domingo, 10 de agosto de 2014

Comentando Helena do Studio Seasons



Quinta-feira recebi meu lindo exemplar de Helena, adaptação para quadrinhos do livro homônimo de Machado de Assis feito pelo Studio Seasons e publicado pela NewPop.  Ontem, devorei o volume tão esperado por dois anos e não me decepcionei.  A edição ficou realmente bem cuidada e o texto machadiano adaptado conseguiu casar muito bem com a arte de Simone Beatriz.  Acredito que é uma das melhores produções estilo mangá feitas no Brasil. Nos últimos anos, sem dúvida a melhor.

Para quem não conhece Helena, e eu li o livro em 1992 e só o revisitei agora, depois de ler o quadrinho, a história em linhas gerais é esta: publicado em 1876, Helena narra acontecimentos de vinte anos antes.  1850, morto o Conselheiro Vale, seu filho, Estácio, e sua irmã, Úrsula, descobrem que o velho tinha uma filha bastarda, que resolveu reconhecer oficialmente.  A moça, Helena, vem morar com eles.  Sua origem humilde e espúria termina eclipsada pela sua beleza, inteligência e bom caráter.  D. Úrsula passa a alimentar real afeição pela sobrinha, Estácio se sente cada vez mais ligado à irmã.    Só que Helena guarda segredos e representa uma ameaça aos planos do Dr. Camargo, amigo da família, de ver sua filha Eugênia casada com Estácio.


Helena é, talvez, o livro mais famoso da fase romântica de Machado de Assis.  Isto quer dizer, que ele é o mais citado e adaptado do início da carreira do autor que é celebrado por sua fase realista e romances como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.  Em Helena, no entanto, vemos algumas características da obra de Machado bem presentes, como o olhar agudo e crítico sobre os costumes de seu tempo, o sarcasmo, ainda que contido, e o total descomprometimento com a necessidade de um final feliz. O romantismo de Helena reside na construção das personagens, no desenrolar da trama, mas desde o início há certo cheiro de tragédia no ar.  E ela chega célere.

A edição em quadrinhos de Helena tem 256 páginas, mais do que a média dos volumes de mangá.  O preço, R$19,90 é justíssimo, pois arte, roteiro e apresentação do produto beiram a perfeição.  É possível perceber investidos nele todos os longos dias desses dois anos de espera.  Para quem acompanhou a produção por seguir as autoras nas redes sociais – Montserrat (roteiro) e Simone Beatriz (arte) – sabe da pesquisa profunda e dos cuidados que tiveram.  A parceria que começou com Zucker, rendeu o seu melhor fruto.


Adaptar uma obra literária não é transportá-la diretamente para outro formato, é necessário ajustes, mudanças, há espaço para criação.  Aliás, é imperativo que haja algo dos autores, ou tudo seria muito chato!  Como bem descreve a introdução do trabalho, cenas apenas recordadas no livro, ganharam corpo no quadrinho, diálogos supriram certas lacunas.  Não houve, e isso é raro, o uso do texto original como bengala em longos recordatórios.  Tudo é conduzido nos diálogos e pensamentos das personagens, sem recursos pobres.  Imagino o trabalhão que Montserrat teve para adaptar Machado de Assis, trazê-lo para outra mídia sem violentar o original.  E, sim, deu certo.  A leitura fluiu muito bem, foi prazerosa, rápida e me fez correr para rever o livro.

Eu sou defensora das adaptações, seja por elas mesmas, seja pelo seu potencial em atrair novos leitores para os originais.  Acredito que Helena do Studio Seasons possa levar alguns jovens ou não tão jovens leitores até a obra de Machado de Assis.  Talvez possa apagar até alguma experiência ruim que alguns deles tenha tido com as tais “leituras obrigatórias” da escola.  Ler deveria ser um ato libertador, lúdico, no entanto, é transformado pela prática escolar em mais um percurso para se chegar até a nota final ou para passar no vestibular.  Há quem consiga se divertir mesmo assim, eu conseguia, mas a maioria acaba se entediando e mesmo se afastando da literatura nacional.  Não é a regra, já conheci alunos e alunas do Colégio Militar de Brasília apaixonados por Dom Casmurro e só o eram porque alguma professora soube encantá-los, mas este não é o assunto desta resenha, sigamos!


No quesito arte, Helena é um deslumbre.  Sou fã do trabalho da Simone Beatriz e é sempre surpreendente ver o quanto ela consegue melhorar o que já é muito bom.  Imagino que seu modelo seja Kaoru Mori, pois, para mim, é impossível olhar a arte de Helena sem lembrar desta mangá-ka magnífica.  Sim, há influências de shoujo, especialmente, o shoujo clássico, mas acredito que o trabalho de Mori seja a referência mais forte em Helena.  A pesquisa dos figurinos e hábitos de época, a forma correta de retratá-los no papel, tudo está lá.  Alguns quadros são tão bonitos que eu bebia com os olhos e não queria virar a página... Sim, a leitura seria mais rápida se a arte não fosse tão sedutora.

E é preciso mesmo falar da arte, pois ela é deficiente em boa parte das adaptações de literatura para quadrinhos.  Ou é burocrática, quando o autor ou a autora tem qualidade, ou é ruim mesmo.  Eu raramente compro adaptações e não o faço geralmente por causa da arte. Conheço ompriginal, é a arte que preciasa me fisgar neste caso.  Não consigo ser complacente, preciso de fortes motivações para comprar um quadrinho, tenha ele a procedência que tiver.  Helena é uma obra de arte e como tal se afasta da média das adaptações nacionais e estrangeiras.  No entanto, há certa rigidez na arte que, em alguns momentos, parece muito posada.


Em Helena é possível pensar que esta rigidez é proposital, que ao colocar as figuras masculinas em poses pouco dinâmicas a autora queira mostrar uma sociedade patriarcal muito repressora.  Estácio é o chefe da família, sobre ele pesam as responsabilidades em relação as parentas e aos bens.  Já Helena, é contida, mas tem a leveza e a fluidez da adolescência.  É ela quem traz luz para a casa enlutada e mesmo em seus momentos de agonia é uma personagem dinâmica.  Eugênia, também, é leve, e cheia de movimento, talvez por estar embriagada de si mesma e ainda liberta das amarras que virão com o casamento.

Estou elucubrando, eu sei, mas gostaria de ver Simone Beatriz desenhando uma obra que exija quadros dinâmicos, cenas de ação arrojadas.  Será que posso sonhar com O Guarani?  Eu não ousaria pedir O Tempo e o Vento... Mas há O Gaúcho... Helena não exige nada disso, trata-se de uma obra marcada pelo controle dos sentimentos, as personagens são contidas pelos espaços, pelas roupas, pelas normas sociais.  E isso Simone Beatriz transmite muito bem.


De resto, preciso pontuar o único erro – será que é erro mesmo? – que encontrei na edição.  Trata-se de uma fala repetida de Estácio: “Aquele homem tem muito controle de suas emoções. Não demonstrou sequer um sinal, ao saber de onde eu vinha./É claro que sabe que sou irmão de Helena.” Não me parece que a personagem tenha pensado duas vezes a mesma coisa, mas não houve quebra no texto, que continua se conduzindo sem sobressaltos.  Foi um erro, não?  Espero que uma das autoras possa me responder...

É isso.  Ainda teria algumas ponderações, mas o texto já vai longo demais.  Vi, por exemplo, uma referência visual à Orgulho e Preconceito de 1995 na cena de Estácio em mangas de camisa na janela.  Será que estou imaginando coisas?  De resto, estão de parabéns todos os envolvidos, as artistas do Studio Seasons – Montserrat, Simone Beatriz e Sylvia Feer – e o Júnior Fonseca, que responde pela NewPop, pelos méritos do material que produziram e publicaram.  Troço para que abra caminhos para outras adaptações (*Senhora!  Senhora!  Senhora!*).  Desejo que a obra seja incluída no PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), pois seria um prêmio mais do que merecido.

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4 pessoas comentaram:

256 páginas..???? @_@
Deus, preciso comprar isso!
Valeu pela resenha Valéria!

Depois dessa resenha, me animei MUITO a comprar - já estava com vontade pois adoro Machado e a arte é linda -, você só ajudou a sedimentar a ideia. Obrigada! =)

Acompanho o blog tem eras, mas acabo não comentando então aproveitando, muito obrigada pela ajuda indireta em um trabalho da minha pós-graduação. O ShoujoCast sobre professores me ajudou bastante em um trabalho de metodologia.

Ainda não encontrei para comprar, mas com certeza eu levo assim que tiver em mãos.
Só queria saber se é possível obter aquela edição caprichada que o Gyabbo mostrou em vídeo. Parece maravilhosa aquela embalagem com selo.

Estou sonhando com as próximas adaptações do estúdio. Qualquer uma do José de Alencar já me deixaria nas nuvens!

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