que foram impertinentes, todos dois, — Deu ênfase às duas últimas palavras e lançou um olhar de desaprovação à filha querida. — mas peço sua complacência, Senhor. Nós dois somos responsáveis por eles e os puniremos de acordo com a sua falta. — Fez pausa. — Magnanimidade, Senhor, só os mais nobres podem demonstrar. — Seu olhar era suplicante agora. “Primeiro, Alan e, agora, este homem! Meus pecados vêm sobre mim impiedosamente!”

— Muito bem, Nobres Senhores, — Seu tom era de deboche de novo. — tenho uma entrevista com a Rainha e não posso me atrasar, por isso, esquecerei a ofensa por ora, mas tratem de mantê-los bem longe de mim. Acorrentados de preferência. — Falou com desprezo. “Ah, Deus! Diante deste homem e nada posso fazer! Dá-me outra chance para que faça justiça!” Alan suplicava em pensamento. “Por que todos têm medo deste homem? O que ele tem que pode por todos aterrorizados ao mesmo tempo? O que?”, Alda pensava, corroída pela curiosidade. — Com a sua licença, Senhores. Creio que nos veremos mais tarde. — Disse isso e montou imponente, afastando-se.

Capítulo 1: Ecos do Passado (parte 2)

Você deve ter lido a parte anterior deste capítulo. Ele foi cortado para facilitar a leitura, e tem três partes ao todo. Agora, você está na segunda metade. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte 1.


XXX

Alda, filha do Marquês de Mülle, costumava acompanhar seu pai em quase todas as viagens, mas em nenhuma delas havia visto tanta miséria quanto a que encontrara naquela visita à capital. Seu pai era um bom administrador, sabia disso, e orgulhava-se, pois seus domínios eram os mais prósperos do Reino, em suas terras não havia miséria nem opressão e a ordem se mantinha sem que fosse preciso o uso da violência, por isso, aquele espetáculo de desolação era chocante para ela. “Um verdadeiro senhor não deixa que seus homens vivam na miséria. Se existe fome, ele deve prover alimento. Mas este caso é ainda pior, pois são terras do Rei, os homens do Rei que estão agonizando e o Rei deveria ser um modelo de virtude para seus súditos. Se a terra adoece, diz a lenda, é porque o Rei está doente, ou o poder está corrompido!” Agora já desconfiava porque seu pai fazia o possível para se manter longe da Corte e jamais a levava quando porventura tinha que ir até lá... Só que agora como já uma moça seu pai não poderia mais mantê-la isolada do mundo da Corte, pois parte do seu futuro dependia das boas relações que deveria manter...

Louis de Mülle fizera o possível para manter sua filha longe da Corte e de seu passado, um passado que o envergonhava profundamente. Havia traído o irmão por inveja, provocando sua morte e a desgraça de algumas das pessoas que mais amava, sua cunhada, a única mulher que pôde chamar de amiga, e seu sobrinho querido, Estevão, que planejava ver casado com sua única filha. Terminara sem as terras do irmão e carregando um sentimento de culpa que havia transformado sua vida num fardo pesado demais. Nunca amara seu irmão mais velho, é bem verdade, nunca havia conseguido ser um bom cavaleiro como ele e por não demonstrar pendores para a vida eclesiástica, seu pai o considerava um estorvo, afinal, os De Brier não dividiam as suas terras. O primogênito sempre recebia tudo. É claro que possuía certas virtudes: fora considerado na juventude um dos homens mais cultos de seu tempo, graças ao empenho de sua mãe, além disso, tinha uma inteligência acima do normal e um discernimento político pouco comum em tão tenra idade e era belo e virtuoso. Mas, como não nascera para herdar o título de seus ancestrais, isso não valia de coisa alguma, teria mais serventia se tivesse nascido mulher ou seguido a carreira que lhe fora designada, como sempre repetia seu pai quando estava mal humorado, ou zangado com a esposa ou com um dos filhos. “Eu era sempre o alvo dos seus impropérios, mesmo quando não tinha sido o causador da tempestade...”, pensou com tristeza.

Durante a juventude, amara uma mulher de todo o seu coração, mas não fora suficientemente forte para lutar por ela, permitindo que ambos fossem separados e ela cruelmente usada para garantir o bom andamento da política real. A única coisa que pudera fazer era vestir luto desde a sua morte, o que parecia a todos algo sem explicação ou sinal de sofrimento pelo seu fracasso em ter um herdeiro. Ah, sim, fraco como era, terminara casado com a noiva que fora rejeitada pelo irmão mais velho, por imposição de sua mãe e para aplacar a ira de seu pai. Só assim conseguira escapar da pobreza absoluta, recebendo por indulgência, uma parte da herança de seu irmão rebelde. Por algum tempo tivera mesmo a vã esperança de herdar tudo, mas quando seu irmão voltara casado com uma princesa, com terras além do canal e um herdeiro a caminho, sua maré de sorte mudou e, não fosse por sua mãe, que o defendia sempre, mais para se opor ao marido que odiava do que por lhe dedicar qualquer afeição especial, teria perdido as poucas terras que recebera, ficando na mais absoluta miséria...

Para seu maior desespero, sua esposa-criança nunca conseguiu lhe dar um herdeiro homem, só uma sucessão de abortos e uma filha, de saúde tão delicada, que todos criam que sucumbiria ainda no berço. Uma única filha enquanto seu irmão tivera dois filhos homens e saudáveis! Mas exatamente por causa disso tivera a única chance de se mostrar forte, resistira às pressões para que repudiasse a esposa e decidira mostrar que poderia fazer com que sua filha fosse melhor do qualquer um. A morte prematura da esposa, lhe proporcionara maior liberdade para se dedicar àquilo que considerava sua única missão e, realmente, para seu grande e único orgulho, fizera um bom trabalho. Sua filha tornara-se uma dama, um cavaleiro, uma letrada e tão boa administradora quanto ele era. Só que ela havia chegado a uma idade onde se deveria pensar em um casamento e, embora desejasse mantê-la junto de si o maior tempo possível, teria que conseguir-lhe um noivo, só que temia que não houvesse ninguém à sua altura. Seria uma tarefa penosa conseguir alguém de nobreza eqüitativa, que não fosse herdeiro e fosse dócil ou compreensivo o suficiente para conviver com a mulher que havia moldado, pois como pai não poderia suportar que sua filha viesse a sofrer ou tivesse que se submeter a situações como as pelas quais ele mesmo passara. Também teria que vencer o ódio da antiga nobreza que o via como traidor e o desprezo da nova nobreza, que o considerava covarde. Mantivera-se fiel à Rainha, embora tentasse escapar de suas redes, mas só que agora ela exigira a presença de sua filha e ele temia que isso fosse o prelúdio de alguma tragédia. “Eu conheço as profecias...”

Estavam os dois perdidos em seus pensamentos quando avistaram a comitiva do Conde de Sayers. De Mülle temia o encontro, mas não poderia evitá-lo de forma alguma...

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domingo, 12 de dezembro de 2004

Resposta do Matt Thorn


Eis a resposta do Prof. Thorn. Primeiro é preciso entender que neste caso não existe consenso, como em tantos outros, mas que ele se posiciona e explica suas razões, que vão para além do "eu acho", "eu quero". Concordo, pois com o que ele diz, porque me parece satisfatório.
Dear Valéria,

Both Cowboy Bebop and Evangelion: Bride of Steel are manga that are based on anime. The original anime are definitely not "shoujo" (nor are they "shounen"), but these manga versions are done by women artists, and are probably geared mostly at female fans.

Asuka is a "shoujo manga" magazine, but it specializes in science fiction and fantasy that appeal to an "otaku" reader. Otaku (both male and female) are less concerned with gender boundaries than are most non-otaku, so many of the works published in Asuka appeal to male otaku, and many of the works seem rather "masculine" (at least when compared to such magazines as "Margaret," "Ribbon," or "Friend"). But all of the Asuka artists are women, and the perspective is a female one. For example, I think it can be said that the male characters in the manga version of Cowboy Bebop are depicted as objects of female desire.

Because both of the examples you offer are manga versions of otaku-oriented anime, it is hard to classify them strictly as "shoujo manga." On the other hand, since the artists are female, and they were published in a primarily female-oriented magazine, it is not wrong to classify them as shoujo.

I hope this makes sense.

Take care.
Yours,
Matt Thorn
Department of Comic Art
Kyoto Seika University
Japan
matt@matt-thorn.com
http://www.matt-thorn.com

Traduzindo:


Cara Valéria,

Tanto Cowboy Bebop quanto Evangelion Bride os Steel são mangás baseados em animes. Os originais definitivamente não são “shoujo” (nem tão pouco “shounen”), mas as versões mangá são feitas por artistas mulheres e, provavelmente, dirigidas principalmente à fãs do sexo feminino.

Asuka é uma revista de shoujo mangá, mas especializada em ficção científica e fantasia que tem apelo junto ao leitor otaku. Otaku (tanto do sexo feminino quanto do masculino) estão menos interessados nas fronteiras de gênero que a maioria do público não-otaku, assim, muitos trabalhos publicados na Asuka atraem os otakus do sexo masculino, e alguns dos trabalhos parecem um tanto masculinos (Pelo menos quando comparados com os de revistas como a Margaret, a Ribon, or a Friend). Mas todos os artistas da Asuka são mulheres, e a perspectiva é feminina. Por exemplo, Eu acredito que as personagens masculinas de Cowboy Bebop são representadas de maneira que representem o objeto de desejo feminino.

Exatamente porque ambos os exemplos que você ofereceu são versões de animes orientados ao público otaku, é difícil classificá-los estritamente como shoujo mangá. Por outro lado, a partir do momento que as artistas são mulheres, e que o material é publicado em uma revista orientada ao público feminino, não seria errado classificá-los como shoujo mangá.

Espero que faça sentido.
[Depois as despedidas de praxe]

Pergunta ao Matt Thorn


Enviei um e-mail ao Prof. Matt Thorn em 2004. Como estou citando na minha coluna, decidi publicar a pergunta e a resposta aqui:


Good morning!

I'm a reader of your articles and consider them a great source of reference, the best, in fact, if the subject is shoujo manga. I'm wrting to ask you a question: Is Asuka magazine a real shoujo manga magazine? I think it is but there are many voices that say it's some kind of mix. Of course, I think that people say that because public in general are not able to see shoujo beyond trivial romance. But some Asuka (I think there's more than one) was used to release Cowboy Bebop and Evangelion - Bride of Steel. Are they considered shoujo manga or not? I'd be very glad if you may answer my questions.

Valéria Fernandes
Brazil

Tradução:

Bom dia!

Sou leitora de seus artigos e os considero uma grande fonte de referência, na verdade, os melhores se o assunto é shoujo mangá. Estou escrevendo porque tenho uma pergunta: A revista Asuka é uma revista de shoujo mangá? Eu acredito que sim, mas existem muitas vozes que afirmam que se trata de uma revista mix. Claro, que eu acho que dizem isso porque boa parte do público acredita que shoujo se limita aos romances triviais. Só que uma das Asuka (acho que existe mais de uma) foi usada para lançar Cowboy Bebop e Evangelion Bride of Steel. Eles são considerados shoujo mangá ou não?

Ficarei grata se você puder responder as minhas perguntas.

Valéria Fernandes
Brasil

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Resenha do "Grande Livro dos Mangás" por uma Fã de Shoujo

Semana passada finalmente comprei o “Grande Livro dos Mangás” que havia sido lançado pela JBC há algum tempo. Ainda não havia chegado aqui em Brasília e, como não sabia se o conteúdo valia a pena, decidi folhear antes de comprar. Por coincidência, Kenshin Kaden chegou no mesmo lote, acabei optando pelo livro de Moliné que, na ocasião, me pareceu uma opção mais interessante. Depois, percebi também, que poderia servir de base para a próxima coluna.

Por que acrescentei “por uma fã de shoujo mangá” no título? Exatamente porque fiz uma leitura a partir de um ponto de vista, isso obviamente me fez perceber algumas coisas que um leitor ou leitora sem essa preocupação não iriam notar. Também devo ter perdido coisas, por desatenção ou desconhecimento, que um outro tipo de leitura poderia por em evidência. Enfim, nenhum leitor é neutro e cada um acaba mantendo uma relação muito específica e pessoal com os textos que lê.

Em primeiro lugar, acredito que fiz uma boa compra, precisamos de livros sobre mangá, livros que analisem o surgimento, o mercado, as segmentações, e que nos dêem como leitores uma visão para além do produto acabado e traduzido que chega às nossas prateleiras ou que baixamos na net. A aposta da JBC foi boa, pois a carência do nosso mercado é muito grande nesse sentido. Temos, claro, o livro da professora Luyten (Mangá – O poder dos quadrinhos japoneses, Editora Hedras, 2000), material de grande qualidade e muito útil, mas precisamos de mais. Nesse sentido, o livro de Moliné vem bem a calhar e na sua primeira parte (Por Dentro dos Mangás), que, na minha opinião, é o livro de verdade, tem um texto fluente, direto, jornalístico e quase sempre bem acabado.

Outro ponto positivo do livro lançado pela JBC é que ele é bem recente e foi adequado ao mercado brasileiro. O próprio autor escreve uma introdução para a edição brasileira e a Prof.ª Luyten faz a apresentação do livro. Por esses e outros cuidados, a edição brasileira ficou muito bem acabada, tendo, também, uma boa impressão, capa bonita, enfim, é um produto atraente. Além disso, o livro traz extensa bibliografia em inglês, francês, italiano, espanhol e português, abrindo caminho para quem deseja se informar mais ou mesmo iniciar pesquisas na área. Da bibliografia de Moliné, eu já li alguns livros, poucos, verdade, e é interessante perceber que mesmo citando Frederick Schodt em seu texto o autor depende menos do americano do que muitos outros que se aventuram a escrever sobre mangá. Para quem nunca ouviu falar dele, Frederick Schodt é um dos maiores especialistas em mangá e escreveu dois livros de referência sobre o assunto “Manga! Manga!”, do início dos anos 80, e “Dreamland in Japan – Writings on Modern Manga” de 1996. Ambos já deveriam ter edição brasileira e, espero que a JBC ou outra editora percebam isso o mais rápido possível.

De vantagem em relação aos livros de Schodt, se é que podemos dizer isso, o “Grande Livro dos mangás” tem a panorâmica sobre o mercado de mangá em várias partes do mundo. O primeiro livro de Schodt, “Manga! Manga!”, também faz isso, mas como é de 1983, muita coisa já mudou desde lá. No seu livro, Moliné fala da penetração do mangá na Europa (com ênfase na Espanha, claro, e na Itália), nos EUA, na América Latina, no Brasil, na Austrália e na Ásia. A parte referente à Ásia é pobre, principalmente porque é uma região de grande penetração dos quadrinhos japoneses, já a que fala da Europa é muito boa e traz informações novas (pelo menos para mim) e bem reveladoras. No caso do Brasil, minha única crítica seria a ausência da Animax entre as revistas que apareceram graças ao interesse em relação ao anime e mangá. O autor cita várias (Henshin – a JBC está publicando, oras, Herói, Anime-Do, etc) e omite exatamente aquela que foi a primeira especializada na questão e, dentro do seu gênero, a mais longeva. Enfim, me pergunto se o Peixoto já conseguiu desafetos até do outro lado do Atlântico...

Considero um dos pontos altos do livro a parte sobre os desenhistas estrangeiros no Japão e a possibilidade de se fazer mangá fora do seu país de origem. As informações que o autor traz não são muito animadoras e mostram que poucos desenhistas estrangeiros conseguem fazer mais do que uma publicação na terra do Sol Nascente. O autor não discute se é possível fazer mangá fora do Japão, mas fala dos desenhistas influenciados e termina apontando que, pelo menos em seu país, poucos conseguiram se firmar como profissionais. O que me faz apontar que não basta imitar o traço e as gags, é preciso criar seu próprio estilo e, mais do que isso, ter o que dizer ao público.

Antes de comentar a segunda (101 mangás de A à Z) e a terceira (101 autores de mangá de A à – quase – Z) parte do Livro, chegou a hora de fazer algumas críticas, fruto exatamente da minha leitura como fã – e pesquisadora diletante – de shoujo mangá. O autor não mostra particular preconceito em relação ao shoujo, aliás, muito ao contrário disso, usando inclusive vários exemplos tirados de alguns mangás femininos no decorrer do seu livro. O problema, eu diria, é que ele faz uma série de afirmações sem embasamento, e se resume a citar somente os shoujos que foram grandes sucessos comerciais de seu país. Um colega com quem eu comentei esse detalhe retrucou “Mas o que você queria?”, queria o mesmo tratamento dado aos shounen mangá, pois se ele cita mangás para o público masculino que nunca foram publicados na Europa, isto é, na Espanha, por que não fazer o mesmo com o shoujo?

Outro problema é quando o autor vai falar dos gêneros de mangá (p. 38-45), pois ele simplesmente inclui o shoujo mangá como um gênero, mas não o faz com o shounen ou o seinen mangá, por exemplo. Qual o problema disso? Primeiro, podemos encontrar shoujos de ficção científica, romance, colegial, histórico, policial, enfim, de todos os tipos possíveis. Mas como o autor diz que o shoujo é um gênero a parte (E por que? Não se explica.), ele termina por fazer afirmações do tipo “mangá de suspense com toques de shoujo mangá”. O que é isso? Não sei, ele também não se dispõe a explicar. Mais adequado seria dizer shoujo mangá de suspense. Ele também diz que há o gênero “esportivo”, mas existem mangás shoujo de esporte (Ace Wo Nerae, Hikari no Densetsu, Attack nº1, etc) que ele não cita nesta seção. Assim, parece que shoujo é um gênero que pode se misturar com vários outros, e não fica claro o que o shounen seria... ou, talvez, o shoujo esteja também sendo apresentado como um grande derivado do quadrinho masculino que se desgarrou em algum momento, o que efetivamente não é uma realidade.

Aliás, quando inicia a parte de shoujo enquanto gênero o autor afirma o seguinte "(...), com efeito, o shoujo possui peculiaridades gráficas e narrativas mais acentuadas que os outros tipos de mangá, o que o faz merecedor de um estudo à parte." (p. 40). Depois disto temos míseros quatro parágrafos para definir, explicar e aprofundar o que seria shoujo. Contraditório, para dizer o mínimo. Logo em seguida ainda afirma que o boom dos mangás de garotas mágicas foi nos anos 90, quando estas se fazem presentes desde os anos 60 com (acho que não seria exagero) centenas de séries lançadas e algumas de sucesso inegável como Mahou Tsukai Sally (que deu origem ao primeiro shoujo anime), Angel, Minky Momo, Fancy Lala, etc. Tudo bem que tem fã de Sailor Moon que até acha isso, mas um especialista em mangá não poderia cometer tal deslize. Na Itália, por exemplo, várias séries de mahou shoujo foram exibidas nos anos 80 e uma delas, pelo menos, Angel, circulou por toda a Latino América e Espanha.

O tópico “Erotismo” (p. 44-45) também é controverso e lá o autor diz o seguinte "De fato, as publicações de shoujo mangá com freqüência contém histórias do subgênero yaoi, que apresentam relações amorosas entre meninos (as adolescentes japonesas raramente saem com garotos de sua idade, é muito complexo mostrar uma relação entre uma menina e um menino num shoujo mangá, daí as histórias sobre relacionamentos entre meninos serem tão populares entre o público juvenil feminino) (...)" Não deve estar bem atualizado na sua leitura de shoujos, aliás, é a primeira vez que eu vejo alguém negando que o romance heterossexual seja um dos principais assuntos dos shoujo mangá, fora, claro, que este tipo de explicação para o yaoi também é muito, diria eu, peculiar. De onde saiu essa conclusão, como se chegou a ele? Nada, nem uma nota. Mas para quem quiser ler uma das boas discussões sobre o yaoi e sua função está disponível on line na página do antropólogo e professor americano
Matt Thorn,
este, sim, especializado em shoujo e melhor ainda, mesmo lecionando em uma universidade japonesa e tudo mais, ele se dispõe a responder as perguntas dos leitores.

Entrando na parte dois e três, eu acabei vendo a materialização deste desconhecimento –acredito que este é o problema, muito mais do que qualquer preconceito – nas listas feitas pelo autor. Na lista dos 101 mangás mais representativos, de acordo com o autor, somente treze (13) são shoujos. Destes treze, três da CLAMP (É fã, não tem como negar...), só que com X e Rayearth (!) não categorizados como shoujo mangá, assim poderíamos dizer que para o autor são somente 11 mangás femininos arrolados. Fushigi Yuugi também está entre os 13 e peço desculpa a quem gosta muito da série (eu mesma gosto), mas este quadrinho de Yuu Watase é somente um mangá mediano e ninguém ficaria defasado se não tivesse a chance de ler esta obra. Marmalade Boy, idem, mas pelo número de vezes que ele cita a série em seus exemplos, deve ser fã também. Assim, das treze séries são três mahou shoujo, talvez para ilustrar que o boom deste tipo de história foi realmente nos anos 90. De antes dos anos 90, somente A Rosa de Versalhes e Candy Candy (se ele não citasse talvez os fãs queimassem o livro em praça pública na Europa), além, claro, da Princesa e o Cavaleiro que sendo Tezuka figuraria em quase todas as listas que qualquer um pudesse fazer.

Moliné diz na introdução que para montar sua lista levou em consideração a qualidade estética, a popularidade que têm no Japão e/ou no Ocidente e a importância do autor. Depois pontua que selecionou obras que mesmo nunca tendo sido publicadas no Ocidente são fundamentais no seu país... (p. 13) de novo, faltaram os shoujo mangá. E o autor ainda se desculpa por não incluir mais mangás da CLAMP (Tokyo Babylon) e Ayashi no Ceres, que é da mesma autora de Fushigi Yuugi, na sua relação. De novo devo repetir que ele é muito fã. Para se ter uma idéia, Schodt faz um trabalho bem mais coerente em seu “Dreamland Japan”, pois faz uma lista muito menor (23 autores) e inclui proporcionalmente muito mais autoras de shoujo mangá (7) de sucesso no Japão, sem colocar nenhum trabalho de qualidade mediana ou esquecível em sua lista.

Quando vamos para os 101 autores mais representativos (para o autor e ele diz isso claramente na página 13) somente 17 autoras mulheres e, de novo, figuras como Yuu Watase entre elas, junto com gente do quilate de Ryoko Ikeda, Waki Yamato, Takemiya Keiko e Moto Hagio. Aliás, ele faz um elogio imenso às autoras dos anos 70 e só se dá ao trabalho de incluir A Rosa de Versalhes entre os 101 mangás mais representativos, esquecendo de obras que são lembradas até hoje no Japão como grandes marcos. Colocar na lista dos 101 mangás Fushigi Yuugi, 3 mangás da CLAMP e Zetsuai 1989 e não colocar NADA de Waki Yamato, Keiko Takemiya ou Moto Hagio é uma ofensa, não desconhecimento.

Devo fazer também uma crítica ao uso de alguns conceitos. O autor alterna as palavras estilo, tipo e gênero quase como sinônimos, sem precisar claramente em qual sentido está aplicando cada termo. Até comecei a refletir se shoujo e shounen não seriam estilos e não gêneros de mangá, mas não porque o autor tenha me estimulado. Também há o uso de subgênero e gênero alternadamente sem que o autor se defina e quando faz sua lista o autor também inclui outros gêneros que ele mesmo não havia listado na parte do livro que dedicou a questão. Assim, aparece o gênero “fantástico-romântico”, “family strips”, “magical girl”, “robótico”, “drama-didático” e por aí vai. Aliás, qualquer um destes podem se aplicar aos shoujos, enquanto que na categoria gênero nunca vem escrito shounen. Enfim, faltou definir bem as coisas. O mesmo vale para o gênero Antibelicismo (p.44), pois quando o autor fala da coletânea Combat (esmiuçada por Schodt em seu último livro) não deixa claro se fala de um mangá específico ou de uma lista telefônica.

Para concluir, digo que o livro também traz um minidicionário de mangá, algo muito útil, principalmente quando a gente se depara com algum termo japonês e não sabe o que é. Acho também que o título mais adequado ao livro seria “Grande Livro dos Mangás e Animes”, pois o autor não consegue (e quem consegue?) falar de mangá sem falar de anime. Aliás, o autor fala bastante de anime na primeira parte que é a parte substancial do livro.

Antes que alguém possa pensar que estou dizendo que não vale a pena comprar o livro, digo que muito pelo contrário, ele é, sim, muito interessante. Mais do que muita coisa que temos no mercado por aí. Como livro sobre mangá e anime ele é muito bom, apresentando problemas na sua parte sobre shoujo mangá. Mas só lembrando: o livro não é sobre shoujo mangá. Assim, a iniciativa da JBC é excelente e para que outras editoras se interessem por lançar material do tipo, precisamos prestigiar essas iniciativas. Só assim poderei esperar que um dia, a obra de Schodt seja publicada no Brasil, assim como outros livros sobre o mundo dos mangás e animes. (Talvez, e isso seja sonhar demais, até a dissertação de mestrado e a tese de doutorado da professora Yuko Fujino feita na USP, estes, sim, trabalhos sobre shoujo mangá.)

Publicado originalmente no site Anime6.