segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Comentando Catching Fire, o Segundo filme da Série Jogos Vorazes



Sexta-feira passada consegui finalmente assistir Catching Fire (Em chamas), o segundo filme da trilogia – ou tetralogia, já que serão quatro filmes – de Jogos Vorazes.  Sim, demorei muito, mas meu último ano não foi fácil.  Aliás, eu, lá no final da minha gravidez, imaginei que o primeiro filme que assistiria no cinema depois do nascimento de Júlia seria este... Tsc... Tsc... Gostei do filme, ele poderia ter mantido algumas das cenas do livro, mas, no geral, foi uma boa continuação e um típico filme de transição; não tem começo; não tem final.  Conclusão?  Desaconselhável para quem não tem conhecimento prévio do que se trata a obra.

Catching Fire começa com Katniss (Jennifer Lawrence), como não poderia deixar de ser.  A moça está caçando, mas carrega as seqüelas da Arena, traumas de quem teve que matar outros seres humanos, deveria morrer, mas sobreviveu.  Ela e Gale (Liam Hemsworth) continuam caçando, mas o rapaz tem pouco tempo agora, já que está trabalhando nas minas.  O sentimento entre os dois está cada vez mais evidente, mas a farsa de que Katniss e Peeta (Josh Hutcherson) são um casal deve ser mantida.  O presidente de Panem (Donald Sutherland) em pessoa vem até o Distrito 12 ameaçar Katniss.  Durante o tour dos vencedores pelos distritos, ela precisa manter a farsa ou...


A viagem pelos diferentes distritos de Panem só deixa em evidência que há uma revolta em andamento.   Haymitch (Woody Harrelson), mentor de Katniss e Peeta, tenta proteger seus pupilos, reforçando que eles se mantenham a margem das manifestações e tentem mostrar a todos que estão apaixonados, mas é tudo em vão.  Os 75º jogos seriam um Quarter Quell, isto é, um evento especial comemorado a cada 25 anos.  Normalmente, a capital fazia questão nesses momentos de lembrar quão infrutífera foi a revolta dos Distritos.  Desta feita, os tributos seriam antigos vencedores.  Como o Distrito 13 só teve três, Haymitch, Katniss e Peeta.  O objetivo de Snow é evidente, matar Katniss.  Condenada à morte, a moça combina com Haymitch que iriam, pelo menos, tentar salvar Peeta.  

Gosto muito do segundo livro de Jogos Vorazes, tanto que fiz dois posts sobre ele aqui no blog, um sobre o mundo de Panem e outro sobre a história em si.  No geral, não me decepcionei com o filme.  A trama se desenvolveu bem, a apresentação das novas personagens – Finnick Odair (Sam Claflin), Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), Johanna Mason (Jena Malone), Beetee Latier (Jeffrey Wright), etc. – foi bem executada.  Aliás, o elenco novo conseguiu encarnar bem as personagens, ficaram ótimos, eu diria.  O que me deixou um pouco incomodada foi a dimensão que deram ao Plutarch, transformando-o em uma espécie de grilo falante do mal do Snow.  Sim, sim, tinham que aproveitar o Philip Seymour Hoffman, não se coloca um homem desses em um elenco para fazer figuração de luxo, mas, ainda assim, deram-lhe uma dimensão muito maquiavélica.  Os fins – a revolução – justificam os meios – uso do terror contra os civis, destruição em massa.


Falando dessa nova dimensão do Plutarch, uma das coisas que o filme pode acrescentar ao livro é fugir da narrativa em primeira pessoa.  Para quem não leu a trilogia, tudo, absolutamente tudo, é narrado por Katniss.  Por conta disso, ficamos nas sombras em relação a muita coisa.  Lá no último livro, por exemplo, é dito que Snow tem uma neta.  A menina aparece já neste filme dois.  Ela é fã de Katniss.  No caso de Plutarch, ele era o mestre do jogo e agia em nome da revolução sem que Snow, ou qualquer um, desconfiasse.  O filme o transforma em um manipulador capaz de qualquer coisa, não somente um homem adepto do espetáculo midiático, mas alguém capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos.  

Além dessa nova dimensão dada ao mestre do jogo, lamentei que algumas mudanças tenham sido feitas em relação ao livro.  Vejam bem, não estou pedindo fidelidade ou mera transcrição, simplesmente queria ver algumas questões apresentadas com mais clareza e uma ou duas mudanças realmente me desagradaram.  Senti falta do encontro de Katniss com as duas personagens que estavam fugindo para o Distrito 13.  A protagonista as encontrava na floresta e elas lançavam a dúvida sobre se o Distrito 13 tinha de fato sido destruído ou era mais uma das mentiras da Capital.  Outra coisa que as personagens fazem é colocar Katniss a par da revolta em alguns distritos e do significado do Mockinjay.  Isso se perdeu.  Também houve silêncio sobre os Avox, a condição deles nem sequer é mencionada, assim como o passado trágico de Haymitch... 


A cena em que Peeta e Katniss se beijam (*e quase mais que isso*) no trem é suprimida, em contrapartida, o filme dá muita ênfase a uma intimidade entre a moça e Gale, beijos e carícias inexistentes.  A tentativa é intensificar a idéia de que existe um triângulo e fazer com que a audiência torça por um ou por outro dos rapazes.  Quem é o mais gatinho?  Com quem a Katniss deve ficar?  Por favor... Katniss e Gale se beijam, sim, mas é um beijo só (*sem contar com o do Gale desmaiado...*) e isso rende-lhes problemas com Snow, mas o filme não deixa isso claro.  Outra coisa que ficou sem explicação, o filme três enta consertar, é verdade, mas deveria estar claro desde o começo, é o motivo de Katniss e Peeta estarem dividindo a cama.  Fica parecendo que faz parte da encenação e não era.  Katniss sofria com pesadelos, Peeta lhe dava suporte.  Não se diz nada sobre isso no filme dois.  

Por fim, a cena de Plutarch dançando com Katniss ficou longuíssima, mas a dica dada por ele de que ele era um aliado, foi omitida.  Tanto o relógio com o mockinjay, quanto a frase “tudo começa a meia noite”, foram cortadas.  Por qual motivo?  Imagino que para lançar a cortina de fumaça em torno da personalidade do mestre do jogo, já que ele apareceria várias vezes instigando Snow a praticar mil violências.  Foi uma escolha de roteiro, mas eu não gostei dela.  De novo, repito, filme e livro são coisas diferentes.  O filme precisou omitir muita coisa e modificar outras tantas, mas tudo são escolhas.  Algumas acertadas, como mostrar o que os livros não mostram, outras me pareceram derrapadas, como a cena da dança e o excesso de afeto entre Gale e Katniss.


O nível de violência do filme está aquém dos livros ainda que algumas cenas das revoltas, o suplício de Gale e de Cinna (*sinto saudades dele*) tenham sido bem fortes.  O figurino, aliás, é um dos pontos altos do filme, especialmente, os vestidos de Katniss.  O Caeser de Stanley Tucci também continua sendo um dos pontos altos do filme.  Ele dá ao apresentador fofoqueiro uma dignidade, apesar do caráter cômico, que é fantástica.  A Arena ocupou menos tempo do filme do que eu gostaria.  Queria mais de Finnick e da interação entre os tributos.  E queria mais Peeta, também.  Só que ficou claro desde o início que ele teria menos tempo em cena neste filme para que Gale tivesse mais espaço...

De resto, o filme cumpriu bem a Bechdel Rule com várias personagens femininas com nomes, que conversam entre si e falam de coisas diversas.  A Katniss de Jennifer Lawrence, apesar da melação com Gale, continua sendo uma personagem forte, inteligente, capaz e que passa para as meninas uma imagem positiva.  As outras mulheres da trama mostram que não existe um papel feminino único.  Cientistas, guerreiras, mães, mestres, capazes de expressar ternura ou raiva, elas jogam por terra aquela imagem monolítica de mulher, elas apontam para a pluralidade.  Eu amei a Mags, muito mesmo. :) Jogos Vorazes não é uma série brilhante, mas ninguém pode acusá-la, para além do óbvio de que Katniss deveria ser uma moça morena e de verdade, de não respeitar e celebrar a diversidade.  Trata-se de um filme feminista, assim como a série de livros.


Para concluir, e se tiver tempo a resenha do filme três virá amanhã, trata-se de um típico filme de transição, do tipo que só serve para quem ou conhece a história, ou viu o filme anterior.  Filmes de transição tendem a ser os melhores das adaptações, pelo menos é assim que eu vejo em outras séries, começando com O Império Contra-Ataca.   É isso.  Sinto-me feliz de poder resenhar um filme que desejava assistir fazia tanto tempo.  Este ano a parte de resenhas do blog vai ser fraquíssima, mas tenho fé que em 2015 tudo será melhor.

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