domingo, 13 de janeiro de 2013

Irene Adler é a grande injustiçada nas recentes adaptações de Sherlock Holmes



Já disse que as últimas adaptações de Sherlock Holmes para cinema e TV serviram para redimir Watson da imagem de gordinho, lento de raciocínio e desastrado que o cinema americano colou nele nos anos 1930 e trazê-lo para algo mais próximo da personagem nos livros de Conan Doyle. O mesmo não acontece com Irene Adler, que parece ser vítima do backlash cultural que vivemos no momento. Assim, “A Mulher” passou a ser meio ladra, meio agente de Moriarty, que tem como maior arma o seu corpo, usado para seduzir os homens, em especial, Sherlock Holmes, que cerebral em condições normais, parece se desmontar quando perto dela.

No início do mês a Luciana Darce me passou um excelente artigo intitulado “Why can’t any recent Sherlock Holmes adaptation get Irene Adler right?” (Por que nenhuma das recentes adaptações de Sherlock Holmes consegue entender Irene Adler da forma correta?) e eu fiquei de comentar aqui no blog. Até pensei em traduzir, mas faltou paciência... Enfim, se você gostou da Irene Adler dominatrix de Sherlock? Você gostou da Irene Adler na interpretação de Rachel McAdams? Pois é, mas nenhuma delas faz justiça nem ao famosos detetive, nem à cantora que ele chamava com deferência de “A Mulher”. O que o artigo enfatiza, eu tinha desenhado em minha crítica do A Scandal em Belgravia e, na época, gerou muita reclamação entre os fãs do detetive: Adler foi reduzida a capacho de Moriarty e alguém que usa o corpo (*leia-se o sexo*), como se fosse a principal arma de uma mulher. E daí, no arrasto, temos Holmes sendo seduzido por ela, como se o cerebral detetive fosse, no fim das contas, um sujeito reprimido sexualmente e Adler tivesse descoberto seu ponto fraco. Reafirma-se, também, o caráter daninho das mulheres...


Ninguém costuma lembrar muito de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, mas, na época em que li o livro, tive duas grandes críticas. A primeira é que se eu tivesse que escolher quem da dupla de Baker Street era o homossexual, eu apostaria em Holmes, não em Watson. Para você que não leu o livro, nem viu o filme, Watson é possuído pela Pomba Gira e o chefe do terreiro explica que isso só aconteceria com mulheres ou com homossexuais (*não nesses termos, obviamente, mas o livro não está aqui comigo*). Se formos ao cânon – que pode ser usado para inferir uma série de coisas – veremos Holmes dando várias bandeiras, a começar pela exclamação “Watson, você vai me trocar por uma mulher?!" em O Signo dos Quatro quando Watson comunica seu casamento com Mary Morstan. O segundo é que Holmes cai de amores por uma mulata absolutamente estereotipada, ressaltando aquelas “virtudes” vendidas como atrativo do Brasil para os turistas estrangeiros em busca de sexo nos trópicos. Lendo o livro, eu ficava pensando que se Holmes fosse se interessar por alguém – vejam bem SE – seria Chiquinha Gonzaga, a maestrina que é mostrada no livro como uma pessoa extremamente inteligente.

Voltando para Irene Adler, ela aparece no primeiro dos contos de Sherlock Holmes publicados por Conan Doyle e segue os romances Um Estudo em Vermelho e o Signo dos Quatro. Neste conto, datado de 1891, e que teria se passado em 1888. Nele, o rei da Bohemia procura Holmes para contratar seus serviços. Ele manteve um romance com uma cantora de ópera norte-americana, Irene Adler, e a mulher se apaixonou por ele. Só que um rei não poderia se casar com alguém como ela. De casamento marcado com uma princesa escandinava, o Rei da Bohemia, quer que Holmes consiga as cartas e um retrato que Adler tem com o rei e que prometeu usar para impedir a união. Holmes parte para a investigação disfarçado e munido de todos os preconceitos em relação às mulheres que costuma alimentar. Para ele, as mulheres são previsíveis, emocionais e fúteis.


Disfarçado, o detetive, acaba descobrindo que Irene Adler tem um noivo e até serve de testemunha de seu casamento. No dia seguinte, ou em um dos dias seguintes, Holmes consegue penetrar na casa de Adler por meio de um estratagema e um falso sinal de incêndio faz com que ela traia o lugar onde escondeu as cartas e o retrato. Para Holmes, em uma situação como essa, uma mulher sempre tenta proteger o que tem de maio valor. Se é mãe, protege os filhos, se não os tem, suas jóias. Só que na volta, alguém lhe diz “Boa noite, Mr. Holmes!”, quando ele estava para entrar em Baker Street. Era Irene Adler com roupas masculinas. Ao invadir a casa de Adler junto com o Rei e Watson, Holmes descobre que as cartas e a foto sumiram. No seu lugar, Adler deixou um bilhete dizendo que não irá utilizar o material, pois encontrou um homem melhor, muito melhor, e que os manterá consigo para sua segurança, além de uma foto sua com roupa de noite. O Rei suspira e lamenta que Adler não esteja no mesmo nível que ele e Holmes diz que ela está em um nível muito diferente realmente... Ao invés da recompensa que o rei lhe quer dar, Holmes pede o retrato.

A partir daí, Adler passa a ser “A Mulher”. O detetive não se torna menos desconfiado em relação às mulheres, sua misoginia vitoriana e baseada na ciência do século XIX, continua a nos discriminar, mas ele abre exceções. E Adler passa a ser o modelo, mulher em todos os sentidos (*bela, graciosa*), mas com um intelecto de homem. E é esse intelecto que seduz o detetive, porque mulheres bonitas ele encontra todos os dias... Adler não volta a aparecer, apesar do fascínio que exerce, mas é citada em quatro casos: Um Caso de Identidade, O Carbúnculo Azul, As Cinco Sementes de Laranja (*um dos meus favoritos*), e Seu Último Adeus. Holmes faz questão de enfatizar que não é invencível e que foi derrotado quatro vezes, uma delas por uma mulher. Agora, peguem essa Irene Adler, uma mulher que no início é mal julgada por Holmes por ser mulher, por sua profissão, e que lhe dá um baile, e a Adler que nos oferecem hoje.


Eu amo e odeio A Scandal in Belgravia. Amo, porque isoladamente tem cenas muito legais. Algumas absolutamente fanservice. ^___^ Odeio, porque ninguém parece levar a sério em Sherlock a capacidade de se disfarçar do detetive. Parece que não querem esconder o rosto lindinho do Benedict Cumberbatch. Entendo, pessoal, entendo, mas é ridículo do mesmo jeito. Odeio, porque no fim das contas a chantagem de Adler não tem função alguma na história a não ser colocar Sherlock e Irene juntos e termos cenas engraçadinhas no palácio. E odeio, pela Adler que nos oferece, a profissional do sexo (*eis a fonte de poder das mulheres, aprendam isso!*) e porque, assim como nos recentes filmes do cinema, ela é transformada em agente de Moriarty. Não sei quem colocou na cabeça que Moriarty precisa ser como um mega-vilão de quadrinho americano e que todo mundo tem que trabalhar para ele. Não se por qual motivo Adler se tornou uma mulher-gato (*ao estilo do novo filme de Batman*) do século XIX. E, claro, qual a profissão da mulher-gato? Aquela que se tornou quase canônica para muitos fãs? Prostituta. Mulher livre = prostituta. Aliás, mulher livre é algo muito relativo, porque, bem, afinal, Adler é criatura de Moriarty. De mulher inteligente e honrada, ela foi reduzida – e a reiteração é preocupante – a uma mulher que tem como sua grande arma a capacidade de seduzir.

Triste, e isso foi muito enfatizado na época em que saiu o episódio, que uma personagem feminina seja melhor apresentada em 1891 do que no século XXI. Eu fico para morrer, sim, porque percebo retrocesso até em relação às representações de Irene em livros, como o fraquíssimo Sherlock Holmes e Einstein - No Caso Dos Cientistas Assassinados, e o que se faz hoje. Nesse livro, Adler e Holmes se reencontram, são amantes, brigam feito cão e gato, além disso, Adler é feminista militante, assim, pintada de forma meio insana. Quando assisti A Scandal in Belgravia, peguei para ver, também (*obrigada, Anderson*) o episódio com Irene Adler da famosa série da Granada Television com Jeremy Brett (Sherlock Holmes) e David Burke (Dr. Watson). Mesmo sem reler o conto, coisa que já fiz várias vezes, ficou um gosto amargo na boca, porque, bem, Irene Adler era muito melhor no original, muito, muito mesmo. E olha que Conan Doyle e seu detetive não eram nada progressistas em relação às mulheres. Hoje, infelizmente, os roteiristas parecem ser ainda menos. Fora, claro, que não compreendem a personagem original, mas projetam nela as suas noções da função das mulheres na sociedade: ser reduzida ao seu corpo e usá-lo como arma, seduzir os homens e se submeter a algum deles, que vai usá-las e jogar fora, eis Moriarty aí para provar.


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21 pessoas comentaram:

Valéria, já ouví você se referir várias vezes a este "blacklash" em outros textos. Já entendí como sendo 'retrocesso', mas como vc o entende? Seria um movimento social conservador contempomrâneo? Poderia explicar melhor?

Sempre pensei em Sherlock como um assexual e acho que o problema com as adaptações de Irene vem, também, do fato de quererem a todo custo torná-lo um heterossexual e ela parece ser a única que já lhe despertou “interesse”, me pareceu essa também a única função da mulata em Xangô.

Andressa T., eu não sei se Holmes é assexual. Na verdade, nos originais nada é desenhado nesse aspecto. Holmes não se interessa por mulheres, desconfia delas, mas é sempre atencioso, daquela forma complacente e superior... Não da mesma forma complacente e superior que usa com os homens, que fique claro. Seu único elo afetivo forte é com Watson e daí podem ser tiradas toda uma série de suposições sobre a homossexualidade da personagem. Suposições.

Mas o fato é que ele fica deslumbrado por Adler. Esse encantamento, claro, é fruto de sua fascinação por uma mente superior, mas ele lhe dá a alcunha de "A Mulher" e guarda sua foto. Eu sempre imaginei que haveria grandes possibilidades para os dois em um novo encontro. Não fui a única.

Já no seriado, o subtexto homoerótico é muito forte. E a homossexualidade de Sherlock foi bem sugerida no primeiro episódio, quase na linha "sou gay, mas estou casado com meu trabalho". De qualquer forma,o problema em si não é Sherlock, mas as Irene Adler do século XXI.

Você pode falar um pouco da verdadeira Irene?

Comentei a Irene no original nos parágrafos 4 e 5. E você pode ler o conto Um Escândalo na Boêmia (AQUI). Só que não se trata de "a verdadeira" ou "a falsa" Irene, mas como a releitura da personagem feita nas duas versões mais bem sucedidas dos originais tornaram a personagem uma fantasia machista e pouco mais que isso. Conan Doyle foi mais igualitário.

Quando assisti Escandalo na Belgrávia e vi as acusações de que a produção seria sexista, eu não concordei.

Primeiro, no início do episódio eu fiquei perplexa com o fato de terem transformado a Irene numa dominatrix, mas ao fim do episódio me senti bastante satisfeita, pois achei o fato de ela ser uma dominatrix muito mais simbólico. Como fazer uma mulher surpreender Sherlock, já que ele não pode ter os mesmos pensamentos de um Sherlock do século passado.Como uma mulher poderia causar um impacto equivalente ao conto original? Acho que o objetivo foi cumprido.

Mas sim, a Irene é a personagem que mais perde...eu não costumo assitir a adaptações de Sherlock Holmes, por que nunca gostei delas, a série da BBC foi a primeira, mas tirando como base os filmes mais novos, aquela Irene simplesmente não existe, e até na série da BBC, a personagem é a que mais perde em relação ao original.

Muito bom seu texto, parabéns!

Hum, Valéria, não falando do texto mas do seu comentário ali em cima: o Sherlock nunca disse que era gay na série! O John perguntou isso, mas ele nunca admitiu nem negou. O homoerotismo não passa das piadas.

Lizzie, eu escrevi "sugerida". Cena da mesa do restaurante. Nunca nada fica claro, nem no cânon, nem nas adaptações. Exatamente por isso rende tanta falação. ;-)

Nossa! Me senti finalmente compreendida nas minhas reclamações sobre Irene em suas retratações modernas!
Não gostei de Irene no conto em que ela aparece (fangirl mode on), mas me identificava com ela (até por ela ser uma cantora lírica).
Mas essas adaptações fogem totalmente à Irene Adler que Sherlock Holmes reverenciou.
Ele não se envolveu de modo algum com ela, mas ele a admirou!
Essas atuais são apenas sexuais, mesmo sendo "espertinhas".
Não gostei!

Gente, adorei muito muito o texto e concordo com tudo! Pena que você não chegou na Irene de Elementary, eu queria muito saber sua opinião sobre ela.

Beijos ;*

Eu também adoraria de ver sua opinião sobre a Irene de Elementary... EU amei ela. Uma pista: não anda nua, não trabalha para MOriarty, nem usa decotes ou sua sexualidade. Ela é muito inteligente, tanto quanto Sherlock e ele a admira. Dá uma olhada, acho que você vai gostar :D

Só mais uma coisa: não achei Elementary machista e não tem tensão sexual entre ele e Watson

Qual o nome do episódio no qual Irene aparece em Elementary? Eu detestei o primeiro episódio, mas posso abrir uma exceção e assistir este em especial.

Todo personagem precisa de um novo viés conforme passam as épocas... uma releitura para torna-lo mais palatável aos olhos das audiências modernas.
O que ocorre com Irene é o mesmo que já vi ocorrer com vários outros personagens "das antigas"... ou você introduz uma dose de modernidade (correndo um sério risco de perder a essência do original) ou ele cai no limbo.

Aproveitando o gancho do assunto, alguém ficou satisfeito com o Moriarty do "Jogo de Sombras"? Eu, particularmente, me decepcionei... esperava bem mais do Napoleão do Crime, ainda mais depois da expectativa criada no primeiro filme.

Três holmes, três irenes, conto, drama e comédia. Não gosto de comparar o livro com o filme ou a série, acho que devem ser tratados separadamente.

Meu preferido e A Liga Ruiva.

Realmente a inteligencia de Irene do filme é bem diferente da Irene que voce descreveu.

Eu diria que foi perfeito, com exceção desse detalhe: "a começar pela exclamação “Watson, você vai me trocar por uma mulher?!" em O Signo dos Quatro quando Watson comunica seu casamento com Mary Morstan. "

Isso nunca aconteceu. Holmes simplesmente se recusa a parabenizar o Dr. Watson por ser "contrário" a emoções e sentimentos, em especial o amor.

Não vi ela seduzir Holmes em momento algum com o corpo, no máximo constranger com o impacto visual... Mas ela usou um disfarce que ele jamais pensou antes, e mostrou que poderia não mostrar nada mostrando apenas o corpo. Ele ficou realmente seduzido por ela por conta da inteligencia, e capacidade de iludido, ela foi um dos maiores enigmas que ele já teve desde o inicio da serie, e assim se tornou quase uma paixão. O vilão me parece agradável para o clima geral da serie, Moriarty se mostrou preparado pra tudo que poderia vir, muito além de Holmes, além de ter recursos muito além dos mensurados na serie... Lembrar que a diferença de formatos, e a velocidade de um enredo é muito importante pra manutenção de uma série. A personagem Irene se mostrou o maior desafio intelectual que Holmes já teve, vencido apenas por questões Hormonais (químicas), com o detalhe de tudo poder ser parte do jogo, colocando a mulher como capaz de ir além do homem em muitos pontos intelectuais.

Concordo, Irene Adler era uma personagem milhas a frente desta Irene de agora... Pra mim a inteligente dele ficou reduzida tanto q em ASIB Holmes precisa chamar a atenção dela pra q ela use sua inteligência, coisa q jamais seria necessário com a verdadeira Irene,enfim...Não gostei em quase nada da releitura dela e sim concordo q este novo Holmes não é lá mto bom com disfarces. Esse 1° EP da segunda temporada nos dá um relação de amor e ódio pq realmente tem cenas espetaculares mas repito... Forçaram a barra com essa Irene aí ponto

Eu quero uma dominatrix pra mim.

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